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sábado, 6 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28077: Casos: a verdade sobre ...(74): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa: evocandio duas das suas vítimas, oc ap art Carlos Borges de Figueiredo e o sold Pedro José Aleixo de Almeida (Cherno Baldé, o "Chico de Fajonquito)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >( Sector L2 (Bafatá) >  Fajonquito > 1971 > CART 2742 (1970/72) > "Fajonquito em festa... Com a CART 2742 (1970-72), o ambiente entre a tropa e a população melhorou bastante, atingindo níveis nunca antes vistos. 
.
A foto de 1971 (amigavelmente enviada pelo ex-fur mil José Bebiano) mostra uma calorosa receção de um grupo de artistas vindos da metrópole para animar a malta. Ao meio e ao lado de uma das artistas pode-se ver o nosso saudoso Cap Carlos Borges de Figueiredo. 

O rapazinho nas mãos do homem dos óculos escuros é o Carlitos, filho de um soldado português. (Mais tarde, iria à procura do pai, tendo aquele recusado o encontro à última da hora.)

 O ex-furriel José Bebiano, que era de rendição individual, tendo feito toda a sua comissão em Fajonquito poderia, eventualmente, identificar os soldados que acompanham o seu Comandante nesta foto." (Foto de José Bebiano; legenda de Cherno Baldé).




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá >( Sector L2 (Bafatá) >  Fajonquito > 1971 > CART 2742 (1970/72) > Dois furriéis milicianos, à esquerda o Alcino Franco Jorge da Silva (da CART 2742, morto em 2/4/1972, juntamente com o cap art Carlos Borges de Figueiredo, o alf mil José Fernando Félix, e o sold Pedro José Aleixo de Almeida) e o José Bebiano, à direita (era de Informações & Operações, de rendição individual,  e esteve  ainda uns meses em Fajonquito, com o José Cortes,  ex-fur mil at inf  CCAÇ 3549/BCAÇ 3884, Fajonquito, 1972/74, a companhia que foi render a CART 2742 ). 

 A CART 2742 pertencia ao BART 2920 (Bafatá, 1970/72). (O José Bebiano, em 2010, era ex-professor de Educação Física em Moura, aposentado desde 30/11/2009; nunca respondeu ao nosso  convite para integrar a Tabanca Grande; tem página no Instagram)
 
Fotos (e legenda): © José Bebiano (2010). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagemcom'plementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné].
 

1. Comentário de Cherno Baldé na página do Facebook da Tabanca Grande, 5 de junho de 2026 17:42, com referência ao poste P28073 (*)


O Chico de Fajonquito,
com 14 anos (c. 1974)
(...) Quando falei deste caso no Blogue (**), referi que estava, no momento do rebentamento da granada, a uns 100 metros, na verdade, após verificação, constatei que estávamos, eu e um colega, a menos de 50 metros do local. A nossa sorte foi que tudo aconteceu dentro do edificio que servia de secretaria geral e escritório do capitão da companhia. 

Ouvimos o rebentamento e a seguir uma nuvem de poeira se levantou acima da cobertura de zinco, estávamos na época seca. A seguir, fugimos do local a sete pés e só voltámos quando a população se reuniu, à distância, para se inteirar do ocorrido e partilhar o sentimento de pesar e de luto. 

Foi um dia triste para todos os presentes, sem exceção. De facto, o depoimento do ex-furriel Rui Osório Oliveira (*)  é verídico e oferece-nos detalhes importantes que fazem toda a diferença sobre este caso e, a meu ver, a tese do acidente ganha vulto, afastando a de homicídio premeditado. 

Também, ficamos a saber que, o que estava em causa seria a possibilidade de continuar na tropa e não, necessariamente, na Guiné. 

2. Comentários anteriores do Cherno Baldé sobre esta tragédia (homicídio ? acidente ?) e duas das suas vítimas, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, natural de Vila Pouca de Aguiar, e o sold Pedro José Aleixo de Almeida, natural de Portel- (Já agora acrescente-se o concelho da naturalidade das outras duas vítimas deste "acidente com arma de fogo": o fur mil Alcino Franco Jorge da Silva era de Cascais;  o alf mil José Fernando Félix era de Moimenta da Beira.)


Cherno Baldé
(c. 2009)

(...) Pela versão que prevaleceu entre nós, alegadamente, o soldado Almeida estava revoltado por não poder voltar à sua terra após várias comissões de serviço, em virtude de um castigo a que estava sujeito e tinha decidido acabar com a sua vida e com ele, também, a do comandante da companhia. 

Claro que isto faz parte dos rumores que circularam, na ausência de informações oficiais, na altura.

Quero dizer a quem me quiser ouvir, e isto por minha conta, que o Almeida era um soldado "profissional", muito aguerrido,  que dificilmente poderia levar uma vida civil pacata no meio indígena ou gerindo uma lojeca ou um restaurante para servir a malta europeia numa cidade qualquer da Guiné. 

O Almeida não era um soldado vulgar e via-se claramente que não se tinha integrado na companhia dos restantes soldados e milicianos pelos quais  quais ele nutria muita pouca consideração e/ou respeito.

Tão pouco se podia integrar no meio dos pretos,  embora se identificasse com eles. Penso que, antes de mais, o nosso amigo Ameida (ele era de facto um amigo e defensor das crianças que frequentavam o aquartelamento, ai de quem se atrevesse a fazer mal a uma criançaa na sua presença!) deve ter sido mais uma das inúmeras vitimas daquela guerra terrível. (..) (**)


(...) "O que vou dizer pode parecer paradoxal se não incongruente. O sr. Carlos Borges de Figueiredo, ao contrário de muitos outros, foi um capitão pacifista pois ele tinha-se distinguido, sobretudo, pela promoção da educação entre as crianças nativas (o número de alunos na escola local tinha aumentado significativamente facto que poderia estar ligado ao ambiente de paz criado e uma grande sensibilidade pelos problemas sociais da população) e organização de eventos sócio-culturais que, não só afastavam, por algumas horas, o espectro da guerra e da morte entre a tropa mas eram também muito úteis e importantes na construção de relações de aproximação e de confiança com a populaçã local, tão prezada por general Spínola.

Foi nessa altura que, pela primeira vez, recebemos a visita de grupos musicais vindos da metrópole. Numa dessas visitas, lembro-me da presença de uma ou mais mulheres cantavam o Fado. A música era muito morna, lenta demais para o nosso gosto temperado na ritmada, quase violenta dança de tambor mandinga. 

No meio de tudo isso, não nos escapou um detalhe importante. Notámos a deferença e o extremo respeito com que todos a(s) tratavam. O respeito dado àquela(s) mulher(res) contrastava de forma flagrante com a maneira como habitualmente lidavam com as nossas mulheres, fossem elas grandes ou pequenas. E não estou a referir-me, claro a esta, à esposa do capitão que, também, deve ter visitado Fajonquito.

Ele ficou conhecido no meio da populacao local com o nome de Capiton Lelö Dahdè, o que na lingua fula significa o Capitão Cabeça inclinada. Talvez aqueles que o conheceram de perto me possam corrigir, parece que ele tinha o hábito de inclinar ligeiramente a cabeça para um dos lados, daí o nome com que o baptizaram e que fica para a história." (...) (***)

Guiné 61/74 - P28076: Fichas de unidades (41): BART 2920 (Sector L2, Bafatá, 1970/72), CART 2741 (Contuboel), CART 2742 (Fajonquito) e CART 2743 (Geba)


Batalhão de Artilharia n." 2920 (tem 8 referêncvias no blogue)


Identificação BArt 2920

Unidade Mob: RAP 5 - Penafiel

Crndt: TCor Art Fernando de Melo Macedo Cabral | 2º Crndt: Maj Art Álvaro Nuno Miranda Furtado | OInfOp/Adj: Maj Art Rui Folhadela Macedo Rebelo

Crndts Cornp:

  • CCS: Cap Art Eduardo da Conceição Santos
  • CArt 2741: Cap Art João Maria Clímaco de Sousa Brito
  • CArt 2742: Cap Art Carlos Borges de Figueiredo | Alf Mil Art Baltazar Gomes da Silva
  • CArt 2743: Cap Mil Art Ilídio do Rosário dos Santos Moreira

Divisa: -

Partida: Embarque em 18Ju170; desembarque em 24Ju170 | Regresso: Embarque em 21 Set72 (CArt 2741), 22Set72 (CArt 2742) e 23Set72 (Cmd, CCS e CArt 2743)

Síntese da Actividade Operacional

Em 03Ag070 seguiu para Bafatá, a fim de efectuar a sobreposição e render o BCaç 2856, assumindo, em 13Ago70, a responsabilidade do Sector L2, com sede em Bafatá e abrangendo os subsectores de Geba, Fajonquito, Contuboel e Bafatá e, a partir de 29Ag070, o de Sare Bacar. As suas subunidades mantiveram-se sempre integradas no dispositivo e manobra do batalhão.

Desenvolveu intensa actividade operacional orientada para a contra-penetração e segurança e protecção das populações, efectuando numerosas acções e operações, patrulhamento, emboscadas, reconhecimentos ofensivos e reacções a ataques inimigos, em especial contra Ualicunda, Sare Bacar, Sumbundo e Cantacunda e outras povoações em autodefesa.

Dentre o material capturado mais significativo, refere-se: 3 espingardas, 2 lança-granadas foguete, 21 granadas de armas pesadas e a detecção e levantamento de 20 minas.

Em 28Mai72, foi rendido no subsector de Bafatá pelo BCaç 3884 e recolheu 
seguidamente a Bissau, a fim de aguardar o embarque de regresso.

***

A CArt 2741 seguiu em 03Ag070 para Contuboel, a fim de efectuar a sobreposição e render a CCaç 2435, seguindo um pelotão para Sare Bacar, em 05Ag070 e outro para Sare Aliú Sene, em 12Ag070.

Em 13Ag070, assumiu a responsabilidade do subsector de Contuboel, com forças destacadas na ponte do rio Geba, Sora, Sare Bacar e Sare Aliú Sene.

Em 20Ag070, por criação, ainda com carácter temporário, do subsector de Sare Bacar, passou a ter três pelotões destacados neste novo subsector e instalados em Sare Bacar, Sare Aliú Sene e Sora, onde se mantiveram até à chegada da CCaç 2636, entre 20 e 24Set70. 

A partir de 24Set70, mantendo efectivos na ponte do rio Geba, passou a ter destacados dois pelotões em Sare Uale e Sumbundo, no subsector de Fajonquito, onde permaneceram até finais de Jun71. 

Seguidamente destacou efectivos para reforço temporário do subsector de Bafatá e, deslocou um pelotão para Sonaco, mantendo sempre o destacamento da ponte do rio Geba.

Em 28Mai72, foi rendida no subsector de Contuboel pela CCaç 3547 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A CArt 2742
seguiu em 03Ag070 para Fajonquito, a fim de efectuar a sobreposição e render a CCaç 2436, assumindo, em 13Ag070, a responsabilidade do respectivo subsector, com forças destacadas em Cambajú, Sumbundo, até 24Set70 e Ualicunda, de 24Set70 a Jul71 e Sare Uale, a partir de finais de Jun71.

Em 21Mai72, foi rendida no subsector de Fajonquito pela CCaç 3549 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

***

A CArt 2743 seguiu em 03Ag070 para Geba, a fim de efectuar a sobreposição e render a CCaç 2437, assumindo, em 13Ag070, a responsabilidade do respectivo subsector, com pelotões destacados em Cantacunda e Sare Banda.

Em 27Mai72, foi rendida no subsector de Geba, pela CCaç 3548 e recolheu seguidamente a Bissau, a fim de efectuar o embarque de regresso.

Observações - Tem História da Unidade (Caixa n." 98 - 2ª Div/4ª Sec, do AHM).

Fonte: Excertos de Portugal. Estado-Maior do Exército. Comissão para o Estudo das Campanhas de África, 1961-1974 [CECA] - Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África (1961-1974). 7.º volume: Fichas das Unidades. Tomo II: Guiné. Lisboa: 2002, pp. 230- 231.

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

Guiné 61/74 - P28072: Casos: a verdade sobre ...(73): A tragédia de Fajonquito, o "Dia Negro" de 2 de abril de 1972, domingo de Páscoa (Rui Oliveira, ex-fur mil trms, CART 2742 / BART 2920, 1970/72)




Guiné > Zona Leste > Região de Bafatá > Sector L2 > Fajonquito > CART 2742 > Domingo de Páscoa, 2 de abril de 1972. Os momentos dramáticos que antecederam a tragédia.

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Rui Osório Oliveira
Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.



1. Mensagem recebida através do  Formulário de Contacto do Blogger 

Data - 4 de junho de 2026 11:22 

Assunto - Narrativa da morte de vários elementos da CART 2742, em  02/04/1972

1.1. Era furriel de transmissões na CART 2742 e gostaria de enviar um documento com a realidade do que presenciei detalhadamente no trágico dia de 2 de Abril de 1972 onde morreram o capitão Borges de Figueiredo, o alferes Félix, o furriel Alcino Silva, e o soldado Almeida que originou o acidente.

Muito do que consta no blog sobre o trágico dia é FALSO (*)

Gostaria rectificar o evento com a minha narrativa (**).

Cumprimentos,

Rui Osório Oliveira, F.N. 07486708  | 
Endereço de email: (...)

Rui Osório  Oliveira 
IT Remote Worker
Vive na Murtosa
(Foto no Linkedin)

AC 101 517 505
ICT System Engeneering
ICT Functional Analysis
WEB.3 - Blockchain
New Business Development
UN Online Volunteer 2010 AWARD

1.2. BART 2920 – CART 2742 - O DIA NEGRO – Dia 2 de Abril de 1972, Domingo de Páscoa


Era habitual aos domingos jogarmos Poker de Dados, éramos 5 habitualmente, o capitão
 [Carlos Borges Figueiredo ], o sargento Moura, o alferes Félix, o furriel Alcino Silva e eu.

Já tinha decorrido algum tempo de jogo quando abruptamente a porta do bar foi aberta com violência. Era o já referido soldado Pedro Almeida, ex-comando, tinha sido expulso da sua unidade e colocado na nossa companhia, para seu castigo e nossa desgraça. 

Na sua mão esquerda tinha uma granada defensiva sem cavilha de segurança. De imediato nos levantámos e o Almeida só dizia: “Quero falar com o nosso capitão”, frase que repetia constantemente, sem uma palavra trocada entre nós, que estávamos a jogar. 

Fomos tentando acalmar o Almeida e instintivamente tentado nos afastar do bar e aproximar de uma saída, estávamos no meio dos corredores na posição que mostro no esquema que segue.


[ Infografia: Rui Osório Oliveira, 2026]


Quando da passagem pedonal se ouviu a voz de um soldado: "É preciso alguma coisa, meu  capitão ?". 

O Almeida, sem mover do sítio os pés, torceu o seu tronco em direcção à voz que se tinha ouvido, apontando com o seu braço esquerdo que segurava a granada e disse: "Ide embora que isto não é convosco, mas com o nosso capitão". 

Neste preciso momento, em que acabou a frase, deu-se a explosão da granada que ele, devido ao seu gesto. deve ter aliviado a alavanca de segurança provocando o seu despoletar. 

Após o primeiro impacto vi o capitão, o Félix, o Alcino e o Almeida por terra tendo tido morte instantânea, os corpos estavam completamente dilacerados, o sangue jorrava por todos os lados. 

No corpo do soldado Almeida havia um buraco em forma de semicírculo que ia da axila esquerda à anca esquerda curvando até á coluna vertebral. Foi este facto que salvou o sargento Moura, que teve unicamente escoriações, e a mim que tive escoriações também, mas em menor grau. Um estilhaço ainda permanece incrustado num osso na base esquerda da minha mão direita, outros tive no braço e na cabeça, mas desapareceram com o tempo.

Fiquei em estado catatónico, e a primeira pessoa a chegar foi o Cabrita Martins que, vendo o meu estado,  me deu um estalo e gritou: "Vai para o rádio e pede socorro". Assim fiz.

Não passou muito tempo quando chegou o general Spínola, de helicóptero, com a sua comitiva entre os quais um médico, que após uma rápida vista dos corpos, viu o sargento Moura e depois a mim, mandou-me tomar um Valium 10mg, só foi pena não me ter dito para não tomar bebidas alcoólicas, o que fiz até voltar para casa.

O general Spínola reuniu os que estavam presentes numa grande roda disse umas palavras de circunstância, alertou para o sucedido, agradeceu o nosso esforço e despediu-se, voltou para o helicóptero e foi embora com a comitiva.

Vi umas mensagens que, entretanto, tinham chegado e fui ao local do acidente onde se encontravam os enfermeiros,  ajudados por outros militares a transportarem o que restava
dos corpos para a enfermaria e posteriormente seguirem para Bissau.

Sei perfeitamente o que o soldado Pedro Almeida queria dizer ao acpitão, era que o deixasse ficar na tropa quando acabasse a comissão, por mais de uma vez o tinha feito anteriormente, mas o capitão nada podia fazer, após o que lhe tinha acontecido em Viana do Castelo, que levou o Almeida a ser expulso dos comandos e vir para a CART 2742. Com tal evento registado jamais poderia permanecer nas forças armadas.

Também sempre senti na pele que, pelo facto de dormir fora, numa moradia, com outro furriel, ter um laboratório de fotografia, e o capitão falar isoladamente comigo, criou um certo mal-estar, quanto à minha pessoa. Sentia-se constantemente algo no ar, no entanto realço que nunca senti qualquer diferença da amizade que me tinham e eu tinha por eles ou diferença de tratamento.

Ao fim da tarde desse dia fui para o bar do sr. Avelino, sentei-me numa mesa que estava num canto, virado para esse mesmo canto, pedi ao ajudante do sr. Avelino uma garrafa de whisky e bebi-a até ficar sem gota, não falei com ninguém, só me fui embora já era de madrugada e ninguém a não ser o sr. Avelino se encontrava no bar, nem na rua. 

Desde esse dia nunca mais consegui entrar à noite no quarto que partilhava com o Alcino Silva, passei a dormir em casa da Cristina, mulher de idade avançada, que me tratava da roupa, onde vivia também a Mimi, mulher linda, com quem eu ficava. 

Quando o acidente ocorreu faltavam cerca de 2 meses para o fim da comissão de serviço e regresso à metrópole. Foi um acidente que me traumatizou para toda a vida e que ainda hoje me vem frequentemente à memória e em pesadelos. 

Este acidente foi ainda mais penoso para mim, pelo simples facto de que o capitão, quando foi de férias pela primeira vez, chamou-me ao gabinete, e disse-me: "Dá-me o endereço de teus pais, porque  quero visitá-los". 

E assim fez, acompanhado de sua esposa, a dra.  Rosa Figueiredo, esta falava frequentemente com a minha mãe, dando notícias minhas, pois eu detestava escrever aerogramas, a tal ponto de alguém ter comunicado o facto ao comando militar de Bissau, tendo eu recebido uma missiva a mandarem-me escrever para a família, e continuar a fazê-lo regularmente sob pena de sanção disciplinar. 

Havia imensas hipóteses de contacto, para provocarem esta reacção, a minha família conhecia a família dos 2 majores do Batalhão  [BART 2920], e uma grande amiga de minha mãe conhecia o comandante do Batalhão, factos que só vim a constatar na altura em que vim férias, no Carnaval de 1971.

Há um hiato de tempo que permanece completamente em branco na minha mente, um período que vai desde este acidente e o já estarmos em Bissau para regressar à Metrópole.

Estava eu e o sargento Moura no Hotel que fica à esquerda de quem desce pela avenida
[da República, hoje av Amílcar Cabral], frente ao Palácio do Governador. Em dois quartos frente um ao outro, e de o Moura me ter pedido para o ajudar a conferir as contas da companhia, dado que conhecia os meus conhecimentos de contabilidade e já o tinha ajudado por diversas vezes anteriormente, dado que existia um erro no balanço final. Ajudei-o e não me lembro da continuação.

Recordo, sim, que eu me sentia mal da minha cabeça, descuidando por vezes a minha aparência. A última recordação da Guiné é de eu estar na 5ª Rep [ Café Bento]. a beber uma cerveja,  quando chegou ao meu lado um polícia militar, era periquito, notava-se pela farda e branquinho de pele, que me disse: “Meu Furriel,  peço-lhe que se recomponha e aperte os botões da camisa e endireite a gravata, senão sou obrigado a dar-lhe ordem de prisão”. 

Eu não disse nada, fiquei a olhar para ele, talvez com cara de parvo, quando vi alguém, um major do  [BART 2920] , chegar ao meu lado e dizer ao PM: “Você vai sair daqui imediatamente ou quem lhe dá ordem de prisão sou eu”. Recordo que ainda houve uma troca de palavras, mas o PM pôs-se na alheta.

O próximo facto de que me recordo, foi já no aeroporto de Figo Maduro, chegar ao pé da família e primos(as) Amaral, de Lisboa, lembro-me de ter entregado à Nanducha um ceptro
dos nativos guineenses. Fomos para um quartel junto ao aeroporto, desfardarmo-nos, vestimos a roupa civil e fui ter com a família, voltei para casa no Porto.

Passado uma prima disse-me: “Ó rapaz quando chegaste ao pé de mim, parecias um Zombie!”.

Este evento mudou completamente o meu mundo, e durante muitos anos ninguém notou, reparou ou analisou o que se passava. Quando tentava falar do que se passava comigo,
acusavam-se de ser solitário, “doido”, “maluco”, “parvo” e "deixa-te disso".

Certo dia numa visita de rotina à médica de família, a mesma notou que algo se passava comigo e perguntou-me o que se passava e o que se tinha passado na Guiné. Receitou-me
um calmante e sem me dizer nada enviou um pedido de agendamento de consulta de psiquiatria no Hospital Magalhães Lemos
 [HML].

Passadas umas semanas,  recebo um convocatória para me apresentar numa consulta no HML, estava nesse momento internado no Hospital Joaquim Urbano, nas infecto-contagiosas com um abcesso de 7 cm no fígado, tendo aí permanecido 1 mês e meio.

Levaram-me à consulta numa cadeira de rodas numa ambulância. No final da consulta receitaram-me Efexor e o psiquiatra comunicou-me que iam iniciar um processo de Stress Pós-Traumático de Guerra, e para avisar quando tivesse alta do Joaquim Urbano.

Assim fiz. Permaneci no HML em regime Ambulatório durante 11 meses e fui acompanhado durante 13 anos com consultas periódicas. 

Passados uns tempos e, após várias consultas no Hospital Militar e  Juntas Médicas, foi-me reconhecida em 29 de outubro de 2008  Deficiência de 39% das minhas capacidades de saúde mental, tendo como tal direito a uma Pensão de Deficiência do Exército via CGA  [Caixa Geral de Aposentações].

Passaram-se 10 anos e, em todas as tentativas do obter a situação do processo, sempre recebi a resposta de ainda não se encontrar finalizado. Nesta altura estava completamente
desaustinado e resolvi apresentar a minha situação no Portal da Internet do Provedor de Justiça, lembro-me do último parágrafo: “Penso que estão à espera de que eu morra para
não pagarem a Pensão a que tenho direito...”

Estávamos em outubro de 2018, no dia seguinte recebi um email do secretariado a comunicarem-me que sido iniciada a análise expedita do meu processo. Tendo na altura
recebido o conteúdo de uma cópia do processo da morte do capitão Borges de Figueiredo, alferes Félix, furriel Alcino Silva e soldado Almeida.

O que mais me custou foi ver os falsos testemunhos dados por vários elementos da companhia, nomeadamente sargento Moura, alferes Baltasar Gomes da Silva e mais um soldado de que não me recordo do nome, afirmando que eu não estava presente durante o acidente. 

Valeu o relatório efectuado por um membro da comitiva em que estava exarado que estava presente no momento acidente, tendo saído ileso unicamente com alguns estilhaços no braço direito que estava estendido, milagrosamente, devido ao facto de o corpo do soldado Almeida, dado que se tinha virado para o soldado que tinha falado, ter absorvido o impacto da granada, salvando igualmente o sargento Moura e  tendo este sofrido mais escoriações.

No dia 18 de novembro estava em Lisboa, dado que a minha irmã se tinha suicidado atirando-se para a Linha do Metro quando este ia a passar, tendo sido trucidada. Estávamos em casa de um familiar, e após os trâmites legais, identificação do corpo, levantamento dos seus pertences e cremação no cemitério de São João. 

Na viagem de regresso ao Porto no Alfa Pendular,  em determinada altura resolvi ligar o telemóvel e ver os emails recebidos, entre eles encontrava-se um da CGA, a dizer  que o processo tinha sido aprovado e que iria receber os retroactivos que tinha direito desde o início do processo até à data, passando a partir desse momento a receber a Pensão de Deficiente mensalmente via CGA.

Rui Osório Oliveira

(Revisão / fixação de texto, parênteses retos, links: LG)

___________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:

16 de agosto de 2014 > Guiné 63/74 - P13505: Quem era, afinal, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, cmdt da CART 2742 (Fajonquito, 1970/72), morto em 2/4/1972, num sangrento domingo de Páscoa? Bem como o infeliz sold Pedro José Aleixo de Almeida? (José Cortes / Luís Graça / Carlos 'Gomes' / Cherno Baldé / António Bernardo)

14 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9041: Memórias do Chico, menino e moço (30): A propósito do poema K3, de Nuno Dempster: Relembrando dois malogrados capitães de Fajonquito, Carlos Borges Figueiredo (CART 2742) e José Eduardo Marques Patrocínio (CCAÇ 3549) (Cherno Baldé)


sábado, 16 de agosto de 2014

Guiné 63/74 - P13505: Quem era, afinal, o cap art Carlos Borges de Figueiredo, cmdt da CART 2742 (Fajonquito, 1970/72), morto em 2/4/1972, num sangrento domingo de Páscoa? Bem como o infeliz sold Pedro José Aleixo de Almeida? (José Cortes / Luís Graça / Carlos 'Gomes' / Cherno Baldé / António Bernardo)

1. Uma das versões sobre a tragédia de Fajonquito, ocorrida no domingo de Páscoa, de 2 de abril de 1972, já aqui nos foi contada pelo José Cortes, ou melhor, foi-me contada de de viva voz, ao telefone, pelo José Cortes e reproduzida por mim (*).

Recorde-se que o José  Corttes [, foto atual à direita], vive em Coimbra, trabalhou como técnico de manutenção nos SUCH [, Serviços de Utilização Comum dos Hospitais] e  foi fur mil at inf inf da CCAÇ 3549/BCAÇ 3884, Fajonquito, 1972/74, a companhia que foi render a CART 2742 de que o cap art Carlos Borges de Figueiredo foi comandante até 2/4/1972.

O José Cortes falou-me com emoção desses tempos da Guiné. Ele próprio tem um filho que foi paraquedista e esteve em missões de paz (por ex.,Timor, Bósnia). Mas, como muitos outros camaradas, queixa-se de que nem sempre a família tem pachorra para ouvir as suas recordações da Guiné. Uma das que está bem presente na sua memória é a da morte do capitão e mais três ou quatro militares da companhia (a CART 2742, Fajonquito, 1970/72) que eles foram render.

Recorde-se que a CART 2742, comandada pelo cap art Carlos Borges de Figueiredo e, posteriormente, pelo alf mil art Baltazar Gomes da Silva, era uma unidade orgânica do BART 2920, mobilizada em Penafiel no Regimento de Artilharia Ligeira n.º 5, tendo assumido a responsabilidade do subsector de Fajonquito, rendendo a CCaç 2436, em 13 de Agosto de 1970, e  vindo a ser substituída pela CCaç 3549 em 21 de Maio de 1972.. 

O José Cortes  tinha-me prometido contar essa história, por escrito,  mas só não o fez o fez por, alegadamente, ter "fraco jeito para a escrita". Aqui vai, pois, a sua versão oral (*):

(i) havia um soldado da CART  2742 que, uma vez terminada a comissão, queria ficar na Guiné como civil;

(ii) ao que parece o cap art Carlos Borges Figueiredo manifestou, desde logo, a sua firme oposição à ideia do soldado, de resto  contrária a todo o bom senso e sobretudo ao RDM: ter-lhe dito;: "se vieste comigo, voltas comigo!";

(iii)  em consequência, as relações entre  o soldado da CART 2742  e o seu comandante tornaram-se conflituosas; neste contencioso, foi envolvido  também o primeiro sargento (Moura);

(iv) a mulher do capitão havia mandado, da metrópole, "dez quilos de amêndoas" (sic)  para distribuir pelo pessoal da companhia; a distribuição foi feita pelo próprio comandante, no refeitório, no domingo de Páscoa, 2 de Abril de 1972;

(v) quando chegou a vez do soldado em questão, o capitão terá passado à frente, num ato que aquele interpretou como de intolerável discriminação;

(vi) o soldado levantou-se, sem pedir a licença a ninguém, e saiu do refeitório;  dirigiu-se ao seu abrigo (ou à sua caserna) e veio para a parada com "duas granadas de mão já descavilhadas", uma em cada mão (uma cena digna dos filmes do Faroeste);

(vii) foi direito à secretaria: o primeiro sargento ter-se-á apercebido, a tempo, das malévolas  intenções do soldado, tendo-se posto a salvo em bom tempo;

(viii) no interior da secretaria, estavam  o capitão, um alferes e um furriel; ninguém sabe o que se terá  passado  lá dentro; o  soldado terá deixado  cair as duas granadas, descavilhadas; o teto da secretaria foi pelos ares;  lá dentro ficaram 4 cadáveres

(ix) mortos, em 2/4/1972, todos do Exército, por acidente (sic), constam os seguintes nomes, na lista dos Mortos do Ultramar da Liga dos Combatentes:

  • Alcino Franco Jorge da Silva, fur mil;
  • Carlos Borges de Figueiredo, cap art;
  • José Fernando Rodrigues Félix, alf mil;
  • Pedro José Aleixo de Almeida, sold básico.

(x) sabemos que o sold básico Pedro José Aleixo de Almeida era natural de Portel, em cujo cemitério local repousam os seus restos mortais; foi o protagonista desta trágica história (fonte: Portal Ultramar Terraweb > Os mortos em campanha do BART 2920, 1970/72);

(xi) por sua vez, o  alf mil art op esp José Fernando Rodrigues Félix era de Moimenta da Beira em cujo cemitério local está sepultado:

(xii) o cap mil art Carlos Borges de Figueiredo era natural de Vila Pouca de Aguiar; a  sua última morada era Meadela, Viana do Castelo, possivelmente a terra da sua esposa;

(xiii) por último, o fur mil Alcino Franco Jorge da Silva também era de op esp,  sendo natural de Carcavelos, Cascais; está sepultado no cemitério de S. Domingos de Rana;

(xiv) não sabemos o que faziam os dois rangers na secretaria, possivelmente terão vindo em auxílio do capitão com a intenção de desarmar o militar, o sold básico  Pedro José Aleixo de Almeida, que trazia consigo as duas granadas descavilhadas (ou só uma, segundo outras versões), pronto possivelmente para acaber com a sua vida e de quem mais se lhe atravessase no caminho;

(xv)  o José Cortes fala em cinco mortos, mas tudo indica que sejam apenas os quatro que constam da lista da Liga dos Combatentes;

(xvi) li, em tempos, que o caso foi também utilizado pelo serviço de propaganda do PAIGC (nomeadamente pela "Maria Turra", da Rádio Libertação) para desmoralizar as tropas portuguesas: há um documento do PAIGC, no Arquivo Amílcar Cabral, no portal Casa Comum, desenvolvido pela  Fundação Mário Soares (FMS), que faz referência ao sucedido, e e que de momento não consigo localizar;

(xvii) o facto de o insólito caso ter ocorrido em Fajonquito, na fronteira com o Senegal, significa que foi de imediato conhecido da população local, das autoridades do Senegal e do PAIGC; o nosso Cherno Baldé, na altura com 10/11 anos, faz referência, num dos seus postes a este trágico "acidente", que ocorreu a 100 metros, quando ele estava a brincar com outros putos na parada (**);

(xviii) gostaríamos de ter outras versões deste acontecimento; infelizmente não temos ninguém, na nossa Tabanca Grande, da CART 2742 / BART 2920; julgo que seja difícil, ainda hoje, aos camaradas da CART 2742 abordar esta história, tão trágica quanto absurda...


 2. Comentário de L. G.:

Infelizmente, este caso não foi único no TO da Guiné: o acesso fácil a armas de guerra e a usura física e mental da guerra ajudam também a explicar estes surtos de violência patológica que, de tempos a tempos, ocorriam nas nossas fileiras.

Quantos suicídios terão havido no CTIG, ao longo da guerra ? Quantos homícídios terão ocorrido, dentro das NT ? 

Na lógica da hierarquia militar, estes casos eram eufemistica e hipocriticamente tratados como "acidentes com armas de fogo" (sic).... E assim ficarão, para a história - como acidentes, inexplicáveis - , se não houver da parte dos contemporâneas e das testemunhas presenciais destes casos a vontade de contribuir, com depoimentos em primeira mão, para o seu esclarecimento...

Intrigam-nos casos como este. O que podia levar um militar português a querer ficar na Guiné, na vida civil ? 
  • Podia não ter ninguém à sua espera, na sua terra, não ter família, não ter amigos;
  • podia, por qualquer razão, querer esquecer a sua origem ou condição;
  • podia estar perdido de amores por alguma bajuda;
  • podia estar pura e simplesmente deprimido ou psicótico...

Um indivíduo deprimido ou psicótico pode facilmente perder a noção do perigo, ficar indiferente a uma situação de perigo imediato e iminente, e até desejar a sua própria morte. Não nos parece ter sido uma acção premeditada, pensada e amadurecida a frio... Em princípio, foi uma acção precipitada, irreflectida, impulsiva. O tal "acto de loucura" da "vox populi"... 

A ser verdade que o capitão deliberadamente ou não discriminou o soldado, aquando da distribuição das amêndoas, isso poderá ser sido "a gota de água" que transformou um conflito disciplinar num massacre... No final da comissão de uma companhia, na festa do em que se celebrava o dever cumprido, no domingo (afinal, sangrento) de Páscoa de 2 de Abril de 1972...

3. Comentário do nosso leitor (e camarada) Carlos Gomes (*):

Gostava de comentar o drama da Páscoa de 72 em Fajonquito. Longe de mim fazer juizos de valores, de quem quer que seja, nem fomentar polémicas. Da CCS do BART 2920 fui destacado como enfermeiro para a CART 2742, sediada em Fajonquito,  no periodo de 2 dezembro 70 a 20 maio de 71. Por conseguinte um ano antes do trágico acontecimento [2/4/1972]. Se bem me lembro, foi nesse período que também chegou o sold Almeida à CART  2742. Dizia-se que ele vinha dos comandos, expulso  ou castigado.

Conheci o Almeida quase de imediato, pois ele tinha problemas de pele em várias partes do corpo que passei a tratar. Passado algum tempo  apercebi-me  que ele,  Almeida,  tinha algumas pertubações a nível emocional. Não esqueço a forma maliciosa como a rapaziada o apelidava  ou tratava: Almeida, "apanhado, bate mal da bola, maluco"... 

O Almeida estava sempre a alinhar nas saídas para o mato, dava para perceber que as relações com o comandante da companhia não eram das melhores. Lembro um episódio em que o Almeida lavava os dentes à porta da camarata e o cap Figueiredo lhe chamar a atenção para o que estava a fazer, o que gerou entre ambos alguma discussão.

Como é óbvio,  tambem conheci o cap Figueiredo, algumas vezes lhe prestei assistência. Homem possante e de elevada estatura, era um  eximio jogador de futebol de salão. Pelo que sei era militar de carreira (e não miliciano). As suas atitudes na liderança da companhia,  em vez de gerar confiança, tinham o efeito contrário. Eu sempre que podia,  evitava-o...

2 de Abril  de 1972: Tragédia.  Pelos relatos que me chegaram,  o Almeida passou-se  de todo,  queria o ajuste de contas com o capitão  e o primeiro sargento...Com uma granada na mão, descavilhada, entra na secretaria onde pretende ficar com o capitão  e o sargento. O alf Alcino e o furriel Félix tentaram demover o Almeida. Disse-se que o Almeida gritou para que eles saíssem,  ao alferes e ao  furriel, o que não fizeram ou não tiveram tempo de o fazer. Quanto ao sargento, talvez só ele possa dizer como escapou.

As razões para este acto tavez no concreto nunca se venham a saber, mas duma coisa tenho eu a certeza: actos como estes e tantos outros que aconteceram nesta guerra, não aconteceram por acaso (...)

4. Comentário do Cherno Baldé (**)

(...) Depois do "acidente" ou melhor do homicidio, a versão que circulou e ficou até hoje entre a população nativa é bem diferente daquela que estou a ler agora na maior parte dos comentários. 

Pela versão que prevaleceu entre nós, alegadamente, o soldado Almeida estava revoltado por não poder voltar à sua terra após várias comissões de serviço, em virtude de um castigo a que estava sujeito e tinha decidido acabar com a sua vida e com ele, também, a do comandante da companhia. Claro que isto faz parte dos rumores que circularam, na ausência de informações oficiais, na altura.

Quero dizer a quem me quiser ouvir, e isto por minha conta, que o Almeida era um soldado "profissional", muito aguerrido,  que dificilmente poderia levar uma vida civil pacata no meio indígena ou gerindo uma lojeca ou um restaurante para servir a malta europeia numa cidade qualquer da Guiné. 

O Almeida não era um soldado vulgar e via-se claramente que não se tinha integrado na companhia dos restantes soldados milicianos aos quais ele nutria muita pouca consideração e/ou respeito.Tão pouco se podia integrar no meio dos pretos,  embora se identificasse com eles. Penso que, antes de mais, o nosso amigo Ameida (ele era de facto um amigo e defensor das crianças que frequentavam o aquartelamento, ai de quem se atrevesse a fazer mal a uma criançaa na sua presença!) deve ter sido mais uma das inúmeras vitimas daquela guerra terrível. (..)


 

Guiné > Região de Bafatá > Fajonquito > CART 2742 (1970/72) >  "Fajonquito em festa... Com a CART 2742 (1970-72) o ambiente entre a tropa e a população melhorou bastante, atingindo níveis nunca antes vistos. A foto de 1971 (amigavelmente enviada pelo ex-Furriel Mil. José Bebiano), mostra uma calorosa recepção de um grupo de artistas vindos da metrópole para animar a malta. Ao meio e ao lado de uma das artistas pode-se ver o nosso saudoso Cap Carlos Borges de Figueiredo. O rapazinho nas mãos do homem dos óculos escuros é o Carlitos, filho de um soldado português que, mais tarde, iria à procura do pai, tendo aquele recusado o encontro à última da hora. O ex-Furriel José Bebiano, que era de rendição individual, tendo feito toda a sua comissão em Fajonquito poderia, eventualmente, identificar os soldados que acompanham o seu Comandante nesta foto." (Foto de José Bebiaao; legenda de Cherno Baldé).

5. Cherno Baldé > Homenagem póstuma ao Cap Carlos Borges de Figueiredo (**)

(...) Em 1970 chegou uma nova companhia (CART 2742 do Cap Figueiredo) e com ele inaugurou-se o período mais profícuo e dinâmico de Fajonquito. 

Nessa altura sentiu-se, de facto, que a Guiné estava a mudar e positivamente. Foi nessa altura, também, que acabei por me fixar no quartel como faxina num dos quartos da ferrugem (condutores), onde tinha a clara consciência de estar no meio de amigos, mas nem por isso isento de perigos. Sentia-me a vontade quando estava na caserna com os meus amigos condutores, mas sempre vigilante quando deambulava sozinho dentro do quartel. A idade, o stress provocado pela guerra, as saudades da terra natal e, provavelmente, o sentimento de impunidade por actos considerados menores, propiciavam alguns exageros em forma de brincadeira que não eram sancionados. 

Claro está que, salvo raras excepções, normalmente os lobos não se comem uns aos outros.

O Cap Figueiredo baniu a proibição da entrada no quartel, abriu as portas aos meninos, mas como contrapartida pediu para que todos fossem à escola depois das horas de trabalho de faxina. Não era agradável, mas compensava. 

Pela primeira vez, foram colocados postes de iluminação na rua principal da vila, para alegria da criançada. Os oficiais da companhia davam apoio aos professores locais dentro e fora das aulas, com modalidades de futebol e ginástica. Foi instituída uma merenda para todos os alunos e prémios aos que se distinguiam nas aulas e nos exames finais, por exemplo, a participação nos campos de férias da Mocidade Portuguesa.

Muitas das pessoas que hoje são quadros nacionais na Guiné-Bissau têm uma dívida de gratidão aos soldados portugueses que, como o Cap  Figueiredo e o grupo dos seus oficiais e sargentos, contribuíram para a sua formação de base. 

O meu caso não é paradigmático porque fui obrigado a ir às aulas que detestava com todas as minhas forças, mas a teimosia dos meus pais, em particular a minha avó, e também, porque o quartel já não servia de refúgio aos refractários, tinha que cumprir as condições do nosso Capitão, depois pouco a pouco o meu horizonte que antes estava confinado à vida da minha aldeia e arredores, foi-se abrindo as maravilhas da ciência e do mundo externo.

Mas como se costuma dizer, Deus escreve direito por linhas tortas, porque,  depois de tudo o que fizeram por nós, estava predestinado que ele e parte dos seus oficiais nunca voltariam à sua terra natal. Eis a razão desta homenagem, também, ao Cap Carlos Borges de Figueiredo.

A toda a sua família e aos que o conheceram ou partilharam parte da sua vida e do seu percurso, quero expressar, em meu nome pessoal e em nome de todos os habitantes de Fajonquito, os meus sentimentos de pesar, mesmo que tardios e enaltecer o comportamento do Cap Figueiredo, como homem e como militar que, a justo título, foi um comandante exemplar para a sua época, que veio, sem medo, para o cenário da guerra trazendo consigo a semente da paz; que sem descurar a defesa dos seus homens, transformou as operações militares em operações para a promoção do desenvolvimento; acreditou na capacidade dos mais novos para a construção de uma Guiné melhor sem esquecer a sabedoria dos mais velhos; que investiu parte dos poucos recursos de que dispunha numa derradeira tentativa de construção dos fundamentos do homem novo que a Guiné tanto precisava.

Carlos Borges de Figueiredo foi oficial e comandante que compreendeu como poucos e soube executar com mestria a nova filosofia que o Gen Spínola queria com a sua politica "Por uma Guiné Melhor” (...)

6. Comentário de António Bernardo [nosso leitor e camarada, mas não registado na Tabanca Grande; pertenceu à CCS/BART 2920]

Muito embora, seja um dos melhores textos do Cherno Baldé (**), o mesmo peca por um  retrato falseado, no que respeita ao cap art Carlos Borges de Figueiredo, cmdt da CArt 2742, sedeada em Fajonquito e subunidade do BArt 2920 (1970/72).

É bom lembrar que, embora ostentasse galões nos ombros, era  um homem boçal, diria mesmo que labrego, igual a muitos outros que comandavam outros homens.

A sua personalidade conflituosa levou ao ajuste de contas, ocorrido no domingo de Páscoa,de 2 de Abril de 1972, e aqui já abordado no post 5938 (*)

António Bernardo
[CCS/BART 2920, Bafatá, 1970/72]
______________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 6 de março de  2010 > Guiné 63/74 - P5938: A tragédia de Fajonquito ou as amêndoas, vermelhas de sangue, do domingo de Páscoa de 2 de Abril de 1972 (José Cortes / Luís Graça)

(**) Vd. poste de 18 de Junho de 2009 > Guiné 63/74 - P4550: Tabanca Grande (153): Cherno Baldé (n. 1960), rafeiro de Fajonquito, hoje engenheiro em Bissau...

(**)   Vd. poste de 15 de agosto de  2014 >  Guiné 63/74 - P13500: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (47): Retrato de uma família - A guerra, a pobreza e a presença dos soldados portugueses

Vd. também  poste de 24 de abril de 2010 >  Guiné 63/74 - P6244: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (14): Cap Figueiredo: Capiton Lelö dahdè ou capitão cabeça inclinada

(...) "O que vou dizer pode parecer paradoxal se não incongruente. O Sr. Carlos Borges de Figueiredo, ao contrário de muitos outros, foi um Capitão pacifista pois ele tinha-se distinguido, sobretudo, pela promoção da educação entre as crianças nativas (o número de alunos na escola local tinha aumentado significativamente facto que poderia estar ligado ao ambiente de paz criado e uma grande sensibilidade pelos problemas sociais da população) e organização de eventos sócio-culturais que, não só afastavam, por algumas horas, o espectro da guerra e da morte entre a tropa mas eram também muito úteis e importantes na construção de relações de aproximação e de confiança com a populaçã local, tão prezada por General Spínola.

Foi nessa altura que, pela primeira vez, recebemos a visita de grupos musicais vindos da metrópole. Numa dessas visitas, lembro-me da presença de uma ou mais mulheres cantavam o Fado. A música era muito morna, lenta demais para o nosso gosto temperado na ritmada, quase violenta dança de tambor mandinga. No meio de tudo isso, não nos escapou um detalhe importante. Notamos a deferençaa e o extremo respeito com que todos a(s) tratavam. O respeito dado àquela(s) mulher(res) contrastava de forma flagrante com a maneira como habitualmente lidavam com as nossas mulheres, fossem elas grandes ou pequenas. E não estou a referir-me, claro esta, à esposa do Capitão que, também, deve ter visitado Fajonquito.

Ele ficou conhecido no meio da populacao local com o nome de Capiton Lelö dahdè o que na lingua fula significa o Capitão cabeça inclinada. Talvez aqueles que o conheceram de perto me possam corrigir, parece que ele tinha o hábito de inclinar ligeiramente a cabeça para um dos lados, daí o nome com que o baptizaram e que fica para a historia." (...)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Guiné 63/74 - P13500: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (47): Retrato de uma família - A guerra, a pobreza e a presença dos soldados portugueses

MEMÓRIAS DO CHICO, MENINO E MOÇO (CHERNO BALDÉ)

46 - RETRATO DE UMA FAMÍLIA 
A GUERRA, A POBREZA E A PRESENÇA DOS SOLDADOS PORTUGUESES

A minha família, até meados de 1948, ano da morte de Braima Djame Baldé, mais conhecido por Branjame, régulo de Sancorla, integrava o núcleo restrito da casa real (Lamido) deste regulado, direito esse adquirido atravês da nossa avó materna, Eguê Baldé, tia de Branjame.

Nesta qualidade, não se pode dizer que não conheciam os portugueses antes do início da guerra colonial, tendo em conta as ligações de uma aliança histórica mais ou menos estreita, de mútua (des)confiança e de dependência que existiam entre os chefes tradicionais e a administração portuguesa sediada nas circunscrições mais próximas em Geba ou Bafatá e/ou mais distantes como Bolama e Bissau, para onde os nossos pais, Nahôr e mais tarde Samba-Gaia (que disputaria o regulado com os filhos de Branjame), nossos patriarcas da família se deslocavam com frequência e, em nome das quais, se convocavam manifestações de júbilo ou se procedia a mobilização de homens válidos para as guerras de pacificação do território no decurso do último quartel do Séc. XIX e principios do Séc. XX.

Nessa altura, ouvia-se falar do homem branco como o eco de um som longínquo, que provocava curiosidade e medo pois se todos o queriam ver com os seus olhos, ao mesmo tempo todos tinham a consciência dos perigos que ele representava antes e depois. Antes porque associado ao temível fenómeno do desaparecimento de pessoas. Sim, pessoas que partiam para os seus campos de cultivo e desapareciam, de repente, sem deixar rastos. Depois porque, infelizmente, em África, este fenómeno de desaparecimento de pessoas não findou com o proclamado fim da escravatura, mas continuou durante algum tempo, inclusive sob a forma de sanções administrativas que consistiam na deportação das vítimas para terras distantes, o terrível desterro.

DESTERRO!!??...

Para o homem africano da época, não podia haver nada pior que o desterro que se traduzia no desenraizamento da pessoa e seu afastamento definitivo ou por largo período longe da sua família. Foi nessa época que apareceu no meio popular, entre os fulas, a frase que dizia: “O Branco que veja se o desterro é bom”, isto quando alguém queria fazer ver ao outro que, também ele, não tinha apreciado uma certa atitude deste num dado momento.


A figura do meu pai, El-haj Tambá Baldé


O meu pai, Aladje Tambá Baldé e o Cabo Tintim (nome emprestado da BD), que frequentava a nossa casa em Fajonquito. A foto é de 1967/68, pelo que o amigo Tintim deve ter pertencido à CCAÇ 1501 do Cap. Rui Antunes Tomaz ou da CCAÇ 1685 do Cap. de Infantaria Alcino de Jesus Raiano, cujas companhias passaram por Fajonquito entre 1967/68.


Nesta família pobre e simples que viveu e atravessou a Guerra colonial de ponta a ponta e, ainda sobreviveu ao genocídio silencioso do pós-independência, quero destacar o importante papel desempenhado pelo nosso pai, como chefe de uma família numerosa que conseguiu sobreviver sem sofrer muitos danos ou perdas de vida a lamentar, e tudo graças ao Deus todo poderoso em primeiro lugar e em segundo, graças ao talento de diplomata inato do nosso pai, acompanhado de uma boa dose de bom senso que o permitiram, sempre, aplicar o princípio segundo o qual: “O que é de César a César e o que é de Deus a Deus”, enquanto esteve à testa da família.

Vivendo num meio difícil, de sobreposição de vários poderes (oficial/tradicional, nacional/local, laico/religioso) e de constantes e rápidas mudanças, de guerras e montanhas de intrigas, soube sempre adaptar-se e relacionar-se bem com as condições vigentes sem nunca se comprometer inteiramente, mas também sem nunca se afastar demasiado para não criar suspeitas. Contrariando a vontade da mãe e nossa avó, desde sempre soube receber bem e criar amizades entre os soldados portugueses que, certamente, vinham a nossa casa por causa das nossas primas-irmãs que, na altura, andavam de corpo nu da cintura para cima e com as mamas ao léu.

Não sei, no fundo, se a sua admiração, como qualquer outro, do seu tempo e etnia, pelos portugueses era acompanhado de uma simpatia especial, o certo é que demonstrou sempre por estes muito respeito e consideração no que era largamente retribuído.

Ao contrário dos seus irmãos, nunca se ofereceu e nem foi mobilizado para a guerra e, felizmente, as suas funções de empregado comercial permitiam-lhe satisfazer o mínimo necessário, sem precisar de entrar em aventuras militares ou intrigas palacianas. O longo trabalho com comerciantes lusos criou nele a ambição legítima de fazer dos seus filhos pessoas preparadas para os desafios do futuro, numa época em que o obscurantismo predominava entre as massas camponesas, decisão a que nunca se renunciou apesar dos numerosos obstáculos pelo caminho.


A minha avó paterna, Eguê Baldé

Ao contrário do filho, a nossa avó paterna não mostrava simpatia pelos brancos em geral e, em particular, dos soldados que invadiam a nossa casa em Cambaju. Dizia sempre, referindo-se a presença destes: “Uoú!... tinha que viver para presenciar isto!..”. Fugia do olhar dos militares para se refugiar no interior da sua palhota. Designava-os por “orelhas vermelhas” e não perdia uma única ocasião para falar mal e criticar o comportamento pouco sóbrio dos jovens soldados que, muitas vezes, se comportavam, de facto, como se estivessem em terras por eles conquistadas bem ao estilo dos tempos romanos. Nunca aceitou nada que viesse do quartel e não queria que os seus netos o frequentassem como se tivesse medo que fossem alienados e entregues à razia da guerra que dava os seus primeiros passos e fazia as primeiras vítimas.

Morreu em Cambaju entre 1966/67, pouco antes de mudarmos para Fajonquito, numa idade bastante avançada. Provavelmente, ela era a única que carregava consigo os ecos dos tempos passados, contendo os resquícios de lembranças menos boas dos primeiros contactos com os europeus em África e da prática nefasta do comércio triangular de má memória e que contribuiu para esvaziar o continente da sua população.


O meu tio Dembaro Baldé

O irmão mais velho do meu pai, Dembaro, era a biblioteca da família, conhecedor profundo do percurso histórico dos fulas desde que saíram de Mácina, as crónicas épicas de Alfa Molo e de seu filho, Mussa Molo, no espaço sócio-cultural Firdunkê. Tinha uma grande admiração pelos portugueses em relação aos quais clamava alto e em bom som: “Sambu ghalel Tubakhô, khabhá pôlle gardânne” o equivalente, na língua fula, da famosa expressão latina “Veni-vidi-vici” de Júlio César ou das Lusíadas “Vós portugueses, poucos quanto fortes” (Canto VII) e, não se cansava de nos falar sobre as míticas figuras das guerras tribais no espaço sudanês de Mali, antes da chegada dos europeus e ainda sobre as guerras de pacificação sob a batuta de inigualáveis e intrépidos chefes de guerra portugueses como o Marques Geraldes, Graça Falcão ou Cap.Teixeira Pinto.


A minha mãe, Cadi Candé

A minha mãe era o que os portugueses vulgarmente chamariam de “moura” da casa, a primeira a levantar-se e a última a deitar-se e sobretudo no período de Ramadão, quando se impunha que as pessoas comessem durante a madrugada para poderem jejuar ao romper do dia, então ela, praticamente, não tinha tempo para se deitar e recuperar da fadiga do trabalho quotidiano da bolanha, do campo, da ordenha das vacas, trabalho caseiro e cozinha, sobretudo a maldita cozinha que lhe deu cabo dos olhos; pequeno almoço, almoço e jantar, quando tudo o que existia em casa era um grande amontoado de milho preto ou milho-basil no seu estado natural e que ainda precisava secar, pilar (esmagar), farinhar, separar em grãos, misturar com folhas da calabaceira em pó (lálôh), buscar lenha, pôr ao fogo, etc., etc.

Não sei o que ela pensava dos brancos, nunca nos disse e nunca ninguém lhe perguntou, mas como boa esposa, ela seguia os passos do nosso pai, isto é, tentar ser gentil, bem educada e acolher o melhor possível os hóspedes. Por falar em hóspedes, aqui está uma palavra mágica para os fulas do antigamente que, no decurso de toda a sua vida não faziam outra coisa senão preparar-se para receber bem e condignamente o seu hóspede. Lembro-me que, na infância, só acontecia comermos arroz e carne de galinha ou de algum outro animal no dia em que aparecia, saído de “nul part”, um hóspede qualquer, mesmo que se tratasse de um viajante maltrapilho, um vulgar vagabundo, bastava que não fosse das redondezas. “Felizes os servos que o Senhor, a sua chegada, encontrar vigilantes... porque o Filho do Homem virá numa hora que não pensais” (Lucas 37/40).

Mas, mesmo nessas raras ocasiões, as crianças tinham muita sorte se lhes calhava algum osso para chupar. Lembro-me de ter comido muita tripa de galinha, sim a tripa que deitavam fora, depois de uma apressada limpeza do conteúdo, metia-se na brasa e a seguir para dentro das nossas barrigas redondas, inflamadas de desnutrição crónica. “Se deitas fora é carne desperdiçada, se o comes, comeste merda”, dizia a nossa avó a respeito das tripas.


Samba Candé ou Sam-forrea, meu avô materno

Por várias ocasiões, já aqui evoquei a figura do meu avô materno, o seu nome era Samba que as pessoas transformaram em Sam-Forrea por ser originário da região de Forrea (Contabane). Era caçador profissional e fez parte do contingente mobilizado para a guerra de Canhabaque. Conta a minha mãe que, quando voltou da guerra, estava irreconhecível devido a enorme cabeleira e a barba de muitos meses que lhe cobriam toda a face. Fizeram mais de 60 km a pé, de Bafatá a nossa aldeia de Farimbali. Voltaram de mãos a abanar, como tinham partido, sem dinheiro, sem espólio de guerra. Tinham lutado pela honra de Sancorla e da pátria portuguesa, afirmavam. Claro que esperavam obter alguma compensação material, o que neste caso não aconteceu.

No caminho de regresso a casa teria cruzado com o grupo de pessoas da sua aldeia que o vinham acolher, mas nem eles o puderam reconhecer envolto naquela enorme cabeleira e barba de um ano nem ele os reconheceu vindo daquela ilha maldita dos Canhabaques onde muitos dos seus companheiros tinham perdido a vida, incluindo o príncipe herdeiro de Sancorla, Abdu Branjame, que pouco antes tinha participado numa exposição colonial em Portugal, muito provavelmente a de junho de 1934 no Porto.

Na Guiné, desde o Séc. XIX que os portugueses tinham descoberto e privilegiado a contribuição da classe dos caçadores nos conflitos que os opunham a certos grupos indígenas. Homens singulares, de coragem ímpar e conhecedores do terreno, seriam largamente utilizados também, durante a guerra colonial, principalmente, como guias e/ou para organizar os grupos nativos de milícias e de auto-defesa.

Ao contrário do meu pai, ele era o que se podia classificar de anti-social e politicamente nulo, pois passava todo o seu tempo metido no mato a conviver com as aves e animais selvagens e raramente participava em eventos da comunidade. Homem de poucas palavras, durante as festas religiosas, quando toda a gente se preparava para vestir as suas melhores vestes e pavonear-se na reza colectiva, ele se oferecia para pastar o nosso gado bovino em substituição das crianças que, por norma, tinham essa incumbência.

Em Fajonquito, foi ele que teve a ideia genial de introduzir-me no quartel, quando, na verdade, nunca lá deveria pôr os pés por imposição da minha avó. Se não falava com os seus próprios conterrâneos muito menos o fazia com os jovens soldados portugueses que, inebriados com a visão das bajudas semi-nuas, raramente perdiam tempo com os velhos da tabanca. Pela manhã, quando estes entravam na morança ele pegava na sua “Longa” (arma de fogo de fabrico artesanal que funcionava por meio de pólvora e pedaços de metal embutidos no interior do cano, de frente para trás) e saía para o mato, onde fazia dias ou semanas antes de voltar. De vez em quando lá trazia partes de uma gazela ou de porco-espinho que distribuía pelos familiares, amigos e vizinhos.


Mariama Baldé ou Néné-Maudhô, a minha avó materna

De todos os membros da família, foi ela que mais me marcou em virtude da sua insistente e inútil teimosia de fazer de mim um homem de bem, deveras. Nunca desistiu, desde a idade de 4 ou 5 anos, em meados de 1964, quando fugimos juntos do primeiro ataque a nossa aldeia e, desorientados pelo medo, acabamos por dormir no meio de uma bolanha infestada de bichos e capim selvagem, com folhas tão afiadas que nem facas de cirurgião. No dia seguinte, quando finalmente nos encontraram, tínhamos cortes em tudo que era corpo, mas pelo menos estávamos vivos.

Incansável, todas as manhãs ia a casa que servia de dormitório dos rapazes para nos lembrar que a sorte estava com aqueles que se levantavam cedo, depois da primeira oração da manhã. Até hoje não o consegui fazer. Todas as tardes, antes de escurecer ia procurar-me a fim de certificar-se que já tinha tomado banho e trocado de roupa.

O seu nome era Mariama Baldé, ou Néné-Maudhô (Mamãe-velha) e faleceu em 1994 estava eu, na altura, em Lisboa. Como habitualmente acontece, só damos o devido valor àquilo que já perdemos. Era uma mulher alta e sofria de elefantiase numa das pernas o que lhe dava um aspecto algo bizarro em que uma das pernas era normal e pequena e a outra exageradamente grande e deformada, facto que a impedia de usar sapatos.

No entanto, era a todos os títulos uma pessoa especial e de valor inestimável para mim, pois ela foi a minha guardiã e verdadeira educadora durante a nossa atribulada infância e adolescência que se estende, praticamente, desde o inicio da guerra no norte (1964) até 1975, altura em que deixei a família para continuar os meus estudos no Liceu de Bafatá.

Dizem que ela viveu os cem anos, é bem provável. Não raras vezes, nas narrativas sobre a sua juventude, referia-se à cidade de Farim, importante centro de trocas comerciais em princípios do Séc. XX, onde as jovens bajudas iam trocar ou vender produtos junto dos comerciantes europeus e sirio-libaneses como o Coconote ou a borracha natural, extraído de uma planta selvagem e concentrado em formatos redondos como as bolas de futebol, resultado de meses e meses de labuta na floresta.

A Néné-Maudhô encarava a sua obrigação de nos dar uma boa educação de tal modo que era capaz de tudo para cumprir com a sua obrigação. Uma vez, já era quase noite e ainda não tinha saído do quartel para casa quando, surpreendendo tudo e todos pela ousadia, a minha avó penetrou dentro do quartel à minha procura. Passou pela sentinela na porta de armas que ou estava apanhado do clima e já não distinguia uma bajuda de uma mulher grande ou se calhar julgara tratar-se da lavadeira do 1.º Sargento e por isso, não queria arranjar encrencas.

A semelhança de todas as mulheres grandes que conheciam o irreverente atrevimento dos soldados nas tabancas, procuravam sempre ficar longe para não servir de bode expiatório às suas maluquices o que, de forma alguma não queria dizer ter medo, pois no dizer da minha avó, estes não passavam mesmo de “crianças grandes”, irrequietas e mal-educadas.

A sentinela saiu da sua sonolência acordado pelo barulho das vozes que de todos os lados gritavam dentro do quartel dirigindo-se a pobre da minha avó com uma canção que lhes era peculiar naquele tempo:
- “mulher grande cá tem cabaço óh-lé-lé-lé-lé... foi o Manel que o tirou óh lé-lé-lé-lá...”- no meio da algazarra de assobios e gargalhadas.

Imperturbável, ela seguiu caminhando e a todos que a perguntavam através da mímica gestual o que procurava ali, respondia em língua fula por uma única frase que ela sabia ser irreversível, aconteça o que acontecesse, universal, até ao fim do mundo: “Tcherno Abdulai!.. o meu neto... vai pra casa... já e agora!..”. Com excepção dos meus colegas rafeiros, ninguém sabia quem era o Tcherno Abdulai, pois no quartel o meu nome era Chico e por isso, os soldados pensavam estar diante de uma velha maluca com duas pernas diferentes uma da outra.

Assolada por uma multidão cada vez maior de soldados curiosos, não arredou pé enquanto não foram à caserna dos condutores, onde era faxina, para me alertarem. Tinha sido a primeira vez, mas não seria a última e, as tantas, o Dias (o meu amigo e patrão), quando via a sua silhueta invulgar aproximar-se da porta de armas, antes que se iniciasse o diálogo de surdos entre a sentinela e a minha avó, gritava com a sua voz rouca:
- Óh Chico, desanda dai que a velha já está a tua espera!...

Com estas palavras de alerta, sabia que estava na hora de deixar o quartel e voltar pra casa, que a minha avó estava ali a minha espera donde não arredaria o seu pé de elefante com que assustava os soldados, mesmo com tiros de G3.

Passados muitos anos depois, quando li o maravilhoso livro “A Mãe” do escritor russo, Máxim Gorki (Alekxei Makxímovich Peshkov), não podia deixar de pensar na minha avó e compreender finalmente, que estava perante um fenómeno universal. Então os meus sentimentos de raiva e de ódio devidos a teimosia daquela mulher grande se transformaram, de repente, numa grande compaixão.

No que me concerne, depois do choque inicial, pouco a pouco comecei a ser atraído pelo quartel tal qual a luz nocturna atrai os pequenos bichos voadores. A curiosidade de conviver e conhecer pessoas diferentes, o gosto pela comida do quartel tinha começado desde Cambaju entre 1965/67, mas em finais de 1967 ou inicio de 68, o nosso pai foi transferido e mudou com a família para Fajonquito. Nessa altura o aquartelamento situava-se no meio da tabanca e havia alguma promiscuidade entre a população local e os militares ocupantes do quartel que se traduzia na infiltração constante das crianças na zona ocupada pelos soldados.

Em 1969, com a chegada da companhia do Cap. Carvalho fez-se um reordenamento que transferiu toda a população do lado oeste para leste e isolou o aquartelamento com arame farpado e portas fechadas. Este sistema de apartheid, por assim dizer, por um lado permitiu separar as águas e impor certa ordem e disciplina no quartel, mas por outro criou um fosso enorme entre dois mundos que se complementavam mutuamente e que, pouco a pouco, se foi aumentando para se transformar numa guerra fria de mútua desconfiança. Este facto não será alheio ao destino final do comandante da companhia antes do fim da sua comissão.

 Cherno Baldé, aos 14 anos, em Fajonquito (1974)

Cherno Baldé, estudante do Instituto Superior de Economia de Kiev (1986/90), com duas colegas (russa e ucraniana) da mesma promoção. A imagem que serve de fundo é o rio Dnepr que divide a cidade de Kiev em duas partes

O meu irmão Carlos (2 anos mais velho, hoje Farmacêutico, formado pela faculdade de Farmácia da Universidade Técnica de Lisboa), durante a alocução por ocasião do dia 10 de Junho de 1971, Dia de Portugal e de Camões, na escola primária de Fajonquito. Na imagem estão dois oficiais da companhia do Cap. Figueiredo (CART 2742), um dos quais, o Alferes Félix encontrou a morte no mesmo dia que o seu Capitão. Talvez o José Bebiano que esteve na mesma altura em Fajonquito, em rendição individual, possa ajudar o identificar os dois oficiais aqui presentes.

 O amigo José Cortes (CCAC.3549 - 1972/74), junto a porta d’armas do quartel de Fajonquito

Festa em Fajonquito com a presença de artistas portugueses para animar a malta (1971), ao fundo está o Cap. Borges de Figueiredo a esquerda da cantora Eva Maria. 
Foto cedida por José Bebiano

O mesmo grupo de artistas portugueses, constituido por Eva Maria, Tino Costa e Fernando Correia, actuando no palco, em Galomaro (1971)
Foto de Antonio Tavares, BCAC 2912 (1970-72), extraida do nosso Blogue (P13433)

Os nossos amigos da Ferrugem, Torres Berliet e o 1.º Cabo Sérgio (CCAC 3549) na nossa morança, em Fajonquito (1972/73).

O 1.º Cabo Condutor-auto, Sérgio Rodrigues, fazendo companhia às bajudas, Fajonquito (1972/73)


Homenagem póstuma ao Cap. Carlos Borges de Figueiredo(*)

Em 1970 chegou uma nova companhia (CART 2742 do Cap. Figueiredo) e com ele inaugurou-se o período mais profícuo e dinâmico de Fajonquito. Nessa altura sentiu-se, de facto, que a Guiné estava a mudar e positivamente. Foi nessa altura, também, que acabei por me fixar no quartel como faxina num dos quartos da ferrugem (condutores), onde tinha a clara consciência de estar no meio de amigos, mas nem por isso isento de perigos. Sentia-me a vontade quando estava na caserna com os meus amigos condutores, mas sempre vigilante quando deambulava sozinho dentro do quartel. A idade, o stress provocado pela guerra, as saudades da terra natal e, provavelmente, o sentimento de impunidade por actos considerados menores, propiciava alguns exageros em forma de brincadeira que não eram sancionados. Claro está que, salvo raras excepções, normalmente os lobos não se comem uns aos outros.

O Cap. Figueiredo baniu a proibição da entrada no quartel, abriu as portas aos meninos, mas como contra partida pediu para que todos fossem à escola depois das horas de trabalho de faxina. Não era agradável, mas compensava. Pela primeira vez, foram colocados postes de iluminação na rua principal da vila, para alegria da criançada. Os oficiais da companhia davam apoio aos professores locais dentro e fora das aulas, com modalidades de futebol e ginástica. Foi instituída uma merenda para todos os alunos e prémios aos que se distinguiam nas aulas e nos exames finais, por exemplo, a participação nos campos de férias da Mocidade Portuguesa.

Muitas das pessoas que hoje são quadros nacionais na Guiné têm uma dívida de gratidão aos soldados portugueses que, como o Cap. Figueiredo e o grupo dos seus oficiais e sargentos, contribuíram para a sua formação de base. O meu caso não é paradigmático porque fui obrigado a ir às aulas que detestava com todas as minhas forças, mas a teimosia dos meus pais, em particular a minha avó, e também, porque o quartel já não servia de refúgio aos refractários, tinha que cumprir as condições do nosso Capitão, depois pouco a pouco o meu horizonte que antes estava confinado à vida da minha aldeia e arredores, foi-se abrindo as maravilhas da ciência e do mundo externo.

Mas como se costuma dizer, Deus escreve direito por linhas tortas, porque depois de tudo o que fizeram por nós, estava predestinado que ele e parte dos seus oficiais nunca voltariam à sua terra natal. Eis a razão desta homenagem, também, ao Cap. Carlos Borges de Figueiredo.

A toda a sua família e aos que o conheceram ou partilharam parte da sua vida e do seu percurso, quero expressar, em meu nome pessoal e em nome de todos os habitantes de Fajonquito, os meus sentimentos de pesar, mesmo que tardios e enaltecer o comportamento do Cap. Figueiredo, como homem e como militar que, a justo título, foi um comandante exemplar para a sua época, que veio, sem medo, para o cenário da guerra trazendo consigo a semente da paz; que sem descurar a defesa dos seus homens, transformou as operações militares em operações para a promoção do desenvolvimento; acreditou na capacidade dos mais novos para a construção de uma Guiné melhor sem esquecer a sabedoria dos mais velhos; que investiu parte dos poucos recursos de que dispunha numa derradeira tentativa de construção dos fundamentos do homem novo que a Guiné tanto precisava.

Carlos Borges de Figueiredo foi oficial e comandante que compreendeu como poucos e soube executar com mestria a nova filosofia que o Gen. Spínola queria com a sua politica por “uma Guiné melhor”.

Bissau, Agosto de 2014
Cherno Abdulai Baldé (Chico de Fajonquito).
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Notas do editor

(*) - Sobre o Cap Carlos Borge de Figueiredo, ver poste de Cherno Baldé de 14 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P9041: Memórias do Chico, menino e moço (30): A propósito do poema K3, de Nuno Dempster: Relembrando dois malogrados capitães de Fajonquito, Carlos Borges Figueiredo (CART 2742) e José Eduardo Marques Patrocínio (CCAÇ 3549) (Cherno Baldé)

Último poste da série de 3 de Abril de 2014 > Guiné 63/74 - P12929: Memórias do Chico, menino e moço (Cherno Baldé) (46): Depois do ataque