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terça-feira, 8 de abril de 2025

Guiné 61/74 - P26662: Álbum fotográfico do Padre José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, CCS/BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) - Parte XXIII: Mais fotos de Mansabá, novembro de 1970

 


Foto nº 1 > Coluna Mansabá-Mansoa



Foto nº 2A e 2 _ Coluna Mansabá Mansoa - Mansabá  



Foto nº 3 > Mansabá _ Obus 8.8


Foto nº 4 >  Mansabá > Espaldão e obus 8.8



Foto nº 5 > Mansabá > Mesquita


Foto nº 6  > O Padre Zé Neves com um grupo de "djubis" junto à mesquita


Foto nº 7 > Mansabá > O mercadinho local


Foto nº 8 > Mansabá > Junto à messe dos oficiais > O impedido João Carlos Freitas, já falecido



Foto nº 9 >  Mansabá > 11OUT1970 > Participação de miliares e civis  na missa de sufrágio por alma do alf mil art  MA, Armando Couto, da CART 2372, vitima de mina IN (1)




Foto nº 10 e 10A  >  Mansabá > Participação de militares na missa de sufrágio por alma do alf mil art  MA, Armando Couto, da CART 2372, vitima de mina IN
 

Foto nº 11 > Mansabá > Os putos

Guiné > Zona Oeste > BCAÇ 2885 (Mansoa) > Mansabá >Novembro de  1970> Fotos do álbum do Padre José Torres Neves, capelão

Fotos (e legendas): © José Torres Neves (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1, Mensagem do Ernestino Caniço (ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 2208, Mansabá e Mansoa; Rep ACAP - Repartição de Assuntos Civis e Ação Psicológica, Bissau, fev 1970/fev 1971, hoje médico, a residir em Tomar; fez amizade com o Zé Neves, e este confiou-lhe o seu álbum fotográfico da Guiné, que temos vindo a publicar desde março de 2022; são cerca de duas centenas de imagens, provenientes dos seus diapositivos, digitalizados; uma coleção única, preciosa.( Ele tem sido zeloso e diligente guardião do álbum fotográfico da Guiné, do padre missionário José Torres Neves, merecendo os dois os nossos melhores elogios e saudações.)

Curiosamente, o Ernestino Caniço também teve um irmão no CTIG na mesma altura (foi fur mil cav, tendo passado por Mansabá, Bula, Bambadinca e Hospital de Bissau; temos duas fotos dos manos, em Bissau,  para apresentar um dia destes.)

Data -. sexta, 4/04/2025, 21:12

Assunto - Fotos do Padre Zé Neves

Caros amigos

Que a saúde vos acompanhe preferencialmente até aos 120 anos.

Desta vez anexo a penúltima série de fotografias sobre Mansabá, que o Carlos Vinhal bem conhece.

Aqui ficam expressos votos de uma feliz Páscoa junto dos vossos familiares.

Um grande abraço,

Ernestino Caniço


2. Continuação da publicação das fotos relativas a Mansabá, do álbum da Guiné do nosso camarada José Torres Neves, ex-alf graduado capelão, BCAÇ 2885 (Mansoa, 1969/71) (*).

Membro da nossa Tabanca Grande, nº 859, desde 2 de março de 2022, é missionário da Consolata, tendo sido um dos 113 padres católicos que prestaram serviço no TO da Guiné como capelães. No seu caso, desde o dia 7 de maio de 1969 a 3 de março de 1971. 

Veio há pouco tempo de África, vive agora em Lisboa com a bonita idade de oitenta e muitos anos. Deus, Alá e os bons irãs o protejam e deem-lhe ainda mais uns bons anos de vida para gozar a sua merecida reforma...

Recorde-se que por Mansabá, na região do Oio,  passaram diversos camaradas nossos, que fazem parte da Tabanca Grande (citamos de cor, 
são apenas alguns dos nomes que nos vêm à cabeça)...

  • Carlos Vinhal,
  • Inácio Silva,
  • Francisco Baptista,
  • César Dias, 
  • José Carvalho, 
  • Vitor Junqueira, 
  • Francisco Godinho,
  • Hilário Peixeiro,
  • Ernesto Duarte, 
  • Ernestino Caniço (e o irmão, Nelson Caniço),
  • António Pimentel, 
  • Raul Albino
  • António J. Pereira da Costa,
  • Carlos Pinto, 
  • Jorge Picado, 
  • Manuel Joaquim, 
  • José Rodrigues, etc.

 Não sabemos exatamente em circunstâncias é que o nosso capelão esteve em Mansabá, e por quantos dias. Ele frequentava todos os aquartelamentos e destacamentos do setor de Mansoa, a cargo do BCAÇ 2885. Terá deixado de ir a Mansabá quando esta passou a ser a sede do COP 6. (Reativado em 11 de novembro de 1970: abrangia  os subsetores de Mansabá e Olossato, e a sua missão era assegurar a continuação e o bom andamento da construção da estrada Mansabá-Farim.)

Sobre Mansabá temos cerca de 340 referências no nosso blogue.
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quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Guiné 61/74 - P25985: Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) - Parte X: o pai chamava-lhe o "C"... e, embora não fosse crente, foi a Fátima a pé, para cumprir uma promessa que fizera, caso o filho regressasse inteiro...



Guiné > Região de Tombali >  Catió >  c. 1964/65 > Espaldão do obus 8.8. Ao lado, o comandante do Pel Art, alf mil art José Álvaro Carvalho, populamente conmhecido por "Carvalhinho"




Guiné > s/l (Região de Tombali ? ) >  Catió  (?) >  c. 1964/65  (?) >  O  alf mil art José Álvaro Carvalho sentado a escrever

Fotos: © José Álvaro  Carvalho (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Capa do "Livvro de C", de José Álvaro
Almeida de Carvalho (Lisboa
Chiado Books, 2019, 710 pp.)
 
1. Publicamos hoje a X (e última) parte das memóras do ex-alf mil art, José Álvaro Carvalho (*), membro nº 890 da nossa Tabanca Grande, desde 26 de junho de 2024 (**):

(i) tem 85 anos, sendo natural de Reguengo Grande, Lourinhã;

(ii) com 26 meses de tropa, acabou por ser moblizado para o CTIG por volta da primavera de 1963 (não conseguimos ainda apurar a data);

(iii) foi render um alferes de uma companhia de intervenção, de infantaria, sediada em Bissau (QG/CTIG) (não conseguimos ainda identificar qual);

(iv) irá cumprir mais uns 26 ou 27 meses, no TO da Guiné, entre o primeiro trimestre de 1963 e o início do segundo semestre de 1965;

(v) passou por Bissau, Olossato, Catió e a ilha do Como, aqui já a comandar um Pel Art, obus 8.8 (a duas bocas de fogo), com que participou, entre outras, na Op Tridente (jan-mar 1964);



Guiné > Região de Tombali > Ilha do Como > Ilustração,  "Tridente - Memórias de um Veterano", de António Manuel Constantino Vassalo Miranda (2007)
(com a devida vénia...)


(vi) no CTIG era popularmente conhecido pelo seu nome artístico, "Carvalhinho" (cantava o fado de Lisboa e tocava guitarra); em Bissau, chegou a fazer espetáculos com o alf médico Luís Goes (que cantava e tocava o "fado de Coimbra");

(vii) tornou-se também amigo dos então alferes milicianos 'comandos' Justino Coelho Godinho e Maurício Saraiva (já falecidos), quando se estavam a organizar os Comandos do CTIG (ofereceu-se para os "comandos",mas não foi aceite);

(viii) o José Álvaro Almeida de Carvalho (seu nome completo) publicou em 2019 o "Livro de
 C", Lisboa, na Chiado Books (710 pp.)  ("C" é o "nickname" pelo qual o pai o tratava);

(ix) é empresário reformado, trabalhou também como quadro técnico em empresas metalomecânicas como a L. Dargent Lda; aqui foi diretor do departamento de trabalhos exteriores, e sócio minoritário (fez, por exemplo, a montagem da superestrutura metálica e cabos de suspensão da ponte na foz do Rio Cuanza em Angola).



2. Em Catió ficou adido ao BCAÇ 619 (1964/66), comandando um Pel Art obus 8.8 a duas bocas de fogo. Participou em grandes operações no setor de Catió ("Tridente", "Broca", "Macaco", "Tornado" e "Remate"). A sua atuação operacional, como comandante do Pel Art, valeu-lhe, em 1967, uma Cruz de Guerra de 3ª Classe.


O alferes Carvalho esteve em dois meses na Ilha do Como, no àmbito da Op Tridente (jan-mar 1964).

 
Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) 

Parte X:   o pai chamava-lhe o "C"... e, embora não fosse crente,  foi a Fátima a pé, para cumprir uma promessa que fizera, caso o filho regressasse inteiro...



O horizonte era verde visto do pequeno avião em que voava com o piloto, por cima da floresta.

Ia ali para poder dar as ordens de fogo ao sargento que ficara a comandar as bocas de fogo. Tinha que observar o tiro de avião por não haver referências no matagal cerrado.

De cima havia duas tonalidades de verde. Um mais escuro da floresta mais elevada, com raízes em terra firme e o outro mais claro, que era a maior parte, da floresta com menos porte que nascia na lama e era inundada na maré cheia. Esta multiplicava-se com ramos que desciam da parte superior até ao chão
e se enterravam depois na lama e assim enraizavam. Eram mais tarde o habitat natural de ostras que aos milhares a estes se vinham agarrar.

De terra disseram que estavam a vê-lo.

Respondeu:

− Dispara um very-light para te poder assinalar no mapa.

Daí a pouco subiu um no céu, que assinalava a posição do pelotão sobre o lado esquerdo, a qual pela direcção da bússola do avião e pela distância percorrida, marcou no mapa.

Estou a ser emboscado. Tenho feridos.

Enviou ao sargento os elementos de fogo para 500 jardas á frente da posição assinalada. Pouco depois ouviu os disparos pela rádio. Pelas tabelas de tiro calculou o tempo que as granadas levavam a chegar e na altura própria disse ao piloto:

 − Pique sobre o objetivo cerca de 1 km à direita do ultimo rebentamento.

O piloto assim fez. Começaram a ouvir-se os pec pec pec das chicotadas das balas das metralhadoras inimigas apontadas ao avião, á medida que se aproximavam do objetivo.

E de repente o rebentamento das duas granadas enviadas:

− Broummmmm! Broummmmm!

O comandante do pelotão disse: 

− A direcção está certa mas os tiros estão compridos.

Entretanto o comandante da companhia de intervenção informou que já tinha vindo para o local um novo pelotão de reforço. Pediu também ao alferes deste pelotão que disparasse um very-lyght para o assinalar no mapa o que veio a acontecer daí a pouco.

Disse ao Sargento para encurtar a alça 200 jardas e disparar quando pronto.

Daí a pouco ouviu no rádio este ordenar: 

Fogoooo! – duas vezes.  

E daí a alguns minutos viu-se e ouviu-se o rebentamento das granadas:

 − Broummmmm! Broummmmm!

A chicotada das balas do inimigo a passarem junto ao avião intensificou-se: Pec! Pec! Pec! .... O piloto disse:

− Ou nos pomos a andar daqui ou vamos parar lá abaixo.

Respondeu o alferes Carvalho: 

− Vamos embora.

O piloto descreveu uma curva larga para a direita e subiu. Depois voou de novo para a esquerda para não se perder o contacto rádio dos comandantes do pelotão. Este disse: 

− Preciso de mais alguns tiros 500 metros à direita e à esquerda.

Deu ao sargento do pelotão ordens de fogo nesse sentido.

Pouco depois o piloto disse:

 
− Temos que reabastecer.

Disse para terra:

− Fogo terminado. Vamos reabastecer. Depois vimos de novo.

Regressaram à pequena clareira coberta de erva alta que servia de pista, na sede do batalhão,  onde pousaram.

Enquanto se processava o reabastecimento, aproveitou para desenferrujar as pernas. O espaço no pequeno avião era muito apertado e mal lá cabiam ele e o piloto. Aproveitou também para refletir sobre a sua vida, o que dum modo geral evitava.

Naquele dia o alferes Carvalho  deu-lhe para aquilo. Pensou na família e principalmente no pai, que tinha pago à mais variada casta de traficantes, amiguistas, supostos influentes do regime, etc. para que ele não viesse a África.

Pedia-lhe frequentemente para acompanhar um ou outro, a falar aqui e ali, supostos de moverem influências nesse sentido mas o que queriam era apanhar-lhe dinheiro.

Nunca se sentira muito bem neste papel e duvidou sempre da capacidade desses indivíduos para realizar o que se propunham. Por outro lado, toda a sua geração estava a caminhar para África e não lhe parecia muito correto evitar fazê-lo.

Até que um dia no seguimento de mais uma dessas diligências disse :

 − Ó pai,  deixemo-nos disto. Já devia estar em África há muito tempo!  − o que deixou toda a gente boquiaberta.

Mas o pai nunca desistiu. Já próximo do final da comissão recebera uma carta dele a dizer :

−  Agora é que conheci um sujeito que te vai tirar daí.

Continuava nestas diligências não só por si mas também pressionado pela mãe.

Quando mais tarde regressou, o pai, embora não fosse crente foi a Fátima a pé, para cumprir uma promessa que fizera de assim fazer se o filho regressasse inteiro.

Acreditava que nos movimentos de libertação havia boa gente, mas também muitos oportunistas. Quanto ao recrutamento de soldados, havendo dinheiro era fácil de fazer em África.

Por fim pôs-se a pensar na filosofia da guerra. Há cerca de dois mil anos, um imperador chinês de grande sucesso, adotou e impôs na China uma filosofia (mais tarde religião ) – “Legalismo “ – que se fundamentava em que o homem era por natureza mau e,  não sendo regido por leis e regras rígidas, destruiria a sociedade. No seguimento desta imposição proibiu o Confucionismo e o Taoismo, filosofias mais antigas e moderadas. 

Com base nestas novas regras e leis, este imperador veio a unificar o país, a escrita e a moeda, sendo assinalado como um dos grandes criadores da civilização chinesa.

Por outro lado a formação que tivera, fizera-o acreditar que havia uma grande falta de tolerância no mundo. A tolerância pode ser real ou imaginária. Esta última, a mais comum, fundamenta-se no princípio de que uma coisa é adotá-la e outra concretizá-la, mesmo quando colide com os nossos interesses materiais ou ideológicos.

No que a si se refere, naquela situação optou pela filosofia do verdadeiro soldado, que é a de que as ordens não se discutem.

Todos estes pensamentos pareciam contraditórios, já que era,  por educação, de cultura antimilitarista.

Procurou incutir ao seu pessoal o comportamento de soldado acima referido e talvez por isso o seu pelotão fora elogiado ou louvado em todas as operações em que participou.

Sendo talvez também por isso que, não tendo condições para integrar qualquer exército, acabou por ser condecorado com uma cruz de guerra.

Nas horas vagas o que lhe dava o maior prazer era alhear-se de tudo e de todos e escrever versos nem sempre muito coerentes, principalmente nos que pretendia descrever a vida duma personagem histórica que o fascinava: Menés,  o primeiro faraó do Egipto que viveu há cerca de 5000 anos.

Descendente duma tribo do Sul,  conseguiu conquistar e unificar todo o vale do rio Nilo. Região cuja prosperidade se começara a fazer notar e cujos excessos de produção permitiam que uma parte significativa da sociedade se dedicasse a atividades diferentes do cultivo, recolha,  caça ou conquista de alimentos. 

No que se refere à religião que derivou da feitiçaria, acabou por se tornar ainda no seu tempo numa notável organização de alguns sacerdotes a que ele próprio presidia na qualidade de Horus,  o deus falcão,  descendente principal de Amon --Rá,  adorado pelo clã da tribo de que descendia e modelo do seu símbolo totémico, distribuídos por alguns locais de adoração, dedicados a outros tantos deuses todos descendentes de Amon-Rá e Hórus que detinham o poder e a maior parte da riqueza existente.

Estes locais de adoração vieram muito mais tarde, nas dinastias que se lhe seguiram,  a transformar-se em sumptuosos templos.

Assim que enchia um caderno com versos destes, levava-o para o Quartel General, na capital, e guardava-o juntamente com os restantes num cacifo que tinha na messe de oficiais. Queria deixar estas recordação ao filho que viesse a ter.

(Revisão / fixação de texto: LG)

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 16 de setembro de 2024 > Guiné 61/74 - P25947: Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) - Parte IX: De novo em Catió... P*rra, deixem-me comer o petisco em paz!

(**) Vd. poste de 26 de junho de 2024 > Guiné 61/74 - P25684: Tabanca Grande (560): José Álvaro Almeida de Carvalho, ex-alf mil art, Pel Art / BAC, obus 8.8 m/943 (1963/65) , adido 14 meses ao BCAÇ 619 (Catió, 1964/66): senta-se no lugar nº 890, à sombra do nosso poilão

domingo, 8 de setembro de 2024

Guiné 61/74 - P25921: Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) - Parte VIII: Uma voltinha de Alouette II


Guiné > Região de Tombali > Catió > CCAÇ 617 / BCAÇ 619 (Catió, Ilha do Como e Cachil, 1964/66) > Alouette II > "O meu batismo em heli".

Foto (e legenda): © João Sacôto (2019). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]
 



1. Estamos a publicar algumas das memóras do ex-alf mil art, José Álvaro Carvalho, membro  nº 890 da nossa Tabanca Grande:

(i) tem 85 anos, sendo natural de Reguengo Grande, Lourinhã;

(ii) com 26 meses de tropa, acabou por ser moblizado para o CTIG por volta da primavera de 1963 (não conseguimos ainda  apurar a data);

 (iii) foi render um alferes de uma companhia de intervenção, de infantaria, sediada em Bissau (QG/CTIG) (não conseguimos ainda identificar qual); 

(iv) irá cumprir mais uns 26 ou 27 meses, no TO da Guiné, entre o primeiro trimestre de 1963 e o início do segundo semestre de 1965;

 (v) passou por Bissau, Olossato, Catió e a ilha do Como, aqui já a comandar um Pel Art, obus 8.8 (a duas bocas de fogo), com que participou, entre outras, na Op Tridente (jan-mar 1964);

(vi) no CTIG era popularmente conhecido pelo seu nome artístico, "Carvalhinho" (cantava o fado de Lisboa e tocava guitarra); em Bissau, chegou a fazer espetáculos com o alf médico Luís Goes (que cantaca e tocava o "fado de Coimbra"); 

(vii) tornou-se também amigo dos então alferes milicianos 'comandos' Justino Coelho Godinho e Maurício Saraiva (já falecidos), quando se estavam a organizar os Comandos do CTIG (ofereceu-se para os "comandos",mas náo foi aceite);

 (viii) o José Álvaro Almeida de Carvalho (seu nome completo) publicou em 2019 o "Livro de C", Lisboa, na Chiado Books (710 pp.) ("C" é o "nickname" pelo qual o pai o tratava); 

(ix) é empresário reformado, trabalhou também como quadro técnico em  empresas metalomecânicas como  a L. Dargent Lda, de que  o Zé Álvaro era diretor do departamento de trabalhos exteriores, e sócio minoritário (fez , por exemplo, a montagem da superestrutura metálica e cabos de suspensão da ponte na foz do Rio Cuanza em Angola).

2. Voltando às memórias do José Álvaro Carvalho (*), estamos agora em 1964, em Catió, no BCAÇ 619, 1964/66: ele está destacado com um Pel Art 8.8 a duas bocas de fogo,  e vai participar em grandes operações no setor de Catió ("Tridente", "Broca", "Macaco", "Tornado" e "Remate"). A sua atuação operacional, comandante do Pel Art,  valeu-lhe, em 1967, uma Cruz de Guerra de 3ª Classe.

O alferes Carvalho está já há dois meses na Ilha do Como, no àmbito da  Op Tridente (jan-mar 1964).  



Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) (*)


Parte VIII:  Uma voltinha de Alouette II



O tempo continuava mole, quente e húmido. Nessa manhã não tinham atribuído missões ao alf mill art Carvalho e não lhe constava que houvesse tropas em operação que fosse preciso apoiar.

O pessoal vagueava por perto. Foi almoçar à messe. A seu lado um piloto de helicóptero disse-lhe:

− Vou reabastecer à sede do seu batalhão. Se quiser pode vir. Não demoro mais do que duas horas.

Aceitou a oferta para trazer mais alguma roupa e outras faltas que com a pressa não tinha podido arranjar.

Gostou de ver o quartel que,apesar do aspeto degradante que tinha, era bem melhor do que o acampamento em que o pelotão se encontrava havia 2 meses.

No regresso avistaram uma gazela macho de muito bom aspeto, num local com pouca floresta rodeado de mata com lama e circundado por um canal. A gazela queria fugir do helicóptero mas só nadando através do canal.  o que não quis fazer para não cair na boca de algum crocodilo, de modo que se limitou a correr desabrida à volta da clareira à procura de uma saída.

Um pouco mais á frente avistaram,,  ao abrigo duma árvore grande, vários guerrilheiros que,  ao verem o helicóptero, cuja presença já tinham decerto notado, pelo ruído, começaram a disparar as armas na sua direção. 

O piloto deu uma volta sobre estes na intenção de lhes mandar 2 ou 3 granadas de mão, mas era tarde. 

Decidiram prosseguir e,  ao chegar ao acampamento, enviar-lhes algumas granadas de flagelação de obus para o local, que poderia ser só de passagem mas também de estacionamento permanente e que era bom tornar inseguro. Com a autorização do comandante, ao chegar, assim procedeu.

(Revisáo / fixação de texto: LG)
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domingo, 1 de setembro de 2024

Guiné 61/74 - P25901: Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) - Parte VII: "Carvalhinho, você ainda me mata algum homem, temos tropas na mata! " (ten cor Fernando Cavaleiro, cmdt da Op Tridente)



Foto à direita: os alferes milicianos José Álvaro Carvalho ("Carvalhinho"), do QG / CTIG (em 1º plano, à esquerda), e João Sacôto, da CCAÇ 617/ BCAÇ 619, em 2º plano, à direita



1. Estamos a publicar algumas das memóras do ex-alf mil art, José Álvaro Carvalho, membro  nº 890 da nossa Tabanca Grande:

(i) tem 85 anos, sendo natural de Reguengo Grande, Lourinhã;

(ii) com 26 meses de tropa, acabou por ser moblizado para o CTIG por volta da primavera de 1963 (não conseguimos ainda  apurar a data);

 (iii) foi render um alferes de uma companhia de intervenção, de infantaria, sediada em Bissau (QG/CTIG); 

(iv) irá cumprir mais uns 26 ou 27 meses, no TO da Guiné, entre o primeiro trimestre de 1963 e o início do segundo semestre de 1965;

 (v) passou por Bissau, Olossato, Catió e a ilha do Como, aqui já a comandar um Pel Art, obus 8.8 (a duas bocas de fogo), com que participou, entre outras, na Op Tridente (jan-mar 1964);

(vi) no CTIG era popularmente conhecido pelo seu nome artístico, "Carvalhinho" (cantava o fado de Lisboa e tocava guitarra); em Bissau, chegou a fazer espetáculos com o alf médico Luís Goes (que cantaca e tocava o "fado de Coimbra"); 

(vii) tornou-se também amigo dos então alferes milicianos 'comandos' Justino Coelho Godinho e Maurício Saraiva (já falecidos), quando se estavam a organizar os Comandos do CTIG;

 (viii) o José Álvaro Almeida de Carvalho (seu nome completo) publicou em 2019 o "Livro de C", Lisboa, na Chiado Books (710 pp.) ("C" é o "nickname" pelo qual o pai o tratava); 

(ix) é empresário reformado, trabalhou também como quadro técnico em  empresas metalomecânicas como  a L. Dargent Lda, de que  o Zé Álvaro era diretor do departamento de trabalhos exteriores, e sócio minoritário (fez , por exemplo, a montagem da superestrutura metálica e cabos de suspensão da ponte na foz do Rio Cuanza em Angola).

2. Voltando às memórias do José Álvaro Carvalho (*), estamos agora em 1964, em Catió, no BCAÇ 619, 1964/66: ele está destacado com um Pel Art 8.8 a duas bocas de fogo, pertencente à BAC (Bateria de Artilharia de Campanha) (ou ao BCAÇ 600, estamos na dúvida).

Este Pel Art participaria em grandes operações no setor de Catió ("Tridente", "Broca", "Macaco", "Tornado" e "Remate"). A atuação do seu comandante, no campo operacional valeu-lhe, em 1967, uma Cruz de Guerra de 3ª Classe.

Estamos  na Ilha do Como, no decorrer da Op Tridente (jan-mar 1964). O texto que se segue, será completado por um apontamento do Mário Dias sobre o "alferes Carvalhinho" como comandante do Pel Art que apoiou as NT no Como.

 
Guiné > Região de Tombali > Ilha do Como > O sargento do Pel Art / BAC obus 8.8, comandando pelo alf mil art José Álvaro Carvalho. O obus .8,8 cm m/943.possuía uma plataforma circular,  fazia tiro empregando munições de carga variada (granada explosiva 11,3 kg e granada de fumos) tnha em alcance de 12250 metros a + 44º.  Peso: 1796 kg (incluindo reparo). Tracção por tractor de rodas. Na Op Tridente terão sido disparadas c. 1200 granadas de obus 8,8.


Fotos  (e legendas): © José Álvaro Carvalho (2024). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) (*)


Parte VII: "Carvalhinho, você ainda me mata algum homem, temos tropas na mata"



Era noite e o alf mil art Carvalho, cmdt do Pel Art 8.8,  preparava-se para dormir quando foi chamado ao comando do batalhão porque o rádio emitia preocupantes pedidos de socorro, que partiam dum pelotão estacionado a cerca de 7 km que estava a ser atacado por um grupo numeroso de guerrilheiros impossíveis de conter sem ajuda.

A água, a lama e a mata cerrada que na zona crescia tornavam impossível enviar reforços à noite,  só de manhã. Mandaram-lhe ver o que conseguia fazer com os obuses. 

O pelotão a cerca de 7 kms de distância, encontrava-se entre os atacantes e um canal e rodeado de mata com lama exceto por onde estava a ser atacado. Só havia a possibilidade de fazer fogo de barreira para trás dos atacantes e começar a rodar os tubos na direcção do pelotão, havendo sempre o perigo de com algum descuido lhe acertar. As pontarias em direcção eram mais delicadas que em alcance. No rádio, os pedidos de socorro sucediam-se cada vez com mais insistência.

O alferes decidiu trabalhar só com um obus e verificar pessoalmente as pontarias. Disse ao sargento para carregar sempre e só o primeiro obus e só disparasse por sua ordem depois da pontaria ser por si verificada.

− Alça 8000 jardas, direcção 81º.

Verificou os elementos introduzidos pelo apontador e ordenou:

− Fogo!

A primeira granada partiu. Disparou mais 3 granadas com alcances intervalados de 300 jardas.

Ouviu-se no rádio :

− Mais para cá. Estão a cair longe. Mais para cá!

Sempre junto do apontador disse-lhe :

− Alça 7500 jardas, direção 80º. 

Verificou os elementos e ordenou:

− Fogo!

Mandou disparar mais 2 granadas com alcances de 300 jardas para mais e para menos.

No rádio ouviu-se:

− Está melhor. O ataque diminuiu. Mas mais para cá.

A voz já estava menos assustada mas pedia granadas para junto de si próprio. A preocupação que tinha de acertar no pelotão aumentou.

− Alça 7200 jardas, direção 79.5º. 

Verificou de novo os elementos e ordenou:

− Fogo!

No rádio ouviu-se:

− O ataque continua a diminuir. Mas mais para cá! Mais para cá!

Mandou disparar outras 2 granadas com a diferença no alcance de mais e menos 300 jardas. O rádio continuou a pedi-las mais próximas, tendo chegado á direção de 79º. Àquela distância,  1º representava muitos metros. Daqui a sua preocupação. Continuou a disparar granadas de flagelação para a zona com direções diferenciadas em alguns minutos até o operador rádio dizer:

− Obrigado, o ataque terminou por agora.

A preocupação que teve nesta operação fê-lo desprezar a necessidade de abrir a boca quando de cada disparo, o que lhe originou a perfuração dum tímpano com infeção e dores violentas nos dias que se seguiram. O médico começou a dar-lhe injeções de penicilina 2 vezes por dia e só passadas 2 semanas conseguiu entrar de novo em operações com o ouvido muito protegido e afastado das zonas de disparo tanto quanto possível .

No dia seguinte o comandante do batalhão visitou o local de helicóptero e verificou que tinham rebentado granadas a cerca de 150m do sítio onde o pelotão se encontrava estacionado.

(Revisão / fixação de texto/ título e subtítulo: LG)



2. Excerto do poste P356 (**),  de Mário Dias, ex-srgt 'comando' (Brá, 1963/66), que participou na Op Tridente, integrando o Gr Comds do alf mil 'cmd' Maurício Saraiva

(...) A Base Logística onde também funcionava o posto de comando, estava ampliada e melhorada. Pousavam lá os aviões ligeiros (Auster e Dornier) bem como helicópteros desde que a maré não estivesse totalmente cheia. A areia molhada formava uma excelente pista de aterragem. 

Também já lá estavam duas bocas de fogo de obus 8,8cm, comandadas pelo alf mil Carvalhinho, exímio tocador de guitarra e igualmente exímio tocador de garrafa de cerveja que nunca abandonava.

Uma tarde, depois de almoço, estava eu a descansar um pouco e ouvi um tiro de obus. Fui ver. O alferes Carvalinho, de calções, tronco nu, indispensável cerveja na mão, alguns passos atrás das peças ia ordenando ao apontador:

 Pá, levanta um bocadinho… não, foi demais, baixa… um pouco para a direita… está bom. Fogo!

E a granada partiu rumo ao seu destino. Salta de lá o tenente-coronel  Fernando Cavaleiro, comandante da Op Tridente:

 
− Ó Carvalinho, você ainda me mata algum homem, temos tropas na mata!

 
− Calma,  meu tenente coronel, isto vai ter aonde eu quero . 

E continuou:

 Eh pá, baixa um pouco… está bom. Fogo! 

E foi assim até disparar 4 granadas. Acercando-me dele perguntei:

− Meu alferes, para onde foram esses tiros? 

Mostrando-me a carta,  indicou:

 Para o cruzamento destes caminhos. 

E apontou um cruzamento de um caminho com a picada de Cassaca.

Não é que, alguns dias depois, ao passar pelo referido local, lá estavam, muito próximos uns dos outros, os 4 impactos das granadas?!

(Revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)
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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 11 de agosto de 2024 > Guiné 61/74 - P25830: Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) - Parte VI: dois meses na ilha do Como, na Op Tridente: farto do arroz com conservas, o pessoal comia búzios, e carne e ovos de tartaruga

domingo, 11 de agosto de 2024

Guiné 61/74 - P25830: Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) - Parte VI: dois meses na ilha do Como, na Op Tridente: farto do arroz com conservas, o pessoal comia búzios, e carne e ovos de tartaruga



Guiné > Ilha do Como > 1964 > Op Tridente (de 14 de Janeiro a 24 de Março de 1964) > LDM desembarcando as NT. Foi a maior ou uma das maiores operações realizadas no TO da Guiné, durante toda a guerra (1963/74). 

Segundo o Mário Dias, que foi um dos comandos do grupo do alferes 'cmd' Saraiva, as baixas de um lado e doutro teriam sido  as seguinte: das NT, 8 Mortos, 15 feridos; do PAIGC: 76,  mortos (confirmados), 29 feridos, 9 prisioneiros... 

Segundo outras fontes (CECA, 2014), as NT terão sofrido  9 mortos, 47 feridos, e 193 evacuados por doença....Por sua vez, o lN teve 76 mortos,  15 feridos  e 9 evacuados por doença  ("Obs: O número de mortos e feridos do ln poderão ter sido em maior número devido ao bombardeamento da Artilharia e da Força Aérea."

Fonte: CECA - Comissão para Estudo das Campanhas de África: Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974) : 6.º Volume - Aspectos da actividade operacional: Tomo II - Guiné - Livro I (1.ª edição, Lisboa, 2014), pág. 216/217.
 
Na batalha do Como, constou que tinha morrido  o comandante do PAIGC Pansau Na Isna (que daria nome a umas artérias de Bissau em 1975)... mas não é verdade. Morrerá mais tarde, dizem em Nhacra, em 1970. Teria nascido em 1938.


Foto (e legenda): © Mário Dias (2005). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Foto à esquerda: os alferes milicianos José Álvaro Carvalho ("Carvalhinho"), do QG / CTIG (em 1º plano, à esquerda), e João Sacôto, da CCAÇ 617/ BCAÇ 619, em 2º plano, à direita


1. Estamos a publicar algumas das memóras do ex-alf mil art, José Álvaro Carvalho, membro  nº 890 da nossa Tabanca Grande:

(i) tem 85 anos, sendo natural de Reguengo Grande, Lourinhã;

(ii) com 26 meses de tropa, acabou por ser moblizado para o CTIG por volta da primavera de 1963 (não podemos precisar a data);

 (iii) foi render um alferes de uma companhia de intervenção, de infantaria, sediada em Bissau (QCCTIG); 

(iv) irá cumprir mais uns 26 ou 27, no CTIG, entre o primeiro trimestre de 1963 e o início do segundo semestre de 1965;

 (v) passou por Bissau, Olossato, Catió e a ilha do Como, aqui já a comandar um Pel Art / BAC, obus 8.8 (a duas bocas de fogo), com que participou, entre outras, na Op Tridente (jan-mar 1964); 

(vi) no CTIG era popularmente conhecido pelo seu nome artístico, "Carvalhinho" (cantava o fado de Lisboa e tocava guitarra); em Bissau, chegou a fazer espetáculos com o alf médico Luís Goes (que cantaca e tocava o "fado de Coimbra"); 

(vii) tornou-se também amigo dos então alferes milicianos 'comandos' Justino Coelho Godinho e Maurício Saraiva (já falecidos), quando se estavam a organizar os Comandos do CTIG;

 (viii) o José Álvaro Almeida de Carvalho (seu nome completo) publicou em 2019 o "Livro de C", Lisboa, na Chiado Books (710 pp.); 

(ix) é empresário reformado, trabalhou também quadro técnico em  empresas metalomecânicas como  a L. Dargent Lda, de que  o Zé Álvaro era diretor do departamento de trabalhos exteriores, e sócio minoritário (fez a montagem da superestrutura metálica e cabos de suspensão da ponte na foz do Rio Cuanza em Angola).


Voltando às memórias do José Álvaro Carvalho, estamos agora em 1964, em Catió, no BCAÇ 619, 1964/66: ele está destacado com um Pel Art 8.8 a duas bocas de fogo, pertencente à Bateria de Artilharia de Campanha (BAC). 

Este Pel At participaria em grandes operações no setor de Catió ("Tridente", "Broca", "Macaco", "Tornado" e "Remate"). A atuação do seu comandante, no campo operacional valeu-lhe, em 1967, uma Cruz de Guerra de 3ª Classe.

Estamos agora na Ilha do Como, no decorrer da Op Tridente (jan-mar 1964).


Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) (**)

Parte VI:  dois meses na ilha do Como, na Op Tridente: 
farto do arroz com conservas, o pessoal comia búzios, 
e carne e ovos de tartaruga



O comandante do destacamento de fuzileiros informou pela rádio que o seu pelotão de reconhecimento tinha tido uma emboscada 500m à direita da referência n.º 1.

Disse para o sargento :

− Carregar! 

E para os apontadores.

− Alça 5500 jardas. Direcção 110º!

A direção inicial foi de 100º para a referência nº 1, após leitura no mapa, e feita com uma bússola apontada pelo para o centro da culatra de cada um dos obuses. Cada apontador movia o respectivo obus com uma manivela da direcção após receber a ordem. A direção final foi introduzida pelo mesmo processo, como correção da primeira, sem haver agora a necessidade de recorrer ao mapa.

Por cada obus uma granada, já sem a proteção da espoleta, foi retirada do depósito e entregue ao municiador que rapidamente a introduziu no tubo através da culatra e até que a cinta de cobre que nela sobressaía no terço inferior do seu comprimento, impedisse o seu encaixe no tubo. 

Em seguida o operador do soquete (redondo com um tubo com uma aplicação de madeira na extremidade de diâmetro pouco menor ao da granada ) introduziu este na culatra com força deu uma pancada na base da granada para que a cinta de cobre se encaixasse nas estrias do tubo, imprimindo-lhe após o disparo, um movimento de rotação que lhe ia estabilizar o percurso e retirar pela força centrifuga, a proteção do mecanismo de rebentamento accionado pela espoleta ao embater no alvo. 

Depois o 2.º municiador ao qual tinha sido entregue um cartuxo de latão com dois sacos de explosivo introduziu-o na culatra e o operador fechou-a rapidamente e disse:

 
− Pronto!

Os apontadores disseram :

− Pontaria corrigida.

O sargento conferiu as pontarias e disse :

− Obuses prontos.

Dava então a ordem de fogo tendo o cuidado de deixar a boca bem aberta para que a deslocação do ar originada pelo rebentamento que se seguia ao disparo, efectuado pelos apontadores acionando as correspondentes alavancas, não lhe viesse a rebentar os ouvidos, como por descuido lhe veio a acontecer mais tarde numa outra operação. Todo o pessoal foi bem instruído para tal e procedia da mesma forma.

Toda esta operação era rápida de forma a que as tropas apoiadas pudessem contar com granadas de treze quilos de grande poder explosivo e destrutivo, próximo dos locais indicados pelo rádio, em cerca de 2 ou 3 minutos.

A 6 kms ouviram-se os rebentamentos dos projecteis e depois rajadas de tiros em várias direcções. O inimigo julgava que estava a ser atacado pela aviação, por ser a velocidade das granadas superior à do som e só se ouvirem os respectivos disparos após o seu rebentamento.

Durante os cerca de 2 meses em que o alf mil art José Álvaro Carvalho participou nesta operação, acabou por não prescindir das barracas em rama de palmeira entrelaçada, bem melhores do que as tendas de lona do exército, por deixarem passar a pouca brisa que havia lá fora e deste modo atenuarem o calor elevado que sempre se fazia sentir, mais ou menos sufocante.

Quando acordava de manhã e o mar não estava longe, dava dois ou três mergulhos e como deixara de fazer a barba e lavar os dentes era esta a sua higiene diária. Mas por vezes se a maré estava vazia, a pouca elevação do terreno e a elevada amplitude desta, afastavam o mar para um longínquo horizonte que se podia medir por 2 ou 3 quilómetros e a higiene diária ficava adiada por algumas horas. 

Nestes dias, o seu pessoal da cozinha percorria a areia molhada à procura de moluscos, geralmente grandes búzios, para variar a dieta das conservas com arroz de que já todos estavam fartos, e, nesses dias, havia rancho melhorado. Reparou que o cozinheiro cortava uma parte de cada búzio e a deitava fora, alegando que fazia mal.

Como já disse, de vez em quando, para conversar ou por ser diferente, ia almoçar à messe do batalhão, uma tenda grande onde almoçavam os oficiais.

Certo dia o almoço também foi búzios. Perguntou ao sargento da messe do batalhão se lhe tinham tirado a parte que fazia mal. Disse que não lhe parecia que os búzios tivessem alguma parte que fizesse mal. Nesse dia não almoçou. Nos dias seguintes assistiu a um corrupio constante de oficiais a caminho das latrinas.

Num outro dia, tendo chegado tarde no seguimento duma operação, o sargento disse-lhe:

− Sabe o que é hoje o almoço,  meu alferes ?

− Não faço ideia.

− Bife, omeleta e batatas fritas.

Pensou que tinham apanhado alguma vaca das que com os bombardeamentos vagueavam perdidas pela zona. No dia seguinte ao da chegada àquela praia, o seu pessoal ficou deslumbrado perante a quantidade de vacas e cabras que vagueavam perdidas no mato próximo, por força dos bombardeamentos constantes da marinha, as quais se deixavam apanhar com facilidade. Não resistiram á tentação de apanhar algumas e as encerrar num cercado feito com paus junto do acampamento. Avisou-os de que assim que o primeiro obus disparasse um tiro fugiriam todas aterrorizadas, sendo impossível ter mão nelas o que na realidade aconteceu.

Almoçou efectivamente bife, omeleta e batatas fritas. No fim do almoço o sargento disse-lhe:

− Sabe o que esteve a comer?

− Não.

− Carne de tartaruga e ovos de tartaruga.

Como lhe soube bem,  não o incomodou a noticia.

Quando as tartarugas vinham desovar â praia na maré cheia e se descuidavam com o correr da maré ficando longe da linha de água, iam deixando um rasto na areia molhada que se seguia com facilidade. Para o lado do mar apanhava-se a tartaruga, para o lado de terra o seus ovos. Isto aconteceu com frequência na época do desovar das tartarugas e era um bom petisco.

domingo, 4 de agosto de 2024

Guné 61/74 - P25808: Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) - Parte V: Na lha do Como...Jusfificação do impedido sobre o rombo que tinha levado o garrafão do vinho do pessoal: "Teve visitas, meu alfero!"...

Foto à direita: os alferes milicianos José Álvaro Carvalho ("Carvalhinho"), do QG / CTIG (em 1º plano, à esquerda), e João Sacôto, da CCAÇ 617/ BCAÇ 619, em 2º plano, à direita

1. Estamos a publicar algumas das memóras do ex-alf mil art, José Álvaro Carvalho, membro  nº 890 da nossa Tabanca Grande:

(i) tem 85 anos, sendo natural de Reguengo Grande, Lourinhã;

(ii) com 26 meses de tropa, acabou por ser moblizado para o CTIG por volta da primavera de 1963 (não podemos precisar a data);

 (iii) foi render um alferes de uma companhia de intervenção, de infantaria, sediada em Bissau (QCCTIG); 

(iv) irá cumprir mais uns 26 ou 27, no CTIG, entre o primeiro trimestre de 1963 e o início do segundo semestre de 1965;

 (v) passou por Bissau, Olossato, Catió e a ilha do Como, aqui já a comandar um Pel Art / BAC, obus 8.8 (a duas bocas de fogo), com que participou, entre outras, na Op Tridente (jan-mar 1964); 

(vi) no CTIG era popularmente conhecido pelo seu nome artístico, "Carvalhinho" (cantava o fado de Lisboa e tocava guitarra); em Bissau, chegou a fazer espetáculos com o alf médico Luís Goes (que cantaca e tocava o "fado de Coimbra"); 

(vii) tornou-se também amigo dos então alferes milicianos 'comandos' Justino Coelho Godinho e Maurício Saraiva (já falecidos), quando se estavam a organizar os Comandos do CTIG;

 (viii) o José Álvaro Almeida de Carvalho (seu nome completo) publicou em 2019 o "Livro de C", Lisboa, na Chiado Books (710 pp.); 

(ix) é empresário reformado.

Voltando às memórias do José Álvaro Carvalho, estamos agora em 1964, em Catió, no BCAÇ 619, 1964/66: ele está destacado com um Pel Art 8.8 a duas bocas de fogo, pertencente à Bateria de Artilharia de Campanha (BAC). 

Este Pel At participaria em grandes operações no setor de Catió ("Tridente", "Broca", "Macaco", "Tornado" e "Remate"). A atuação do seu comandante, no campo operacional valeu-lhe, em 1967, uma Cruz de Guerra de 3ª Classe.

Estamos agora na Ilha do Como, no decorrer da Op Tridente (jan-mar 1964).


Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) (**)

Parte V: Na ilha do Como...Justificação do impedido sobre o rombo que tinha levado o garrafão do vinho do pessoal: "Teve visitas, meu alfero!"...


Definido o local de estacionamento, o oficial dos abastecimentos do batalhão ficou de arranjar tendas e outros equipamentos necessários, o que disse ainda ia levar alguns dias, mas acabou por nunca aparecer.

O pessoal do pelotão era constituído por africanos que  na ausência de qualquer abrigo, se propuseram construir na areia da praia, barracas com uma estrutura de paus coberta por ramos de palmeira entrelaçados. Cada barraca fazia parte do semicírculo que todas formavam, atrás dos obuses já instalados e virados para a mata de terra firme que constituía o centro da ilha, cerca de 30% do total e formado por árvores de porte elevado. Os atrelados com munições foram estacionados atrás de cada obus.

A barraca do alferes Carvalho era a primeira a oeste do semicírculo e tinha um pequeno alpendre que a distinguia das outras por ser ele o chefe.

Atribuíram-se tarefas: cozinha, armazém limpeza, etc. 

O vinho semanal armazenado em garrafões ficava religiosamente guardado na sua barraca, à responsabilidade do impedido, um africano enorme da etnia Papel, com cerca de 2 metros de altura, que tinha sido criado dum médico e lhe arranjava primorosamente a pouca roupa que levara (duas camisas e dois calções que lavava na água do mar e colocava em seguida entre algumas caixas de granadas, cujo peso se assemelhava ao efeito de passar a ferro).

Este impedido foi de grande utilidade para um oficial dos comandos, seu amigo dos primeiros tempos de África, que entrava sempre em operações com o fato de combate impecavelmente preparado por ele e também um lenço de seda azul que levava ao pescoço como se fosse para alguma festa, para daí a meia hora se enterrar na lama, nalguns casos até à cintura.

Era também o responsável pelo vinho do pessoal e pela sua distribuição. Um dia após regressar do almoço na messe de oficiais do batalhão, onde às vezes ia, verificou que o vinho tinha levado um rombo assustador, tendo-se este justificado:

 
  Teve visitas,  meu alfero.

As visitas eram só uma e constituída por um soldado africano comando, estacionado também naquela praia paredes meias e que lá ia com frequência. O impedido foi por isso castigado com um dia de prisão, que cumpriu num posto de sentinela.

Não sabia se tinha exagerado. O impedido era um bom soldado, mas nessa altura já estava farto de guerra e de beber naquela praia whisky com água e gelo amarelo, da cor do whisky feito com a única água que se obtinha e nem sempre bem filtrada.

Os mosquitos eram poucos, uma das grandes qualidades daquele acampamento, mas o Sol era sempre o mesmo: rompia a neblina e incidia forte e quente na pele.

A comida era à base de arroz como de costume,  que aliás o seu cozinheiro fazia muito bem. Cozinhavam em pequenas marmitas que arranjaram junto do outro pessoal do batalhão.

(Continua)


(Revisão/fixação de texto, título, negritos: LG)

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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 29 de julho de 2024 > Guiné 61/74 - P25788: Memórias de um artilheiro (José Álvaro Carvalho, ex-alf mil, Pel Art / BAC, 8.8 cm, Bissau, Olossato e Catió, 1963/65) - Parte IV: de indisciplinados a bravos do pelotão