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sábado, 6 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28075: Guiné-Bissau, hoje: factos e números (9): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte III


1. Na sua página do Facebook, Tita Pipoka (ativista e empreendedora social,a viver em Bissau,  e que tem mais de 200 mil seguidores!), esvreveu em 24 de março de 2026, 16:15:

Eu sou Tita Pipoka… filha da terra. Cresci numa família de agricultores, onde o som da campanha de caju não é apenas trabalho, é sobrevivência.

A castanha de caju representa cerca de 90% das exportações do país. Um saco de caju… por um saco de arroz. E assim passa mais um ano.

Mas será justo? Como é que um país que exporta quase toda a sua riqueza agrícola… continua dependente para se alimentar? Como é que quem produz tanto… vive com tão pouco?

A verdade é dura: o agricultor é a base de tudo… mas é quem menos ganha.

2. Recordemos aqui alguns dados económicos e fianneeiros respeotantes ao caju (ou castanha de caju) na Guiné-Bissau

É, reconhecidamente, e de há muito (há 30/40 anos) a principal riqueza da Guiné-Bissau E ttem um forte potencial de desenvolvimento. Com esceção do arquipélago dos Bijagós e demais ilhas,  o caju é produzido em todas as regiões do país, e muito em esepcial presente em todas as terras secas. 

  • Podução: c. 300 mil toneladas (2021) de castanha "in natura";
  • Área: c. 513,5 mil hectares;
  • Nº de produtores: mais de 650 mil (2,5% dos quais são mulheres);
  • Produtividade (baixa): entre 500 e 600 kg/ha. 
  • A grande maioria dos agricultores da Guiné-Bissau está envolvida e vive na produção de caju;
  • O país exportou um volume de 231 2 mil toneladas em 2021 e 235 mil  toneladas em 2022;
  • 14 unidades de processamento estão registadas em 2022, das quais 12 unidades estão operacionais para uma média de 20.000 toneladas de castanhas "in natura"  processadas, ou menos de 10% da produção;
  • constitui a maior fonte de receitas fiscais do Estado;
  • funciona como  principal motor da balança comercial e da entrada de divisas.
De acordo com dados da Agência Nacional do Caju da Guiné-Bissau, citados pelo Fórum para a Cooperação Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa (Macau) a produção (=200 mil toneladas, em 2022) repartiu-se assim pelas zonas do país:

  • Zona Norte (regiões de Biombo, Cacheu e Oio) > 54,6%
  • Zona Leste (regiões de Bafatá e Gabu) > 28,5%
  • Zona Sul (regiões de Quínara, Bolama e Tombali) > 16,9 %
Total= 100,0%

A Guiné-Bissau exporta praticamente toda a produção de caju em casca, por que não tem capacidade para o processar. O ano de 2022 foi favorável. O preço médio pago aos produtores  variou entre 450 e 600 Francos CFA por kg (1 EUR ≈ 655 FCFA em 2022; isso equivale a aproximadamente 0,69 a 0,92 EUR/kg).


(1) Impacto económico e financeiro: o caju representa:
  • 18% do PIB;
  • 90% das receitas de exportação;
  •  33% do rendimento familiar;
  • a  taxa de utilização das unidades instaladas no país gira em torno de 25%;
  • o preço ao produtor das nozes cruas está entre 375 e 500 farncos CFA/kg em 2022;
  •  o valor dos impostos de exportação é de 15 FCFA/kg para nozes cruas e 8 FCFA/kg para amêndoas.


(2)  
Já ouvimos  chamar ao caju, ou melhor, à castanha de caju, o "petróleo" ou
o "ouro branco" da Guiné-Bissau. É uma metáfora, que tem diferentes leituras. 

Toda a economia (cabeça, tronco e membros) depende um único corpo, que é produção e a comercialização deste produto. 

Poucos países do mundo dependem tanto de um único produto agrícola, que ainda por cima não fazia  propriamente parte da dieta tradicional dos guineenses.

Será o caju uma nova "semente do diabo", tal como a "mancarra", deixada pelos "tugas" antes de se irem embora ? Uma nova "maldição" ?


(3) Em termos sociais, estima-se que:

  • mais de 80% da população ativa rural esteja ligada direta ou indiretamente à fileira do caju;
  • e que cerca de  40% a 50%  das pessoas dependam dele para sobreviver, num país com pouco mais de dois milhões de habitantes.

(4) A campanha do caju é, na prática, “a estação económica” do país. 

Quando a campanha corre bem:
  • há mais circulação de dinheiro nos tabancas e mercados;
  • aumenta o comércio informal;
  • sobem as importações de arroz e bens de consumo;
  • o Estado respira melhor financeiramente.

Quando a campanha corre mal (c0mo vai acontecer provavelmente este ano): 
  • toda a economia guineense abana;
  • sendo isso devido sobretudo a factores exógenos,  portanto fora do contro dos produtores (como o caso das secas, chuvas fora de tempo, pragas, crise política ou queda do preço internacional) 

Há muito que o próprio Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial insistem na necessidade urgente de diversificação económica, precisamente por causa desta btrutal dependência extrema.

Há ainda um problema estrutural importante: a Guiné-Bissau exporta sobretudo castanha em bruto, praticamemnte sem qualquer transformação industrial local. 

Quem ganha com o negócio0mais dinheiro são os países que a processam (a Índia e o Vietname)   transformando-a em amêndoa de caju para exportação mundial. E, claro, os intermediários locais.

Ou seja: o camponês guineense produz a matéria-prima; mas o maior valor acrescentado, emprego industrial e lucro ficam fora do país.

É um velho problema de economia colonial ou neoextrativa: exportar produto bruto e importar quase tudo o resto.

(5) Apesar disso, o cajueiro tem uma importância "quase civilizacional"  na Guiné-Bissau contemporânea:

  • fixa populações no interior;
  • gera rendimento monetário onde há pouco emprego no sector formal;
  • permite pagar escola, arroz, roupa, medicamentos, telecomunicações;
  • e sustenta grande parte da economia informal das “bideras”, comerciantes e pequenos transportadores.

Curiosamente, o “falso fruto” do caju (a maçã de caju) continua subaproveitado. Há produção artesanal de vinho, sumos e aguardente (“cana de caju”), mas em escala reduzida. O "ouro" económico continua a ser a castanha com casca!

E há, de facto,  um paradoxo desconcertante, como diz a Tita Pipoka, troca-se caju por arroz... Até quando ? A 
Guiné-Bissau é um dos maiores produtores mundiais de castanha de caju "per capita"… mas continua entre os países mais pobres do mundo. E pior: depende dos outros para se alimnentar...

Isso mostra bem como produzir uma mercadoria  agrícola não basta para criar desenvolvimento sólido sem:
  • transformação industrial;
  • infraestruturas (incluindo rede rodoviária);
  • crédito;
  • apoio técnico;
  • estabilidade política;
  • e capacidade do Estado.

(Pesquisa: LG +   Fórum Macau +  ChaGPT / Open AI + Vibe / Mistral AI)
(Condensação, revisão/ fixação de texto, negritos, links, título: LG)

___________________

Nota do editor LG:

Último poste da série >  3 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28067: Guine-Bissau, hoje: factos e números (8): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte II

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28068: S(C)em comentários (89): O "ouro branco" do caju e a "Suiça Africana (Cherno Baldé / António Rosinha)





Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Textos: Cherno Baldé / António Rosinha
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Comentários ao poste P28066 (*):


1.1. Cherno Baldé:


O autor e editor do texto (LG) fala da produção do caju pós-colonial como se tratasse de uma visão e orientação económica bem construída e aplicada no terreno.  Não há nada mais errado.

A ideia apareceu na época colonial, provavelmente nos anos 40/50, a década da visão abrangente de longo prazo e de todas as obras de infraestruturas no território iniciadas com o consulado do Sarmento Rodrigues. 

A política da promoção do caju continuou ainda nos anos 60/70, sem conseguir, todavia, uma aceitação geral no seio da população, sobretudo no Leste do território, mas já dominava em largos espaços no litoral Oeste (Biombo), Norte (Bissorã) e algumas partes do Sul (Tite e Fulacunda).

O que aconteceu no pós-25A74 é uma completa desordem na economia. O PAIGC não tinha uma política económica definida, o regime do Luís Cabral, um grande sonhador e voluntarista, quis transformar um país recém-independente, agrário, desprovido de quadros técnicos e de especialistas e sem infraestruturas,  num país industrializado, com fábricas e numa aventura de substituição de importações.

Os camponeses,  que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados, o sistema produtivo, de fomento e captação vs distribuição através da rede de lojas e armazéns no mato em que se apoiavam, foi desmantelado na tentativa forçada de criação de uma nova rede controlada pelo Estado (Armazéns do Povo), o que desincentivou a produção do amendoim em larga escala. 

As famílias camponesas, desorientadas e sem apoio moral nem material, pegaram naquilo que podiam e/ou tinham em mão e, foi assim que, rapidamente, sem qualquer decisão superior, aconteceu a corrida ao caju como meio de salvação e substituto dos anteriores produtos de renda,  combinando-se com um período de forte procura desse produto no mercado internacional.

Como uma desgraça nunca vem só, então a facilidade da sua produção, aliada ao volume das receitas, acabou por conquistar a totalidade do território e familias,  e com isso levar ao abandono das outras culturas, inclusive alimentícias como os campos de arroz e milho. 


1.2. António Rosinha:


"Os camponeses, que eram o pilar da economia colonial, foram completamente ignorados", diz o Cherno.

Claro que para o PAIGC de Luís Cabral, bem como para todos os "portugueses" do Ultramar que formaram os movimentos nacionalistas nas diversas colónias, foram anos e anos a sonhar nas riquezas que "tínhamos debaixo dos pés".

A lavoura salazarista do azeitinho, da corticinha,  da sardinhinha... termos que atiravam à cara dos transmontanos, beirões, minhotos, algarvios e madeirenses,  não era para eles.

Isso do óleo de palma, amendoim, caju...isso não era para eles.

O Luís Cabral e seus irmãos das outras colónias sonhavam mais alto. Luís Cabral queria industrializar, mesmo depois dele ainda ficou aquela de que a Guiné ia ser a "Suíça africana",

Só mesmo os barcos da Sogeral (CUF) com tripulação cabo-verdiana, gastava gasóleo para se desviar da rota de Luanda e subir o Geba até Bissau para levar uns tantos barris de vinho e aproveitava e carregava uns tantos tambores de chabéu para as suas fábricas de sabão do Barreiro.

Sem CUF e sem cabo-verdeanos não havia ânimo para uma segunda Guiné. (**).

quarta-feira, 3 de junho de 2026 às 00:14:00 WEST

(Revisão / fixação de texto, título: LG)
________________


terça-feira, 2 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28066: Guiné-Bissau, hoje: factos e números (7): caju, a nova "semente do diabo" ? - Parte I

Castanha de caju:  a nova "semente do diabo" ?

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. O cunhado do nosso camarada Beja Santos, o professor Dragomir Knapic (1925-2006), especialista em geografia económica,  terá sido um dos primeiros a antever,  em 1964, a  importância da fileira do caju no desenvolvimento agroindustrial da então Guiné Portuguesa (Guiné-Bissau, a partir de 1974, quando Portuga reconheceu a independência).

É um pequeno trecho, premonitório, de uma "sebenta" sobre a geografia económica da Guiné. Merece ser lido e comentado (*):



Fonte: Excerto, pág. 28, de Dragomir Knapic (1925 - 2006) - "Geografia económica de Portugal : Guiné". (Lisboa : Instituto Comercial de Lisboa, 1966, 44 pp., brochura policopiada). (Sublinhados a vermelho, nossos).


2. Em 1964 haveria penas umas escassas centenas hectares de cajueiros plantados na antiga colónia portuguesa da Guiné, segundo o citado autor. A castanha de caju não era exportada nem tinha interesse industrial na época.  (E muito menos os subprodutos do cajueiro.) Era ainda uma cultura marginal.

O grande ciclo económico colonial assentava sobretudo no amendoim ("mancarra" ou a "semente dio diabo", como lhe chamavamos fulas) (**), no coconote (copra), no óleo de palma, em alguma madeira e em produtos alimentares para consumo interno  (arroz, milho, fundo, jeijão, mandioca, batata doce, inhame,  banana e outros frutos tropicais).

Entre 1960 e 1965, exportou-se em média (segundo os números recolhidos por Dragomir Knapic):
  • Amendoim > 31,4 mil toneladas | 107,8 mil contos  | 3,4 contos por tonelada
  • Coconote > 11,9 mil toneladas | 31,2 mil contos |  2,6 contos por tonelada
  • Óleo de palma > 87,7 toneladas  (1960/63) | 381  contos | 4,3 contos por tonelada
Em contrapartida, a Guiné, que era autossuficiente em arroz, antes da guerra,  exportou em média, de 1956 a 1969, 1,4 mil toneladas, ao preço de 3 contos por tonelada. Com a guerra, passou a importar arroz: 8,9 mil t em 1962: 11,8 mil em 1963; 29,9 em 1964. (Não sabemos a que preço.).

Observ. - Em 1965, um conto (=1000 escudos) seria equivalente a menos de 500 euros a  pre 

3.  O caju existia, mas quase como árvore dispersa, de quintal ("ponta") ou de sombra (na "tabanca"). Tal como a papaia, a banana, o abacaxi, o coco, a manga, a cola, a laranja...  

Qual seria então a produção de caju ? Quantos hectares, quantas toneladas ? E hoje ? Quem teve responsabilidade política na decisão de fazer caju para exportação ? É uma perigosa monocultura... não acautela a segurança alimentar da população guineense.

Não se encontrou um recenseamento agrícola colonial suficientemente rigoroso para dizer quantos hectares havia exatamente em 1964. Mas há alguns indicadores.

Segundo séries estatísticas da FAO, a produção de castanha de caju na Guiné-Bissau rondava apenas as 2  mil toneladas em 1961.

Um estudo histórico refere que as primeiras exportações documentadas ocorreram em 1966, e que nesse período o caju ocupava apenas o quarto lugar entre os produtos exportados, muito atrás do amendoim e do coconote. Em 1970 as exportações eram ainda da ordem das 1,2 mil  toneladas.

Portanto, para 1964, a ordem de grandeza plausível será:

  • poucos milhares de hectares (talvez 2 mil  a 5 mil  ha, mas esta estimativa deve ser tomada com muita prudência);
  • produção anual na casa das 2 a 3 mil  toneladas de castanha;
  • praticamente nenhuma indústria local;
  • peso económico insignificante quando comparado com o amendoim.

Hoje estamos noutra galáxia. A produção recente oscila entre 120 mil  e 200 mil  toneladas anuais, conforme os anos e as campanhas. Em 2024, por exemplo, foram reportadas cerca de 178 mil  toneladas, das quais 163 mil  toneladas exportadas.


A área plantada é frequentemente estimada entre 200 mil  e 250 mil  hectares, embora os números variem conforme as fontes e os critérios utilizados. O país tornou-se um dos maiores produtores africanos e o caju representa cerca de 90% das exportações



"Mancarra"

Fonte: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


Comparen-se estes números com os da "mancarra" (em 1964):

  • era o principal produto de exportação da Guiné;
  • representava 76% do total (em 1965, um pouco menos: 61%);
  • área cultivada: 100 mil hectares (=25% do total);
  • produção: c. 65 mil toneladas;
  • rendimento médio: 0,65 toneladas por hectare;
  • regiões de maior produção:  Farim, Bafatá e Gabu.

3. Quem tomou a decisão política?

A questão é interessante porque não houve propriamente uma decisão única nem há um "pai do caju".

A expansão começou ainda no final do período colonial, quando a quebra da produção moçambicana abriu espaço no mercado internacional.

Mas a verdadeira transformação ocorreu após a independência.

Os governos do PAIGC, desde a década de 1970, favoreceram a plantação do cajueiro porque:

  • era uma cultura resistente;
  • exigia pouco investimento;
  • dava rendimento monetário rápido às famílias rurais;
  • permitia obter divisas num país com escassas exportações.

Durante os anos 1980 e sobretudo 1990, com os programas de ajustamento estrutural apoiados pelo FMI e Banco Mundial, o modelo consolidou-se: a Guiné-Bissau passou a exportar castanha em bruto, principalmente para a Índia e mais tarde para o Vietname.

Ou seja, a responsabilidade política é repartida entre:

  • os últimos anos da administração colonial, que reintroduziram o produto nos circuitos comerciais;
  • os governos do PAIGC pós-independência;
  • as instituições financeiras internacionais (Banco Mundial,  FMI) que incentivaram culturas de exportação.

4. Pergunta o leitor: foi um erro?

Não há um resposta  simples. O caju trouxe benefícios reais:

  • rendimento monetário para centenas de milhares de famílias;
  • entrada de divisas;
  • integração de regiões rurais na economia de mercado.

Mas os custos também são evidentes (ambientais, sociais, económicos, alimentares, etc.). Diversos estudos alertam para o avanço dos cajueiros sobre antigas áreas agrícolas e florestais e para a dependência excessiva de uma única cultura de exportação.

O problema maior não  seria tanto o cajueiro em si, mas  o facto de ele ter passado a dominar o sistema agrícola.

Quando o agricultor troca arroz, milho, sorgo, mandioca ou hortas por cajueiros, fica dependente de vender castanha para depois comprar alimentos. 

Se o preço internacional cai ou se a campanha corre mal, a segurança alimentar deteriora-se rapidamente.

A Guiné-Bissau vive hoje uma espécie de paradoxo:

  • exporta quase duas centenas de milhares de toneladas de castanha;
  • mas continua a importar arroz em grandes quantidades.

Há algo de estruturalmente frágil nisto: o país passou de uma dependência colonial do amendoim ("mancarra")  para uma dependência pós-colonial do caju. Mudou o produto, mas não desapareceu a lógica de especialização excessiva.

O desafio seria transformar o caju numa componente importante da economia, sem deixar que ele substitua as culturas alimentares tradicionais nem destrua os sistemas agroflorestais que durante séculos garantiram a subsistência das tabancas. 

Essa é hoje uma das grandes questões económicas e ecológicas da Guiné-Bissau.

(Pesquisa: LG + Knapic (1964) + IA (ChatGPT / Open AI)
(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos: LG)

(Continua)

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Notas do editor LG:

(**) Vd. poste de 7 de abril de 2019 > Guine 61/74 - P19654: (Ex)citações (352): O amendoim ('mancarra'), a semente do Diabo ('Iblissa', em fula) (Luís Graça / Cherno Baldé)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27587: Documentos (49): Brochura "Missão na Guiné", da autoria do Estado Maior do Exército. 3ª ed. (Lisboa, SPEME, 1971, 78 pp.) - Parte VI: Aspeto humano (cont): saúde e instrução pública; religiões: imprensa e rádio... Aspeto económico: agricultura e florestas; pecuária e pescas; recursos de origem mineral: energia: vias de comunicação... Mais de 300 km de estradas alfaltadas (pp. 51-65)


No princípio da década de 1970, já havia mais de 3 centenas de estradas asfaltadas, sendo o maior  troço o de Bafatá - Nova Lamego,  com mais de 50 km. Até ao fim da guerra, ainda se farão mais 200 e tal quilómetros, e nomeadamente no sul. Destaque para o papel da Engenharia Militar e da empresa TECNIL (a que mais tarde, já depoois da independência, ficará ligado o nosso camarada António Rosinha).

Era assim a "Spínolândia"   Fizeram -se mais quilómetros de estrada alcatroada em meia dúzia de anos do que nos últimos  500 anos de presença histórica portuguesa por aquelas paragens. Aplicando a estatística, foi um quilómetro por ano... em média.

- 60 - 



Capa do livro: Portugal. Estado Maior do Exército - "Missão na Guiné". 

Lisboa: SPEME, 1971, 77, [5] p., fotos.


1. Qual o valor ("sentimental"  mas também "documental")  desta brochura do Estado Maior do Exército, que nos era distribuída já a bordo do navio que nos transportava para a Guiné (ou do avião dos TAM, a partir de finais de 1972) ?

Estamos a reproduzir a brochura da 3ª edição,  de 1971. A primeira remonta a 1967 E A 2ª edição  é de  1969. Presume-se que desta publicação, editada pelo SPEME (Serviço de Publicações do Estado Maior do Exército) tenham tido sido impressas dezenas e dezenas de milhares de exemplares. 

Tem 77 páginas (mais 5 inumeradas) e é ilustrada com  9 fotos.  Tudo a preto e branco. Baratinho. A edição é do SPEME (Serviço do Publicações do Estado Maior do Exército). 

 Em 1967 (de 1958 a 1969) era Chefe do Estado Maior  (CEME) o gen Luís Câmara Pina (1904-1980), considerado um dos homens fortes do regime do Estado Novo. Era oriundo a arma de engenharia .

É constituída, esta brochura, por três partes:  (i) Missão no Ultramar;  (ii) Monografia da Guiné: aspeto físico, humano e económico;  (iii) Informações úteis. 

Vamos continuar a reproduzir, sem comentários,   a parte da monografia respeitante agora ao aspeto económico (pp. 51-65).

Esperamos que os nossos leitores possam fazer a sua apreciação (crítica) do documento. Tal como o PAIGC tinha os seus documentos de doutrinação e propaganda, também as NT tinham os seus.

 "Missão na Guiné" não era um texto apenas técnico e informativo. Tinha uma componente político - ideológica, como acontece em todas as guerras.




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(Continua)


Fonte: excertos de Portugal. Estado Maior do Exército: "Missão na Guiné". 
 Lisboa: SPEME, 1971, pp. 51-65.


sexta-feira, 6 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26890: A Guiné-Bissau, hoje: factos e números (6): Exportar caju e importar arroz: uma fatalidade?



Guiné-Bissau > Bissau > AD - Acção para o Desenvolvimento > Foto da semana > "Chegou a hora do Caju" > Data de Publicação: 9 de maio de 2010 > Data da foto: 24 de abril de 2010. Palavras-chave: Segurança alimentar .

Foto (e legenda) © AD - Acção para o Desenvolvimento (2010).
 Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]

(http://www.adbissau.org/adbissau/fotodasemana/2010.05.09.htm) (link descontinuado) (*)

Legenda que tinha o inegável cunho crítico, original e pessoal,  do nosso querido amigo Pepito, engº agr. Carlos Schwarz (Bissau, 1949-Lisboa, 2012), então diretor executivo da ONG AD. Faz muita falta ao seu país. Infelizmente, os bons irãs não o protegeram.

"Aí está! Chegou a hora do caju!

"Anualmente, por esta altura, o caju assume a sua omnipresença e todos se envolvem freneticamente nesta actividade, excluindo bem claro, os que estão mais preocupados em dar uso às fardas e às armas.

"Para além da castanha de caju, vendida ou trocada por arroz, num processo iniciado há mais de 20 anos e que subverteu por completo a lógica da segurança alimentar nacional, a qual deixou de se basear na nossa produção de arroz para passar a contar com a importação deste cereal, o que custou o ano passado 85 milhões de dólares. (Negritos nossos)

"Igualmente mobilizadora é a comercialização de vinho de caju extraído da polpa e que, uma vez introduzido em bidões de plástico de 20 litros, é comercializado, transportado e… arrastado em camiões por todo o país."




Guiné-Bissau > Bissau > Bissau Velho > Maio de 2025 > Um trecho do porto de mar em Bissau quando em maré baixa. Ao fundo, um navio graneleiro chinês a fazer descarga de arroz... No passeio da avenida marginal do nosso tempo (hoje, e desde 1975, avenida dos Combatentes da Liberdade da Pátria), bons carros, sinal de prosperidade (que é para alguns, não para todos)...

Fotos (e legenda): © João de Melo  (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine]


I. A Guiné-Bissau é um país independente. É membro da CPLP. Temos uma relação de amizade com este país lusófono e o seu povo. Não devemos imiscuir-nos nos seus assuntos internos. Mas os seus problemas e desafios não nos são (nem devem ser)  estranhos ou indiferentes.  Daí esta série, "A Guiné-Bissau, hoje: factos e números" (**).

(...) O caju é uma fruta tropical originária do Nordeste do Brasil. Ele foi introduzido na África, incluindo a Guiné-Bissau, pelos portugueses no final do século XVIII.

Na Guiné-Bissau, o caju tem sido historicamente plantado ao longo das estradas e hoje forma vastas florestas de cajueiros, tornando-se o principal produto de exportação do país e um pilar fundamental da sua economia. (...) (Gemini IA / Google)


Pergunta 1  - Valores da exportação de caju e da importação de arroz, na Guiné-Bissau?

Resposta do assistente de IA / Gemini, Google:

A economia da Guiné-Bissau é fortemente dependente da exportação de caju e da importação de arroz

Exportação de Caju:

  • Principal produto: A castanha de caju é o pilar da economia guineense, representando mais de 90% do total das exportações nacionais.
  • Volume de exportação:
    • Em 2022, o volume de exportação foi de 200.000 toneladas.
    • A Guiné-Bissau está pronta para exportar 130 mil das 200 mil toneladas de castanha de caju que espera vender em 2025.
  • Preço:
    • O preço base de venda da castanha de caju para a campanha de 2025 foi fixado em 410 francos CFA (0,63 euros) por quilograma. Em 2024, o preço base foi de 350 francos CFA, mas chegou a 700 francos CFA devido à procura.
    • Em 2022, o preço de venda efetivo foi de 363 FCFA/kg, o equivalente a 626 USD/tonelada.
  • Destino: Mais de 95% da castanha de caju exportada pela Guiné-Bissau tem como destino a Índia.

Importação de Arroz:

  • Consumo: O arroz é o principal alimento básico da população guineense, representando cerca de 80% do consumo de cereais no país.
  • Volume de importação:
    • A Guiné-Bissau importa anualmente mais de 200 mil toneladas de arroz.
    • A produção nacional de arroz está longe de satisfazer as necessidades do consumo, que é de cerca de 200.886 toneladas por ano, com uma produção que não passa das 112 mil toneladas.
  • Valor:
    • Em abril de 2024, o governo decidiu aumentar os preços do arroz devido à incapacidade de continuar a subvencionar as empresas importadoras.
    • Um saco de 50kg de arroz tipo "nhelém" 100% partido passou a custar 21.500 francos CFA (cerca de 32 euros).
    • O arroz da qualidade 5% partido (grosso) passou a custar 24.000 francos CFA.
    • Entre novembro de 2023 e abril de 2024, o governo gastou mais de quatro mil milhões de francos CFA (cerca de 6 milhões de euros) para financiar a subvenção do arroz no país.

É importante notar que há também um problema de contrabando de caju para países vizinhos, como Senegal, Gâmbia e Guiné-Conacri, o que afeta as receitas do Estado. O governo tem reforçado a vigilância nas fronteiras para combater essa prática.


Pergunta 2 - Análise SWOT da relação Caju (Exportação) / Arroz (Importação) na Guiné-Bissau.

Resposta do assistente de IA / Gemini, Google:

Análise SWOT da Relação Caju (Exportação) / Arroz (Importação) na Guiné-Bissau

A relação entre a exportação de caju e a importação de arroz na Guiné-Bissau é um ponto central da sua economia, com implicações significativas para a segurança alimentar, balança comercial e desenvolvimento sustentável. Abaixo, é apresentada uma análise SWOT detalhada dessa dinâmica:

Forças (Strengths)

  • Potencial de Exportação de Caju: O caju é o principal produto de exportação da Guiné-Bissau, gerando divisas estrangeiras cruciais para a economia. A procura global por castanha de caju tem-se mantido robusta.
  • Adaptação do Caju ao Clima: O caju é uma cultura bem adaptada às condições climáticas da Guiné-Bissau, exigindo relativamente poucos fatores de produção  e sendo resiliente a períodos de seca.
  • Geração de Emprego na Cadeia do Caju: A colheita e o processamento inicial do caju (ainda que limitados) geram empregos, especialmente em áreas rurais, contribuindo para a subsistência de muitas famílias.
  • Disponibilidade de Terras para Arroz: A Guiné-Bissau possui extensas áreas de várzeas e bolanhas com potencial para o cultivo de arroz, uma cultura alimentar fundamental.
  • Importância do Arroz na Dieta Local: O arroz é a base da dieta da população guineense, o que garante uma demanda interna constante e justificada para o seu consumo.

Fraquezas (Weaknesses)

  • Dependência Excessiva do Caju: A economia da Guiné-Bissau é excessivamente dependente da exportação de caju, tornando-a vulnerável a flutuações nos preços internacionais e a choques externos.
  • Baixo Valor Agregado do Caju: A maior parte do caju exportado é em bruto, o que significa que o país perde a oportunidade de agregar valor através do processamento industrial (descasque, torra, embalagem), limitando os ganhos económicos e a criação de empregos qualificados.
  • Vulnerabilidade à Flutuação de Preços: Os preços do caju no mercado internacional podem ser voláteis, impactando diretamente as receitas de exportação e a rendimento dos produtores.
  • Elevada Dependência da Importação de Arroz: A Guiné-Bissau importa uma parcela significativa do arroz que consome, tornando-a vulnerável a choques nos preços internacionais do arroz, flutuações cambiais e interrupções na cadeia de suprimentos.
  • Baixa Produtividade do Arroz: A produção interna de arroz é frequentemente baixa devido a técnicas agrícolas tradicionais, falta de acesso a sementes melhoradas, fertilizantes e sistemas de irrigação adequados.
  • Infraestrutura Deficiente: A infraestrutura precária (estradas, portos, eletricidade) dificulta o escoamento do caju e o transporte do arroz importado para o interior do país.
  • Financiamento Limitado: O acesso limitado a financiamento para agricultores, tanto para o caju quanto para o arroz, impede investimentos em melhorias de produtividade e processamento.

Oportunidades (Opportunities)

  • Agregação de Valor ao Caju: Investir no processamento local do caju pode aumentar significativamente as receitas de exportação, gerar empregos qualificados e promover o desenvolvimento industrial.
  • Diversificação de Mercados para o Caju: Buscar novos mercados para o caju pode reduzir a dependência de um pequeno número de compradores e estabilizar as receitas.
  • Aumento da Produtividade do Arroz: Adoção de novas tecnologias agrícolas, sementes melhoradas, técnicas de irrigação e formação para os agricultores pode impulsionar a produção interna de arroz e reduzir a necessidade de importação.
  • Desenvolvimento de Cadeias de Valor Locais: Fortalecer as cadeias de valor do caju e do arroz, desde a produção até o consumidor final, pode criar novas oportunidades de negócio e empregos.
  • Cooperação Regional e Internacional: Parcerias com países vizinhos e organizações internacionais podem facilitar o intercâmbio de conhecimentos, tecnologias e financiamento para o setor agrícola.
  • Investimento em Infraestrutura: Melhorias na infraestrutura de transporte e armazenamento podem otimizar o escoamento do caju e a distribuição do arroz.
  • Promoção de Práticas Agrícolas Sustentáveis: Implementar práticas agrícolas que melhorem a fertilidade do solo e a gestão da água pode aumentar a resiliência da produção de caju e arroz às mudanças climáticas.

Ameaças (Threats)

  • Flutuações nos Preços Internacionais: A volatilidade dos preços do caju e do arroz no mercado mundial pode impactar negativamente a balança comercial e a segurança alimentar.
  • Mudanças Climáticas: Secas, inundações e outras condições climáticas extremas podem afetar a produção de caju e arroz, colocando em risco a segurança alimentar e as receitas de exportação.
  • Concorrência Internacional: A Guiné-Bissau enfrenta concorrência de outros países produtores de caju e arroz, o que pode pressionar os preços e a participação de mercado.
  • Barreiras Comerciais: Novas tarifas ou regulamentações comerciais impostas por países importadores podem afetar negativamente as exportações de caju.
  • Instabilidade Política e Social: A instabilidade pode perturbar as cadeias de produção e distribuição, afetando tanto a exportação de caju quanto a importação e distribuição de arroz.
  • Doenças e Pragas: O surgimento de doenças ou pragas que afetam as culturas de caju ou arroz pode causar perdas significativas na produção.
  • Dependência de Agentes Externos: A forte dependência de intermediários na cadeia de valor do caju pode resultar em menores retornos para os produtores locais.

Conclusão

A Guiné-Bissau enfrenta um desafio complexo na gestão da sua relação caju/arroz. Embora o caju seja uma força económica, a sua dependência excessiva e a falta de valor acrescentado representam vulnerabilidades significativas. 

Por outro lado, a importação maciça de arroz sublinha uma fraqueza na segurança alimentar. 

As oportunidades residem na agregação de valor ao caju, na diversificação da produção agrícola e no aumento da produtividade do arroz. No entanto, o país deve estar atento às ameaças externas, como as flutuações de preços e as mudanças climáticas, e internas, como a instabilidade política e a infraestrutura deficiente.

Para um futuro mais sustentável, a Guiné-Bissau precisa de uma estratégia integrada que promova a diversificação económica, o aumento da produtividade agrícola (especialmente do arroz), o processamento local do caju e o investimento em infraestrutura

A resiliência económica do país dependerá da sua capacidade de transformar estas fraquezas e ameaças em oportunidades de crescimento e desenvolvimento.

(Perguntas, Revisáo / fixação de texto: LG / Respostas,  Negritos: Gemini IA)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 12 de maio de 2010 > Guiné 63/74 - P6376: Notícias dos nossos amigos da AD - Bissau (14): Chegou a hora do caju... e do vinho de caju!

(**) Último poste da série > 17 de junho de 2022 >
Guiné 61/74 - P23360: A Guiné-Bissau, hoje: factos e números (5): A principal fonte de energia (c. 85%) ainda é a proveniente da biomassa (lenha, carvão vegetal...)

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26126: Historiografia da presença portuguesa em África (451): o tecido económico da província em 1951, visto através dos anúncios publicados no suplemento, "dedicado ao Ultramar Português" (218 pp., no total), do "Diário Popular", de 20/10/1961



Barbosas & Cia: Import-export... com sede em Bissau. Representava sobretudo duas marcas norte-americanas, a General Eletric e a Studebaker


Ed. Guedes Lda era outro peso pesado do comércio local, já presente em Bolama quando esta era a capital... Tinha sucursais pelo território... "Cetió";  mais que provável erro tipográfico, deve ler-se Catió... Tchequal também deve ser gralha, é topónimo que não existe. Banta El deve ser Madina Bantael, entre Sonaco e  Sare Bacar (esta já na fronteira  com o  Senegal)... Chegava a Orango, a ilha do arquipélago dos Bijagós mas afastada do continente,

A nossa já conhecida  empresa francesa, a NOSOCO, onde trabalhou o nosso camarada Mário Dias... Tinha instalações em Bissau, Bolama,  Bafatá, Binta, Bissorã e Olossato. Tinha o exclusivo, para a Guiné, de marcas prestigiadas como a Shell, Phillips,  Electrolux, Frigelux, Dunlop...


SCOA: outra empresa de import-export, de origgm francesa, com sucursais em Bafatá, Bissorã, Bolama, Sonaco e Farim... Representava uma série de marcas (camiões, automovéis, eletrodomésticos, motores marítimos, cerveja alemã) e também companhias de navegação... Curioso: não estava representada na capital...



Enpresa de import-export e comércio geral, estava ligada ao BNU (Banco Nacional Ultramarino). e cobria praticamente todo o território, com  exceção do Nordeste (Gabu); Bafatá, Sonaco, Contuboel, Teixeira Pinto, Bissorã, Bolama, Bijagós, Chugué, Cabochanque,  Cadique, Cafine, Salancaur, Cabedu, Bedanda, Cacine, Brandão (seria na ilha do Como, a casa Brandão ?)...


O Fouad Faur, sírio-libanês, tinha sede em Bafatá, com "feitorias em Piche, Paunca, Bajocunda ("Bajicunda") e Bambadinca


Outro comerciante de origem sírio-libanesa, com sucursais na África Ocidental Francesa (Dacar e Coldá) e na Guiné Portuguesa (Mansoa, Mansabá, Xime, Bambadinca, Bafatá, Contuboel, Sonaco, Nova Lamego, Pecixe, Buba, Campeane, Cacine, Gadamael, Catió)



Foi a partir deste anúncio de 1956, que descobrimos o acrónimo ASCO (endereço telegráfico da empresa) (*)


Outro sírio-libanês, Mamud Eluar & Cia., com "sucursais em toda a província da Guiné"... Os comerciantes, de origtem sírio-libanesa, não eram mais do que uma centena na 1ª metade da década de 1920. O José Gardete Correia uma empresa de uma família prestigiada, com estabelecimentos em Bissorã. Olossato e Encheia.




Francisco Paulo, uma empresa em nome inmdividual, com estabelecimento em Bafatá e "feitorias" em  Xitole ("Chitoli"), Sara (Gabu), Baca (Sarde Bacar ?), Paunca, Bajocunda ("Bajicunda"), Cabuca ("Caboca"), Boé ("Mandina do Boé).  O Fausto da Silva Teixeira é o único industrial que aparece nesta amostra, e é já nosso conhecido (foi deportado.


João Batista Pinheiro & Irmão: com sede em Bafatá, e sucursais em Bussau, Buruntuna, Bajicunda (sic), Pirada, Paunca, Piche e... Sama  (deve ser é Sara, Gabú, presume-ser que seja gralha tipográfica, não há povoação com esse nome). O único anúncio da área da restauração e hotelaria é do Pensão Restaurante Bafatá, de Judite Teixeira Quaresma da Costa.



A OMES, com um grande currículo de obras de engenharia na Metrópole e  em Angola, tinha na Guiné, em 1951, duas obras em fase de conclusão: a ponte-cais de Bissau e a ponte de Ensalma


1. Estes anúncios refletem inegavelmente  o clima de relativa paz e prosperidade económica que a província começou a viver, no pós II Guerra Mundial,  com o governador Sarmento Rodrigues (1945-1950).

Curi0samente, em 1951, só há uma anúncio de um industrial (com exceção da OMES, que era uma empresa de engenharia e obras públicas, com sede em Lisboa). Referimo-nos ao madeireiro e antigo deportado Fausto Teixeira da Silva.

Ainda estamos longe dos trágicos acontecimentos de Angola, no princípio de 1961, que não deixaram de ter repercussões nas outros territórios ultramarinos protugueses,. incluindo a Guiné: loigo a partir de 1961/62, parte dos comerciantes locais  (cabo-verdianos, metropolitanos e sírio-libaneses) acabaram  por se retirar das zonas mais isoladas do interior, e fixaram-se em Bissau ou regressaram  mesmo à metrópole...

Os sírio-libaneses, que se começaram a radicar no território a partir de 1910, alguns  acabaram por ligar-se, pelo casamento, a famílias portuguesas... Inicialmente não eram, porém, bem vistos pela concorrência nem até pelas autoridades locais, Por outro lado, em 1974, todos já teriam a nacionalidade portuguesa...Mas parte desta comunidade optou por ficar no novo país lusófono, a Guiné-Bissau.

Estes anúncios acima publicados fazem parte de um suplemento, "dedicado ao ultramar portuguès", que integrou a edição do "Diário Popular", de 20 de outubro de 1951. São em menor número dos que seráo  publicados, mais tarde,  na revista "Turismo", edição de janeiro/fevereiro de 1956 )(ano XVIII, 2ª série, nº 2,  número temático dedicado à Guiné), e reproduzdos em  tempos no nosso blogue (em dez postes, com material fornecido pelo nosso saud0so camarada Mário Vasconcelosl, 1945-2017) (**)

Na amostra de 1951, verificamos que  todos os anunciantes  se dedicavam ao "comércio geral: compra e venda de produtos da província" e alguns ao "!import-export#", a começar pelas empresas francesas, a NOSOCO e a SCOA... Mas também as portuguesas, Barbosas & Cia, Ed. Guedes Lda, Sociedade Comercial Ultramarina, SARL.

O que havia para exportar ? Muito pouco, alguns produtos agrícolas e matérias-primas: arroz, oleaginosas (amendoim, coconote, óleo de palma), e pouco mais...  E importava-se tudo, da cerveja às viaturas automóveis... Tal como hoje, agora na Guiné-Bissau (só que o amendoim foi substituído pelo caju.)

Alguns valores: em 1950, a colónia tinha exportado c. de 118 mil toneladas, e importado pouco mais de 128 mil... Os cinco produtos mais exportados eram  (com base nas médias anuais): 

  • o amendoim (61,0%), 
  • o coconote (26,6%), 
  • o arroz (4,1%), 
  • o óleo de palma (1,7%) 
  • e os couros (0,8%)...  

Por outro lado, na década de 40 (1941-1950), as importações passavam de 49 mil contos para 128 mil (um aumento de 260%). As exportações, por sua vez,  passavam, no mesmo período, de  65 mil para 118 mil contos (um aumento de 180%).

Em outubro de 1951 já se escrevia-se "província" e não "colónia", com a revogaçãpo do "Acto Colonial" e a revisão da Constituição (Lei nº 2048, de 11 de junho de 1951).   Mas a grafia dos topónimos ainda não era respeitada: vejam-se grafias como Bajicunda, Pitche, Contubo El,

Em suma, estes anúncios tem hoje algum interesse documental pelas inesperadas informações que nos trazem de gentes e de lugares que conhececmos e que depois de 1961 vão ser varridos pela guerra, oficial ou oficiosamente iniciada em  Tite, região de Quínara, em 23 de janeiro de 1963...

É interessante assinalar a ausência de uma grande casa como a  Gouveia  neste pequeno mostruário das "forças vivas" da província, cujo tecido económico parece ser  constituída por apenas pela Ultramarina, ligada ao BNU, duas empresas francesas de import-export, a SCOA e a NOSOCO, e sobretudo por pequenos comerciantes e empresários, de origem metropolitana, cabo-verdiana e sírio-libanesa. (***)
 
Esta edição do "Diário Popular", de 20 de outubro de 1951 (e não 1961, como vem escrito por lapso , na Hemeroteca Digital de Lisboa / Câmara Municipal de Lisboa, a quem agradecemos a cortesia).  É uma raridade bibliográfica: o suplemento dedicado ao Ultramar tem 218 páginas (22 dedicadas à Guiné, pp. 45-66).  Disponível  aqui em formato digital. 

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