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terça-feira, 9 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28084: III Viagem a Timor-Leste: 2019 (Rui Chamusco /ASTIL) - Parte VIII: semana de 24 a 31 de março: do ensino da língua portuguesa ao barlaque



Timor-Leste > s/l > s/d > Familiares a negociarem o valor do "barlaque" | Foto: Josh Trindade. Fonte: Cortesia de Diligente, Dili, Timor-Leste (»*)

O pedido tradicional de casamemto é comum a muitos povos. Em Angola, chama-se "alambamento". Na Guiné-Bissau, não há um termo específico em crioulo, variando conforme os grupos etno-linguísticos. Mas em Bissau é conhecido como o "pidi noiva". (LG)


1. Continuação da publicação de excertos das crónicas da III Viagem (2019) (**), de Rui Chamusco a Timor-Leste.



1.1. O nosso amigo (e membro da Tabanca Grande), Rui Chamusco, professor de música reformado, a viver na Lourinhã, vai a Timor Leste todos os anos (exceto na pandemia), desde 2016. É o lider de uma associação de solidarieddae com Timor Leste (ASTIL), que já montou, equipou e pôs a funcionar uma escola nas montanahs de Liquiçá (Manatti / Boebau), a Escola de São Francisco de Assis (ESFA), e fez o "apadrinhamento" de crianças em idade escolar.

São 3 dias de viagem até Dili!... Fica lá 3 ou 4 meses... Ele já tem 80 anos e há dias fez uma operação delicada cirúrgica, de que está a recuperar bem... Temos publicado as suas crónicas anuais no nosso blogue.

Além da música, é o homem dos sete intrumentos (acordeão, viola, gaita de foles, violino, órgáo, etc.). Dá explicações de grego, latim e protiuguès. Faz a sua horta. E é especialista em micologia (a ciência dos cogumelos): sabe os cogumelos todos pelo seu nome científico... E atà data ainda náo comeu nenhum daqueles venenosos e mortais que deu direito a passaporte para a eternidade.

A sua história é inspiradora. É um exemplo vivo de como a solidariedade portuguesa com Timor-Leste continua a ser concreta, persistente e transformadora, mesmo décadas após a independência. Lendo as suas crónicas (que ele reuniu numa brochura em pdf, com cera de 3 centenas de páginas), aprende-se muito sobre a história, a cultura, a idiossincrasia dos nossos amigos timorenses.


1.2. Já aqui publicámos excertos das crónicas da I viagem (2016), II (2018) e VI (e última) (2025).

Depois meteu-se a pandemia, e o Rui só voltou a Timor Leste em 2023 (IV viagem), e anos seguintes: 2024 (V viagem) e 2025 (VI viagem).

Este ano talvez lá volte, mas apenas pelo Natal, se a saúde o permitir.

O Rui Chamusco, o "malae" (tuga), o "abô" (avô) Rui, é juntamente com a família luso-timorense Sobral (Gaspar e Glória, e também o "Eustáquio", irmão do Gaspar) um dos grandes pilares deste projeto de solidariedade com o povo timorense, que é a Esscola São Francisco de Assis.

É um exemplo vivo de amor à lusofonia e de solidariedade para com o povo de Timor-Leste, que merece ser conhecido pelos nossos leitores. Além disso, há aspetos da história, da geografia e da cultura timorenses que nos são totalmente desconhecidos.

Apesar da pandemia (e da "burocracia"...), o projeto da Escola São Francisco de Assis (ESFA), inauguradas em 19/3/2018, vai continhuar a avançar com a construção da "casa do professor" e a aquisição de uma viatura todo-o-terreno ("pick up"), indispensável para se chegar a Boebau, na montanha. Nestas crónicas de 2019, há referência a dificuldades e limitações que, felizmente, já foram superadas. Mas o encanto destas crónicas deve ser partilhado.
  

Rui Chamusco,  professor
de música, reformado, é cofundador e líder da ASTIL - Associação dos Amigos Solidários com Timor Leste: é ntaural ds Malcata, Sabugal; vive na Lourinhã; é membro da Tabanca Grande, tem 70 referèncias no blogue


III Viagem a Timor-Leste :  2019 (Rui Chamusco, ASTIL)

 
Parte VIII: semana de 24 a 31  de março:  do ensino da língua portuguesa ao barlaque






24.03.2019, domingo  - “ Cantando espalharei por toda a parte ... se a tanto me ajudar o engenho e a arte... - Os Lusíadas - ( Canto I-2ªestância / estrofe )


Se há algo que nos une e identifica pelo mundo é a nossa língua mãe. Esta é uma das razões que justificam o nosso envolvimento neste projeto de solidariedade em Timor Leste: ajudar e promover ações que motivem os timorenses, e particularmente as crianças a aprender e a falar a língua portuguesa, que até é a segunda língua oficial desta nação.

Por isso construimos a Escola São Francisco de Assis em Boebau; por isso criamos o programa de apadrinhamento de crianças e jovens; por isso ensaiamos todas as semanas canções portuguesas a um grupo de crianças que, sempre que solicitem, se desloca a restaurantes ou lugares públicos para actuação; por isso dou todos os dias explições (aulas) a crianças e jovens que demonstrem uma vontade expressa de aprenderem o português.

“ Cantando espalharei por toda a parte...se a tanto me ajudar o engenho e a arte...”
- Os Lusíadas - ( Canto I-2ªestância / estrofe )

Como professor aposentado, habilitado para o ensino da música e da língua
portuguesa, sou testemunha de que o engenho e a arte, neste caso a música, são meios privilegiados do ensino do português, ou de qualquer outra língua. Com efeito dá um prazer enorme ouvir estas crianças de Ailok Laran ou de Boebau Manati interpretarem um elenco de canções portuguesas, numa língua que lhes é estranha mas que muito desejam compreender e falar.

É desta gente ávida de aprender que eu gosto e tento ajudar, com a ajuda do acordeão ou da guitarra. Já vi alguns portugueses que, assistindo aos ensaios do grupo, não conseguiram conter as lágrimas de emoção. (Não é João Crisóstomo e José Ascenso?)

Já vi alunos e professores da universidade de Dili interromperem por diversas vezes a Adobe (minha afilhada) que interpretava a canção “Chuva”, no dia 5 de Maio, dia da língua portuguesa. Já vi as crianças da montanha cantando o hino da escola com toda a alma e coração. Já vi o entusiasmo de toda esta gente com que cantam e dançam “ Ó malhão, malhão!”

Sim, acredito que a arte, a música fazem milagres. Que, como Camões escreveu, cantando espalharei por toda a parte, mais concretamente por estas terras do extremo oriente, a musicalidade da nossa língua e a possibilidade destas crianças e jovens poderem aprender e desenvolver a língua portuguesa.

Que bom é ser português! Que bom é fazer tantos amigos através da língua que
falamos. Que bom é sentir o amor dos timorenses por um país que se chama Portugal.


26.03.2019, terça feira  - “ Eu só sei que nada sei...”


Esta nem ao diabo lembra.

Hoje à noite, ao jantar, enquanto saboreàvamos uma “pinguinha de vinho do Porto”, veio à baila o tema do álcool, mais propriamente dos vinhos: o sabor, o grau, as marcas, as diferentes qualidades de branco, tinto e rosé, e evidentemente o consumo.

Foi então que o Eustáquio nos revelou algo inimaginável para quem gosta mesmo de saborear um bom vinho, fruto das uvas e do trabalho do homem. Disse-nos que aqui, em Timor, mesmo não sendo uma terra produtora do néctar dos deuses, se consome muito álcool e há muitos bébados.

Como assim? Perguntamos nós. Ele então explicou:

- O timorense tem várias maneiras de se embriegar. Há quem beba o álcool simples; há o vinho da seiva de bananeira (sabo), uma espécie de aguardente, que misturam com cocacola e .......; há o vinho importado mas que é dificil de adquirir devido ao fraco poder de compra da maioria dos timorenses. Mas é raro beberem o vinho puro proveniente da fermentação do sumo das uvas. E aqui vem a revelação: ao álcool, ao vinho adicionam gasolina ou diluente para atingirem o mais rápido possível o efeito da bebedeira. São momentos de alienação e de curtição que parece agradar-lhes imenso. Até talvez quem sabe para esquecerem durante algumas horas os seus problemas e carências do dia a dia.

Seja como for, convenhamos que tal mistela pega fogo. E como o consumo exagerado de álcool é vício, nem quero pensar nas consequências físicas e psicológicas nestes corpos franzinos a que se sujeitam estes amigos de Baco. E, mesmo que seja uma questão cultural deste país, não me conformo a que nada se faça por esclarecer e emendar esta ementa tão perigosa. Que Deus nos valha!...

Mais ainda. O Amali contou que, quando apanham alguém bêbado, o que não deve
ser difícil de encontrar, fazem um menu todo estranho, e que consiste em fazerem
uma salada de tomate, cebola e outros ingredientes, que depois é recheada com
chinelos cortados aos bocadinhos. O desgraçado do bêbado, já não tendo a
clarividência do que está no prato, come tudo, inclusive os chinelos, pensando que
está comendo bocadinhos de carne. Isto já é malvadez e malandrice: gozar com quem não tem capacidade de discernimento. Que Deus lhes perdoe!...

26.03.2019 - Notícias aterradoras

Já não é a primeira vez que ouvimos falar disto. Um clima de violência fortuita
provocada por grupos de marginais, treinados em artes marciais ou outras técnicas de ataque, que espalham o terror nos bairros mais povoados e problemáticos da capital, Hudi Laran, Bairro Pité, Bidau, Comoro, etc... Ontem aconteceu em Ailok Laran, Um médico chinês foi assassinado, nem a polícia sabe por quem, e abandonado numa das estradas da localidade. Vingança? Ajuste de contas? Malvadez? Todas questões sem respostas que urge resolver para tranquilidade e sossego de todos nós.

A crueldade destes grupos de malfeitores é tão refinada que mortes já fizeram,
cortaram os corpos aos pedaços e foram deitá-los ao mar para alimento dos crocodilos que por aqui abundam.

O clima de terror está instalado. De tal modo que ninguém ousa sair à noite, e muito menos um malai (estrangeiro). Quanto menos se der nas vistas mellhor. Porque, de qualquer direção podem surgir os atacantes com setas, armas brancas (nelas incluindo as catanas), armas convencionais, ou até em confrontos corporais, lutas em que levam quase sempre a melhor devido aos cursos que frequentam em artes marciais.

O comandante das Forças Armadas, general Lere, já falou, em entrevista na GMN,
(uma das estações de Rádio e Televisão de Timor Leste) que se a polícia não resolver este problema da segurança das pessoas, as forças armadas encarregar-se-ão de o fazer. Mas até agora não se nota que algo tenha sido feito. E os factos assim o provam.

As consequências estão à vista. Para além da perda de vidas humanas e dos feridos
com marcas físicas e morais indeléveis, há países e governos que já reagiram a este
clima de medo e de terror. O governo chinês já anunciou de que iria retirar de Timor Leste todos os seus cidadãos.

Um grave problema que urge resolver para bem dos cidadãos estrangeiros e para bem de Timor Leste.

27.03.2019, quarta feira  - “Não é com vinagre que se caçam moscas...”

Mais uma vez eu servi de recurso para obter o que se pretendia: a assinatura e carimbo do pároco de Motael, padre Justino, num assento de batismo a fim de dar andamento ao pedido de nacionalidade portuguesa. Sou testemunha das voltas e voltas que é preciso dar para que isso se consiga. Os pedidos são muitos, e até há párocos que já colocaram à porta do cartório um letreiro dizendo: “Não tenho tempo para atender estes pedidos”. 

Em situação de desespero, porque o processo em Lisboa depende deste documento, foi-me pedido pela família para ir com o Amali falar com o pároco.

Não me fiz rogado, e depressa me aprontei para irmos de motor tentar obter o
almejado papel. Pedi para falar com o pároco, o que me foi logo concedido, com
muita simpatia de quem assiste os serviços do cartório paroquial. Passados três
minutos, o padre Justino vem até mim, e depois de um cumprimento de reverência
fomos para o seu gabinete de atendimento numa sala ali ao lado. Conversamos
durante bastante tempo (mais eu do que ele pois quis explicar-lhe os motivos da
minha estadia em Timor Leste), e já quase no final da conversa expliquei-lhe o que
pretendia. 

O padre Justino compreendeu perfeitamente o que estava em causa (falamos bastante dos documentos falsos que abundam nos processos timorenses e
que bloqueiam ou anulam o andamento dos mesmos) e, sem qualquer resistência,
perante a apresentação da fotografia do assento de batismo, ele me disse: “Sim, vou
assinar e carimbar.” 

Claro que fiquei contentíssimo que por minha intercessão se tenha obtido este precioso documento.

Um muito obrigado ao pároco de Motael fechou este nosso encontro, e uma alegria
enorme quando disse ao Amali: “Já está!”

Este episódio faz-nos pensar e perguntar: Quantos documentos não válidos serão
passados nos cartóríos paroquiais das igrejas de Timor que, por falta de
esclarecimento, de nada servem por os processos em causa? Quanto dinheiro (coisa rara para os bolsos de muitos timorenses) não se tem gasto inutilmente? Quem deve esclarecer esta situação, que se repete em muitos dos processos?

Em meu entender, a embaixada de Portugal e a igreja são os responsáveis de tal
situação. E por isso, devem proceder, quanto antes melhor, à resolução deste
roblema.

E já nem gostaria de falar de “advogados” e “solicitadores” oportunistas que, sem
saber o que fazem, estão extorquindo a economia que quem mal pode pagar os seus
serviços.

Moral deste caso: “Não é com vinagre que se apanham moscas...” mas com bons
modos, esclarecimentos e muita verdade.

29.02.2019, quinta feira  - Em defesa da Língua Portuguesa

É uma preocupação de todos, e particularmente aqui em Timor Leste, país que adoptou o português como segunda língua oficial. A responsabilidade é dos governos de Portugal e de Timor Leste, dizem uns. A tarefa é de todos dizem outros. O que é certo é que, apesar de todos os esforços feitos por quem sente este dever de promover e desenvolver a língua portuguesa em terras timorenses, a nível oficial e particular, os resultados não são muito visíveis. E se o trabalho de campo desenvolvido por escolas de referência como as escolas CAFE implantadas nas principais cidades do país, e a escola Rui Cinatti em Dili que são apoiadas pelo governo de Portugal têm tido um papel importante na promoção e defesa da nossa língua, a verdade é que não vemos na prática, na vida do dia a dia, os timorenses como falantes de português. Falam tetum ou bahasa (língua indonésia).

Mas então, depois de 17 anos de independência, o bahasa ainda se fala correntemente?

É isso mesmo: idosos, adultos, jovens e crianças compreendem e falam correntemente a língua indonésia. Como é que, com tanto esforço dos dois governos envolvidos e de instiutições particulares o português não é mais compreendido e falado?! Como é que a geração dos mais novos tem apetência e competência para a prática do bahasa?

Talvez que tenhamos de ser humildes e aprender com a estratégia dos indonésios. É que o governo indonésio, salvo as barbaridades dos militares ocupantes que reprimiam com prisão e até a morte os falantes de português, investiu numa rede escolar que cobre boa parte do território timorense; investiu no comércio local com a presença de cidadãos daquele país; investiu nos meios de comunicação social tais como operadoras telefónicas (as suas mensagens são em bahasa), e particularmente nos canais de televisão que, queiramos ou não, são o melhor meio de divulgação, porque junta o som e a imagem. Hoje, nos lares que têm televisão e em espaços públicos afins, a maior parte do tempo de antena é coberta com filmes, programas entretimento, noticiários, etc... em lingua bahasa.. Crianças e jovens, adultos e idosos aprendem sem muito esforço, de uma maneira lúdica, este idioma que os atrai.

Ora, sabendo nós da afeição que os timorenses têm pelos portugueses - eu sou
testemunha e sujeito desta afeição - e necessitando muitos timorenses de compreender e falarem a língua portuguesa por questões de emprego e de estatuto social, pergunto se não será possível o estado português investir mais na utilização destes meios de comunicação, sobretudo a televisão. É que aqui, por terras do extremo oriente, só se onsegue ver (apanhar) a RTPI, a Rádio Televisão Internacioal, e na maior parte das vezes em péssimas condições. Porque não investir em programas de entretimento, em filmes, nalgumas telenovelas, noticiários, programas desportivos, programas musicais (incluindo o folclore nacional)?...

Bem me parece que seria muito mais eficaz na consequção dos objetivos do que muitas das ações de várias instituições apoiadas pelo governo de Portugal. Claro que contando sempre com o precioso tarbalho que estas instituições têm desenvolvido.

Aqui fica a sugestão deste grão de areia que, também preocupado e empenhado no
ensino da língua portuguesa (mesmo que seja a cantar) vai tentando no dia a dia
motivar sobretudo as crianças, para compreenderem, a falar e a cantar, e a
expressarem-se na língua de Camões, o idioma de muitas nações irmãs - a CPLP
(Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa).

31.03.2019, sábado - Curta metragem: Ação!..

Esta manhã, foi um rodopio aqui em Ailok Laran. Todas as crianças apadrinhadas
(treze) foram convocadas para gravarem uma mensagem para as suas madrinhas 
ou padrinhos. Claro que tivemos de valer-nos das cábulas: folhas A4, onde préviamente escrevi o que cada um(a) tinha de dizer. Tempo de treino de leitura, correção, tentativas de gravação, olhares, gestos, cenários; pára, repete, agora, silêncio ... um sem fim de trabalhos que nos ocuparam toda esta manhã de domingo. Foi uma verdadeira aula de português, e creio que estas crianças não irão esquecer facilmente as suas mensagens. Aliás, cada uma guardou consigo a folha respetiva.

A seguir, é o envio das mensagens que, como eu não sou nenhum perito am novas
tecnologias, me ocupam parte importante do meu dia e noite de trabalho, A conta
gotas, lá vão sendo enviadas às madrinhas e aos padrinhos.

O feedback tem sido muito positivo, com mensagens de madrinhas e padrinhos a
manifestarem o seu regozijo por verem os seus afilhados a falarem em português.

E é assim que, com pequenas coisas, vamos lidando com esta grande tarefa de ensinar estas crianças a falar a língua de Camões.

31.03.2019 - “ barlak” (ou barlaque) e cultura timorense...

Hoje o Eustáquio foi fazer de negociador no “barlak” (já grafado como "barlaque") de um sobrinho. Quando chegou a casa, contou-nos como se tinha passado. Já não é a primeira vez que o Eustáquio faz este trabalho. As famílias dos noivos confiam nele porque, para além de ser um homem sensato, é um grande conhecedor e praticante da cultura e da tradição timorense.

Então, o que é o “barlak" (ou barlaque) ?

 O “barlak” é uma festa, uma cerimónia entre as famílias dos noivos em que o “manefon” (o homem que pede a mão da noiva passando assim a fazer parte desta família) e particularmente a sua família negoceia com a família da noiva “os dotes” para que se realize o casamento. 

“Os dotes” envolvem dinheiro e bens. Neste "barlak" foram 2.500 dólares em dinheiro que o pai do noivo tem de dar à família da noiva, sendo que 500 dólares para a compra de um “krau” (boi ou vaca) e tempêros; mais 15 caixas de cervejas, 10 caixas de coca cola e outras bebidas. 

A família da noiva (creio que duas irmãs) serão as cozinheiras. Oferecerá também um porco e uma saca de arroz de 30kg, que serão partilhados pelas famílias e pelo negociador que terá direito a mais ou menos 3kg do animal abatido. 

Uma semana antes do casamento reunir-se-ão de novo as famílias para fazerem o balanço de como estão as responsabilidades atribuídas, e para acertarem os pormenores da festa de casamento que será no próximo mês de Junho.

A par desta tradição cultural, está a preparação que os noivos fazem através de cursos e reuniões de preparação para o casamento que cada paróquia organiza. Estou a falar, claro está,  de casamentos católicos.(*)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, título: LG)

___________________

Notas do editor LG:




(...) “Ter muitas filhas é uma alegria para a família timorense, pois, no futuro, poderão trocá-las por dinheiro e animais. A mulher, quer queira quer não, tem de aceitar a decisão dos seus familiares sobre o preço do barlaque. Eu não quis ser vendida”

O “grito de Ipiranga” é de Martinha (nome fictício), uma das poucas mulheres que, numa sociedade fortemente patriarcal como a de Timor-Leste, levanta a voz para dizer “não”.

O barlaque é uma tradição que existe em Timor-Leste desde os tempos antigos. Este ritual acontece quando um homem e uma mulher decidem casar e têm de, em consequência de uma espécie de “obrigação cultural”, envolver as famílias de ambas as partes para negociar o matrimónio, o que normalmente envolve entrega de bens ou dinheiro aos familiares da noiva. (...) 

sábado, 28 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27864: Humor de caserna (253): O anedotário da Spinolândia (XXV): "Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem", disse em maio de 1968 Spínola, ao acabar de conhecer o Alpoim Calvão, o qual lhe retorquiu: "Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.



O cmdt Alpoim Calvão numa tira da banda desenhada “Operação Mar Verde”,
da autoria de A. Vassalo (ex-fur mil comando Vassalo Miranda,
nosso camarada da Guiné), uma edição da Caminhos Romanos, 2012.


1. Não sei sei se existiam "rivalidades" e "picardias" entre generais e almirantes das nossas Forças Armadas, no tempo da outra senhora... E,  se existiam, qual o seu fundamento sociológico e histórico...

Bom, em relação à cavalaria e à infantaria, percebe-se: uns andavam a cavalo e outros a pé, pelo menos já desde o tempo do senhor Dom Afonso Henriques... Mas não recuemos tantos séculos: com ou sem fundamento, já no meu tempo se dizia que as relações entre o Comandante-Chefe (general que vinha da arma de cavalaria) e o Comodoro (na altura o comandante da Defesa Marítima da Guiné era Lucianos Bastos, 1913-2017, embora também ele tivesse sido aluno do Colégio Militar) não eram as melhores (por causa Op Mar Verde, e do desempenho deo comandante Alpoim Calvão)...  

Diferenças de personalidade ?  Origens sociais ? Tiques de casta ? Não importa agora... O fenómeno é, de resto, universal (cada arma tem a sua escola, história, cultura, elite, etc.), e pode agravar-se em contexto de guerra.

De qualquer modo,  talvez  se entenda melhor,  hoje,  esta piada do comandante Alpoim Calvão (1937-2014) em relação ao general (na altura brigadeiro) António Spínola (1910-1996), quando em maio de 1968 se conheceram no aeroporto, apresentados por um amigo comum...


2. Reprodução, com a devida vénia, de um excerto (adaptado)  de uma entrevista de Alpoim Calvão ao jornal CM - Correio da Manhã, em que são referidos três homens que comandaram as NT no TO da Guiné e com quem o entrevistado trabalhou: Louro de Sousa, Arnaldo Schulz e António de Spínola. 

A entrevista foi conduzida pelo jornalista José Carlos Marques (que eu conheci na Guiné, em março de 2008, como enviado do CM ao Simpósio Internacional dfe Guileje) e foi publicada em 7/10/2012. 

Título e subtítulo: "O eterno guerreiro Herói da Guerra em África, Alpoim Calvão foi bombista do MDLP no Pós-25 de Abril. Conta em livro uma vida de batalhas"


(...) Pergunta o jornalista:

 − Quando conheceu António de Spínola?

 − Conheci o então brigadeiro António de Spínola, que era o comandante-chefe e governador da Guiné, logo no aeroporto. Foi-me apresentado por um amigo. Ele estava como sempre, impecável no seu monóculo e casaco aprumado. Não suava, era uma coisa formidável. Disse-me ele:

− Senhor Comandante, espero que nos vamos entender muito bem.

E eu respondi:

 Não sei se é possível, porque eu tenho três grandes defeitos: primeiro, sou oficial de marinha; segundo, não sou de cavalaria; e não sou do Colégio Militar’.

Ficou um silêncio de morte, que ele quebrou ao rir-se à gargalhada, acrescentou o Alpoim Calvão. E adiantou ao jornalista: 

 − Fui colocado a comandar o COP 3 a Norte, em Bigene. Tínhamos uma actividade de assaltos, operações, golpes de mão, patrulhas nos rios… Além dos fuzileiros,  tinha uma unidade do exército. Depois fiquei a chefiar as operações especiais no território.

 − Spínola alterou a estratégia da guerra. O que mudou? − nova pergunta  do jornalista. 

 − A guerra teve uma continuidade, mas Spínola tornou-se mais agressivo. Intensificou as operações, mas também o apoio às populações. No COP3 fartei-me de fazer casas que eram entregues aos nativos. As populações gostavam mesmo do Spínola. Ele aparecia de helicóptero, com o ajudante, fosse onde fosse. Tinha um certo carisma, aparecia com o monóculo, luvas, camuflados retocados pelo alfaiate, fazia figura. 

E Alpoim Calvão faz a comparação com outros dois comandantes-chefes que conhecera antes no CTIG:

 − Louro de Sousa era um bom oficial do Estado-Maior, mas não tinha jeito nenhum para comandar as tropas. Arnaldo Schulz era muito inteligente, mas levava as coisas com mais calma. Para Spínola, para a frente é que era o caminho. 

Com Schulz eu fazia operações no Sul da Guiné, em que entrava na Guiné-Conacri e ele chegou a suspender-me os movimentos para não criar problemas. Só pude realizar esse tipo de operações cinco anos depois, com o Spínola, que me deixava fazer tudo. (...)

(Seleção, revisão / fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27776: In Memoriam (572): João Gomes-Pedro (1939- 2026), ex-alf mil médico, BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68): "a guerra deu-me uma preparação brutal para a vida"

1. O prof doutor João Gomes-Pedro (foto ao lado, do Notícias Magazinbe, de 5/6/2017, da autoria de Jorge Simão)  morreu recentemente, no passado dia 16 do corrente, aos 86 anos.

É justo fazermos-lhe aqui uma pequena homenagem (*), por três ou quatro ou três razões:

 (i) é uma figura de referência da medicina, da saúde e do ensino em Portugal. 

(ii) teve um papel inovador no desenvolvimento da pediatria em Portugal;  

(iii) pelas suas mãos passaram muitos dos nossos filhos e netos;

(iv) mas o que poucos sabem é que também fez a guerra colonial, como jovem médico no BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68), o mesmo batalhão a que pertencia o dr. Adão Cruz, nosso grão-tabanqueiro, alf mil médico, CCAÇ 1547, Bigene, 1966/68) (*), mas também o Domingos Gonçalves, ex-alf mil, CCAÇ 1546.

A importância que a Guiné teve nas suas opções futuras foi destacada por ele em entrevista que deu ao Notícias Magazine  (que sai com o Jornal de Notícias e Diário de Notícias),  em 5 de junho de 2017 (**),  

A entrevista acaba por ser um retrato fascinante da sua vida e obra, sendo a experiência na guerra colonial (1966-1968), na região do Óio, algo que muito valorizou por ter moldado o seu percurso como homem,  pediatra e professor.

Também ele sentiu, como qualquer um de nós, ao desembarcar naquela terra verde-rubra, um choque térmico e emocional: "Não consigo ficar aqui nem umas horas". Também bebeu a água do Geba e do Cacheu ... Mas a saudade do filho recém-nascido (Tiago) e a responsabilidade familiar (especialmente para não desiludir a mãe) e a paixão pela carreira médica levaram-no a assumir a missão.

Notável foi o seu envolvimento com as populações: organizou consultas para crianças locais, inclusivamente aprendeu fula (algumas palavras e expressões em fula, imaginamos...),  para comunicar diretamente com as famílias (desconfiava que os tradutores não transmitiam tudo), e confessou que enfrentou epidemias de sarampo com mortalidade elevadíssima.

Trabalhou, em Farim, com escassez de medicamentos, instalações inadequadas e recursos limitados, co.o qualquer outro médico. De resto. Tinha-se licenciado em 1962.  A guerra ensinou-lhe a resiliência e a importância da empatia, lições que transportou para a pediatria: "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida" (sic).

A pediatria acabou por ser a sua paixão e  missão. Uma paixão que nasceu da relação com Jácome Delfim (seu padrinho de casamento) e do sogro, também ele pediatra. Mas foi a experiência na Guiné que solidificou o seu compromisso com os direitos da criança e a abordagem holística e humanista.

Seria ele quem viria a introduzir, nos anos 80, em Portugal, a consulta pré-natal de pediatria, defendendo que o vínculo entre pais e bebé começa ainda no útero. 

Foi pioneiro na abordagem centrada na família, inspirado por médico norte-americano  Berry Brazelton (1918-2018), e na valorização do comportamento e da afetividade, e não só da doença.   

Rompendo com séculos de preconceitos em relação às crianças, defendia que o bebé tem direito a uma consulta antes de nascer, pois já ouve, vê e distingue vozes no útero.

 O prof doutor João Gomes-Pedro usou os avanços da neurociência para validar cientificamente o que a intuição e Brazelton á lhe diziam: os bebés comunicam desde o nascimento.

Criou também uma "via verde" no consultório para adolescentes, onde podiam falar de tudo (namoros, cursos, dúvidas existenciais).

Enfim, deixa um legado importante: a Fundação Brazelton-Gomes Pedro, criada por ele e por Brazelton em 2010, que tem como missão formar profissionais em "Ciência do Bebé e da Família", defendendo que a felicidade da criança depende da confiança e competência dos pais.

Era um médico e um homem de primeira grandeza: sempre disponível, atendia chamadas a qualquer hora ("Doutor, parece que vai estar sol, acha que ponha um chapéu à menina logo de manhã?"). 

Para ele, a pediatria era "brincar com crianças" e descobrir quem é cada uma, para além dos sintomas.

Criticava o stress da sociedade moderna e os índices altos de separação divórcio em Portugal, alertando para o impacto negativo nas crianças do disfuncionamento familiar. Defendia a igualdade parental e a importância do afeto na construção da resiliência.

Mesmo após a jubilação como professor catedráti
co, e diretor do Departamento da Criança e da Família da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, continuava a trabalhar 10 horas por dia, e mantinha ligações afetivas com pessoas que acompanhava desde bebés (muitos já adultos, voltavam só para conversar).

É autor de diversas obras relevantes nas áreas da pediatria e neuropediatria.

Eis algumas frases que destacamos da sua entrevista de 2017 ao JN:
  • "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida."
  • "O pediatra tem de ser um detetive do comportamento, não só da doença."
  • "O grande objetivo é a felicidade da criança."
  • "Os pais são os grandes mestres da natureza do seu bebé."
Em suma, e como lição para os antigos combatentes, João Gomes-Pedro transformou o trauma da guerra numa força para humanizar a medicina.

 A Guiné ensinou-lhe que "a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas culturas" - lição que aplicou ao cuidar de cada criança como um universo único.

2. Eis alguns excertos dessa entrevista ao Notícias Magazine, em 2017 (*)

(...) JN - Quando acabou o curso, em 1965, estava prestes a ser pai. Com a paternidade, passou a olhar para a pediatria de outra perspetiva?

JGP - O nascimento de um filho, ainda por cima quando o pai não é suficientemente maduro – só tinha 23 anos – é um marco decisivo e mudou essencialmente a minha sensibilidade.

Pouco meses depois de ser pai, fui para a Guiné, para a guerra colonial. Lembro-me de aterrar, sair do avião, sentir o bafo de calor e pensar «não consigo ficar aqui nem umas horas».

No mato não havia nada, mas eu organizei uma consulta específica para crianças e fiz questão de aprender a falar fula, porque desconfiava que o enfermeiro-tradutor não relatava tudo o que os pais me contavam. A mortalidade era elevadíssima, em dois anos «apanhei» duas epidemias de sarampo.

A guerra, à qual pensei fugir, deu-me uma preparação brutal para a vida. Desde logo pelas saudades que tinha do meu filho Tiago, sempre presente nas minhas descobertas.

JN - Porque não fugiu?

JGP - A razão essencial foi a de saber do desgosto que causaria à minha mãe, com quem tinha uma relação muito forte. O não poder regressar a Portugal era um imperativo a par da responsabilidade de já ter uma família. Percebi também que seria o fim de uma carreira de médico em Portugal. Uma carreira sonhada. Por isso, decidi assumir a guerra.

A Guiné foi uma experiência importantíssima na minha vida. Percebi que a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas diferentes culturas. Foi um tempo em que estudei e aprendi muito com as populações e com os meus companheiros de batalhão.

JN - Na Guiné viveu seguramente momentos terríveis. 

JGP - Muitos. Surgiram-me, no posto clínico de Farim, três soldados com queimaduras extensíssimas, provocadas pela explosão de uma mina, que se agarraram a mim, a gritar de dor, chamando pelas suas mães, pedindo-me aos gritos que não os deixasse morrer.

JN - Pediatria, a carreira sonhada. Fale-me dos primeiros tempos dessa carreira. JGP - Tenho pensado nisso, agora que tenciono deixar a clínica, em 2018.

JGP - Lembro-me da minha primeira consulta privada. Vi a primeira criança, uma rapariga com 7 anos, numa clínica da Baixa, onde trabalhavam vários médicos à espera que alguém batesse à porta. Um dia, entrou uma senhora à procura de um pediatra. A miúda tinha umas manchas, talvez alergia. Vi-a mais uma ou duas vezes. 

Nessa altura, a pediatria ia apenas até aos 10 anos, mas não me importava. Passei a ver crianças muito mais velhas. A adolescência ganhou um capítulo essencial da pediatria que na altura não tinha. Foi em 1968, já vão lá 49 anos. O pediatra era um médico que aplicava apenas a metodologia clássica. (...)

(O resto desta entrevista é obrigatório ler, aqui, para se perceber a importância que este nosso camarada da Guiné  (, camarada, apesar da deferência com que tratávamos os alferes milicianos médicos.... ) teve na mudança de paradigma da pediatria em Portugal. Recomendo a sua leitura aos pais e avós... (Declaração de interesse: conheci-o pessoal mas circunstancialmente, há maais de vinte anos, na Faculdade de Medicina de Lisboa,  já era uma sumidade, mas eu não sabia que  tinha estado na Guiné.)

3. Segundo o  testemunho do nosso camarada Domingos Gonçalves (ex-alf mil  CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), o batalhão tinha três médicos, sendo João Gomes-Pedro um deles. 

"Como pessoa, apenas posso referir que era um homem excepcional."

(...) "Na altura, era ainda clínico geral, mas já se destacava pela sua competência e humanismo, mesmo em condições extremamente precárias. Apesar das dificuldades, ele e os outros os médicos do batalhão conseguiam 'fazer milagres' e davam assistência não só aos militares, mas também às populações civis locais." (...)

O Domingos Gonçalves testemunha que o João Gomes-Pedro organizou consultas específicas para crianças na Guiné.

Os outros dois médicos chamavam-se: um Carlos Alberto, e outro, Adão [Cruz, nosso grão-tabanqueiro].

(...) As condições em que trabalhavam eram precárias, quer no que respeita a instalações, quer no que respeita a medicamentos, ou outro material médico. Regra geral, mesmo não sendo santos, às vezes conseguiam fazer milagres. Num relatório sobre diversas matérias, o comandante do batalhão a que pertenci, queixava-se.

" No Serviço de Saúde há grandes atrasos na recepção dos medicamentos, e o não fornecimento de vários produtos requisitados, o que perturba o fornecimento da assistência, que é ainda prejudicada pelas deficientes instalações dos postos de saúde." (...)

Será que alguém mais se lembra dele ? O Domingos Gonçalves, sim. O dr. Adão Cruz também se deve lembrar do colega.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto: LG)
___________________

Notas do editor LG:

(**) Publicada originalmemnte no Notícias Magazine > João Gomes Pedro, o homem que revolucionou a pediatria em Portugal | Entrevista de Alexandra Tavares-Teles | Foto de Jorge Simão | 5 de junho, 2017 às 01:41

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27736: Os 50 anos da indepedência de Cabo Verde (21): os cubanos que o Amílcar Cabral (i) quis "esconder"; (ii) queria que fossem "escurinhos, como ele; e, mais difícil, (iii) que "não morressem nem se deixassem apanhar" como o Peralta - Parte I


Instituição: Fundação Mário Soares e Maria Barroso | Pasta: 05222.000.243 | Título: Fernando de Andrade com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e internacionalistas cubanosn| Assunto: Fernando de Andrade [irmão de Lucette de Andrade, esposa do Luís Cabral] com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e grupo de internacionalistas cubanos | Data: 1963 - 1973  |  Fundo: DAC - Documentos Amílcar Cabral | Tipo Documental: Fotografia.

(1963-1973), "Fernando de Andrade com um grupo de guerrilheiros do PAIGC e internacionalistas cubanos", Fundação Mário Soares / DAC - Documentos Amílcar Cabral, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_43457 (2026-2-14)


Guiné > Alegadamente Região do Boé  > 1968 > Amílcar Cabral revistando as suas tropas

Fotograma do filme "Madina Boe" (Cuba, 1968, 38'), do realizador José Massip (1926-2014), obtido a partir da função "print screening" do teclado do PC e da visualização de um resumo, em vídeo (28' 22'') , disponibilizado no You Tube, na conta "José Massip Isalgué". O documentário foi carregado no You Tube no dia da morte do cineasta (ocorrida em Havana, em 9/2/2014). 

O documentário chama-se "Amílcar Cabral" (e pode ser aqui visualizado) (Imagem reproduzida com a devida vénia).


1. O jornalista Júlio Montezinho publicou no "Expresso das Ilhas" (Praia, ilha de Santiago, Cabo Verde), edição nº 1260, de 21 de janeiro de 2026, um interessante  artigo sobre a participação dos cubanos, ao lado do PAIGC, na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde (*)... 

Não diz muito mais do que aquilo que a gente já aqui sabia. Por exemplo, não diz quanto cubanos passaram pelo território da Guiné (não terão chegado a meio  milhar),  nem quantos morreram ou foram gravemente feridos (menos de duas dezenas) (**).

Alguns de nós, pelo contrário, começaram a entrar na paranoia de ver cubanos por todo o lado. Às centenas, aos milhares, uma invasão (!) (**)... "Brancos, que só podiam ser cubanos"... Mas não, o Amílcar Cabral não queria "brancos", queria "escurinhos", como ele... Lá tinha as suas razões... Ele,  que nunca foi um grande "cobói", terá acolhido,  porventura um pouco a contragosto, a ajuda dos "bons escoteiros cubanos"... Afinal Cuba dava lições ao mundo em matérias como a guerra de guerrilha... E o PAIGC tinha que aprender com os mestres. 

Enfim, ainda há muitos "mitos" para desmontar. 

Em todo o caso, munca foram particularmemnte queridos os cubanos que, achávamos nós,  nada tinham a ver com aquela guerra (nem com aquela terra). "Dor de corno" ?!...Se calhar, mas alguns cubanos diziam tinham lá antepassados que foram escravizados.

 Bom, sorte, sorte, apesar de tudo, teve o "capitão Peralta" a quem os páras do BCP 12 salvaram a vida, depois de gravemente ferido numa emboscada (Op Jove, corredor de Guileje, em 18 e novembro de 1969). 

O Peralta que, não tendo morrido, acabou por ser uma peça fora do baralho, que veio estragar o arranjinho entre o Amílcar Cabral e o Fidel Castro... E estes dois, que depois se tornaram amigalhaços, lá tiveram que arranjar uma desculpa de mau pagador para a presença, no corredor de Guileje, a milhares de quilómetros de casa (mais de 7 mil), daquele "ovelha tresmalhada".

Afinal, éramos todos bons rapazes, mas o Amílcar Cabral nunca chegou a pagar em vida  os favores que devia aos cubanos, mandando por exemplo os "seus balantas" para Cuba, para ir cortar cana de açucar na altura dela... Amor com amor se paga, diz o provérbio popular português.

Enfim, tem algum interesse em sabermos, pelo menos, como  é que eles, os cubanos, 500 anos depois, voltaram à  Guiné à procura das suas origens... (Esse era um dos argumentos utilizados pelo Cabral para justificar a sua presença em África.)

Vamos fazer, em dois postes,  uma síntese e análise crítica do  artigo cujo original está disponível "on line", aqui: País: A outra face da luta na Guiné (I) - A presença cubana na Guiné-Bissau que o PAIGC quis esconder | Por Jorge Montezinho, | Expresso das Ilhas, 25 jan 2026 9:14


A. Síntese: o papel de Cuba na luta do PAIGC


(i) Contexto e motivações

  • Autonomia cubana: ao contrário de outros apoiantes do PAIGC (como a URSS, a China ou até a Suécia), Cuba terá agido por iniciativa própria, motivada pela visão de 'Che' Guevara  do "internacionalismo proletário" e da da "luta contra o imperialismo ", pelo empenho pessoal de Fidel Castro e pelo interesse estratégico de Cuba  na África subsaariana como "laboratório revolucionário". 
  • Os contactos com o PAIGC remontam a 1963, mas a "ajuda cubana" só se  materializou  após a viagem de Guevara à África em 1964-65.
  • Primeiros contactos: em agosto de 1963, o PAIGC pediu formação militar e política para cinco combatentes, em Cuba; não se sabe ao certo se houve resposta, nem se esses cinco militantes chegaram a ir a Cuba (quanto mais fosse para provar um "Mojito", um "Daiquiri" ou uma "Cuba Libre"...).
  • Foi preciso esperar ano e meio para que, a partir da reunião entre o 'Che' Guevara e o Amílcar Cabral, em 12 de janeiro de 1965, em Conacri, se desse o início da "cooperação efetiva"entre o PAIGC e Cuba.
  • Em janeiro de 1966, Cabral, que gostava muito de viajar,  foi pela primeira vez a Cuba (não é "á Cuba", no Baixo Alentejo), chefiando a delegação do PAIGG  na  Conferência Tricontinental em Havana.
  • Após aqueles intermináveis discursos panfletários do Fidel Cabral (supomos que o do Amílcar Cabral fosse mais curto e comedido, até  para compensar), o Cabral e Castro foram "tabaquear o caso", como dizem os alentejamos: lá tiveram uma conversa (longa, claro...), a que apenas assistiu o Oscar Oramas,  na altura um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores, mais tarde embaixador de Cuba em Conacri (, de resto, um homem afável, que eu irei conhecer, em Bissau, em março de 2008).  

(ii) A ajuda cubana: logística, militar e humana

  • Em maio de 1965, o navio "Uvero" levou a primeira remessa de ajuda cubana: armas (cerca de 60 caixas), alimentos e medicamentos a Conacri, cumprindo a promessa do 'Che' a Cabral.
  • Em 6 junho de 1966, chegam 31 "voluntários" cubanos, além de charutos, açúcar mascavado e outros mimos ( a revolução também se faz com estas coisas que fazem bem a alma).
  • Desses trinta e um, (i) onze eram especialistas em artilharia; (ii) oito motoristas; (iii) um mecânico; (iv) dez médicos (sete cirurgiões e três de clínica geral); e (v) um oficial de inteligência, o tenente Aurelio Ricard (Artemio), que era o líder do grupo.
  • Não sabemos (o jornalista cabo-verdiano não satisfaz a nossa curiosidade), quantos eram "brancos" e quantos eram "mais escurinhos", de acordo com as recomendações do Amílcar Cabral. A maior parte dos médicos seriam "brancos", mas quem sabe dessa parte é o Jorge Araújo, que é o nosso especialista em "internacionalistas cubanos":   teve, inclusive,  um duelo de morte, no Xime, com um deles  (já aqui contou essa história).
  • A missão mlitar cubana, sediada em Conacri (claro, não podia ser em Dacar, muito menos no Fiofioli...), reportava diretamente a Havana e era liderada por Víctor Dreke (veterano da guerrilha no Congo).
  • Além de formação de guerrilheiros, os cubanos passaram a participar em missões de combate e a fornecer apoio logístico e médico.
  • O grupo reportava diretamente à inteligência cubana em Havana, e em particular a Ulisses Estrada, chefe da Direcção 5 da DGI, que abrangia a África e a Ásia (um veterano, negro, da Sierra Maestra, que depois irá lutar ao lado de Domingos Ramos, no Leste da Guiné; estaria ao lado dele, segundo me confidenciou, em Bissau, em 2008, quando o Domingos Ramos foi mortalmente ferido em 11 de novembro de 1966, no ataque a Madina do Boé, ataque que redundou num enorme desaire para o PAIGC).
  • Apesar da ajuda, que foi bem vinda, Cabral  (que era pobre mas não era mal agradecido e sobretudo era inteligente)  fez questão de restringir o número de cubanos a 5 ou 6 dezenas de cada vez: tratava-se de preservar a autonomia do PAIGC, e não ferir o orgulho dos seus "cabra-matchu", como o 'Nino' Vieiria.
  • Aém disso, preferia "negros ou mulatos escuros para que se misturassem com o seu povo" (sic) (por favor, não venham agora acusar o Cabral de "racista": depois de morto, não se pode defender).
  • A presença cubana foi "mantida em segredo" (sic), a pedido do próprio PAIGC; em 1966 estava em curso uma grande operação contra Madina do Boé: foi adiada para 11 de novembro, no início da época seca; 350 combatentes do PAIGC atacaram o aquartelamento português com a intenção de dar cabo dos "tugas" e libertar  definitivamente o Boé; o PAIGC acabou por sofrer pesadas baixas; morreu o comandante Domingos Ramos (já aqui contámos como foi).
  • “A morte de Ramos foi um golpe duro”, lembrou um líder do PAIGC; issso levou Castro à acção; o líder cubano “sugeriu que fizessemos mais para ajudar”, recordou Oramas, “e Amílcar aceitou com grande prazer a nossa oferta de aumentar a ajuda”.
  • Castro convocou Dreke [Víctor Emilio Dreke Cruz, ex-comandante das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas] que, desde que regressara do Zaire, chefiava o departamento que treinava os cubanos que iam para as missões militares no exterior e os estrangeiros que vinham a Cuba. Fidel confiou a Dreke "o comando da missão militar na Guiné’”. Castro também insistiu para que Dreke levasse alguns dos homens que estiveram com Dreke no Zaire, “os melhores”.
  • "Em fevereiro de 1967, comunicados militares portugueses começaram a mencionar que conselheiros cubanos estavam a operar com os guerrilheiros, e um mês depois a CIA, que estava á  coca, escreveu que 'pelo menos 60 cubanos... treinavam o PAIGC' ", escreveu o autor do artigo, Júlio Montezinho.
  • "Em fevereiro de 1967, Dreke voou para Conacri com Pablito Mena (outro veterano do Zaire) e Reynaldo Batista. Dreke era um comandante, membro do Comité Central e um homem que conhecia África e a guerra de guerrilha"; além disso, inspirava enorme confiança e respeito, diz o jornalista cabo-verdiano.
  • "Aprendemos muito com Moya [nome de guerra de Dreke]”, disse Arafam Mané, um comandante do PAIGC (recordam-se ? o puto biafada que deitou fogo ao capim, em Tite, em 23 de janeiro de 1963.). “Moya foi um líder excepcional”, disse o ex-presidente da Guiné-Bissau, Nino Vieira, por sua vez.
  • Os cubanos, por seu turno, ficaram impressionados com o empenhamento e a disciplina do PAIGC. “Tivemos uma experiência realmente amarga no Zaire e encontrámos algo completamente diferente na Guiné-Bissau”, observou Dreke.


(iii) Impacto estratégico e simbólico
  • Formação e especialização: os cubanos foram "cruciais" no treino dos combatentes do PAIGC, em áreas-chave como artilharia, minagem e uso de armas sofisticadas (ex.: RPG ou bazucas, canhões sem recuo, morteiros, antiaéreas); a sua presença, por outro lado, elevou o moral dos combatentes do PAIGC, que viam neles aliados dispostos a partilhar sacrifícios ( incluindo o da própria vida).
  • "Com o passar do tempo, os combatentes do PAIGC assumiram o papel de artilheiros, mas os chefes de bateria — aqueles que faziam os cálculos e dirigiam os artilheiros — foram, até ao fim, quase sempre cubanos", escreve o jornalista do "Expresso das Ilhas". (Não sei se o Manecas Santos concorda com esta "boca".)
  • Adaptação à estratégia de Cabral: embora preferissem táticas mais agressivas, os "cabra-matchu" cubanos respeitaram a estratégia de desgaste de Cabral, evitando confrontos diretos com os "tugas" que pudessem causar baixas elevadas (e a ira dos irãs).
  • "O estilo de Amílcar Cabral 'não era necessariamente o nosso',  comentou Enrique Montero, que chefiou a Missão Militar Cubana em 1969-70. Embora Cabral mantivesse um controlo rígido sobre a estratégia militar, passava a maior parte do tempo fora do país, em Conacri ou a viajar à procura de apoio estrangeiro. Ora, as actividades diplomáticas de Cabral mantinham-no afastado da linha da frente. Cabral não dirigia pessoalmente as operações militares. “Isto preocupava-nos”, explicou Dreke. 'A nossa formação e a nossa experiência ensinaram-nos que o líder tinha de estar na linha da frente.' "(diz Julio Montezinho)
  • Cinema e propaganda: Cuba vai usar entao o  a arma do cinema (vd. o documentário "Madina de Boé", de José Massip) para construir a imagem de um Cabral como um verdadeiro comandante,  um "cabra-matchu", um  líder presente na  linha da frente de batalha, mesmo que apenas... para russo  e cubano ver ( com a censura, era impossível  o filme passar nos nossos ecrãs). Isso ajudou a legitimar o PAIGC perante críticas internas e externas.
  • "Os cubanos tentaram disfarçar o facto com cinema. Um ano depois do primeiro contingente militar cubano ter chegado à Guiné-Bissau, chegou a primeira equipa de cinema, liderada pelo realizador Jose Massip. Massip realizou o filme Madina de Boé. O filme destaca-se por ser um dos poucos filmes em torno da luta de libertação em que Amílcar Cabral está, aparentemente, presente nas zonas libertadas. Convivendo com a população e os militares, Cabral enverga uma farda militar, partilhando a iconografia de outros líderes revolucionários da época."
  • "O líder do PAIGC voltaria a ser filmado por Massip em 1971 e desta rodagem permanece um diário do realizador. Em "Los Dias del Kankouran", Massip desvenda que Cabral lhe pediu para ser filmado no 'matu', para contornar críticas de que era alvo: a de se estar a transformar num intelectual urbano, baseado em Conacri, que não se expunha aos riscos da luta armada. Porém, o 'matu' onde Cabral foi filmado não era nas zonas libertadas, como a narrativa fílmica deveria conduzir o espectador a “ver”, mas sim o aquartelamento militar cubano em Kandiafara, território da República da Guiné. O cinema cubano colaborou na construção de uma imagem de Cabral como chefe de guerra".

(iv) O  caso Peralta e o segredo cubano

  • Captura e negação: em 1969, o capitão cubano Pedro Rodríguez Peralta foi capturado pelos portugueses,
  • Cabral negou a sua participação militar, como lhe convinha, descrevendo-o como um "visitante" dos médicos cubanos; ou seja, o rapaz veio em viagem turística, mas sem passaporte nem visto dos "tugas".
  • Portugal (leia-se, o Governo de Marcelo Caetano) usou a captura para provar o envolvimento estrangeiro. Mas Cuba manteve o bico calado.
  • Libertação tardia: Peralta só foi libertado uns meses depois do 25 de Abril de 1974,  apesar de tentativas, goradas, de troca com um "espião" dos EUA;
  • O caso ilustra a política de negação do PAIGC e o respeito de Cuba por essa posição, que também lhe convinha.
(Continua)

(Pesquisa, condensação, fixação / revisão de texto, negritos: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Último poste da série > 3 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27698: Os 50 anos da independência de Cabo Verde (20): E se tivesse havido um referendo em 1975 ? (Adriano Miranda Lima, cor inf ref, mindelense, que bebeu a água do Madeiral, a viver na diáspora desde 1963, e atualmente em Tomar)

(**) Vd. poste de 13 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26041: A nossa guerra em números (26): Aceitemos, provisoriamente, o número (oficioso) de 437 "internacionalistas cubanos" que terão combatido ao lado do PAIGC, "de 1966 a 1975"

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27679: Foi há... (4): 85 anos, o ciclone de 15 de fevereiro de 1941 que deixou um rasto de morte e destruição por todo o país

















Fonte: Ilustração Portuguesa, nº 980, 6 de março de 1941. Cortesia de Hemeroteca Digital de Lisboa / CM Lisboa
 

1.  O ciclone de 1941 ficou na memória dos nossos pais. Tal como na nossa memória coletiva. As grandes catástrofes (naturais ou não), têm sempre um  efeito traumático: durante séculos, comparavam-se as mortandades à peste de Lisboa de 1569, ao tempo do rei Dom Sebastião, que terá matado c. de 60 mil, um 1/3 da população: "Não matou mais a Grande Peste de Lisboa".

Eu ainda não era nascido, o meu pai estava na tropa, no RI 5 (Caldas da Rainha) e seria mobilizado em junho para Cabo Verde. Mas falava-me, quando eu era puto,  das árvores de grande porte todas arrancadas pela raiz na estrada Lourinhã-Praia da Areia Branca  - Peniche, árvores que só conheci em postais antigos.

Salazar livrou-nos da guerra (um dos "mitos" criados e alimentados pela propaganda  do Estado Novo) mas não do ciclone de 15 de fevereiro de 1941, que fez mais de uma centena (quiçá, centenas) de vítimas mortais, provocou a queda de centenas de milhares de árvores, destelhou milhares e milhares de casas,  arrasou cais, pontes, pontões, portos, estaleiros, fábricas, casas, casebres, destruiu inúmeras embarcações ao longo da costa (uma tragédia em Setúbal), enfim, o Governo  pôs o recém-criado Subsecretariado de Estado da Assistência Social, que pertencia ao Ministério do Interior (!),  a presidir à Comissão Nacional de Socorros às Vítimas do Ciclone (criada por portaria de 5 de março desse ano).

Os prejuízos foram estimados em 1 milhão de contos, metade do ormento de Estado desse ano!

2. O ciclone de 15 de fevereiro de 1941 foi um dos fenómenos meteorológicos mais violentos e destrutivos da história recente de Portugal, talvez até dos últimos dois séculos, o séc. XIX e o séc. XX  (a par das cheias no distrito de Lisboa, na noite de 25 para 26 de novembro de 1967, que provocaram 700 vítimas mortais, uma tragédia que, em vão, Salazar quis esconder).

Dizem os especialistas que, diferente de um furacão tropical clássico, tratou-se de uma tempestade extratropical ("ciclogénese explosiva") que se formou no Atlântico: uma depressão intensificou-se rapidamente, gerando ventos extraordinariamente fortes em várias regiões do país, e varrendo o país de sudoeste para nordeste com ventos furiosos, chuva, marés de tempestade e queda dramática da pressão atmosférica.

Registos da época indicam ventos máximos de 127 km/h em Lisboa, até 150 km/h em Portimão,  e rajadas muito violentas noutras áreas. A pressão atmosférica chegou aos níveis mais baixos já medidos em Portugal na época (cerca de 962–975 hPa).

(i) Vitímas mortais

Estimam-se em cerca de 130 pessoas (há quem fale em muito mais, na ausência de um relatório oficial da tragédia que ficou por fazer), em diferentes circunstâncias: quedas de árvores, chaminés e outras estruturas, projeção de destroços, afogamentos em zonas ribeirinhas e marítimas, etc.. Houve mortes em transportes, estradas cortadas, pontes caídas, etc.
 
Houve ainda muitas centenas de feridos, e milhares de desalojados, segundo os jornais da época: veja-se, por exemplo, o Diário de Lisboa desses dias.


(ii) Danos materiais e em infraestruturas

Os efeitos materiais foram generalizados por todo o território continental, desde o Algarve até ao Minho, incluindo cidades (Lisboa, Porto, Setúbal, Coimbra, Aveiro, Braga, etc.), vilas e áreas rurais e costeiras (como Abrantes, Almada, Sesimbra, Sines).

Em zonas urbanas, caíram telhados, chaminés, muros, árvores e postes, afectando habitações, fábricas, instalações públicas e infraestruturas essenciais como caminhos-de-ferro, estradas e comunicações.

Nos sectores marítimos e piscatórios, partes dos portos e embarcações foram destruídas ou seriamente danificadas. Houve ainda naufrágios costeiros e inundação de zonas junto ao mar ou ao estuário do Sado.

A área florestal (incluindo parques e jardins) sofreu enormes perdas, com centenas de milhares de árvores derrubadas por todo o país (mais de 300 mil pinheiros só no Pinhal de Leiria).

As comunicações telegráficas e telefónicas foram interrompidas por dias em muitas zonas devido à queda de postes. A economia nacional foi seriamente afetada.

O ciclone não só interrompeu comunicações durante dias, como afetou a produção agrícola e a pesca, e deixou populações inteiras sem abrigo. 

A destruição de embarcações e infraestruturas portuárias teve um impacto duradouro nas comunidades costeiras,  especialmente nas regiões menos habituadas a fenómenos desta magnitude, como o sul do país (Alentejo e Algarve). A cpomunidade piscatória de Sesimbra foi particularmente afetada.

(iii) Custos financeiros

Cálculos contemporâneos estimaram os prejuízos totais em cerca de 1 milhão de contos em 1941, o que representava aproximadamente metade do orçamento de Estado dessa época.

Utilizando métodos de comparação económica e ajuste temporal, esse valor corresponderia (a preços de 2009) a cerca de 5 mil milhões de euros em prejuízos — uma quantia colossal para um único desastre natural naquele contexto. 

Há estimativas detalhadas, por exemplo: Lisboa sofreu mais de 200 000 contos de danos; Madeira cerca de 80 000 contos; Algarve 30 000 contos e o Porto 25 000 contos.

(iv) Contexto histórico e social

O ciclone ocorreu em plena Segunda Guerra Mundial, quando Portugal era um país neutro  (e corria o risco de ser invadido pelo Eixo ou até pelos Aliados), o que complicou tanto a recolha de informações como  a mobilização de ajuda externa.

 A população praticamente não teve aviso prévio, devido à intensidade dos ventos e â falta de um moderno  sistema de previsão metereológica. Por outro lado, há 85 anos a rede de comunicações ainbda era precária e não havia um verdadeiro serviço integrado de proteção civil.

Face aos brutais custos provocados pelo ciclone (económicos, sociais e humanos), a resposta do regime foi coordenada pelo Subsecretariado de Estado da Assistência Social, que presidiu à Comissão Nacional de Socorros às Vítimas do Ciclone. 

Esta comissão foi criada por iniciativa governamental com o objetivo de acudir às necessidades básicas das famílias sinistradas e às micro e pequenas empresas arruinadas pela catástrofe, especialmente no que dizia respeito à alimentação, de à recuperação de habitações e instrumentos de trabalho.

Para angariar fundos, o regime do Estado Novo lançou uma campanha de propaganda através da Emissora Nacional e de jornais como o Diário de Notícias.

 Esta foi uma das primeiras ações do então recém-criado Subsecretariado de Estado da Assistência Social como coordenador da política social do regime, marcando a sua atuação na gestão de crises e na assistência às populações afetadas. Era então Subsecretário de Estado o Trigo de Negreiros (um nome que está ligado à história da saúde em Portugal, com a reforma sanitária de 1945).

A resposta do Estado foi centralizada, com forte componente propagandística, e visou principalmente a mitigação dos efeitos humanos, familiares, sociais e económicos mais urgentes, refletindo a lógica assistencialista e corporativo-caritativa do regime da época. Os subsídios e pensões temporárias eram distribuídas pela  rede, decadente, de misericórdias locais.

Foram também tomadas medidas para controlar preços de materiais de reconstrução, indicando uma grande pressão económica sobre recursos escassos.

A ação do Estado foi mais focada na socorro imediato do que em medidas de longo prazo, estruturadas,  para prevenir ou minimizar futuros desastres semelhantes. Os danos foram  tão avultados que a recuperação total terá demorado meses, senão mesmo anos,  em algumas regiões. 

Por outro lado, o país estava a fazer um brutal esforço financeiro na modernização das suas forças armadas e no treino e mobilização de homens  para defesa dos territórios metropolitano e ultramarino.

Pesquisa: LG + Diversas fontes "on line" + ChatGPT/Open AI, Le Chat / Mistral, 

Condensação, revisão / fixação de texto: LG

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Nota do editor LG:

Último poste da série >  27 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27575: Foi há... (3): 100 anos: Natal de 1925 e a moda (francesa), na capa e contracapa de "O Domingo Ilustrado", um semanário "inócuo" que, cinco meses depois, estava a dar vivas aos carrascos da I República