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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28081: Movimento Nacional Feminino: as tournées de artistas conhecidos, com apoio dos meios empresariais do espectáculo - Parte I




Florbela Queiroz (nb. 1943): em 1967, em Mocimboa do Rovuma, Moçambique.(Fonte: "Guerra Colonial: fotobiografia", de Renato Monteiro e Luís Farinha. Lisboa: Dom Quixote e Círculo de Leitores, 1990, pág, 226, com a devida vénia).


A popular artista, atriz (de cinema e teatro de revista) e canconetista (a partir de 1966), aqui retratada na capa da revista quizenal "Plateia", nº 104 (15 de novembro de 1961). A Brigute Bardot portuguesa, como já era conhecida, tinha entáo 18 anos (nasceu em Lisboa em 1943). Cortesia de Instragam > florbela.queiroz


Raul Solnado (1929-2009): entre militares em Zala, Angola. S/d.
.(Fonte: "Guerra Colonial: fotobiografia", de Renato Monteiro e Luís Farinha. Lisboa: Dom Quixote e Círculo de Leitores, 1990, pág, 226, com a devida vénia).


Raul Solnado (1929-2009): ator, apresentador de televisão, humorista (um dos génios do humor português do sec. XX). Capa da revista "Nova Antena", 1 de  novembro de 1968. Fonte: Wikipedia, com a devia vénia.



Guiné >: Região de Tombali > Guileje > 10 de novembro de 1969 > CART 2410, "Os Dráculas"  (Gadamael e Guileje, 1968/70) >  "Duo Ouro Negro" .(Fonte: "Guerra Colonial: fotobiografia", de Renato Monteiro e Luís Farinha. Lisboa: Dom Quixote e Círculo de Leitores, 1990, pág, 227, com a devida vénia).





Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L2 > Fajonquito > CART 2742 > 1971 >  Atuação de um grupo de cançonetistas que vieram da Metrópole com o apoio do Movimento Naciuonal Feminino. O Zé Turra, embora não gostasse de fado nem do nacional-cançonetismo, também aparecia, nestes espetáculos no mato, disfarçado com a população local...(Sabe-se que preferia, naturalmente,  a coladera, o gumbé, etc., os ritmos de Cabo Verde e da Guiné.)

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Imagen: José Bebiano (2010)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Alguns/algumas artistas de variedades, fadistas, cançonetistas, actores do teatro de revista, humoristas, apresentadores de televisão,  radialistas, etc., atuaram,  nos três teatros de operações, em plena guerra do ultramar / colonial, entre 1961 e 1974, incluindo na Guiné. 

"Seguindo um modelo experimentado noutros palcos de guerra, o Movimento Nacional Feminino, com apoio dos meios empresariais do espectáculo,  organizava tournées,  às três frentes de combate, com os artistas mais conhecidos do teatro e da música ligeira" (in: "Guerra Colonial: fotobiografia", de Renato Monteiro e Luís Farinha. Lisboa: Dom Quixote e Círculo de Leitores, 1990, pág, 227; foto da capa à direita). (Recorde-se que o meu querido amigo e camarada e  saudoso grão-tabanqueiro Renato Monteiro (1946-2021) foi fur mil art, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego e Piche, 1969; e CART 2520, Xime e Enxalé, 1969/70).

A TAP e o Exército asseguravam o apoio logístico aos artistas em "tournée" (transportes, alojamento, alimentação,  segurança, etc.). 

O tema está mal documentado no nosso blogue, com exceção das atuações do Conjunto Académico João Paulo e pouco mais. Temos 12 referências ao Marco Paulo.

È difícil (se não impossível) reconstituir com rigor o elenco exato de artistas que passaram pelo TO da Guiné, por exemplo,  mas  sabe-se que as Forças Armadas, o Movimento Nacional Feminino e outras entidades organizavam regularmente "tournées" (sic), ou digressões,  de artistas, uns mais conhecidos do que outros. Atuaram em povoações, aquartelamentos, destacamentos,  bases aéreas. navios da marinha, etc.

Entre os artistas que, em diferentes momentos da Guerra Colonial, passaram pelo Ultramar ou participaram em espetáculos para as tropas ou colaboraram noutras iniciativas do MNF (como os discos de Natal, 1971,1973...) contam-se:
  • Madalena Iglésias
  • Simone de Oliveira
  • António Calvário
  • Artur Garcia
  • Maria José Valério
  • Hermínia Silva
  • Tony de Matos
  • Marco Paulo (estava na Guiné, em 1968, a cumprir o serviço militar, ainda no início da sua carreira musical) (vd. aqui vídeo da RTP)
  • Paco Bandeira (atuou em Angola, onde cumpriu a sua comissão)
  • Duo Ouro Negro (formado pelos angolanos Raúl Indipwo e Milo MacMahon) (vd. aqui um vídeo da RTP Aqruivos, de 1967).
  • Florbela Queiroz (vd., aqui vídeo de 1972, da RTP Arquivos)
  • Armando Cortez
  • Parodiantes de Lisboa
  • Francisco Nicholson
  • Raul Solnado (vd,. aqui um vídeo da RTP Arquivos, de 1978)
  • etc.

2. Facto desconhecido para muitos dos nossos leitores, foi a Cecília Supico Pinto  quem "conseguiu que os músicos do 'Conjunto João Paulo' cumprissem o serviço militar actuando no mato em digressões pelas 'províncias' ", revelação feita na sua biografia, escrita por Sílvia Espírito Santo ("Cecília Espírito Santo,o rosto do Movimento Nacional Feminino, Lisboa, A Esfera dos Livros, 2008, pp. 144). 

Ela sabia, de resto, da experiência norte-americana na II Guerra Mundial (e depois na Coreia e no Vietname), da importância que podia ter, sobre o moral das tropas em África, as atividades de natureza lúdica, como os espetáculos musicais ao vivo, feitos por artistas em voga, vindos da metrópole. 
 
Houve muito boa gente, do mundo do espectáculo, incluindo a nossa "diva", a  Amália Rodrigues, que colaborou com o Movimento Nacional Feminino, quer na edição dos famosos discos de Natal (1971 e 1973), quer participando inclusive em digressões pelos quartéis do mato ou em concertos na metrópole para angariação de fundos.

Além dos músicos do Conjunto Académico João Paulo, talvez o caso mais conhecido terá sido o da  actriz de teatro de revista e cinema (mas também cançonetista, a partir de 1966) Florbela Queiroz.

A Florbela Queiroz (nascida em Lisboa, em 1943) não sei se passou pela Guiné, mas diz ela que andou no mato 8 meses, em 1967 e 1968. 

"Nunca fui tão respeitada por toda a gente. Eu era nova, tinha 21 anos, era uma miúda gira, e andava lá no mato no meio dos soldados, comi da ração deles. Foi a época em que mais me realizei" (cit. por Sílvia Espírito Santo - "Cecília Supico Pinto: o rosto do Movimento Nacional Feminino". Lisboa, A Esfera do Livro, 2008, pág. 144)


Isabel Amora
(1946-.2020)

O célebre disco "Natal 71", enviado aos militares destacados no Ultramar, incluía mensagens e participações de vários destes artistas e figuras públicas, refletindo a forte ligação então existente entre o meio artístico, os empresários do "show business", o MNF  e as campanhas de "apoio moral" aos soldados. 

A elite do Estado Novo queria mostrar que os "rapazes" que defendiam   os seus interesses em África, não estavam esquecidos nem eram abandonados. Em especial em datas sensíveis como o Natal.

No caso específico da Guiné, há também referências dispersas a atuações de vários conjuntos musicais militares que faziam circuitos por Bissau, Bambadinca, Bafatá, Nova Lamego, Teixeira Pinto e outros aquartelamentos, em geral nas sedes de circunscrição e de batalhão  locais mais acessíveis.
 
Em abril de 1971 houve uma grande "Noite das Forças Armadas", na Associação Comercial, Industrial e Agrícola, em Bissau. Mas o espetáculo foi assegurado exclusivamente por artistas, que cumpriam serviço no CTIG,  com números musicais, humorísticos e de variedades. Isto mostra que nem toda a animação dependia de artistas vindos da metrópole.

Muitos camaradas da Guiné recordam-se mais facilmente dos nomes das vedetas femininas do que dos cantores. Foi o caso da desconhecida Isabel Amora (1946-2020), 

 Muitos espetáculos na Guiné eram organizados localmente e incluíam:conjuntos musicais militares, oriundos da metrópole como o Conjunto Académico João Paulo (6 referências no blogue), ou formados "ad hoc", como o Conjunto Musical das Forças Armadas (4 referências) ou o Conjunto Os Bambas D'Incas (5 referências).


3. Fica aqui um apelo aos nossos leitores: 

"Quem assistiu, no mato, a espetáculos de artistas da metrópole em digressão pela Guiné ? Em que local? Quem atuou? Há fotos, cartazes, programas, autógrafos ?"

A memória (individual e grupal)  dos antigos combatentes costuma revelar programas de espetáculo, fotografias e até autógrafos esquecidos em baús e malas no sótão ou nas gavetas das velharias (material que irá, para o lixo, sem dó nem piedade, quando à gente der o trângulo-mango, isto é, lerpar)...

Pesquisa: LG + Net + Wikipedia ´+  IA (ChatGPT / OpenAI| Vibe Mistral AI| Gemini AI / Google)

(Condensação, revisão / fixação de texto, negritos, links, título:  LG)

domingo, 7 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28078: Humor de caserna (272): As minhas "turras" com a menina IA que não tem um pingo de sentido de humor... A propósito da cantora ié-ié de Jabadá, que não era... "careca" (Luís Graça)


Guiné > Região de Quínara > Jabadá > CCAV 2484 (1969/70) , Os Dragões de Jabadá" >  A cantora ié-ié Isabel Amora (1946-2020), atuando para os militares do aquartelamento, que ficava na margem esquerda do Rio Geba. 

Representação artística, livre,  desse espetáculo. Tudo indica que, nesse dia e local,  a jovem artista, em princípio de carreira (e infelizmente já falecida),   tenha aparecido com duas indumentárias diferentes: vestido curto, mas de manga comprida e minissaia, e na segunda parte  blusa de manga curta e calça à boca de sino. A foto (inspiradora...) é do Manuel Antunes, ex-sold cond auto (CCAV 2484, "Os Dragões de Jabadá"), que vive no Canadá


Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Foto: Manuel Antunes (2022)
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.

1.  Falar com máquinas pode até ser divertido mas também às vezes exasperante... Divertido, por enquanto... Um dia pode vir a ser um pesadelo, como foram durante 48 anos na Ditadura Militar e no Estado Novo os coronéis da censura (que não eram máquinas, eram pior, eram "calhaus")... 

De vez em quando tenho as minhas "turras" com a IA. Recusa-se a fazer a ilustração que lhe peço, alegando que o meu prompt "pode violar as suas  politicas de conteúdo" (sic). 

Nunca diz quais são. É preciso então contestar, uma, duas,  três vezes. Às vezes, falo mal:  "P*rra, a foto de uma jovem cantora ié-ié, de minissaia, que vem de Portugal e vai atuar no mato, na Guiné, para os soldados portugueses e a população local... é material pornográfico ou tem conotação sexual?!... A minissaia também chegou depressa ao Portugal de finais dos anos 60!...

"E depois tens que perceber que quem está na guerra, lá no cu de Judas, a 4 mil km de casa, o que mais quer ver é um belo par de...pernas de uma jovem da sua idade!... Não lhe mandem uma matrona de média idade, fadista, como a Cilinha, mas uma garota estouvada da música ié-ié!"...

Resposta, sensata e conciliadora, por fim, da ferramenta da IA (ChatGPT / Open AI): 

(....) "Camarada, pelo que descreves, não vejo nenhum problema de política em mostrar uma cantora jovem de 1969/70, de minissaia, a atuar perante soldados num quartel da Guiné. Mostrar pernas, minissaias ou moda da época não tem nada de problemático.

O que provavelmente aconteceu foi outra coisa: o sistema automático pode ter interpretado a combinação de fatores como:

  • imagem de uma pessoa real;
  • pedido de recriação baseada numa fotografia histórica;
  • referência à atratividade física ("bom par de pernas");
  • contexto militar.

Por excesso de cautela, alguns filtros automáticos bloqueiam pedidos perfeitamente legítimos. Isso acontece ocasionalmente.

Para ser claro: uma ilustração histórica ou humorística de uma cantora dos finais dos anos 60/início dos 70, de minissaia, a atuar num quartel da Guiné, não tem nada de sexual explícito nem de impróprio. E o teu objetivo é manifestamente documental e de reconstituição de ambiente.



Isabel Amora em Jabadá ,c. 1969/70
Foto: 
Manuel Antunes (2022)

Aliás, a fotografia que mostras de Jabadá é interessante 
por outra razão: ela transmite muito bem o que era o ambiente desses espetáculos improvisados. Não havia necessariamente 
um palco. Muitas vezes a artista cantava num terreiro, com um microfone ligado a uma aparelhagem rudimentar, rodeada por militares sentados em bancos, bidões ou simplesmente no chão. O centro das atenções era a novidade da visita, a quebra da rotina e o contacto com alguém vindo da metrópole". (...)

E mais adiante, a púdica da menina da IA continua a desculpar-se, depois de "engolir os insultos":

"Também concordo contigo num ponto histórico: em 1969/70 a minissaia já estava perfeitamente instalada em Portugal, sobretudo entre as artistas de variedades e cançonetistas mais jovens. 

Uma reconstituição fiel da época teria muito mais provavelmente vestidos curtos, penteados da moda e botas ou sapatos de salto baixo do que os vestidos compridos que apareceram na primeira imagem.

Quanto ao 'humor de caserna', faz parte da memória da guerra  e não me escandaliza nada que o Zé Soldado apreciasse a música... e também um bom par de... pernas".

"Á falta de melhor, camarada", acrescento eu, com ironia...Afinal,  quem lê os aerogramas, os jornais de unidade e as memórias dos antigos combatentes como no meu blogue, incluindo a decoração dos "bunkers" (ou buracos onde dormiam)  com fotos de meninas de mama ao léu, encontra isso a cada passo.

2. Bom, lá acabámos, por fim, por chegar a um acordo mutuamente satisfatório. E a menina da IA, que não tem sentido de humor (nem muito menos "sex appeal")  mas agora "mais meiguinha" vem então com a sua contraproposta:

"Se quiseres voltar a tentar uma ilustração, eu sugeriria descrevê-la em termos históricos: Jabadá,  Guiné Portuguesa, 1969/70. Jovem cantora portuguesa em início de carreira, com vestido curto, típico da moda da época, a atuar ao ar livre perante militares da CCAV 2484 e alguns habitantes locais. Ambiente descontraído de espetáculo de variedades no mato, fotografia de época, realista, sem identificação de pessoas concretas."

Muito bem, concluimos os dois que esse pedido, formulado assim, é perfeitamente compatível com uma reconstituição histórica, asséptica, neutra, sem ofensa para a moral pública no séc. XXI nem muito menos para a "bons costumes" da pátria do Tio Sam.

E eu, diplomaticamente, encerrei o assunto, tratando-a também por "camarada" (imaginem!) (ela gosta destas "cumplicidades", ou "ligações perigosas", dirão alguns dos nossos leitores):

"Assim, está bem, acabamos por nos entender os dois, camarada!... Faz lá essa ilustração, há poucas fotos dessa época com artistas da Metrópole a atuar para as Forças Armadas na Guiné (que era um sítio feio, perigoso, pouco recomendável para meninas cantoras de minissaia, etc.)".


Pesquisa: LG + IA (ChatGPT / OPen AI)
(Condensação, revisão/fixação de texto, negritos, itálicos, título: LG)

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Nota do editor LG:

Último poste da série > 5 de junho de 2026 > Guiné 61/74 - P28072: Humor de caserna (271): "Poema para o meu irmão branco" (ou... a única cor que não muda é a da hipocrisia)

sábado, 21 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27844: Humor de caserna (249): O anedotário da Spinolândia (XXI): O frango Hubbard


Spínola e o frango Hubbard. Cartum: Passão, 1975

(Com a devida autorização do autor)





António Ramalho, natural de Vila Fernando, Elvas, 
é da colheita de 1948


Fotos (e legendas): © António Ramalho (2026) . Todos os direitos reservados (Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné)


1. Mensagem do António Ramalho, ex-fur mil at cav, CCAV 2639 (Binar, Bula e Capunga, 1969/71), alentejano de Vila de Fernando, Elvas, membro da Tabanca Grande, com o nº 757, desde 20/10/2017.

Data -23 mar 2026, 09:24
Assunto - Obrigaste-me a ir de novo ao baú das memórias!

Caro Luís, bom dia!

Obrigado pelas tuas palavras, não é obrigação nenhuma, é um prazer colaborar no blogue que em boa hora criaste!

Foi com todo o gosto que revivi de novo alguns acontecimentos passados nos Resorts de Capunga e Bissum.

Aquela cena no Hospital em Bissau deixou-me angustiado, a guerra é assim! A do frango Hubbard está o máximo e a do monóculo então!...

Um forte abraço para todos os Tabanqueiros.
Para ti mais um abraço.

António Ramalho


Factos passados comigo na Guiné entre 1969/1971 e, não só!

por António Ramalho


(i) Em Bissau:  a cena do monóculo que já todos conhecem! (*)


 A menina Cremilde, da loja do oculista, corou de vergonha e escangalhou-se a rir depois do  gen Spínola abandonar o estabelecimento!


(ii) No Hospital Militar de Bissau no princípio da comissão.

Na visita a uns camaradas com ferimentos ligeiros após um contacto com o IN, na zona de Binar, deparei-me com a seguinte situação:

Nesse ano o MNF (Movimento Nacional Feminin) oofereceu-nos a todos, uma cigarreira de plástico, um isqueiro a gasolina, uma Gillette e um pincel, lembram-se?

Na mesma enfermaria, estava internado um camarada com as duas pernas amputadas, com uma resiliência e disposição muito acima do normal para a situação em que se encontrava! Dizia ele que tinha ficado ainda com os braços para nos abraçar!

Entram elementos do MNF em visita de circunstância e perguntam se tínhamos gostado das lembranças de Natal, daquele ano.

Antes de nos manifestarmos, dizem as distintas senhoras:

— Olhem que o Senhor Governador também recebeu.

Diz um dos presentes:

— Mas,  olhem, minhas senhoras, o nosso General não fuma e não tem barba!...

Risada geral!

(iii) Em Capunga

Estando na parada do aquartelamento, vejo chegar num jipe o nosso general e o major Marcelino (não o da Mata), numa visita ao reordenamento das Tabancas.

Gritei para o Furriel mais velho, que estava jogando à bola.

— Despacha-te que vem aí o Maior.

Nas apresentações da praxe pergunta o general:

 — É você o nosso alferes?

Resposta pronta:

— Não, meu general, o nosso alferes foi a Bula com uma secção buscar água.

 — Pois olhe: você tem mais cara de alferes do que muitos que para aí temos...

Lá foi a comitiva ver o reordenamento...

(iv) Em Bissum

Numa das visitas do nosso general à Tabanca, acompanhado de um membro (ou representante) do Governo Brasileiro,  aproveitou para fazer uma visita ao aquartelamento.

De passagem pela padaria, o nosso cabo ofereceu-lhe um pão. Depois de o apreciar, elogiou o produto em voz alta, entregando-o em seguida ao ajudante de campo.

Retorquiu o nosso cabo:

 — Meu general, se vier cá amanhã ainda estará melhor!

 Adeus,  rapaz, então até amanhã!


(v) Em Bissum


Fui avisado da chegada do nosso general ao aquartelamento. Ordenaram-me para ir com uma secção limpar a pista (enxotar as vacas!) e fazer a segurança.

Nos cumprimentos da praxe, mediu-me de cima a baixo!

O meu camuflado tinha mais adesivos do que tecido!

À partida a mesma cena, na observação do fardamento, sem qualquer comentário.

Na despedida disse-lhe:

—   Meu general, peço-lhe desculpa pela apresentação, estamos há semanas a aguardar fardamentos.

Continência...

 — Bom regresso a Bissau, meu general.

Passados poucos dias chegaram numa DO-27  os fardamentos (coincidências!...)


(vi) Nota final (**)

O gen Spínola acompanhava de perto algumas operações pelo ar e em terra! Correu Mundo... Aquela foto da Operação Ostra Amarga, fotografado na mata com Alves Morgado,

Almeida Bruno e Marcelino (não o da Mata), que a revista francesa Paris Match filmou, em que houve, infelizmente, também baixas do nosso lado.

Dos contactos pessoais  e institucionais que tive com o general António de Spínola, encontrei um cidadão simples, educado, trato normal, sem imposturices, apesar da distância entre patentes e, a outros que estavam presentes, o verdadeiro cabo-de-guerra. O respeito foi sempre muito bonito!

Hoje, penso que se a sua chegada à Guiné tivesse ocorrido dois ou três anos antes a entrega da província ao PAIGC teria sido completamente pacífica. Todos ganharíamos, exceptuando aqueles em que a guerra foi um negócio!

Esta é a minha opinião.

Agora um facto muito interessante, pessoal e reservado, que quero partilhar. Os protagonistas já cá não estão. Felizmente, o autor da obra (um cartum...) ainda está entre nós, a quem pedi autorização para o divulgar.

Passei quarenta anos da minha vida ligada à avicultura, numa empresa que pulverizou o país de pequenas empresas que se tornaram grandes e, outras enormes!

Foi um viveiro (hoje incubadora) para que muitas atingissem uma dimensão nacional e ibérica importante.

Depois do regresso a Portugal do gen Spínola, no mandato do Gen Ramalho Eanes, então Presidente da República, se bem se lembram, ocupava o seu tempo da forma que melhor entendia, reservando uma parte à equitação, não fosse ele da distinta Arma de Cavalaria!

Dado que nós representávamos e explorávamos uma estirpe avícola de reprodutores Hubbard (pais dos frangos) americana, propriedade da Merck Sharp & Dome, ainda hoje líder do mercado mundial, numa conversa informal, no intervalo dos passeios equestres, ao almoço, quis saber pormenores da mesma.

O autor, audaz e de pensamento rápido, depressa imaginou passar à imagem o tema da conversa. Então pegou no seu lápis de carvão e fez o que a imagem nos transmite. O gen Spínola ao ver a obra, ficou deslumbrado e, imediatamente fez questão de a mandar emoldurar e colocá-la em sua casa!

Por este pormenor tão simples, humilde, sincero e generoso me apraz reafirmar a admiração que tive por ele.

Ficam de fora as questões políticas e outras que nada me impedem de reafirmar o que escrevi.

Um forte abraço para todos. António

(Revisão / fixação de textro, negritos, título: LG)

_______________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 13 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27820: Humor de caserna (245): O anedotário da Spinolândia (XVII): A Anedota e a Piada...

(...) O nosso General teve um pequeno acidente com o seu monóculo, enviou o seu impedido a um oculista da cidade, cuja empregada era familiar do proprietário, natural duma aldeia perto da minha.

Avisado depois de reparado o monóculo, foi ele mesmo levantá-lo com aquele seu ar austero, de camuflado engomado, sempre simpático para com as populações.

No a,to da entrega pergunta-lhe a empregada:

— Senhor Governador, quer que embrulhe ou leva no olho?

— Oh!, menina, dê-me cá o monóculo, que no olho levam vocês!...

A rapariga desmanchou-se a rir quando nos contou! (...)

(**) Último poste da série > 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27841: Humor de caserna (248): O anedotário da Spinolândia (XX): O "general alemão" (Schulz) que garantiu a Salazar, em 1965, que a Guiné seria sempre portuguesa

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27573: Humor de caserna (229): "Uma ginjinha!... Pois dar de beber à dor é o melhor"... já lá dizia o A. Marques Lopes (1944-2024), em Barro, junto à fronteira com o Senegal, no Natal de 1968


Aerograma original do MNF (Natal, 1961)


Aerograma "canibalizado" pelo A. Marques Lopes (1944-2024) (Barro, Natal de 1968)

Imagens (e legendas): Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2025)


1. Aerograma, edição de Natal, distribuído pelo Movimento Nacional Feminino (MNF) (Angola, 1961)... 

O alf mil at inf  A. Marques Lopes (1944-2024), da CCAÇ 3 (Barro,  1968/69), pegou no aerograma de natal do MNF, cujo "boneco" já vinha da 1ª (e única) edição, dezembro de 1961, e "canibalizou-o": 

(i)  pôs um chapéu alto, azul, na cabeça do São José, tipo "porteiro de hotel" (para não dizer "palhaço de circo");

(ii) tingiu de vermelho o manto de Nossa Senhora, bem como a "estola" do São José;

(iii)   pôs o soldado, "maçarico",  de  caqui amarelo, capacete de aço, e mauser com baioneta ao ombro (!) com uma catana  tingida de vermelho (de sangue), na mão esquerda;

(iv) mudou a cor da cara do "pretinho" que olha para o "maçarico", "seu protetor";  

(v) "incendiou" as tabancas... 

(vi) enfim, mandou um postal de "boas festas", muito pouco "ortodoxo", convenhamos (nada "católico" nem muito menos "patriótico"), à sua irmã e ao seu cunhado, no Natal de 1968... 

Em suma, não podia ter sido mais "mauzinho". A maior de nós poupava deliberadamente as famílias, nunca ou raramente falando da guerra.... Direta ou indiretamente.

Ora estamos em plena guerra colonial.... O Marques Lopes  tinha regressado à Guiné, de depois de  recuperado em Lisboa, de um ferimento grave no subsetor de Geba.  Teve de cumprir o resto da comissão. Agora em rendição individual, é o comandante de um  pelotão chamado "Jagudis", de uma companhia de guarnição normal (dita "africana"), colocada junto à fronteira com o Senegal, em Barro. A CCAÇ 3.

(...) " Querida irmã e cunhado, um Natal feliz  e que o Ano Novo seja sempre melhor que o anterior.  António Manuel... 

(PS-) Uma ginjinha!.. Pois dar de beber à dor é o melhor" (...)...

 
2. Análise das duas ilustrações do aerograma de Natal (19161 e 1968):



A. Marques Lopes e o seu guarda-costas
(i) é uma  "brincadeira", uma "irreverência", quiçá uma " provocação ", do nosso saudoso A. Marques Lopes;

(ii) mas, a esta distância, e conhecendo a sua atitude crítica face à guerra (leia-se o seu livro autobiográfico, "Cabra-Cega"), podemos considerá-la  também como um exemplo típico do que se chama "subversão do objeto": ele pega na propaganda oficial, higienizada, climatizada e paternalista, ou melhor, maternalista, do Movimento Nacional Feminino (MNF), e contrapõe-lhe a realidade da guerra, nua e crua;

(ii) é uma "cena", que podemos qualificar como sendo de "contestação"  através do desenho e do humor negro, num dos contextos mais difíceis da nossa história recente, a guerra na  Guiné (1961/74):

(iii) o contraste entre as duas imagens (1961 e 1968) revela o "gap"  entre a narrativa oficial do "sistema" (de que o MNF fazia parte), e a vivência dos  combatentes no terreno;

(iv) o aerograma de Natal do MNF (com um "boneco" inalterado desde 1961) é uma "idealização",  uma visão ingénua, bucólica, "cristã" e "civilizadora":  o soldado (ainda de caqui amarelo, capacete de aço e mauser)  é um protetor sereno, bonzinho, enquanto o "pretinho" olha para ele com enlevo e admiração; 

(v) no outro lado do aerograma,  a Sagrada Família, na gruta de Belém,  abençoa a missão nas NT (que impõem ou repõem a ordem e a paz numa "guerra subversiva", ou seja, "surda e suja" como  era aquela guerra, de um lado e do outro da barricada);

(vi) a versão do  nosso camarada A. Marques Lopes (um "histórico" da Tabanca Grande), e a que podemos chamar de  "realismo crítico", mostra o "outro lado da moeda": em finais de 1968, no final do consulado do general Arnaldo Schulz, a paz está longe de chegar à Guiné, o conflito prolonga-se, "sangrento", desmentindo a "propaganda" e a "idealização" do MNF;

(vii) as manchas de tinta vermelha, num lado e no outro,  realçam ainda mais  a cena "iconoclasta", a da profanação do sagrado: o chapéu alto do  São José transforma a efeméride religiosa (o nascimento do Menino Jesus) numa farsa, quase um circo, em que se critica implicitamente a hipocrisia de uma guerra que também era feita em nome de valores cristãos e civilizacionais; 

(viii) por fim, temos a frase final, burlesca, pícara: "Uma ginjinha!... Pois dar de beber à dor é o melhor" (parafraseando a letra do fado da "Mariquinhas", com música tradicional do fado "Vou dar de beber à dor", letra de Alberto Fialho Janes e música de Alfredo Marceneiro e Salvador Tavares. imortalizado pela Amália Rodrigues, o próprio Alfredo Marceneiro, a Hermínia Silva, entre outros); é o desabafo (universal) do soldado que tenta anestesiar a violência da guerra (de todas as guerras), com a ginjinha, a cerveja, o uísque, a aguardente de cana, a "água de Lisboa", o vodca, o tabaco e outras"drogas"...

Enfim, fica aqui uma  nota de humor na quadra festiva de Natal e Ano Novo, que se quer de paz, alegria, bonomia, tolerância...  E é  também uma forma singela de lembrar e homenagear o nosso querido cor inf ref António Marques Lopes (1944-2024).

(Pesquisa: LG + IA / Gemini)
(Condensação, revisão / fixação de texto: LG)
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segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27533: Notas de leitura (1874): "Cartas de Guerra (61-74) Aerograma Liberdade”, por Ricardo Correia; edições Húmus, 2024 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Março de 2025:

Queridos amigos,
É uma raridade, uma peça de teatro, a que se segue uma carta-concerto, o foco são os aerogramas, o pretexto é um filho, no nosso tempo, interrogar por carta o pai, em 1972, saber que homem era enquanto combatente. A mensagem é este alerta de que ainda há muito para saber destas toneladas de escrita, houve pactos em casais para destruir a correspondência desse tempo, seguramente que terão assumido que foram dores a mais, que se cometeram excessos, que o que ali se disse não devia ser lido por outros olhos; há quem procure ganhar uns cobres e venda aerogramas por meios eletrónicos ou em negócios de velharias; há aerogramas de grande recorte literário, como os de António Lobo Antunes. 

Mas o que continua por esclarecer era o sentir destes homens naquele tempo e naquele lugar, para o investigador seria um termo de referência, de valor discutível, é certo, houve quem escrevesse fantasias, e interrogo-me em termos de estudo como será possível alguma vez fazer a medição dos silêncios, penso sobretudo naqueles nossos camaradas que viveram os pavores de Guileje, Gandembel, Sangonhá, Bedanda, Madina do Boé ou Béli, o que silenciaram para não despedaçar mais a vida dos entes queridos - esses silêncios só podem ser esclarecidos com o rigor dos factos históricos. Não tenhamos dúvidas, ficaram silêncios inquebrantáveis, que mudaram tantas e tantas vidas.

Um abraço do
Mário



Querido pai, escrevo-te do meu presente para o teu passado, a tentar chegar até ti

Mário Beja Santos

O que seria a história da guerra colonial se tivesse sido possível ter acesso às toneladas de correspondência trocadas nas duas direções? É mera conjetura, sei muito bem, grande parte destes documentos foram para o lixo, por decisão dos dois fez-se fogueira, há herdeiros que os põem à venda. 

Foi assim que o pintor Manuel Botelho comprou uma resma de aerogramas entre dois namorados, ele no Bachile, cabo das transmissões, ela costureira, não da Sé mas no alto de Alfama, temos ali um percurso que ele aproveitou para uma performance que deu para entender comportamentos havidos a dois e por dois anos: ele deslumbrado, à chegada, com todo aquele fascínio de verdura, braços de ria, a fauna, as queixas da comida, mas sempre o desassossego se tu me amas ou não, escreve-me, há aqui camaradas meus que andam à procura de madrinhas de guerra, eu só te quero a ti; ela responde, tu sais que te fartas, se isso é uma guerra é feita de turismo, eu estou para aqui a trabalhar dia e noite, os fins de semana são para preparar o enxoval; da euforia inicial e da troca de arrufos, os meses passam, e há aerogramas que parecem travessias no deserto, não desampares, isto nunca mais acaba, há noites silenciosas que dão cabo de mim, como é que eu vou poder esquecer este sobressalto em que vivo… E dos muitos aerogramas trocados nos primeiros meses chegamos a um fiozinho de correspondência, há quase uma agonia na expetativa do regresso, experimentada pelos dois. Ora isto é uma simples abordagem da riqueza dos conteúdos, uma das dimensões desse imenso ecrã de quem combatia e de quem deste lado dava apoio e lhe pedia fidelidade.

As autoridades alertavam para a necessidade de muita segurança: nada de dizer no endereço mais do que o SPM; e do lado da guerra nada transmitir que possa cair nas mãos do inimigo e para uso letal.

Escusado é dizer que o teatro é o parente mais pobre da literatura da guerra, avulta a literatura memorial, o romance, a novela e o conto, sobretudo a poesia popular, a diarística, a investigação. Alertado por um dos meus benfeitores, o Dr. João Horta, da Biblioteca da Liga dos Combatentes, “tenho aqui uma peça de teatro que mete a Guiné”, pus-me ao caminho e lá fui àquele ponto do Bairro Alto que tem os passeios completamente escavacados e em frente as obras intermináveis no Conservatório Nacional. 

O livro intitula-se “Cartas de Guerra (61-74) Aerograma Liberdade”, por Ricardo Correia, edições Húmus, 2024, inclui um glossário preparado por Rui Bebiano, com termos alusivos ao conteúdo da peça e de uma carta concerto intitulada “Aurora Liberdade” que tem ilustrações de Cátia Vidinhas.

No tempo presente (2023) um filho escreve uma carta ao pai em 1972, pede-lhe que ele lhe conte o seu viver, que pessoa era o seu pai, quando agora o abraça não sabe exatamente o que escondem os olhos do antigo combatente. “Procuro-te e sei que ainda não te encontrei. Tal como Telémaco procurou o seu Pai, Ulisses.” 

E como nessas peças em que os atores trocam de papel, que ganham uma identidade que acaba por ser transferida para outrem, como nas peças de Luigi Pirandello, iremos percorrer num couro dos soldados portugueses a cronologia dos acontecimentos dessa guerra, entra em cena o Movimento Nacional Feminino, ouve-se Cecília Supico Pinto afirmando que é “aberto à participação de todas as mulheres portuguesas exceto as comunistas e as comodistas”

Graças a este Movimento e ao apoio da TAP nasceu o aerograma, atores e atrizes conversam como militares e família, a conversa também transita para o presente, há cartas a um país que silenciou a guerra colonial, um militar está na Guiné, o autor entra em cena, pede colaboração à assistência, diz que está a fazer um espetáculo sobre a correspondência na guerra colonial portuguesa, diz que o pai esteve mobilizado e combateu na Guiné. Vai ser entrepelado, dão-se sugestões.

A peça muda agora de rumo, estamos no presente, conversam atores com o ex-combatente, mas há também testemunhos, não se esconde que existe o stress pós-traumático, uma atriz em cena, de nome Penélope tem como destinatário Telémaco. 

“As cartas chegavam diariamente, mas era como se falássemos em diferido. Ele respondia-me a coisas passadas. Vivíamos em tempos diferentes.” 

É uma mãe a falar ao seu filho dos amores que teve pelo seu pai, queimaram todo o correio trocado “para avançarmos com a nossa vida”

E faz-lhe um pedido: 

“Cabe-te a ti inventar as palavras que queimámos. Talvez assim, um dia, possas contar esta história aos teus filhos. Já não me cabem mais palavras nesta carta. Um beijo grande desta mãe que te ama.”

Finda a peça teatral, segue-se a carta concerto, de novo o aerograma como fio condutor, há uma triangulação na correspondência, o pai soldado, a mãe e a filha, Catarina da Paz, há saudades e há notícias, ficamos a saber que o soldado compreende a revolta de quem o combate, a mãe não esconde as saudades, e vem os festejos do 25 de Abril, Catarina da Paz despede-se do espectador dizendo que este em cena a história dos seus pais.

Em jeito de posfácio, Sónia Ferreira faz comentário a estes conteúdos. Quanto à natureza dos tais aerogramas que chegavam diariamente, mas era como se eles falassem em diferido, dirá:~

 “O peso de um tempo longo e da não-simultaneidade é-nos hoje estranho. A ideia de que a comunicação se dava em diferido, que não acompanhava o ritmo constante da vida, que as respostas que recebo hoje são sobre o ontem, provocará estranheza no público mais jovem.” 

E deixa-nos este comentário final: 

“A sociedade pós-colonial que hoje somos, fruto do desmoronar de um império que ainda hoje persiste e se afirma em ideologias racistas (como bem identifica Ricardo Correia referindo Alcindo Monteiro e Bruno Candé), em património colonial edificado e em lampejos anacrónicos de grandeza, tem se der pensada e construída em relação direta com esta memória difícil que nos atravessa, mesmo que alguns a queiram convenientemente rescrita.”
Ricardo Correia
Advertências das autoridades para a necessidade de segurança do que se escrevia nos aerogramas
Aerogramas de José Rubira: Guiné-Bissau / Montemor-o-Novo 1971-1973, retirado do site Foto-Síntese
“Aerograma Liberdade”, de Catarina Moura
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Nota do editor

Último post da série de 12 de dezembro de 2025 > >Guiné 61/74 - P27523: Notas de leitura (1873): Uma publicação guineense de consulta obrigatória: O Boletim da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné (4) (Mário Beja Santos)

terça-feira, 20 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26820: Vivências em Nova Sintra (Aníbal José da Silva, Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483/BCAV 2867) (12): O meu acidente

CCAV 2483 / BCAV 2867 - CAVALEIROS DE NOVA SINTRA
GUINÉ, 1969/70


VIVÊNCIAS EM NOVA SINTRA

POR ANÍBAL JOSÉ DA SILVA


41 - O MEU ACIDENTE

04 de Agosto de 1969

A primeira vez que fui de férias à metrópole foi a 23/06/69, na companhia do inseparável furriel Lima. Iniciei a viagem de regresso à Guiné nos últimos dias de julho.

Chegados a Bissau fomos ao Hospital Militar visitar o nosso capitão, que dias antes tinha pisado uma mina e ficado sem a perna esquerda. Mal sabia eu que passados quatro dias também lá daria entrada.

Na Repartição de Transportes em Bissau, conseguimos transporte fluvial até o Enxudé e daqui até Tite, sede do batalhão, fomos de unimog. De Tite para Nova Sintra só havia duas hipóteses de transporte, aéreo ou a pé. O Lima teve a sorte de ir de helicóptero pois era de Transmissões e a sua presença era necessária, porque estava em curso a formação de uma operação. Em Tite também em trânsito, encontrei seis soldados da companhia que regressavam após consulta externa no Hospital Militar. No regresso a Tite o helicóptero trouxe as G3 e fardamento de nós sete. Na noite de dois de agosto Tite foi flagelado.

Desconhecendo os cantos à casa, não sabia onde me proteger, até que o furriel Rui Ferreira, puxou-me por um braço e corremos até à retrete do quarto dos furriéis. Lá havia alguma proteção com sacos de terra empilhados acima das nossas cabeças. Na tarde de dois de agosto foi-nos transmitido aquilo que já se esperava. Fazer o trajeto a pé integrados num grupo de combate da CCAÇ 2314, que ia fazer reforço a Nova Sintra, devido à operação que estava a ser preparada.

Saímos de Tite por volta das duas horas da madrugada do dia 04/08/69, acompanhados por quinze carregadores que também iam participar na operação. Chovia torrencialmente.

Passado o arame farpado entramos na mata. Estava muito escuro e dada a intensidade da chuva, mal conseguíamos ver quem ia à nossa frente. Atravessamos uma bolanha com água acima da cintura e os pés enterravam-se no lodo. A marcha era lenta. Finalmente amanheceu, a chuva parou e o sol apareceu, começando a secar o camuflado. Os sete da minha companhia seguiam na retaguarda. O soldado Ventinhas, que tinha ido a Bissau despedir-se do irmão, que tinha terminado a sua comissão, seguia à minha frente. O trilho era apertado ladeado por capim muito alto e verdejante. O cenário era bonito, só que daí a momentos BRUUMMM, um grande estrondo.

Eram sete da manhã. O Ventinhas provavelmente saiu fora do trilho, pois este fazia uma espécie de cotovelo e pisou uma mina antipessoal reforçada com trotil, que o desmembrou, provocando-lhe a morte. Com eu seguia atrás dele a dois metros de distancia, com a explosão a minha cabeça ficou cheia de terra, que entrou na boca, tapou o nariz e sobretudo os olhos. Imediatamente deixei de ver e com dores horríveis nos olhos, zumbidos agudos e tosse ao procurar expelir a terra da boca. Levantei-me e sem ver caí no buraco aberto pela explosão. A G3 voou das mãos e deve ter ido parar ao meio do capim. Na frente da coluna, embora ouvindo perfeitamente o rebentamento, não se aperceberam do que tinha acontecido. O furriel que comandava a coluna, veio atrás ver o que se passava e só então se apercebeu que tinha sido uma mina.

Aos berros chamou pelo cabo enfermeiro, que não teve muito a fazer. O Ventinhas estava moribundo e faleceu algum tempo depois. Segundo me disseram mais tarde, foi embrulhado num ponche de borracha e transportado no regaço de alguém para o quartel de Nova Sintra. Eu não tinha ferimentos visíveis e os que tinha ele não podia ajudar. Foi pedida imediata evacuação, só que as comunicações via rádio com Tite não funcionaram. Resolveram fazermos o resto do percurso, mais ou menos três quilómetros, a pé. Eu fui amparado aos ombros do cabo enfermeiro Henriques e do Arouca. Próximo do quartel estava a sair uma coluna que ia para S. João. Passamos por entre eles e segundo me disseram mais tarde, ninguém sabia quem era o ferido, tal a camada de terra agarrada à cabeça. Pelos vistos só o Tomás, miúdo de dez anos, orfão da guerra, disse que era eu atendendo à forma de caminhar. Já no quartel ouvia a pergunta, quem é? Quem é?

A comunicação com Tite continuava a não ser conseguida. O amigo Lima agarrado ao rádio berrava “india cinco sierra, zulu nove mike, chama“. À data eram os códigos dos postos de transmissões de Tite e de Nova Sinta. Durante o tempo da comissão estes códigos mudavam com frequência, mas estes ficarão para sempre gravados na minha memória e não haverá alzeimer que os retire. Enquanto não era possível efetuar a evacuação, despiram-me e puseram-me debaixo do chuveiro. Termia como varas verdes, de frio não seria porque estava calor, era talvez do estado de choque. A minha farda de passeio e sapatos tinham ficado em Tite. Alguém trouxe uma camisa, calças e calçado. Lembro que as calças eram muito apertadas. Entretanto a evacuação foi conseguida. Levaram-me de jeep para a pista, bem como os restos mortais do Ventinhas. Na avioneta veio uma enfermeira paraquedista, que segundo disseram era loira, talvez numa tentativa de me animar e que meses mais tarde conheci, quando voltou a Nova Sintra numa outra evacuação.

Chegado à base de Bissalanca segui de ambulância para o Hospital Militar. Fui colocado não sei onde deitado na maca. Não sabia se estava no chão ou em cima de qualquer coisa. Com a mão direita de fora da maca, tocava no que me rodeava e conclui que estaria no chão pois sentia uma superfície fria e lisa.

As pessoas passavam por mim mas não ligavam nenhuma. As dores nos olhos e o rubor na cara era escaldante. Comecei por insultar quem por mim passava, chamando-lhes filhos desta e daquela, até que alguém, creio que era um sargento pois chamaram-lhe assim, veio ter comigo e perguntou a outros o que é que aquele homem estava ali a fazer. Responderam que estava à espera do oftalmologista. Era uma segunda-feira e o médico devia ter ido passar o fim de semana à ilha dos Bijagós. Mas o sargento ordenou que eu fosse de imediato ao RX para a eventualidade de ter algum estilhaço no corpo, o que felizmente não se veio a confirmar. O médico chegou e mandou-me para a sala de observações, onde permaneci três dias.

Foi iniciado o tratamento prescrito, que consistia na lavagem dos olhos várias vezes ao dia e mesmo durante a noite, mais umas injeções não sei para quê. Ao fim da tarde desse dia, ouvi passos que vinham na minha direção. Abeiraram-se da cama e uma voz perguntou: “Rapaz de onde és e o que te aconteceu?”. Reconheci logo a voz do General Spínola e resumidamente respondi. O acompanhante habitual do general era o Capitão Almeida Bruno, que me perguntou se eu sabia com quem estava a falar. Respondi que era o General Spínola e ele o Capitão Almeida Bruno. No dia seguinte voltaram a visitar a sala de observações, tomando conhecimento dos que chegaram nesse dia. Era do conhecimento geral, que desde sempre, os dois ao fim da tarde iam ao hospital quase todos os dias. De madrugada entrou alguém na sala a gemer e a berrar. Era uma parturiente que horas mais tarde deu à luz uma bebé.

O barbeiro do hospital, de dois em dois dias, ia-me fazer a barba e eventualmente aparar o cabelo. Para ir ao refeitório, nos primeiros dias, era acompanhado pelo cabo enfermeiro, que me ensinou a fazer o percurso sozinho. Saía da porta da enfermaria, dava quatro passos em frente atravessando o corredor e tocava na parede, virava à esquerda e caminhava uns tantos passos ao longo da parede até ao início da escada, depois à direita, descia seis degraus, contornava o patamar e descia mais seis degraus até à entrada do refeitório. Quando entrava diziam, lá vem o ceguinho, quem é que lhe vai dar a sopa na boca e cortar o bife? Obviamente que meter a sopa na boca era exagero, era uma brincadeira, mas o restante sim, precisava de ajuda. No trajeto inverso contava os mesmos degraus e dava os mesmos passos. Na cama não podia estar de barriga para cima, porque a deslocação de ar provocado pelas enormes pás das ventoinhas colocadas no teto, ao bater nas pálpebras agravava as dores.

Outro problema, o correio. Não podia ler nem escrever, mas consegui uma boa solução para o resolver. O furriel Oliveira Miranda do 4.º Pelotão, andava na consulta externa do hospital, em tratamento da fratura de dois dedos sofrida aquando do rebentamento da mina de 24/07/69. Ia ao SPM (Serviço Postal Militar) levantar o seu correio e trazia o meu. Lia as minhas cartas e ajudava-me a responder. Colocava a minha mão direita que agarrava a esferográfica sobre a primeira linha do papel de carta e vagarosamente começava a escrever. Ao chegar ao fim de cada linha ele dizia, devagar pois vais ter de mudar de linha. Os meus pais não sabiam o que tinha acontecido. Escrevi dizendo que estava em Bissau a tratar de assuntos da companhia. Estava esperançado em voltar a ver, a curto prazo, adiando sempre contar a verdade. Só que o meu pai soube de uma forma abrupta, que mais adiante vou referir.

Às terças e quintas feiras recebíamos a visita das senhoras do Movimento Nacional Feminino e da Cruz Vermelha, respetivamente. Conversavam connosco dando-nos apoio moral, mostravam-se disponíveis para resolver alguma dificuldade e tomavam nota do que nos fazia falta, para eventualmente a satisfazer. Na expetativa de a breve prazo voltar a ver, pedi um estojo de barba. Na semana seguinte fui contemplado com o dito estojo, que me foi entregue por uma senhora e pelo conhecido artista Marco Paulo. Nestas entregas normalmente faziam-se acompanhar de figuras públicas, artistas, cantores, futebolistas e outros.

Ao iniciar a quarta semana de internamento, comecei a sentir melhoras, a manter os olhos abertos durante instantes e dores residuais. Numa ida à casa de banho, ao passar junto dos espelhos, parei diante de um e consegui ver a cara, muito desfocada mas vi. Era sinal que estava no bom caminho e chorei de contente. Nessa semana melhorei substancialmente e como tive conhecimento de que as coisas em Nova Sintra, não estavam a correr da melhor maneira, incluindo a gestão do depósito de géneros, de que era o principal responsável e fui pedir alta ao médico. Ela ficou surpreso e disse: “Oh homem você é maluco, quer ir outra vez para aquele buraco?” À minha insistência ele acedeu, prescrevendo as gotas que devia continuar a aplicar e uns óculos escuros. Tive alta e saí do hospital.

Fui ao Serviço de Transportes solicitar transporte aéreo, porque a pé nunca mais, nem que tivesse de alugar uma avioneta civil. Estava ansioso por voltar a Nova Sintra, acrescido do facto de não ter dinheiro para umas cervejas. Tive a sorte de encontrar o furriel Barriga Vieira, que acabara de chegar de férias e que me emprestou algum.

A primeira coisa que fiz ao chegar ao quartel foi consultar as ordens de serviço, para verificar como estava referido o acidente. Estava só no que dizia ao falecido Ventinhas e quanto a mim nada. Exigi ao alferes Carriço, que na altura comandava a companhia e ao primeiro sargento que o meu caso também fosse registado em ordem de serviço, o que foi feito. Esse documento foi anexo ao processo clínico do hospital e depois organizado um processo por ferimentos em combate.

Trabalhei bastante para repor a escrita em dia mas consegui.

Quanto ao modo como o meu pai teve conhecimento do sucedido foi assim. O Quim Marques, meu conterrâneo e amigo, estava destacado em Farim e tinha vindo passar férias a metrópole. Ele não sabia o que me tinha acontecido. No regresso à Guiné, o meu pai e a família dele, foram a Pedras Rubras despedir-se. No aeroporto o Quim, que era do Serviço de Material, encontrou o furriel do mesmo serviço da CCS do meu batalhão, que se conheciam por terem feito juntos a especialidade. O Quim na melhor das intenções, apresentou-o ao meu pai e disse, este meu amigo pertence ao batalhão do Aníbal. Na ânsia de informações a meu respeito, o meu pai perguntou-lhe, então conhece o Aníbal? Sabe como ele está? E não é que o camelo responde dizendo: “O seu filho está cego“!.. Quando ele veio de férias era a informação que havia em Tite. Não sei como o meu pai resistiu ao choque, pois era muito medricas e sofria do coração.

Dias antes tinha ido a minha casa o alferes Martinho, mostrando-se disponível para me levar alguma encomenda, tendo dito que eu estava em Bissau a tratar de assuntos da companhia e que estava bem. Mentiu a meu pedido. O meu pai chegado a casa vindo de Pedras Rubras, voltou ao Porto para ir tirar satisfações com o alferes. Quando chegou junto dele disse, o senhor alferes mentiu-me, pois acabo de saber que o meu filho está cego. O alferes ficou desarmado e disse: “Sim é verdade mas não é bem assim, menti a pedido do Aníbal e por uma boa causa. De facto ele foi vítima de um acidente grave, mas provavelmente na data de hoje já estará de regresso a Nova Sintra“, o que era verdade. Efetivamente já estava no mato, mais ou menos recuperado, mas ainda em tratamento ambulatório.

Então escrevi à família contando a ocorrência.

Na primeira vez que o amigo Oliveira Miranda me foi visitar ao hospital, eu ainda tinha marcas na cara provocadas pela projeção de areias e terra e disse que eu parecia um goraz de pinta.

De realçar, pela negativa, que o 1.º Comandante do Batalhão e os dois 2.ºs nunca me foram visitar ao hospital e o 1.º ia com frequência a Bissau pois tinha lá família.

Hospital Militar 241 - Bissau
Uma das enfermarias
Heliporto onde todos os dias chegavam feridos

(continua)
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Nota do editor

Último post da série de 13 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26796: Vivências em Nova Sintra (Aníbal José da Silva, Fur Mil Vagomestre da CCAV 2483/BCAV 2867) (11): Uma jóia de criança; A Tombó; Abutres e pelicanos e As larvas de asa branca