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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26536: A Nossa Poemateca (9): Cesário Verde (1855-1886): Excertos de "Nós", seguidos de "O sentimento de um ocidental"



Cesário Verde,
por Columbano (1887)
1. Não será preciso escrever muito para se ser um grande poeta da língua portuguesa: o lisboeta Césario Verde (1855-1886) é um dos meus poetas favoritos, teve uma vida curtíssima, morreu de tuberculose ...  (Uma verdadeira setença de morte,  a "tísica", na época: além do poeta, morreu também de turberculoso a sua irmã Maria Júlia e o seu irmão Joaquim.)

Escreveu meia centena de poemas.... Mas que poemas!... "O sentimento de um Ocidental"  é um das obras-primas da nossa poesia...

A sua genialidade só foi reconhecida "post-mortem", e logo por outros grandes poetas como o Fernando Pessoa.

Na primeira parte do poema "Nós", de que selecionei uns exertos,  Cesário Verde evoca o surto de febre amarela que atingiu Lisboa em 1857 que terá contagiado entre 16 a 17 mil pessoas (perto de 10% do total da população lisboeta) e provocado mais de 5 mil mortes.E dois anos antes, tinha havido  um o surto de cólera.

Se bem que o séc. XIX venha marcar o fim das grandes epidemias que, ao longo de séculos vitimaram as populações europeias, surgem novos problemas de saúde, com a industrialização e a urbanização da Europa.  

No nosso país, por exemplo, em menos de um quarto de século, e em duas ocasiões, a cólera irá fazer dezenas de milhares de vítimas mortias: cerca de 40 mil em 1833, em plena guerra civil,  um terço dos quais na capital (as valas comuns deram depois origem aos cemitérios dos Prazeres e do Alto de São João); e aproximadamente 9 mil em 1855-56.

Embora as estatísticas de mortalidade, na época, possam variar de autor para autor, de fonte para fonte, a cólera tornou-se a doença epidémica, por excelência nas cidades em grande expansão, resultantes do do desenvolvimento do capitalismo industrial. 

A cólera passara  a ser conhecida dos portugueses com a chegada à Índia onde era endémica. 

Já a febre amarela é originária da América Central. Há notícia de que  terá chegado a Portugal continental no ínício da década de 1720: a primeira epidemia de febre amarela ter-se-á manifestado em Lisboa, no Outono de 1723. Ao fim de três meses terá feito mais de seis mil vírimas mortais, nas zonas de maior densidade populacional. 

No caso do surto de febre amarela de 1857, as áreas mais afectadas em Lisboa  foram inevitavelmente as dos bairros populares (como Alfama, Mouraria, Madragoa, Bairro Alto), onde se concentravam as chamadas classes laboriosas, misturadas com o lumpen-proletariado, e onde continuavam a ser péssimas as condições de higiene e salubridade (sobrehabitação, falta de saneamento básico, de água potável, de recolha do lixo, etc.), agravadas pela subnutrição e sistema imunitário enfraquecido. 

Registam-se igualmente importantes surtos de febre tifóide e de tifo, embora estas doenças tendam a regredir a partir de 1865. Mas,  mesmo ainda em 1923, Ricardo Jorge considerava Lisboa, no seu estilo tão castiço e peculiar quanto hiperbólico, como "uma das cidades mais infectamente tíficas" (sic) da Europa...

A cólera continua a ser um grave problema de saúde em países como a nossa Guiné-Bissau. É endémica:  com a estação de chuvas (de maio a novembro), muitas áreas são  inundadas, em Bissau e outros aglomerados urbanos... Os poços enchem-se de de matéria fecal, disseminando rapidamente a doença pela população, vitimando sobretudo os mais novos e os mais frágeis.

Cesário Verde era bebé aquando da epidemia de febre amarela de 1857. Mas este acontecimento ficou na memória da família Verde, que era de origem italiana. O  seu pai, abastado agricultor e comerciante de ferragens na baixa lisboeta, fez aquilo que os ricos faziam na época: retirar a família para o campo. Neste caso, para a sua quinta em Linda-A-Pastora, hoje união das freguesias Carnaxide Queijas,  concelho de Oeiras. Aí Cesário Verde enamora-se pelas delícias do campo e dá-nos conta da modernização da agricultura da época.  
_______________

NÓS

I

Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
E o Cólera também andaram na cidade,
Que esta população, com um terror de lebre,
Fugiu da capital como da tempestade.

Ora, meu pai, depois das nossas vidas salvas
(Até então nós só tivéramos sarampo)
Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
Que ele ganhou por isso um grande amor ao campo!

Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
Mesmo no nosso prédio, os outros inquilinos
Morreram todos. Nós salvamo-nos na fuga.

Na parte mercantil, foco da epidemia,
Um pânico! Nem um navio entrava a barra,
A alfândega parou, nenhuma loja abria,
E os turbulentos cais cessaram a algazarra.

Pela manhã, em vez dos trens dos baptizados,
Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
Que triste a sucessão dos armazéns fechados!
Como um domingo inglês na "city", que desterros!

Sem canalização, em muitos burgos ermos
Secavam dejeções cobertas de mosqueiros.
E os médicos, ao pé dos padres e coveiros,
Os últimos fiéis, tremiam dos enfermos!

Uma iluminação a azeite de purgueira,
De noite amarelava os prédios macilentos.
Barricas de alcatrão ardiam; de maneira
Que tinham tons d'inferno outros arruamentos.

Porém, lá fora, à solta, exageradamente,
Enquanto acontecia essa calamidade,
Toda a vegetação, pletórica, potente,
Ganhava imenso com a enorme mortandade!

Num ímpeto de selva os arvoredos fartos,
Numa opulenta fúria as novidades todas,
Como uma universal celebração de bodas,
Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
Triste d' ouvir falar em órfãos e em viúvas,
E em permanência olhando o horizonte em brasa,
Não quis voltar senão depois das grandes chuvas.

Ele, dum lado, via os filhos achacados,
Um lívido flagelo e uma moléstia horrenda!
E via, do outro lado, eiras, lezírias, prados,
E um salutar refúgio e um lucro na vivenda!

E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
É todo o meu amor de todos estes anos!
Nós vamos para lá; somos provincianos,
Desde o calor de maio aos frios de novembro! (...)


Excertos, NÓS - I, in "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886, posfácio e fixação de texto, António Barahona. Edição definitiva. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, pp. 98-100. (Com a devida vénia...)


2, E depois do "Nós",  leia-se "O Sentimento de um Ocidental": longo poema, de 44 estrofes, dividido rigorosamente em 4 partes de 11 estrofes cada uma; cada estrofe, por sua vez, é composta por quadras (4 versos).

As rimas são, em geral, interpoladas e emparelhadas (segundo o esquema ABBA), com 12 sílabas métricas (alexandrino) e um verso de 10 sílabas (decassílabo) no primeiro verso de cada estrofe. 

As 4 partes do poema correspondem a menos de metade do dia (que vai do entardecer à noite cerrada):

  • Parte I: Avé-Marias;
  • Parte II: Noite fechada;
  •  Parte III: Ao Gás;
  • Parte IV: Horas mortas.

Com Cesário Verde, a poesia abre-se a (e celebra-se com) os cinco sentidos... Fica aqui uma amostra (para ler ou reler) (a primeira quadra de cada parte; e a IV parte - Horas mortas - completa).

O sentimento de um ocidental

I Avé-Marias 

Nas nossas ruas, ao anoitecer, 
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia 
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer. (...)


II Noite Fechada 

 Toca-se às grades, nas cadeias. Som 
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas! 
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças, 
Bem raramente encerra uma mulher de dom! (...)

III Ao gás

E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus. (...)

IV Horas mortas

O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.
Por baixo, que portões! Que arruamentos! 
Um parafuso cai nas lajes, às escuras: 
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras, 
os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos. 

E eu sigo, como as linhas de uma pauta 
A dupla correnteza augusta das fachadas; 
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas, 
As notas pastoris de uma longínqua flauta. 

Se eu não morresse, nunca! E eternamente 
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! 
Esqueço-me a prever castíssimas esposas, 
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis, 
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas! 
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas, 
Numas habitações translúcidas e frágeis. 

Ah! Como a raça ruiva do porvir, 
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes, 
Nós vamos explorar todos os continentes 
E pelas vastidões aquáticas seguir! 

Mas se vivemos, os emparedados, 
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas 
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados. 

E nestes nebulosos corredores 
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas; 
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas, 
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos; 
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos. 

E os guardas, que revistam as escadas, 
Caminham de lanterna e servem de chaveiros; 
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros, 
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas. 

E, enorme, nesta massa irregular 
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes, 
A Dor humana busca os amplos horizontes, 
E tem marés, de fel, como um sinistro mar! 

(Bold, a vermelho, nosso: LG)


3. A versão completa do poema pode ser encontrada na Net, a conmeçar por aqui, mas por favor comprem  o livro em papel, "O Livro de Cesário Verde: 1873-1886",   edição da Assírio & Alvim, Lisboa, 2004 (a grande casa editorial da poesia).

E  leiam-no de vez em quando em voz alta e...  a qualquer hora!.... E repitam, de preferência ao entardecer, no miradouro da Senhora do Monte, na Graça, em Lisboa,  mesmo a abarrotar de tuque-tuques e de turistas: 

"Se eu não morresse, nunca! E eternamente  / Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! ")...
____________

Nota do editor:

Último poste da série > 10 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26482: A Nossa Poemateca (8): José Gomes Ferreira (Porto, 1900 - Lisboa, 1985), por Mário Gaspar

domingo, 28 de julho de 2024

Guiné 61/74 - P25786: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (31): Sete vidas (1690-2044)



"Painel de azulejos de oficina de Lisboa, da 1ª metade do século XVIII, existente no Museu da Cidade, Lisboa, onde no primeiro plano aparecem tipos populares a comercializam bens de consumo e, no lado esquerdo é representado o Chafariz de Neptuno, equiparado ao dedicado a Apolo, existente no Terreiro do Paço. O Hospital Real de Todos-os-Santos tinha fachada virada para o Rossio e fora mandado erigir por D. João II em 1492, mas a sua construção só terminou no reinado de D. Manuel I, nos primeiros anos do século seguinte. Edifício de vanguarda na época, acolheu os primeiros internamentos em 1502, com regimento e estatuto de Escola de Medicina e o número de enfermarias foi crescendo ao longo do tempo: 3 (1504), 16 (1520) e 25 (1715). O Hospital Real de Todos-os-Santos foi desactivado na sequência do Terramoto de 1755, ocorrido a 1 de Novembro desse ano, o qual foi responsável pela destruição quase completa da cidade de Lisboa e foi substituído depois pelo Hospital Real de São José, no que restou do colégio de Santo Antão da Companhia de Jesus. (Rui Carita)
Data: circa 1740". 

Foto (e legenda): Fonte:  Museu de Lisboa | Wikimedia Commons (com a devida vénia...)



 Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (31): 

Sete vidas (1690-2044)


O Xavier Oliveira não sabia ainda o que gostaria de ser (e de fazer), desta vez, quando voltasse a ser "menino e moço".

Tinha direito a "sete vidas, como os gatos". Era, afinal, o único "privilégio" que podia dar como  garantido na sua existência terrena. 

Era um "homem de fé". Leia-se, crente.  A igreja a que pertencia (e que tinha um templo com pórtico neoclássico, ali mesmo ao pé da sua casa), reunia os metempsicosistas da cidade. 

Não, não eram muitos. Um "seita", escarneciam os seus detratores, quando lá passavam à porta. O pior  ainda era o padre, católico, da sua freguesia, a par do pastor, evangélico, brasileiro, na rua mais abaixo, que tinha um "tabernáculo" num antigo armazém, adaptado para o efeito, a que chamava pomposamente... a "catedral da salvação".  (Todas as religiões são salvíficas; se o não fossem, tinham os templos vazios.)

O Xavier Oliveira acreditava na transmigração da alma, mas dentro da espécie humana, incluindo as várias "raças" que se distinguiam umas das outras por diferentes fenótipos, "os brancos, os pretos, os amarelos, os mestiços"... 

Não, não era "racista", alto lá! Aliás, bastara-lhe ter sido negro e escravo no séc. XVIII, na época em que finalmente o esclavagismo começou a ser posto em causa pelo capitalismo industrial... (Com a máquina a vapor e a maquinofatura, isto é, a "revolução industrial", os ingleses não precisavam mais de escravos "negros", passavam a ter os seus próprios escravos "brancos", o "proletariado inglês", os camponeses e os artesãos finalmente "libertos" das velhas amarras da sociedade senhorial...)

Nisso distinguia-se de outras correntes afins, de base teosófica. Não havia o risco de reencarnar numa espécie não-humana, animal ou até vegetal, como defendiam certos animistas. "Só dentro da espécie humana"... Tanto podia ser homem ou mulher,  branco ou preto...  Era uma verdadeira lotaria. Não havia escolha. Mas o mecanismo da passagem da alma para um novo corpo ainda estava ("e estaria sempre") por explicar.

Os metempsicosistas eram "criacionistas", opositores da teoria da evolução. A metempsicose operava-se dentro das especificações do programa, definitivo e imutável, da criação da vida e do mundo. Era, de resto, um segredo inviolável, a que a ciência humana nunca poderia aceder, sob pena de usurpação do poder divino, ou pecado da húbris. 

Havia a barreira da espécie, tal como no sexo. A alma humana, no "post mortem", só podia transmigrar para uma forma de vida igual ou superior, um outro corpo humano.

Xavier Oliveira acreditava que, de geração em geração,  a sua alma, a sua verdadeira identidade, arranjaria  um outro "invólucro", feito de "carne e osso". Humano.

Era uma forma de expiação terrena. Só os "puríssimos" , os 100% "limpos", tinham lugar imediato no Éden, após a morte física.

Não, não havia Inferno, tranquilizava-se ele. Não havia essa coisa da condenação eterna, "per saecula saeculorum" ou "ad aeternum", com que o aterrorizaram os padres jesuitas na sua primeira vida, quando  se chamava Fernão Ferro (1690-1721), ou melhor, o "Enjeitado" . (Na verdade, Fernão Ferro fora o seu primeiro nome, de batismo.)

Essa ideia, a do Inferno, só por si,  era um insulto ao Criador da vida e ao grande Arquiteto do universo, e à Sua infinita sabedoria e  bondade. No passado, tinha frequentado uma loja maçónica, iluminista, de que lhe ficara a poderosa imagem do Arquiteto supremo.

Em resumo, havia sete vidas para os seres humanos se poderem "purificar". Sete vidas, umas mais fáceis, outras mais difíceis, umas mais curtas (como a sua primeira, que não ultrapassara a  trintena de anos), outras mais longas, como a quarta, de 1821 a 1891, em que chegou aos setenta. (Nessa altura, chamavam-lhe Joel de Castro mas também William Smith, Son.)

Sete vidas, mas todas elas imprevisíveis. Uma ideia aterradora ?  Penosa, sem dúvida, angustiante, melhor dizendo, mas ao mesmo tempo excitante. Sabia-se do passado mas o futuro era uma verdadeira "black box" ou "caixa preta". Um ser humano podia passar de senhor a servo,  de rico a pobre, de bonito a feio, de bom a mau, de herói a vilão, de branco a preto, e vice-versa. Sem nunca se saber porquê... (O Criador nunca quis dar essa elementar explicação às suas criaturas, e muitas estavam longe de serem verdadeiras obras-primas; tal como o pintor de génio, que também faz coisas sofríveis.)

Havia sempre a esperança de se obter uma "melhor condição", de se subir na escala da criação. Mesmo assim , "tinhas que te esforçar por ser melhor", de encarnação em encarnação. Sob pena da alma... se "volatizar".  Havia esse risco. ("Às vezes interrogava-se se valia a pena: por exemplo, ser um bom pobre, um bom escravo, um bom soldado"...).

Era um permanente teatro, com sucessivas recriações, cenários, atores, encenadores, palcos, papéis, guiões. Mas também "brancas e apagões ".  ("De tanto representares, chegavas às vezes a trocar os papéis...")

"A vida era um palco"...  O Xavier não sabia explicar muito bem o processo de purificação. Muito menos a atribuição de papéis. Havia um "deve-e-haver", uma balança para pesar "as boas e as más ações".  Já os antigos egípcios e outros povos tinham essa crença. Mas o que era o bem e o mal ? 

Mas não era isso que o excitava. Estavam-lhe garantidos, em princípio, três ou quatro séculos de transmigrações sucessivas. Estava agora na sexta (renascera em 1945, no final da II Guerra Mundial na Europa). Estava na penúltima vida. Na melhor das hipóteses, na sétima (e última) poderia ainda chegar à alvorada do séc. XXII, seguramente com outro nome que tanto podia ser português, como afro-mandinga ou chinês.

Não estava nada entusiasmado com essa perspetiva, a de chegar ao limiar do séc. XXII.  E, ainda por cima, viver na China. (Não, não era "racista", nem xenófobo, mas também não era "sínico"...)  

E, depois, ainda precisaria de morrer pela sexta vez.  E transmigrar pela sétima. A morte era sempre uma chatice". Nunca se lembra, em todos os aqueles anos, de ter tido uma morte serena, a que no séc. XVIII se chamava uma "boa morte". Reconciliado com Deus e com os homens e com todos os demais seres vivos. 

Nunca ninguém lhe lera o "consentimento informado" do Criador. Nunca morrera em paz. Nem muito menos lúcido. E sempre sozinho. ("Morre-se sempre sozinho, como um cão".) 

Já morrera de diversas maneiras, todas afinal violentas (por colapso dos órgãos vitais, por causas naturais ou artificiais). Só não morrera de parto, já que nunca fora até então mulher. (Nem gostaria de o ser: não, não era misógino, mas tinha dificuldade em entender as mulheres.)

Agora, aos 70 e muitos anos, estava cansado, confuso, indeciso. Quiçá infeliz. Chegava a pôr a causa a solidez da sua fé. Interrogava-se  como iria morrer desta vez.  Em casa, no hospital, no lar  de idosos, na rua, na autoestrada ?  

De acidente aéreo, não, porque não viajava de avião, a menos que lhe caisse um, em cima do telhado. (E não vivia, de facto, muito longe do aeroporto.) De naufrágio, também não: odiava  o mar, os barcos, e até a maresia... Lembrava-se, ainda hoje, da sua primeira morte em 1721, ao largo das Berlengas. A morte dele, Fernão Ferro, e da sua Lia.  

No campo de batalha, também seria improvável vir a morrer, já não tinha idade para vestir uma farda e empunhar uma espingarda ou uma espada, como na guerra da Patuleia (1846-1847). Ou na Guiné, por onde foi obrigado a passar  um temporada em  1967/69. (Chamavam-lhe,  ironicamente, uma "comissão de serviço".)

O recente tratamento de um  cancro deixara-o de rastos. Passou a cultivar o humor negro.  Tornara-se cáustico, sarcástico. Tinha um cartão de visita em que assinava o nome e por baixo um aviso, a vermelho:  "Radioativo, protésico e parkinsónico"... Percebe-se a reação de repulsa, instintiva, das pessoas quando lhes entregava o cartão...

"Andava preso por arames". O último fora um "pace-maker". E isso "não era mais expiação mas condenação". Cruel. Às vezes parecia querer revoltar-se contra o Criador.   De nada lhe valia. Porque Ele, Criador,  não falava com ele, afinal uma simples (e reles) criatura. "Não lhe dava troco". Limitava-se a manipular mecanicamente as suas criaturas como se fossem títeres. A angústia era essa impossibilidade de comunicar com Deus. Restava-lhe apenas  saber ler os Seus sinais.

Recuou... A ideia em si era blasfema. Húbris. Soberba humana. Penitenciou-se. Pediu perdão. Desceu à terra.  Foi fazer análises clínicas. Os tais "checkups" anuais a que o obrigava a sua seguradora de saúde. Deixou de comer, beber, fumar, fazer sexo. "Tinha saúde,  graças a Deus!", gritava-lhe a médica de família. Ouvia mal e não se adaptava à maldita prótese auditiva que lhe custara os olhos da cara.

 Saúde, doutora ?!

−  Ah, sim, senhor Oliveira. É a competência para saber gerir as suas quatro ou cinco doenças crónicas.

 Quatro ou cinco ?!.. Não sabia que eram assim tantas... Surdez, diabetes... 

 E por aí fora!... E por aí fora!...

Estava a precisar de um corpo novo. Fizera o testamento vital. Ofereceu o seu corpo à ciência. Era uma boa ação. Tinha horror à ideia de um dia ficar ligado a uma máquina por muito tempo. Como um vegetal, uma couve portuguesa.

Tinha uns sacanas de uns amigos que lhe estavam sempre a mandar, por email,  as últimas descobertas da medicina. 

Era hipocondríaco. Tinha medo que se pelava  do cancro do pâncreas. Vários amigos e conhecidos tinham morrido com esse maldito cancro.  Na fase terminal pareciam múmias.

Os médicos procuravam tranquilizá-lo. E, na sua igreja, diziam-lhe os seus irmãos: "Ah!, agora há de chegar a medicina genética que irá substituir a medicina química e ajudar a prevenir muitos dos nossos defeitos de fabrico". 

Ou então:

− Deixa lá, Xavier, vamos rezar para que, para a próxima, tenhas um corpo de atleta!

− Um borracho, ou até uma "barbie", quem sabe?! −  gozavam elas. 

Mas ele não era um otimista por natureza, via a vida como "um mar infestado de corsários e tubarões", uma imagem que o perseguia há séculos.

Já passara por muitas situações-limite, subira os degraus do cadafalso  de que fora salvo "in extremis" por uma intempestiva (mas providencial) tempestade de verão com queda de granizo... Conhecera o navio negreiro... Fora escravo, e depois forro... Sobrevivera ao terramoto de Lisboa... Comandara um bando de guerrilha... Lutara em vão contra uma tuberculose... Estivera num presídio por ser objetor de consciência... Fora cangalheiro... 

Enfim, tinha atravessado épocas  conturbadas, raramente conhecera a paz e a liberdade, muito menos o amor, a riqueza ou o poder... ("Nunca quis ter filhos, e se os teve foi sempre por vontade das mulheres que os geraram", numa época em que ainda não havia planeamento familiar, nem a pílula, nem o aborto terapêutico.)

Apetecia-lhe agora viver os últimos anos ( os últimos cinquenta ou até cem, na melhor das hipóteses) metido entre os  claustros e as paredes de granito da cela de um convento medieval onde pouco ou nada se falasse. Como no útero materno, que era opaco e quente e insonoro. Estava farto do ruído do mundo... ("Mas será que não ficaria louco ?!")

Na presente vida, a sexta, fora batizado e crismado pela Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana. Tinha na sua "mother board", num cantinho da sua memória, um "chip" com os dados vitais relativos a toda a sua existência, incluindo o assento dos seus nomes ao longo  das diversas reencarnações: Fernão Ferro, Inácio Medina, William Smith, Joel de Castro ou William Smith Son, Rafael Meneses, Xavier Oliveira...

A alma era sempre a mesma, a sua "alma mater", a sua matriz, o seu protótipo, o que  variava era o corpo. "A alma não tem rugas, nem cicatrizes", dizia o o guru dos metempsicosistas, que, no passado,  tinha sido um dos bravos marinheiros  russos, revoltados do couraçado de Potemkine, em 1905.

Xavier Oliveira sabia, por exemplo,que tinha nascido, da última vez, em 1945,  numa aldeia de Vila Nova de Famalicão, no Minho, em Portugal. Era papa em Roma o Pio XII e cardeal patriarca em Lisboa o Dom Manuel Cerejeira.  A este último conhecera-o pessoalmente. E tratava-o com toda a deferência. Era conterrâneo e amigo de infância do seu avô, António Oliveira (não Salazar, esse era outro).

Foi ele que o crismou numa ida a Famalicão nos anos 50. O avô, colega de escola, tratava o Dom Manuel por "Sua Eminência Reverendíssima" enquanto lhe agarrava a mão e lhe beijava o anel. Lembrava-se do seu avô, embevecido, lhe ter repetido várias vezes as  palavras do seu ilustre amigo, um "verdadeiro príncipe da Igreja":

− Ó Manel, deixa-te lá disso! Dá cá mas é um abraço!

Não há registo destes factos nem eles são de todo relevantes para a história de vida do Xavier Oliveira. Acabou antes da tropa por afastar-se do catolicismo. E da sua família minhota. 

 Lidava mal com o trilogia "pecado, culpa e confissão". Era monstruoso, para um ser humano (queixava-se  ele ao seu confessor)  ter que assumir e expiar os seus muitos pecados mortais, com um registo de mais de 250 anos. Se calhar, até desde os primórdios, desde os seus primitivos antepassados, o Adão e a Eva, os pais da humanidade!

- Mas o que é eu tenho a ver com o pecado original ?!

Foi então que se converteu ao metempsicosismo, que "verdadeiramente não era uma religião". E muito menos "proselitista", como  a dos cristãos ou a dos muçulmanos. Não adiantava dar essa garantia ao padre católico e ao pastor evangélico, seus vizinhos, que às vezes encontrava na rua e que à viva força o queriam no seu rebanho. ("Afinal, tinham inveja dele e das suas sete vidas.")

Continuava a acreditar em Deus, Criador do universo e de todos os seres vivos e das coisas inertes. Deus,  Criador e Juiz Supremo.

Azar ou não, tinha nascido em 1690, filho bastardo, ao que saberá mais tarde, de uma filha, também ela bastarda,  de um dos "40 conjurados" de 1640. "Neto de bastardo és, filho de bastardo serás", dizia o povo naquele tempo, sarcástico e cruel, nas costas, mas sempre  temente e reverente, na frente, em relação a Deus e aos poderosos.

Esta foi, pelo menos, a história que lhe contaria mais tarde o seu padrinho de batismo, que exercia o mister de barbeiro, na Mouraria, e de barbeiro-sangrador  no Hospital Real de Todos os Santos.

O avô materno de Fernão Ferro (era assim que ele se chamava na primeira encarnação) , segundo se dizia à boca pequena, terá sido um fidalgo da corte, próximo do Dom João IV e da casa de Bragança. ("Quiçá até com laços de sangue com a família real".)

Hoje sabia-se, pelo que escreviam os historiadores da Academia,  que afinal não eram 40 mas 70  os valentes portugueses que puseram o timorato Duque de Bragança  no trono, depois de correrem com os Filipes.  

Mas para o caso também não  interessava nada. Que importava ao Fernão Ferro ter "sangue azul" (ou até "régio") se nem sequer sabia o nome dos seus avós, do pai, da mãe, dos tios, dos primos ?!... (E nesse tempo ainda não se faziam testes de paternidade.)

Ferro não era apelido nobre, mas plebeu. E isso fazia toda a diferença, ser "filho de algo". Ora ele era filho de ninguém...  Nem no "sinal dos expostos" havia qualquer pista  sobre a sua filiação.  Apenas um pedaço de um tecido de seda da China, que só os ricos podiam comprar naquela época. A mãe, biológica, seria uma representante da nova nobreza bragantina ou, talvez antes, filha de algum burguês enriquecido pelo comércio atlântico do açúcar ou dos escravos.

Não fora deixado na roda dos expostos da Misericórdia ou de um dos muitos conventos da cidade, como era habitual, mas numa cestinha, ao ar livre, discretamente deixada na monumental escadaria que dava acesso à fachada principal, manuelina, do Hospital  Real de Todos os Santos. Um sítio (onde hoje é o Rossio) por onde já então  circulava  muito povo. 

Não admira, por isso, que nos primeiros tempos tenha sido criado no Hospital, na "Casa dos Enjeitados". Na capela foi logo batizado pelo capelão. ( "Não fora morrer de repente o anjinho".)

O padrinho de ocasião foi o barbeiro-sangrador que a essa hora e dia estava de serviço. Acabou por se afeiçoar à pobre criança a quem foi dado, por caridade,  o seu apelido, Ferro.  Fernão Ferro foi, pois, o seu nome cristão.

Mas a afeição pelo miúdo ( "um rapaz macho, perfeitinho, ruivo e de olho esverdeado", o que também não era habitual na Lisboa desse tempo) não seria inteiramente desinteressada. 

Recolhida a criança na "Casa dos Enjeitados" e na sequência do seu batismo, o barbeiro recebeu, uns dias depois, a visita de um criado, que ele conhecia de vista, de uma família rica da vizinhança. 

Veio-lhe fazer um "trato sigiloso": recebia, em espécie e em géneros, uma "certa maquia anual"  para cuidar e educar, na sua casa, o "menino"... No Hospital,  era certo e sabido, era maior o risco de adoecer e morrer. O Hospital era um "locus infectus"...

Não tinha, o Fernão Ferro, aos vinte anos, grandes memórias da sua primeira infância. Terá tido uma ama de leite,de fartos peitos, possivelmente negra, fornecida pela Misericórdia de Lisboa, que administrava o Hospital, desde 1560. Fora isso, viveu, desde cedo, na casa do seu padrinho de batismo e pai adotivo. Mas gostava de ir brincar no logradouro do Hospital, com os filhos da criadagem.

A família do  barbeiro Ferrão  tinha uma casa térrea, modesta mas relativamente ampla, com quintal, horta, laranjeiras e limoeiros,  já fora da cerca fernandina, para os lados da Graça.

Talvez o barbeiro-sangrador fosse de origem mourisca ou judia sefardita. Já o pai e o avô  tinham sido figuras populares na Mouraria,  herdando o mesmo ofício e sendo pagos pelo Hospital pelas "sangrias". Também iam a casa de gente de bem, a pedido do físico (médico) ou  do cirurgião. 

Em casa, tinha o Fernão uma escrava, negra,  filha e neta de escravos, que, além das lides domésticas, cuidava do "Enjeitado". Esse labéu ficou-lhe para o resto da vida. Constava do assento de batismo. Nunca conseguiria fazer a sua "árvore genealógica" por causa da sua condição de "exposto", filho de pai e mãe incógnitos.

O Fernão Ferro teve sorte, mesmo assim, em chegar aos trinta.

Como ele, havia centenas de crianças em Lisboa, a maior das quais não não conseguia franquear  a gigantesca barreira dos cinco anos. Era altíssima a mortalidade infantil (neonatal e abaixo dos 5 anos de idade).

Mas um dia o Ferrão partiu na carreira da Índia como cirurgião. Era o seu estágio final, depois de um ano de teoria e prática na escola do Hospital. Já não era novo para semelhante aventura... Podia demorar dois anos a regressar a casa... ("Vá-se lá saber as razões por que um homem deixa o seu doce lar para ir trabalhar para tão longe!"...)

Por volta de 1710, com 20 anos, o Fernão Ferro, depois de ter feito o Colégio de Santo Antão, que era dos jesuítas, acabou por ir tirar, na Universidade de Coimbra, o curso de medicina. O antigo barbeiro-sangrador, e seu padrinho, agora cirurgião, se não rico, pelo menos remediado, mandava-lhe dinheiro da Índia através da Misericórdia de Lisboa que funcionava, nessa época, como  uma espécie de agência bancária.

O Fernão Ferro, se tivesse feito cânones ou leis, teria tido por certo  outras perspetivas de futuro: o funcionalismo régio, a diplomacia, o alto clero... Mas faltou-lhe alguém que o tivesse aconselhado melhor e orientado os seus passos na vida. O padrinho estava longe, trabalhava agora no Hospital de Goa. Já não voltaria, de resto,  a ver mais o afilhado nem a sua  família de sangue. Morreria, aos quarenta anos, de "morbo gálico", ou seja, de sífilis. Era o que constava na nota necrológica que  chegara ao Fernão Ferro com a sua última mesada.

A sua primeira vida também irá ser breve. Fernão Ferro morrerá aos trinta anos, em 1721, já médico (físico),  formado por Coimbra, fazendo jus ao provérbio popular que dizia: "aos trinta anos,  quem não é louco é médico".

Teve uma "morte inglória" (como se todas as mortes não fossem, afinal, "inglórias"!) quando  vinha de barco para Lisboa, e foi apanhado por uma tempestade ao largo das Berlengas. 

Trazia com ele uma negra da Senegâmbia, "linda de morrer, da cor de âmbar", que lhe custara uma pequena fortuna.  Era a amante de um cónego da Sé ("que já estava com os pés para a cova")... O bispo obrigou-o a desembaraçar-se da escrava, por causa do "público e notório escândalo de mancebia". 

Para o Fernão Ferro, a Lia "valia ouro", na cama, na cozinha, nas lides domésticas, nas confidências (... e no amor, por que não ?, não amaria ninguém mais na vida como aquela negra dengosa).  O cónego, ao batizá-la,  tinha-lhe posto um nome bíblico, Lia.

Na segunda vida, entre 1721 e 1782, ainda foi negro e escravo de um mercador cristão-novo, de apelido  Medina, em Cabo Verde, que em Lisboa tivera problemas com o Tribunal do Santo Ofício. (Talvez por delação, o que era habitual, de um vizinho, cristão-velho,  a quem emprestara dinheiros a juros.)

Nunca chegará a saber, ao certo, as razões por que o seu amo lhe deu a  carta de alforria. Terá escapado assim ao seu cruel destino que era, seguramente, no Novo Mundo, um engenho de açúcar ou uma mina de ouro no Brasil, quando o Medina o arrematou num leilão, a um "negreiro" de passagem pela ilha de Santiago. (Dizia-se que o navio levava excesso de carga, correndo o risco de naufragar em caso de tempestade tropical.  Em Cabo Verde o esclavagista aligeirou a carga.)

Cristão-novo,  amigo dos jesuitas,  o Medina acabou por se estabelecer no Norte de África, em Tânger onde prosperou  como importador de lanifícios ingleses e de tapetes orientais (nomeadamente otomanos e persas).

O agora Inácio, de seu nome (talvez em homenagem ao outro, Loyola), acabou por morrer de varíola aos 60 anos, no ano  em que  viria também a cair em desgraça o marquês de Pombal. (Ironia: a escassos anos do médico rural inglês Edward Jenner ter descoberto o princípio da imunização, neste caso, contra a varíola, a doença que mais vítimas terá feito em toda a história da humanidade.)

Trinta anos antes trabalhava num barco de cabotagem, ancorado no mar da Palha, no estuário do Tejo, em Lisboa.  Às 9 e tal  da manhã de sábado, do dia 1 de novembro de 1755, foi engolido por uma vaga enorme. Valeu-lhe, literalmente,  uma providencial "tábua de salvação".

 Exausto,  despejado pela violência do tsunami,  acabou por ir dar à praia da Trafaria. Foram dias pavorosos que lhe deram a exata dimensão da precariedade da vida terrena.  

Da margem esquerda do rio, submergido em destroços de toda a ordem (cadáveres, mastros e velame de navios, troncos de árvore, etc.), viu Lisboa arrasada e a arder, durante dias e dias.  Não sobrara nada: o opulento paço real, a patriarcal, a casa das Índias, os conventos,  as igrejas,  as casas dos nobres e dos ricos comerciantes, nada, a quem um náufrago, como ele, pudesse pedir um pão por caridade. 

Passou dias e dias a deambular pelas praias à cata de comida e de trapos com que se pudesse cobrir. Sobreviveu. E foi face ao atroz egoísmo  que atacou os sobreviventes daquele cataclismo, que o Inácio Medina  decidiu inscrever-se numa leva de soldados da fortuna para ir combater na guerra dos Sete Anos (1756-1763). Ao fim de uma marcha forçada até Montemor o Novo, foi riscado da lista de pré. Afinal, aos trinta e quatro anos já era velho.

Há um hiato na sua "fita do tempo". Não sabe, por exemplo, como chegou ao Porto, ao serviço de um  mercador de vinhos, inglês. Por pouco escapou ao cadafalso em fevereiro de 1756. Foi um dos milhares de amotinados contra a Companhia Geral de Agricultura do Alto Douro. Também andou  aos gritos, "Viva o Rei, Viva o Povo, Morra a Companhia, Morra!"

Não  sabe porquê, talvez pelo ambiente de contestação à política pombalina que se vivia nas tabernas do Porto e que ele frequentava, na Ribeira, e também por influência da colónia inglesa com quem ele convivia.

Como falava  razoavelmente  inglês, não foi difícil passar por súbdito britânico, apesar da cor da sua pele, com o falso nome de William Smith. Ficou grato ao seu amo  inglês, para o resto da vida: foi ele que o resgatou das masmorras pombalinas...

Não se estranha, por isso, cinquenta anos depois, ver um tal William Smith, Son,  como intérprete no seio do comando do estado-maior das tropas luso-britânicas aquando da batalha do Vimeiro, em 1807.

Ainda trabalhou na construção das Linhas de Torres e assistiu à retirada das últimas  tropas napoleónicas, em novembro de 1810. Acabou por se sentir  mais britânico do que português e, por volta de 1825, ano da sua morte,  pouco ou nada entendia já do que se estava a passar  no seu país, à beira de um guerra civil. Morreria cego. Talvez providencialmente. ("Deus escrevia direito por linhas tortas".)

Ainda fizera "alguns fretes" aos ingleses como ter de testemunhar  a morte infamante do general Gomes Freire de Andrade no forte Julião da Barra, em 1817.. Suprema humilhação  para um grande militar e patriota, um "mártir da Pátria"!... Por enforcamento!...

"O sabor a sangue quente e o cheiro acre da pólvora" talvez ajudem a explicar por que na sua quarta vida (1825-1891),  ele tenha querido abraçar a carreira das armas e, na revolta da Patuleia (1846-1847), tenha acabado por  comandar um dos bandos  da guerrilha miguelista, sob as ordens  do general escocês MacDonell...  Tão mercenário como ele, afinal. E foi nessa reencarnação que ele mais sujou as mãos "com o  sangue de gente tão portuguesa, tão patriótica e tão boa, afinal, ou até melhor do que ele"...

Não gostava de falar desse tempo... Foi talvez o dinheiro e a "vã glória de mandar" que o terão motivado a seguir a causa dos "legitimistas". Ignorante sobre os acontecimentos passados (a guerra civil de 1828-1834, na verdade uma "guerra duplamente fratricida"), acreditava que desta vez fosse o dele o  partido dos vencedores. 

Nunca chegara a conhecer pessoalmente o  Senhor Rei Dom Miguel, exilado em Viena depois do Tratado de Évora Monte, em 1834, ainda ele era uma criança de nove anos.  Mas no Minho, onde vivia,  falava-se muito de vários sósias  que, explorando a boa-fé do povo, se faziam passar pelo rei, "regressado para resgatar o trono à usurpadora da sobrinha e dos Cabrais"...

Vivia na casa de um abade, com grosso cabedal e farto passal, a quem tratava por sobrinho (as más línguas diziam que era filho). A revolução liberal e sobretudo o triunfo dos "mata-frades" (!) vieram impossibilitar o desejo do tio de ver o Joel de Castro abraçar a carreira eclesiástica. 

Aos vinte e um anos, sem rumo certo na vida, acabou por "andar à traulitada" na revolta da Maria da Fonte, que começou ali mesmo, no concelho vizinho de Póvoa de Lanhoso. Era um bom jogador de pau, bem apessoado, e tinha as costas quentes... Com "gosto por mulheres, jogo e vinho", como o descreveu o seu amigo Camilo, numa das suas novelas... Não admira por isso que passado uns escassos meses se tenha envolvido, por vontade do tio (mas também por paixão sua), na revolta da Patuleia.  

O abade, "corcunda" dos quatro costados (e com um ódio visceral aos "malhados")  confiou o seu querido sobrinho ao general miguelista, que por sua vez lhe entregou o comando de um dos seus bandos de guerrilha. 

Sem o saber esteve ao lado do Zé do Telhado, algumas vezes  (e contra, noutras).  Os setembristas ou "patuleias", da Junta Revolucionária do Porto, reuniam-se sob o estandarte do visconde Sá da Bandeira, na luta contra os cartistas , do partido dos Cabrais. Os "patuleias" fizeram alianças "contra natura" com os miguelistas ou "legitimistas", em Valpaços e outros combates. Mas na retirada para o Porto, através do rio Douro, combateram-se, uns e outros, ferozmente, impiedosamente, em Porto Antigo, já em terras de Cinfães...

Aqui o Joel de Castro adotou o nome de William Smith, Son. Foi ferido, em combate. E aprendeu à sua custa a amarga verdade: que numa guerra civil, não há valores, princípios, bandeiras, família, amigos, camaradas... Nem honra nem glória. Muito menos compaixão. A traição, a lisonja, o oportunismo e o " salve-se quem puder" são moeda corrente... 

Soube mais tarde do destino cruel que foi reservado ao Zé do Telhado, preso na Cadeia da Relação do Porto e desterrado para Angola. Ouvira falar dele, muitas vezes, e dos seus feitos em combate (e depois como chefe de salteadores).  Mas nunca o chegaria a conhecer pessoalmente, aliás com muita pena sua... 

Felizmente  Joel de Castro soube arrepiar caminho a tempo e levar uma vida honesta até ao fim dos seus dias. Morreu sem honra nem glória. Um ano  depois do Ultimato Inglês.

Do Rafael Meneses, de origem goesa (1891-1945),  também não há muito que contar.  Católico, monárquico, alegadamente descendente de vice-reis da Índia,  apoiou a Ditadura Militar e depois o Estado Novo. Fez carreira na administração colonial em Moçambique. Morreu de tuberculose, em Lisboa,  no final da licença graciosa a que tinha direito. Já de nada lhe valeria a recente descoberta da penicilina, 

Mais de cento e tal anos depois do Ultimato Inglês, não aceitaram, em 1965,  o Xavier Oliveira como "objetor de consciência". Na cerimónia de juramento de bandeira, na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, recusou-se a levantar o braço e a abrir a boca, em plena formatura. Ficou "petrificado" a ouvir os outros soldados-cadetes a "jurar defender a Pátria até à última gota do seu sangue".

O seu comportamento, insólito, desalinhado, de lesa-pátria, gerou logo algum sururu entre a assistência mais próxima,  constituída por familiares dos recrutas e demais povo anónimo.  Alguns, mais exaltados, acabaram por chamar a atenção do oficial de dia que foi logo a correr para sanar o incidente. Com firmeza e descrição,  deu-lhe ordem de prisão,  levando-o rapidamente para fora da formatura. 

Foi tratado, de maneira humilhante, como "testemunha de Jeová". Passou pelo presídio militar para cumprir  a pena de prisão a que fora condenado pelo Tribunal Militar, até ser amnistiado  aquando da visita do papa Paulo VI a Fátima, em 13 de maio de 1967. 

Riram-se dele, os juízes militares, quando lhes disse que era metempsicosista, não tendo nada a ver com as testemunhas de Jeová.

– Metempsi... quê ?

– ...psicosistametempsicosista, aquele que acredita na transmigração das almas  – esclareceu o Xavier.

Não tiveram, suas excelências,  a mínima curiosidade em saber algo mais sobre a a crença do Xavier... Havia mais sentenças a lavrar nesse dia, pelo que,  sem mais delongas,  passaram ao caso seguinte, a de um tipo, desertor, que fora apanhado na fronteira de Vilar Formoso quando tentava fugir, "a salto", para fora do país...

Xavier Oliveira foi amnistiado parcialmente dos seus crimes militares, mas não se livrou da tropa. Acabou por aceitar repetir o juramento de bandeira e ir para o ultramar, não como alferes miliciano, mas como simples soldado básico. Não era o primeiro nem seria o último.

Na Guiné, um capelão mais "porreiro", acabou por aproveitá-lo como "sacristão", mesmo sabendo que ele, embora batizado, não era católico praticante. Calou-se. Aceitou a canga que lhe puseram em cima, como de outras vezes. Só queria que chegasse o fim daquele pesadelo, por volta de meados de 1969 (pelas suas contas). 

De resto, ninguém mais o queria para nada, nem para descascar batatas ou ir à lenha.  "Até parecia que tinha lepra". Toda a gente o rejeitava logo que ele abria a boca para dizer que estava na sexta reencarnação e tinha nascido em 1690. Alguns persignavam-se, julgando estar em frente de um fantasma. Outros chegaram a querer mandá-lo para a psiquiatria. "O gajo é doido varrido!"...

Àparte  alguns ataques e flagelações  a que esteve sujeito o seu aquartelamento no sul da Guiné, nunca pegou na G3 que lhe estava distribuída. Fazia gala em dizer que não sabia usá-la nem muito menos desmontá-la e montá-la. Devolveu-a ao quarteleiro. 

Quando o inimigo atacava, ele atirava-se para as valas e esperava que a tempestade (em geral, breve) passasse. Infelizmente houve quem tombasse a seu lado. E,  enquanto não chegava o cangalheiro de  Bissau para soldar o caixão de chumbo, era preciso limpar,  preparar e vestir condignamente o cadáver. 

Foi-lhe atribuída mais essa macabra tarefa. A princípio custou-lhe muito. Chegou a vomitar ao ver tripas de fora e membros decepados. Mas depois tornou-se banal o que antes era macabro. E até chamava "presuntos" aos cadáveres dos seus pobres camaradas.

Não havia eletricidade, muito menos câmaras frigoríficas. A casa mortuária era a acanhada capela do quartel. Os corpos entravam rapidamente em putrefacção. E o cheiro, nauseabundo, tornava o ar irrespirável. Quando o médico do batalhão estava na sede do batalhão, usava uma mistura de formol e fenol para preservar os cadáveres. O sacana do capelão furtava-se a esta tarefa que não cabia no seu múnus espiritual. Limitava-se a dizer as suas rezas, aspergir o corpo com água benta e fugir o mais rápido possível da  capela.

No fim, o Xavier até acabou, com justiça , por  ter um  louvor,  dado  pelo seu comandante de batalhão, um bom homem.

A sua sétima e última reencarnação tornou-se, entretanto, um incógnita angustiante. Mas  foi uma cigana, quem lhe leu a sina, pegando-lhe na mão direita. 

Tinha ele vinte anos, em 2044. E por ela soube alguns dos eventos mais dramáticos do seu hipotético futuro:

 (i) não chegaria ao séc. XXII (o que o deixou mais aliviado); 

(ii) a linha da vida não era muito legível no que respeitava  a futuras complicações de saúde; 

(iii) tinha uma linha do coração curta, com tendências monogâmicas, mas iria ter um grande amor (o que o deixou intrigado); 

(iv) a linha da cabeça era bem definida, mostrando determinação e lucidez (o que ele interpretou como um bom augúrio); 

e por fim, (v) a linha do destino também não era bem percetível... 

Desistiu de saber mais, quando a cigana pronunciou o topónimo "Cansalá"... Soou uma campainha na sua cabeça... Tinha lido em tempos um conto sobre o fim do império do Gabu e o suicídio coletivo dos seus defensores mandingas ante o cerco, em 1867, do poderoso exército  de Alfa Molo Balde, fula do Futa Djalon.

Cansalá era, de certo modo, a "pass-word", para uma terrível premonição sobre  o futuro da humanidade, que,  tal como ele, trazia ao peito, uma "bomba-relógio" em contagem decrescente...  

O seu atávico, secular, pessimismo veio ao de cima... Teve uma terrível crise existencial... E de fé. Pôs tudo em causa, os seus trezentos e muitos anos de vidas, afinal, todas elas absurdas... 

E numa bela noite de verão, de 2044,  foi até ao alto da praia de Paimogo (onde ele desembarcara, de um vaso de guerra,  com um pequeno grupo de ingleses, em agosto de 1807), perscrutou o vasto mar do Cerco, disse adeus às Berlengas, saudou o farol do cabo Carvoeiro e as traineiras que andavam à pesca da sardinha,  grafitou com "spray" a palavra "Cansalá" nas paredes do forte setecentista de Paimogo,  ligou os faróis do automóvel,  pôs um cêdê com a nona sinfonia de Beethoven, reclinou-se no assento do condutor, fez uma incisão , com um xis-ato,  na pele da zona peitoral, arrancou o "pace-maker",  e deixou-se entrar por aquela noite negra e eterna, que nunca mais teria madrugada... 

Foi a sua singela despedida da Terra da Alegria, como diria o poeta Ruy Belo se fosse vivo, e se ainda passasse o verão, como era seu costume, ali na praia, ao lado, da Consolação...

© Luís Graça (2024). Todos os direitos reservados. (Revisto em 7/2/2025)

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Nota do editor:

Último poste da série > 18 de junho de  2024 > Guiné 61/74 - P25653: Contos com mural ao fundo (Luís Graça) (30): Caminheiros

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Guiné 61/74 - P24827: Manuscrito(s) (Luís Graça) (240): Zé do Telhado (Penafiel, 1816 - Angola, Malanje, 1875): um caso de "banditismo social"? Entre o mito e a realidade - Parte VII

 

Fotograma nº 1 > "De herói a vilão", eis a história do Zé do Telhado, aqui, sargento patuleia, recebendo  a mais alta condecoração do país, a Torre e Espada, das mãos do general Sá da Bandeira, a quem salvou a vida, em combate, na Guerra da Patuleia (out 1846 / jun 1847), que se seguiu à Revolta da Maria da Fonte.

Fotograma nº 2 >  O fantasioso (no filme) assalto à Casa do Carrapatelo, Marco de Canaveses, sita nas faldas da serrra de Montedeiras e na margem direita do rio Douro, a escassos quilómetros na nossa casa em Candoz.


Fotograma nº 3 >    Um destacamento dos Granadeiros da Rainha, em perseguição, mal sucedida,  do Zé do Telhado e do seu bando, em 1852

Fotograna nº 4 >  Um filme "romântico" mas também um "western à portuguesa" onde há de tudo:  amor, perdição, ciúme, traição, nobreza, camaradagem, ação, coragem, assaltos, tiroteiro, loucas correrias a cavalo, duelo,  morte... Foi uma época, a da consolidação da monarquia constitucional, nas décadas de 20, 30, 40 e 50 do séc. XIX, violenta, pautada por sucessivos episódios de guerra civil (as chamadas "lutas liberais": dos liberais contra os absolutistas, dos liberais entre si)... Calcula-se que mais de 20 mil portugueses tenham morrido às mãos de portugueses... Estamos muito longe, portanto, do país de "brandos costumes" dos nossos contos de fadas e príncipes encantados...


Fotograma nº 5 > O "duelo de morte" com o José Pequeno, o "vilão da história", que traiu o bando, e aquem,  diz o Camilo, o Zé do Telhado,  cortou a língua com uma tesoura depois de morto. 

Mas o "ajuste de contas final" entre os dois teria sido na Lixa, e não na serra, como  vemos no filme de 1945 que, de resto, é considerado um "remake" do filme mudo, de 1929, realizado por Rino Lupo, com exteriores filmados no Solar de Beirós, São Pedro do Sul; o guião, por sua vez, tem como fonte  o livro de Eduardo Noronha (1859-1948), "José do Telhado: Romance Baseado sobre Factos Históricos" (1923)(As cenas do exterior deste primeiro filme, o de 1929, foram rodadas em diversos sítios por onde andou o "nosso herói": Amarante, Vila Meã, Lixa, Marco de Canaveses, Felgueiras, Serra do Marão, Sobreira em Caíde de Rei, Lousada, e na casa onde nasceu José do Telhado, em Recesinhos, no lugar do Telhado, Penafiel. Fonte:  Penafiel, Terra Nossa).

Fotogramas do filme "José do Telhado" (1945).  disponível no You Tube, na conta "MusaLusa". 

Uma das raras fotos da época (pormenor) do Zé do Telhado, de seu nome de batismo José Teixeira da Silva (c. 1816-1875), aqui com o seu irmão Joaquim Telhado, também ele bandoleiro, à sua direita. 

Fonte:   Manuel Vieira de Aguiar, "Descrição Histórica, Corográfica e Folclórica de Marco de Canaveses" (Porto: Esc Tip Oficina de S. José. 1947, 439 pp).   , 1947,  pág. 273. (Foto extraída do livro de Sousa Costa, " Grandes dramas judiciários: tribunais portuguees", Porto, O Primeiro de Janeiro, 1944)



Contracapa do livro de Camilo Castelo Branco, “Memórias do Cárcere”, II  Vol,  8ª ed. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, Lda, 1966, (1ª ed., Porto, 1862) (Coleçáo "Obras de Camilo Castelo Branco,  Edição Popular, 54")


1. Comentários de alguns dos nossos leitores sobre estes escritos do editor Luís Graça com referência ao Zé do Telhado, cujo "fantasma" ainda paira pelos vales do Sousa e do Támega e pelas serras à volta (Montemuro, Marão, Montedeiras...) (*)


(i) Francisco Baptista:

Amigo Luís Graça, já poucos escrevem, poucos comentam. Estamos todos a ficar com as pilhas gastas. Tu és dos poucos que continuas a dar grandes provas de vitalidade.

Gostei de saber por ti do Zé Telhado, de quem pouco sabia, como a maioria dos portugueses, sabem o nome e a fama de bandoleiro, que roubava aos ricos e dava aos pobres. Nem sabia que sobre ele já tantos escritores tinham escrito.

É natural que ele também te motivasse a ti pois além do mais era de perto de Candoz a outra terra que tu amas mais. Gostei de ler e espero por mais capitulos. Estou a pensar comprar também " As Memórias do Cárcere", de Camilo.

Obrigado. Grande abraço

22 de outubro de 2023 às 19:15 


(ii) Fernando de Sousa Ribeiro:

Estou um pouco como o camarada Francisco Baptista. No Porto, o Zé do Telhado é uma referência vaga, de uma espécie de Robin dos Bosques à portuguesa, que passou pela Cadeia da Relação da cidade antes de ser deportado para Angola. Só se fala nele quando se visita a cadeia (atual Centro Português de Fotografia) e se espreita a cela onde Camilo Castelo Branco viu o Rio Douro aos quadradinhos. Nessa ocasião fala-se de Ana Plácido, como não podia deixar de ser, e por arrastamento fala-se do Zé do Telhado também.

O encontro entre Camilo Castelo Branco e o Zé do Telhado na cadeia não terá sido o primeiro que eles tiveram. Muito tempo antes, o próprio Camilo foi assaltado pelo Zé do Telhado, numa ocasião em que viajava de diligência entre Vila Real e o Porto! O próprio Camilo fala no assalto num dos seus incontáveis livros (não me recordo de qual) e chama patife, facínora, ou outros nomes equivalentes, ao seu assaltante. Mal sabia ele que iria encontrar-se de novo com o antigo salteador na cadeia e que iria refazer a imagem que tinha feito dele.

Durante a minha comissão militar em Angola nunca ouvi falar do Zé do Telhado, nem uma só vez. Inclusivamente, no meu grupo de combate havia dois militares negros naturais de Malanje e nunca os ouvi fazer qualquer referência a ele. Já os brancos de Angola admiravam outras personagens, que não o Zé do Telhado; admiravam Paulo Dias de Novais, Salvador Correia de Sá, Silva Porto, Norton de Matos, etc.

23 de outubro de 2023 às 02:02

(iii) José Teixeira;

O Zé do Telhado tinha bem demarcada a sua zona de atuação. Do Marco de Canavezes a Vila Real até Cete, Paredes, sobretudo na orla da estrada real. A conhecida estrada Porto a Vila Real com uma variante para a Régua. Era a estrada por onde passavam os grandes comerciantes do Vinho Fino, vulgo, Vinho do Porto. 

A minha avó falava muito do Zé do Telhado, dado que o meu visavô foi contemporâneo dele. O Lugar da Árvore em Caíde, um entroncamento de estradas,  era um dos sítios onde ela costumava fazer as emboscadas. Recordo-me de em criança passar por lá várias vezes a caminho de Vila Meã. Havia sempre uma história contada pela minha avó sobre o meliante. A admiração que os mais velhos tinham pelo Zé do Telhado ia assim passando para os mais novos. Para a minha avó o Sr. José do Telhado tinha sido um grande homem. Ele roubava aos ricos para dar aos pobres e havia sempre mais uma história para contar.

20 de setembro de 2023 às 22:42 

(iv) Valdemar Queiroz:

Quanto ao apelido/alcunha "do Telhado", há três versões.

A mais conhecida é a de ser um salteador que entrava pelo telhado, outra que a casa do pai era a única com telhado de telhas em vez de colmo como as outras e a que parece mais lógica era de ser natural do aldeia/lugar de Telhado e assim ser conhecido quando foi viver para os lados de Lousada.

Antes de ser assaltante era castrador de animais e já lhe chamavam o Zé do Telhado.

No filme "Zé do Telhado", com Vergílio Teixeira, há uma cena em que ele, numa taberna, aperta a mão a outro bandidolas provocando-lhe dores.

Foi uma grande treta, o outro bandidolas era Juvenal Araújo que eu conheci, já dentro dos cinquenta anos, mas quando fez o filme era um matulão que ganhava apostas por rasgar uma lista telefónica fechada, o que deixaria o Vergílio Teixeira com as falanginhas e falangetas partidas.

15 de setembro de 2023 às 14:49

(v) Luís Graça:

O mito do país dos brandos costumes é uma invenção do salazarismo: "antes de nós o dilúvio, depois de nós o caos"... Não é por acaso que o séc. XIX era pura e simplesmente ignorado na escola (e na universidade, pouco ou nada investigado pelos historiadores)...

O que é que a gente sabia sobre o século em que a liberdade e a justiça passaram a ser também uma bandeira, pela qual muitos portugueses se bateram e morreram?!... Afinal, o século em que passámos a ter uma constituição, se consolidou a monarquia constitutucional, se derem passos importantes no processo de "modernização", se aboliu a escravatura e a pena de morte...

13 de outubro de 2023 às 12:37

Em 1945 fizeram um "western" à portuguesa em que o nosso Zé do Telhado (interpretado pelo galã Virgílio Teixeira) é um perfeito oficial e cavalheiro. (Só dei uma rápida vista de olhos ao filme disponivel no You Tube, parte dos exteriores terão sido rodados na nossa serra de Montedeiras.)

O filme está disponível aqui, na conta : https://www.youtube.com/watch?v=i_6MmOOrDh4

O cinema também serve para falsificar ou reinventar  ou reescrever a história... (O filme de 1945 não pretende ser  "uma biografia, mas  uma obra livremente inspirada na vida do célebre salteador"...)




Cartaz do filme "José do Telhado" (1945), a preto e branco, 98 minutos: produzido e realizado por Armando de Mirando, e contracebado por Virgílio Teixeira e Adelina Campos, nos dois principais papéis. Os exteriores foram filmados em Vouzela, em 1945. O filme foi estreado no Porto (Coliseu, em 15/12/1945), e emLisboa (Polteama, 16/1/1946). Fonte: Cinept / UBI (com a devida vénia...)



2. Vamos reproduzir mais alguns excertos das "Memórias do Cárcere" (1ª edição, 1862), em que o Camilo Castelo Branco traça um retrato-robô, lisonjeiro, quase hagiográfico, sobre o seu  companheiro de infortúnio (mas também precioso "guarda-costas" ...), nos calabouços do Tribunal da Relação do Porto, retrato esse que de algum modo ficou, acriticamemte, para a posteridade, criando-se assim o mito do "Robin dos Bosques português"... Afinal, também temos direito a ter um... A tradição popular, outros escritores, menores,  o cinema e a televisão (veja-se a série da RTP, "João Semana")  têm contribuido para reforçar o mito do "banditismo social"..  (Convém lembrar que Camilo não era historiógrafo, era um ficcionista, um "folhetinista", que escrevia muito, em pouco tempo, e em função do seu "nicho de mercado", que era uma clientela urbana ou urbanizada, letrada, que lia jornais,  "folhetins" e alguns livros,  com poder de compra, em suma, a pequena e a média burguesia liberal socialmente em ascensão.)

Os excertos aqui reproduzidos são os da 8ª edição (Camilo Castelo Branco, “Memórias do Cárcere”, II  Vol,  8ª ed. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, Lda, 1966)

(...) “Este nosso Portugal é um país em que nem pode ser-se salteador de fama, de estrondo, de feroz sublimidade! Tudo aqui é pequeno: nem os ladrões chegam à craveira dos ladrões dos outros países! Todas as vocações morrem de garrote, quando as manifestam e apontam a extraordinários destinos (...) (pág. 83)

(…) "Na noite de 22 de Maio [de 1852] (**) deu José do Telhado batalha campal à tropa no local denominado Eira dos Mouros [freguesia de Santa Cristina de Figueiró, concelho de Amarante, distrito do Porto] (**)

O destacamento de infantaria 2  (***) conseguira capturar dois salteadores e descera com eles a uma estalagem,  para descansar. Aí o surpreendeu a horda com o chefe montado em fogosa égua. Chegou ele ao terreiro da estalagem, e exclamou: "Carregai com quartosn (****),  rapazes, que está aqui José do Telhado." 

Saiu fora a tropa, e empenhou-se um tiroteio,  que rematou pela retirada do destacamento. O chefes sustentou sempre a vanguarda da avançada, fazendo fogo de pistola e clavina. 

Estavam os dois saltadores prisioneiros na cavalariça da estalagem: um fugira logo que rompeu o fogo, o outro ficara na impossibilidade de erguer-se sobre as pernas cortadas de balas.

− Vem!   − disse o capitão ao salteador ferido.

− Não posso; matem-me que eu estou sem pernas.

− Faz o ato de contrição  − retrucou o chefe.

 O ferido resmuneou o acto de contrição ,  e a estalajadeira verteu lágrimas piedosas. 

José dos do Telhado  estirou-a com uma bofetada, e  desfechou contra o peito do camarada, dizendo;

− Acabaram-se-te os teus trabalhos,  e os meus  estão em  começo. Adeus!    

O cadáver não podia responder a este saudoso vale do seu chefe. (pp. 95/96)


(…) Noutra noite, cercou-lhe a  tropa a casa, estando ele no primeiro sono. Despertou-o  a mulher, e ajudou-o a vestir muito de seu vagar. Caminhou para uma porta transversal, e retrocedeu a ir buscar o  relógio esquecido, e a dar ordens ao criado para lhe conduzir de madrugada o cavalo a designado sítio. Abriu uma janela,  e disse para os soldados:

− Que tal está a noite, rapazes ? 

Retirou da janela, e  abriu a pequena porta, que defrontava com uma cortinha para a qual relevava saltar por cima de um quinchoso.  Aí estavam postados três soldados. José Teixeira aperrou a clavina  de  dois canos, e disse: 

− Agachem-se, que quero saltar.  Os dois primeiros que se moverem, passo por cima deles mortos. 

Os soldados agacharam se, e ele saltou.  Já de dentro da cortinha, atirou dois pintos (*****) aos soldados, e e disse-lhes:

−  Tomai lá para matar o bicho à saúde do José do Telhado.

E foi seu caminho pacífica e detidamente como se andasse espreitando a toupeira no seu meloal.  Teria ele tempo de palmilhar um oitavo de légua, quando lhe deram uma descarga. (...) (pág. 97)

(...)  José Teixeira folgava de entremeter incidentes cómicos nas suas assaltadas. A uma dama de Carrapatelo dera ele um beijo de despedida, e à mulher do senhor Camelo perguntara de que lhe servia o dinheiro, se não podia comprar uma cara mais nova e menos feia

O senhor Bernardo José Machado, muito conhecido comerciante  do Porto, ia um dia para Cerva [Ribeira de Pena, no Alto Tâmega] , sua terra natal , e alcançara,  a distância curta do Torrão, um cavaleiro bem posto no seu corpulento cavalo, e acamardou-se com ele na jornada. Falavam vários assuntos, e caiu a propósito os perigos de jornadear por tais sítios infestados pelo terrível  Zé do Telhado. 

O cavaleiro mostrou-se também horrorizado pela hipótese de o encontrarem,  e ouviu da bocado  senhor Machado a história dos flagicídios do célebre bandoleiro.  Apearam  numa estalagem, e jantaram o mais lautamente que podia ser.  O cavaleiro mudara de estrada.  e despediu-se do senhor Machado, que lhe ofereceu os seus préstimos. Pediu o comerciante a conta à estalajadeira,  e soube que o outro sujeito pagara a despesa. Perguntou o viajante, quem era aquele cavalheiro, e a mulher respondeu que era o José do Telhado. 

É bem de ver que o senhor Machado, em vista do panegírico com que o brindara,  não foi muito a seguro de o topar adiante com outra cara, ocasionando lhe um facto novo para realçar a história. (...) (pág. 99),


(...) O libelo cerra a meda dos crimes do José do Telhado om a tentativa de evasão para reino estrangeiro sem passaporte. 

A morte de José, denominado o pequeno, por antifrase, não vem incluída na acusação.

José Pequeno era agigantadado de estatura, e  o mais cruel da malta, comandada por José do Telhado.

Custava muito ao chefe refrear-lhe o instinto sanguinário; mas com melindre o fazia,  porque o parceiro era o único de quem  ele se receava em luta de braço a braço.

Andava José Pequeno cogitando no expediente mais azado a livrar-se de perseguições,  e tentou-o o demónio a atraiçoar os companheiros. Foi a malta surpreendida, estando  ausente o denunciante. Comandava a força o destemido Adriano José de Carvalho e Melo, Administrador do Marco de Canaveses. 

Carregou tão brava a polícia sobre a chusma dos ladrões,  que lhes foi remédio a fuga. Aí recebei José Teixeira uma bala nas costas a qual, segundo ele diz, o fizera saltar dez passos avante contra sua vontade. A bala  produziu-lhe  na coluna vertebral um choque elétrico meramente. 

Ao outro dia, José Teixeira teve de evidência que seu companheiro o denunciara.  Ao anoitecer foi à Lixa [concelho de Felgueiras]  onde pernoitava o traidor, entrou-lhe em casa,  e disse-lhe:

− Não te quero matar â traição; previne-te  como quiseres, que um nós há de morrer aqui.

− Ou ambos!  − disse o José Pequeno, lançando mão da faca.

−  Ou isso ! −  redarguiu o José do Telhado,  sacando de uma tesoura. E acrescentou:

−  Hei de  cortar-te com ela a língua. 

A primeira arremetida que se fizeram, apagaram a luz da vela,  e arcaram peito a peito. Revolveram-se na escuridade um quarto de hora, rugindo alternadamente injúrias e pragas ferozes. 

José Teixeira já tinha um braço rasgado; mas José Pequeno expedira o último rugido pela fenda que a tesoura lhe abria na garganta. O chefe ergueu o joelho sobre o peito do cadáver, quando  os dois gumes da tesoura se encontraram ao través da língua que o denunciara. 

O homicida aparecer na Lixa ao outro, e disse a multidão parada à porta do morto:

− Se não sabem quem matou este traidor, aqui o têm.

 E passou adiante. obrigando o cavalo a garbosa upas. 

Coisa é digna de reparo, que o ministério público não desse querela contra o assassino. Bem pensada a irregularidade, dá de si que a moral pública, representada pela polícia criminal e administrativa, propôs um voto de gratidão ao matador do formidável celerado da Lixa. (...) (pp. 100-102)

In: Camilo Castelo Branco, “Memórias do Cárcere”, II  Vol,  8ª ed. Lisboa, Parceria A. M. Pereira, Lda, 1966, (1ª ed., Porto, 1862) (Coleçáo "Obras de Camilo Castelo Branco,  Edição Popular, 54")~

(Seleção / revisão e fixação de texto / negritos / parênteses retos: LG)

Este obra está disponível em formato pdf, no sítio da Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, 2020, 232 pp, edição de Ivo Castro e Raquel Oliveira,  distribuição gratuita. (Segue a 2ª edição, revista pelo autor, Porto, 1864.)

https://imprensanacional.pt/wp-content/uploads/2022/03/Memorias-do-Carcere.pdf?btn=red

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(**) Vd. José Manuel de Castro - José do Telhado- Vida e aventura, a realidade. a tradição popular. Ed. autor, 1980, 193 pp., il. (Tipografia Guerra, Viseu).

(***) Vd. Wikipedia: Na época(1852) era conhecido por Regimento de Granadeiros da Rainha, unidade de elite criada em 1842, responsável pela guarda pessoal da Rainha D. Maria II; em 1855, o regimento adopta a actual designação de RI2 - Regimento de Infantaria 2, com sede em Lisboa. Quando Camilo escreveu as "Memórias do Cárcere" já era RI 2,

(****) O "quarto" era um equena bala de chumbo, de forma angular.

(*******) Na época o "pinto" valia cerca de 480 réis. Também era conhecido como "cruzado novo".