quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Guiné 63/74 - P5335: Agenda Cultural (47): Lançamento do livro do Manuel Maia, dia 9 de Dezembro, em Matosinhos (José Manuel Dinis)



Capa do livro, de poesia épica, História de Portugal em Sextílhas, de Manuel Oliveira Maia, nosso camarada, editada por Esses & Erres Editores

1. Mensagem do José Manuel Dinis:

Camaradas,


Venho solicitar a divulgação do próximo dia 9 de Dezembro, 4ª feira, como data para o lançamento do livro História de Portugal em Sextilhas,  do Manuel Maia, no restaurante Milho Rei, em Matosinhos, onde se confraternizará com os filiados da Tabanca de Matosinhos. Esta tertúlia reune-se todas as quartas-feiras neo Milho Rei, para convívio e almoço. O restaurante fica na R. Heróis de França 721, Matosinhos (Vd. localizaçáo no Google). Telefone: 229 385 685‎.

Convidam-se os interessados, em particular os membros do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné a lá chegar pelas 12H00, para as apresentações e cumprimentos próprios deste género de eventos. A data encontrada foi a que foi possível: no dia 12, a Tabanca de Matosinhos, faz o seu já tradicional jantar de Natal.

Aproveito para referir que o Luís já manifestou grande interesse em fazer um texto adequado, realçando, tanto as qualidades do poeta que se espelham na obra, bem como o espírito de camaradagem estabelecido através da Tabanca Grande, e que contribui para promover a amizade entre pessoas antes desconhecidas e dispersas pelo país, antigos camaradas de guerra.

A primeira tiragem (81 exemplares) está de acordo com as reservas previamente feitas.  Esta  primeira edição está  praticamente esgotada,  encontrando-se  disponíveis apenas... quatro exemplares do livro. O preço de capa do livro é, nesta fase, de 12,5 €.  Como é sabido, Manuel Maia, o autor, é nortenho, vive no concelho da Maia. Uma boa parte dos livros reservados também vai para o norte, dia a comissão "ad hoc" ter  pensado (e bem) na pujante Tabanca de Matosinhos,  que é já um caso de sucesso   mas com a qual a malta do centro e do sul  pouco convive.


Como já não faltam muitos dias, e se aproxima a quadra natalícia, propícia a festas e comezainas, o pessoal deve pôr este importante evento na sua agenda (cultural).

Abraços fraternos

José Dinis

Guiné 63/74 – P5334: Homenagem ao João Bacar Djaló (Magalhães Ribeiro)


1. O Amadu Bailo Djaló foi, como todos bem sabemos, um dos mais dinâmicos operacionais e louvados COMANDOS guineenses ao serviço do Exército Português no CTIG, e, além de tudo o mais, é um excelente Camarada e Amigo nosso.

Sabendo que o Amadu, quase a completar sete décadas de existência, não tem atravessado os melhores momentos do seu estado de saúde, queria, aqui neste poste, prestar-lhe mais uma justa e merecida homenagem, em meu nome pessoal e de todos quantos se me quiserem unir neste que pretende ser apenas um gesto singelo de camaradagem e amizade.

São cada vez mais as instituições e os Camaradas que se vão juntando aos gritos, aqui e ali (em jornais, revistas e entrevistas), contra a tremenda injustiça e ostracização que ao longo destes últimos 35 anos, tem vindo a ser praticada pelos sucessivos governos pós-25A74, em relação a estes Homens, ex-Militares de Portugal, que juraram bandeira tal como nós e vestiram com orgulho a mesma farda e cumpriram fielmente o mesmo RDM.

Não paremos com os nossos gritos de revolta e mau estar, que terá que dar, mais dia menos dia, os seus frutos.

2. Para melhor e mais correcta informação sobre o estado de saúde do Amadu Bailo Djaló, recorri ao auxílio de um dos seus melhores Amigos na actualidade, o nosso Camarada Virgínio Briote, que não se fez rogado e me respondeu de imediato, e a quem deixo aqui registado o meu mais elevado agradecimento.

Caro Eduardo,

Obrigado pela tua mensagem.

O Amadu Bailo Djaló, depois de cerca de um mês nos cuidados intensivos do HM (onde foi tratado exemplarmente), regressou a casa armado com outra G-3, uma máquina portátil, ultra-moderna, que lhe fornece oxigénio e, em vez das 7,62, dispara relatórios em papel. Apesar das limitações o Amadu mantém o humor e o desejo de regressar à Guiné, à sua Bafatá, onde quer ficar junto dos pais e avós.

Falamos todos os dias. Primeiro porque quero acompanhá-lo e ver como segue as directivas da equipa médica. E segundo porque o estou a incentivar (e ele tem correspondido) a escrever as memórias do pós-25 de Abril: os contactos com os comandantes do PAIGC, as reuniões entre os comandos guineenses e os quadros europeus, as populações a mudarem de campo (antes muito amigas deles, depois a denunciá-los), a primeira vez em que foi preso e libertado logo a seguir, os tempos indefinidos, o não ter que fazer, a fome em casa, as armas ainda nas mãos deles, a manifestação em Bissau, frente à embaixada de Portugal (o embaixador a pedir ao PAIGC que os dispersasse), a chegada do comandante Umaru Djaló, num carro blindado, de arma na mão... É este o trabalho que o Amadu está a fazer e que eu vou passando para português corrente.

Não sabemos, eu e ele, se algum dia as memórias vão ser publicadas. Depois de concluído o trabalho começaram a surgir problemas de vária ordem. E a falta de dinheiro é um deles, a Associação de Comandos está com dificuldades em arranjar um editor, o Amadu Djaló é um nome desconhecido e a obra só fala de guerra vista pelos olhos e pela memória dele.

Mantemos um desejo: não deixar esquecer os Camaradas Guineenses, COMANDOS ou outros, que durante os anos da guerra, abriram colunas como condutores de viaturas (muitas vezes só com os sacos de areia como companhia) ou foram os primeiros homens das colunas apeadas. E que depois da guerra, feitas as pazes, foi o que se sabe.

Por aqui me fico.

Um abraço
vbriote

10 de Junho 2009 > Forte do Bom Sucesso > Belém > Lisboa > Memorial aos Combatentes da Guerra do Ultramar > Virgínio Briote, Amadu Bailo Djaló e Magalhães Ribeiro

3. É assim que eu vejo a situação dos nativos que serviram, combateram e morreram nas NT, ao nosso lado:

A mais alta de todas as traições

Muitos africanos foram os nossos melhores amigos

Tinham orgulho em envergar uma farda portuguesa

Na instrução eram afincados, cumpridores, e...

No combate davam tudo... até a vida... com nobreza!

1

Após a revolução dos cravos

Reinava no país a anarquia

Assaltavam-se as Instituições

O povo em “partidos” se dividia

2

Gente a falar do que não sabia

Ou que não sabia do que falava

Que ora dizia uma coisa

E passados minutos... negava

3

No meio de todas as convulsões

O poder político era “restaurado”

Os governos tomavam decisões

Aos repelões... uns p’ra cada lado

4

E assim, no meio deste “arraial”

Foi assinado, se bem me lembro

O acordo p’ra descolonização

Nesse ano, em 9 de Setembro

5

Só para se ter uma leve ideia

Do resultado deste “processo”

Olhe-se para o drama de Timor

O grotesco de um insucesso

6

Mas se Timor é a “cara” da moeda

A “coroa” anda envergonhada

Vamos virá-la e falar nela

Iluminar uma traição abafada

7

Uma ignóbil e cobarde traição

A história qu’aqui se vai contar

Parte do povo ignora... naturalmente

Outra sabe... mas prefere não falar

8

Assim, começando pelo princípio

Na “nossa” África colonial

Os africanos eram baptizados, e…

Registados... em nome de Portugal

8

Portugueses para todos os efeitos

Eram convertidos ao burgo cristão

Eram detidos, julgados e punidos

Por leis e juízes da nossa Nação

9

Pois era, muitos desses africanos

Nas nossas escolas estudavam

Dignos de respeito e estima, e…

No nosso meio trabalhavam

10

Eram tratados com igualdade

E cumpriam serviço militar

Prestavam juramento de bandeira

Juravam, também, a Pátria honrar

11

Na tropa ostentavam com orgulho

As mesmas insígnias e fardas

Tornavam-se aprumados, vaidosos

Seguravam firmes as espingardas

12

Combatiam fiéis ao nosso lado

Ao nosso lado feridos tombaram

Alguns estropiados p´ra sempre

Outros... a vida sacrificaram

13

Em Angola, Moçambique e Guiné

Foram louvados e condecorados

Foram graduados do Exército

E, como Heróis foram saudados

14

Logo após a descolonização

Estes “negros” foram abandonados

Portugal deixou de os considerar “seus”

Os “deles” acusavam: “- São renegados!”

15

Votados ao desprezo e à humilhação

Fria e cruelmente torturados

Apátridas ao “seu” novo “Partido”

Foram sumariamente executados!

16

Odiados por um simples facto

Que nunca lhes foi perdoado

Gostarem e lutarem pelos “tugas”

Seu único e último... pecado

17

Perante a velada indiferença

Dos políticos e das Nações

É tempo da História julgar

A MAIS ALTA DE TODAS AS TRAIÇÕES

*

Haverá porventura… gesto humano mais divinal…

Q’um homem possa fazer para outro auxiliar…

Que disponibilizar o seu mais supremo bem... a vida?

Jamais deixemos a sua memória alguém desonrar!

4. Recordo que no poste P4934, já o Virgínio Briote apresentou um curto, mas elucidativo currículo do Amadu Bailo Djaló, de que destaco estes significativos parágrafos:


“Recenseado pelo concelho de Bafatá, sob o nº 21 em 1962, foi alistado em 04Jan62, como voluntário, no Centro de Instrução Militar. Depois da recruta em Bolama, seguiu-se o CICA/BAC, em Bissau, depois Bedanda na 4ª CCaç, a 1ª CCaç em Farim, regressou à CCS/QG, depois os Comandos de 1964 a 1966, a CCS/QG outra vez, Bafatá no BCav 757, conhecido pelo “Sete de Espadas”, e daquele transitou sucessivamente para os BCac1877, BCav1905 e BCac2856 (todos sediados em Bafatá) e, em meados de Jul69, foi transferido para a 15ªCCmds, seguindo-se então a 1ªCCmds da Guiné, o BCmds da Guiné, a CCaç21 com base em Bambadinca, o 25 de Abril.

Foi promovido a 1º Cabo em 01Jan66 e louvado pelas actuações em operações no ano de 1966. Novamente louvado em 1967, em OS do BCaç1877, de 30Set67, pelo seu comportamento em acções de combate durante o ano de 1967 (07Jan-24Set67). Transferido para a 15ªCCmds em 01Jan70, foi graduado em furriel em 06Fev70, transitando em 13Fev do mesmo ano para a 1ªCCmds da Guiné.

Graduado em 2º Sargento em 07Nov71, foi louvado pelas acções em que participou durante o ano de 1972. Condecorado com a Medalha de Cruz de Guerra de 3ª Classe em 1973 (embora o seu nome não conste nos 8 tomos do 5º volume da “Resenha...”).

Em 28Jun73 foi graduado em alferes e novamente louvado pela actuação nas operações durante o ano de 1973.

Passou à disponibilidade em 01Jan75, devido à independência do território da Guiné.”

Magalhães Ribeiro
Fur Mil Op Esp/RANGER CCS/BCAÇ 4612/74

Foto: © Jorge Canhão (2009). Direitos reservados.
___________

Nota de M.R.:

(*) Vd. poste anterior, dedicado ao Amadu Bailo Djaló em:


terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Guiné 63/74 - P5333: Efemérides (33): Poema dedicado às mães de todos os que não voltaram (José Teixeira)




1. Mensagem de hoje, dia 19 de Novembro de 2009, do nosso camarada José Teixeira*, ex-1.º Cabo Enfermeiro da CCAÇ 2381, Buba, Quebo, Mampatá e Empada , 1968/70, com um poema dedicado às mães de todos os que não voltaram:





A Virgem, o Menino e Santa Ana, por Leonardo da Vinci, 1510, Museu do Louvre, Paris, França . (Foto: © Wikipédia Enciclopédia livre (2009). Direitos reservados)

Às mães de todos os que não voltaram

Filho.
A mãe está aqui.
Não me podes ver.
Nem eu te posso ver a ti.
Sabes filho, quão grande era a minha dor.
Por não poder abraçar-te,
Transmitir-te tanto amor
Que ficou cá dentro do coração
Abafado.
Esmagado.
Sofrido.
Numa profunda e imensa solidão,
Desde que me disseram,
Que meu filho tinha morrido.
Não.
Não podia ser.
Tu que tinhas uma fome tão grande de viver!
Agora.
Voltaste.
Embrulhado num grito.
Tremendo grito.
Mãe.
Eu não queria morrer,
Porque não queira que ficasses a sofrer.
Filho.
Estou aqui há tanto tempo.
Tanto tempo,
Sem sequer o que de ti ficou
Pudesse ver.
Filho.
Eu estou aqui.
Resisti.
Tanto tempo à espera de ti.
Agora.
Tudo acabou, meu rapaz,
Já podes ficar no eterno repouso.
Em paz.

José Teixeira
1º Cabo Enf da CCAÇ 2381
___________

Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:


Guiné 63/74 - P5332: Álbum fotográfico de Vitor Raposeiro (Bambadinca, 1970/71) (1): Em dia de anos do Tony Levezinho, lembrando o nosso Novembro negro (CCAÇ 12, 1969/71)


 Bambadinca >  Zona Leste > Sector L1   Meados de 1970 >  Furriéis Milicianos das CCAÇ 12, unidade africana de intervenção adida à CCS do BART 2917 (1970/72) >  "Sr. Jaquim, Sr. Humberto, Sr. Tê Roda, Sr. Tony,  reconhecem estes putos com vinte e poucos anos?", pergunta o Humberto Reis... O Joaquim Fernandes é o primeiro a contar da direita, seguido do Humberto Reis, do T. Roda (que já nos deu sinais de vida mas que ainda não pertence ao nosso blogue, com muita pena minha...) e, por fim, o Tony Levezinho (que por sinal faz hoje 62 aninhos)...

Foto: © Vitor Raposeiro (2009). Direitos reservados.




Lisboa > Centro Comercial  Colombo > FNAC > 28 de Junho de 20009 > O Tony e a Alice  à conversa, no dia do lançamento do disco dos Melech Mechaya... Ele está a perguntar à Alice quando é que a gente (eu e ela) os vão visitar a eles (Tony e Isabel) a Sagres, onde são os faroleiros da lua... A Alice deve-lhe ter respondido: - Isso, eu bem queria... mas só quando ele se reformar do blogue...





Lisboa > Centro Comercial  Colombo > FNAC > 28 de Junho de 20009  > O Tony, e em segundo plano a Isabel  à conversa com uma amiga nossa, a Ana, de Alfragide. Retirados do buliço de Lisboa, o Tony e a Isabel vêm cá só por causa dos filhos, do neto e dos amigos... De tempos a tempos.



Lisboa > Centro Comercial  Colombo > FNAC > 28 de Junho de 20009  > O Tony e a Isabel estavam entre os nossos amigos que quiseram assistir à exibição promocional do disco dos Melech Mechaya onde toca João Graça (violino)
Fotos (e legendas): © Luís Graça (2009). Direitos reservados.


Nunca esqueço esta data, o 24 de Novembro [de 1970], antes de mais por razões de amizade que ficaram para o resto da vida, e depois por razões circunstanciais:

(i) a 22 de Novembro de 1970, é o início da Op Mar Verde, os nossos vizinhos de Fá Mandinga, a 1ª CCmds Africanos, comandada por João Bacar Jaló, integra a força sob o comando de Alpoím Calvão que invade a Guiné-Conacri; todo o T0 da Guiné está em alerta;

(ii) a 24 o Tony fazia anos (23), e além disso era just married, um homem acabadinho de casar - nas férias - com a Isabel, menina prendada que fazia ballet e ginástica, 17 aninhos, um encanto, ams que ele teve o bom senso de não trazer para a Guiné, e muito menos para a buliçosa Bambadinca; o acontecimento é celebrado pelos amigos com libações de caixão à cova;

(iii) a 25 de Novembro, mandam-nos a toque de caixa, apanhar o ar fresco do Geba e da Foz do Corubal, lá para os lados da Ponta do Inglês, sempore de má memória;

(iv) no dia seguinte, 26, de manhã cedo, apanhámos a mais violenta das emboscadas de que havia memória no Sector L1: 6 mortos, à roquetada, 9 feridos graves...

(v) foi o nosso Novembro negro, com 18 meses de Guiné (*)... Mas isso foi há muito, faz parte hoje dos "nossos pesadelos climatizados"... Ao Tony, que é um discretíssimo membro do nosso blogue, mas o mais afável dos amigos, e à Isabel, sempre querida, aí vão os votos de que passem um belo dia, em Lisboa, na companhia da família mais próxima... Tony, mais logo telefono-te... de Bambadinca! (LG)



 Guiné > Zona  Leste > Sector L1 (Bambadinca) > Xime >  Cais do Xime, na margem esquerda  Rio Gebam  >  Meados de 1970 > Reconhecem-no ? O nosso Alfero, quando ele quis passar-se para a Marinha... (Em segundo plano, uma LDM). Já agora, rcorde-se que ele também faz aninhos em Novembro, este ano longe, bem longe das bajudas de Fá Mandinga e de Bissaque (**)

Foto: © Vitor Raposeiro (2009). Direitos reservados.

1. Mensagem de Vitor Raposeiro, com data de 15 de Novembro:

Caro companheiro:


Por mero acaso encontrei o vosso blogue acerca da história do pessoal da tropa que passou por Bambadinca em 1970/71.Ora acontece que eu estive em Bambadinca como fur mil. radiotelegrafista do STM [ - Serviço de Telecomunicações Militares] durante esse período e sou possuidor de um vasto arquivo fotográfico desse período e de quem aí viveu (Fur Mil  Levezinho e companhia)!

O meu problema é a memória que me falta para me lembrar dos nomes, de quem conheci, pois eu num processo de autodefesa varri completamente da memória esse período que eu considero que foi muito triste para muita gente.

Posto isto, lembrei-me que talvez lhe enviando as fotografias que eu encontrar, alguém se reconheça nelas o que seria interessante para a história daquele período da nossa vida comum. Aqui fica a minha ideia esperando que seja do vosso agrado.

saudações

Ex-Fur Mil STM Vitor Raposeiro



Bambadinca >  Zona Leste > Sector L1 >  Bambadinca > CCS do BART 29171 (1970/72)  > Em primeiro plano, de máquina na mão, o Vitor Raposeiro, cara que recordo mas que seria incapaz de associar ao seu nome...



Rio Geba, abaixo a caminho de Bissau > c. 1970/71 >  O Vitor Raposeiro, em primeiro plano, e por detrás dele parece-me ser o 1º Cabo At Inf José Marques Alves, de alcunha o Afredo (pertencia ao 2º Gr Comb, da CCAÇ 12, o mesmo do Tony Levezinho e do Humberto Reis; o Alves mora em Gondomar)...


2. Comentário de Luís Graça (ex-Fur Mil Ap Armas Pesadas Inf, CCAÇ 12, Bambadinca, Julho de 1969/Março de 1971):

Meu caro Vitor:

Como eu costumo dizer, sem qualquer ponta de exagero nem de vaidade, o mundo é pequeno e o nosso blogue é... grande. É para isso que, de resto,  cá estamos: para reconhecer e sermos reconhecidos, para procurar e ajudar a encontrar velhos camaradas ... Ainda bem que nos topaste, por que vai ser o início de um belo reencontro... Mas, para isso, tens que me dizer onde vives, mandar-me o teu nº de telefone (para a gente tirar dúvidas e matar saudades),  contar o que estavas a fazer exactamente em Bambadinca (ao serviço da CCS do BART 2917 ? por conta e risco ? O que é que faziam, afinal, os homens do STM, que paravam uns meses por aqui e por acolá ?)... E, já agora, quando chegaste e quando partiste...

Convivemos ainda uns bons meses, lembro-me da tua cara, espero não me enganar...Há muita malta que passou por lá, no teu/nosso tempo, e que vais gostar de recordar, uns mais velhos (como a malta da companhia africana, a CCAÇ 12, a que pertenci eu - o Henriques -, o Humberto Reis, o Levezinho, o Roda, o Joaquim Fernandes, o Piça, o 1º Cabo Cripto Gabriel Gonçalves ...

Para já, convido-te a ingressar na nossa Tabanca Grande: o regulamento do hotel está afixado aí na coluna do lado esquerdo do nosso blogue.  As regras são simples. Podes fazer tudo o que te der na real gana. De preferência, partilha connosco as memórias (mesmo fragmetadas) desse tempo. Se tiveres segredos de Estado a revelar, melhor ainda...

Além de uma foto tua, tipo passe, antiga,  e outra actual, tens de contar a história do bandido, isto, é uma história do teu tempo de Bambadinca, quinze, vinte linhas...É a jóia de entrada no nosso clube... Quanto às fotos que enviaste através do Humberto Reis, vou continuar a publicá-las, tendo criado um álbum só para ti... (O que não é para todos, como podes verificar!).... Vê se me mandas também as datas (pelo menos o mês e o ano), em que foram obtidas as imagens...

Hoje faz anos o Levezinho, o Tony Levezinho, dele pelo que vejo estás bem recordado: era um dos nossos queridos amigos de Bambadinca... Vivia comigo e o  Humberto Reis no mesmo quarto...

Até à próxima, um Alfa Bravo. Luís

_________

Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 24 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1315: Fazer anos no mato: os azares do meu amigo Tony Levezinho (Luís Graça)

(**) Vd. poste de 6 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5221: Parabéns a você (38): O nosso Alfero, Jorge Cabral (Cabral só há um, o de Fá e mais nenhum)(Editores)

Guiné 63/74 - P5331: Antropologia (15): Um dos maiores tesouros artíticos da Guiné: os Sônôs (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Novembro de 2009:

Malta,
Tivéssemos sabido, e não regressávamos da Guiné sem sônôs! Éramos hoje gente rica, os museus pagam um balúrdio por esta arte magnífica.
Oxalá que os que restam na Guiné-Bissau estejam em bom recato.

Um abraço do Mário


Um dos maiores tesouros artísticos da Guiné: Os sônôs
Por Beja Santos

A Guiné despertou muito tarde para o conhecimento de um dos seus maiores tesouros e aí a influência de Avelino Teixeira da Mota foi determinante. Numa entrevista concedida na Emissora da Guiné, em Abril de 1960, o distinto historiador, cartógrafo e etnógrafo explicou como tudo começara. Em 1956, um agricultor pajadinca entregara na administração do Gabu uma série de objecto de ferro e bronze que havia encontrado perto da tabanca Mandinga de Sumacunda (regulado de Tumaná). Eram objectos constituídos por hastes de ferro de cerca de 1.20 metros de altura, com vários braços laterais terminando em esculturas de bronze, geralmente pequenas cabeças humanas, havendo no topo da haste uma escultura maior, também de bronze, representando seres humanos e diferentes animais. Eram inegavelmente símbolos de realeza de antigos régulos, objectos de culto animista, e não seria de excluir de muçulmanos recentemente convertidos.

Começadas as investigações, o historiador rapidamente apurou que os sônôs existiram em todas as áreas em que viveram Soninqués, Beafadas e Pajadincas. A investigação do Teixeira da Mota teve tal densidade, que até eu estive envolvido em pesquisas locais. Conforme referi nos meus livros, em 1969, Teixeira da Mota enviou-me um aerograma a pedir esclarecimento sobre a existência de sônôs na região de Bambadinca. Nada encontrei, foi essa a triste informação que lhe transmiti.

Perderam-se possivelmente quase todos os sônôs, o Museu da Guiné estava apetrechado com diferentes doações, as guerras civis, ao que parece, fizeram desaparecer parte fundamental deste património valiosíssimo. De tudo quanto se estudou na África Ocidental, só se sabe que os sônôs têm semelhanças profundas com esculturas da Serra Leoa, mas continua na bruma a origem desta arte original.

Seria bom que as autoridades culturais da Guiné-Bissau procurassem um inventário do que existe no seu país, em Portugal e no mundo. Quem os colecciona certamente que troca informação. E não há museu que não se orgulhe de mostrar estas preciosidades. Aqui fica a imagem de dois sônôs descobertos por Teixeira da Mota e foram publicados no Boletim Cultural da Guiné Portuguesa. Se algum dos tertulianos possui um sônô, é bom que saiba que tem um tesouro à sua guarda.


__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 23 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5326: Notas de leitura (35): A Geração do Fim, memórias de um Curso de Infantaria de 1954 (Beja Santos)

Vd. último poste da série de 9 de Maio de 2009 > Guiné 63/74 - P4312: Antropologia (14): Dança dos bijagós, uma redacção escolar, de 1958, do menino Abreu (António Graça de Abreu)

Guiné 63/74 - P5330: Efemérides (32): Funeral das ossadas do 1º Cabo Gabriel Telo (Magalhães Ribeiro)

1. Com a devida vénia e todos os nossos melhores e mais respeitosos cumprimentos e agradecimentos, publicamos neste poste da autoria do jornalista Alberto Pita, inseridos no Jornal da Madeira, dos dias 22 e 23 de Novembro de 2009, duas excelentes e elucidativas reportagens referentes à chegada das ossadas à Madeira e ao funeral do 1º Cabo Gabriel Telo, falecido em combate em Guidage em 25 de Maio de 1973:




Jornal da Madeira / 1ª Página / 2009-11-22



Ossadas de Gabriel Telo são levadas hoje para o Paul do Mar

Emoção na chegada de Telo



«Filho, a mãe está aqui!». Foi com estas palavras que Flora Telo recebeu ontem as ossadas do filho, o primeiro cabo Gabriel Telo, na Capela do Monumento ao Combatente, na Mata da Nazaré.


Apoiada pelas duas filhas, Maria João e Gabriela, Flora Telo caminhou vagarosamente em direcção à pequena urna. Não estava a mais de dois metros de distância, mas o esforço foi grande para esta mulher, ainda a recuperar da operação aos joelhos.


Pousou as mãos sobre a urna como quem afaga um bebé e, com os olhos molhados, beijou-a. «Filho, a mãe está aqui», disse uma e outra vez, por entre os soluços do choro.


Dentro e fora da sala do Monumento ao Combatente o silêncio era total. Por entre dezenas de pessoas presentes na homenagem, apenas as palavras de Flora se ouviam. «A mãe está aqui.» A emoção era forte.

O reencontro acontecia. Trinta e seis anos depois.


Não era só Flora Telo que tinha os olhos vermelhos e cheios de lágrimas. As filhas também não conseguiam conter os sentimentos.


«Sinto uma grande emoção por ficar próxima dos restos mortais do meu irmão. Sei que ele já estará no céu, mas aqui o que desejávamos era fazer-lhe um funeral digno. E é o que estamos preparando», disse Gabriela Telo, irmã do antigo soldado, dois anos mais nova, e o elemento da família com quem as entidades militares contactaram ao longo do processo de transladação.


Gabriela confessou ontem que durante os três anos em que aguardou pela chegada do irmão teve momentos de desespero e chegou até a perguntar aos militares responsáveis se «estavam a brincar com os sentimentos das pessoas». Explicavam-lhe que o processo era complexo e moroso e apelavam à paciência da família. A ansiedade foi sendo controlada. «Até que hoje chegou o dia. É uma grande satisfação», diz, por entre lágrimas.

Maria João, irmã mais nova, sentia ontem um misto de emoções. Estava alegre pela chegada das ossadas, mas triste por esse momento trazer de novo toda a dor.


Gabriel Telo sucumbiu em 25 de Maio de 1963, na sequência da explosão de um engenho detonado pelo inimigo, em Guidaje, na Província da Guiné, durante a Guerra do Ultramar.


O primeiro cabo Telo pertenceu a um grupo de onze soldados que morreram na guerra e que foram enterrados na mesma zona, apesar de terem sucumbido em momentos diferentes. Entre eles estavam três pára-quedistas. E, a bem da verdade, foi por causa dos três elementos desta força especial que as ossadas do cabo Telo, natural do Paul do Mar, chegaram agora à Madeira.


Os pára-quedistas têm o lema de que “Ninguém fica para trás” e, durante mais de trinta anos, não desistiram até que trouxessem os três «únicos» que não tinham regressado a Portugal. Agora, finalmente, chegaram.


Numa acção de solidariedade, a União dos Pára-quedistas estendeu a mão e trouxe os outros militares que estavam juntos aos pára-quedistas. Mas só os que as respectivas famílias quiseram. Algumas optaram por não voltar a abrir a dor da perda de um ente querido. Uma delas foi a família de Câmara de Lobos, do soldado João Nunes Ferreira.


A chegada dos restos mortais de Gabriel Telo representa o encerramento de um capítulo com mais de três décadas e que nos últimos três anos obrigou a um enorme esforço logístico, com o início do processo no terreno. O sucesso desta operação decorre da ajuda de várias instituições, com particular mérito para a União dos Pára-quedistas, que foi quem desencadeou todo este processo.


A ligação à Madeira foi feita, sobretudo, com a organização do Monumento ao Combatente, liderada pelo coronel Morna Nascimento.


Ontem, na homenagem feita ao cabo Telo, Morna Nascimento dizia que agora é chegado o tempo de alertar o país para a obrigação de o Governo da República custear as transladações dos portugueses que morreram na guerra e por lá ficaram.


Alberto Pita


Jornal da Madeira / 1ª Página / 2009-11-23



«Agora ele está na sua terra»

Funeral do cabo Telo realizou-se na presença de centenas de pessoas


A Centenas de pessoas juntaram-se ontem na igreja do Paul do Mar para a última despedida ao primeiro cabo Gabriel Telo, morto em combate há 36 anos, na Guiné Bissau.


A cerimónia fúnebre encerra um processo de um grupo de soldados, dos quais faziam parte dois madeirenses - o cabo Telo e o soldado João Nunes Ferreira. O processo de exumação dos cadáveres e trasladação para Portugal demorou cerca de três anos. A União dos Pará-quedistas foi quem desencadeou este resgate - estavam três elementos desta força especial entre os 11 cadáveres - que agora chega ao fim com este funeral, o último dos corpos que foram retirados de Guidaje, na Guiné Bissau.


«Fechámos, de facto, um ciclo cujo objectivo era trazer os corpos que tinham sido inumados naquele cemitério de campanha, na Guiné», explicou o presidente da União de Pára-quedistas, o general Avelar de Sousa, que ontem marcou presença na cerimónia. Várias entidades associaram-se, aliás, a esta última homenagem ao soldado, falecido a 25 de Maio de 1973 (e não 1963 como erradamente escrevemos ontem). Miguel Mendonça, presidente da Assembleia Legislativa da Madeira, colocou de manhã uma coroa de flores junto à urna do militar, quando ainda se encontrava no Monumento ao Combatente Madeirense no Ultramar. Um pouco mais tarde, já no Paul do Mar, freguesia de ontem o cabo era natural, estiveram presentes no funeral Monteiro Diniz, Representante da República para a Madeira, Brazão de Castro, secretário regional dos Recursos Humanos, Manuel Baeta, presidente da Câmara Municipal da Calheta, entre outras individualidades.


O processo de exumação e trasladação das ossadas do cabo Telo abriu na família uma ferida que há décadas tentavam sarar. A mãe, Flora Telo, nunca deixou, porém, que a memória do filho fosse esquecida. Por isso, durante os últimos 36 anos repetia insistentemente histórias sobre Gabriel, realçando as qualidades deste jovem, que foi sacristão na igreja que, anos antes, chegou a ajudar a erguer. O mesmo templo que ontem acolheu a cerimónia da sua despedida.


Ontem, a comoção impedia Flora Telo de dizer o que representava para si aquele momento.


No dia anterior, porém, confessou ao Jornal da Madeira ainda sentir «uma saudade grande do meu filho». E com o olhar em direcção ao céu apelou para que Gabriel Telo pedisse por todos os que «mais necessitam».


«Era um filho bom, querido, que desde pequenino» ajudou na igreja, recordava-se.


A vinda dos restos mortais abriu na família feridas do passado, mas, apesar dos momentos de dor e ansiedade, ninguém se arrepende da decisão.


Ontem, Gabriela Telo, irmã dois anos mais nova, dizia sentir uma «satisfação» por agora Gabriel estar «mais perto» da família.


Maria João, a mais nova das irmãs, disse sentir «uma mistura de emoções impossíveis de descrever».


Ainda assim, referiu que naquele preciso momento, à saída do cemitério, sentia «uma alegria, porque ele está na sua terra. Estes últimos dias foram de saudade, de revolta, mas agora, que ele já está aqui no nosso cemitério, na terra dele, agora é um alívio».


Com o funeral do cabo Telo «fechámos, de facto, um ciclo cujo objectivo era trazer os corpos que tinham sido inumados naquele cemitério de campanha, na Guiné», disse o presidente da União de Pára-quedistas, o general Avelar de Sousa, que ontem marcou presença na cerimónia de despedida do militar madeirense, falecido há 36 anos na Guiné Bissau.


Ainda faltam buscar 1.400 portugueses


Continuam cerca de 1.400 militares portugueses enterrados em África. São soldados que sucumbiram em combate mas que o Estado português não custeia o seu regresso ao país.


Os militares pressionam as autoridades mas o resultado tem sido nulo.


Para esse processo, a União Portuguesa de Pára-quedistas está disponível para contribuir com a experiência adquirida no processo de exumação, identificação e trasladação dos cadáveres de Guidaje, na Guiné Bissau.


«A União dos Pára-quedistas está disponível para prestar auxílio através de tudo aquilo que aprendemos», referiu presidente desta associação, o general Avelar de Sousa.


O presidente da  Comissão Organizadora do Monumento ao Combatente Madeirense no Ultramar, Morna Nascimento, também diz que é tempo do Estado cumprir a «sua obrigação».


É tempo de «chamar à responsabilidade o Governo português para a obrigação que tem de fazer regressar à metrópole - seja à  Madeira, aos Açores ou ao continente - as ossadas que ainda lá estão dos combatentes que foram num dever pátrio e por conta do Estado para o Ultramar. Não se aceita que eles fiquem lá abandonados e que as famílias é que tenham de pagar o seu regresso. É uma obrigação do Estado, é uma obrigação da Nação e uma obrigação de Portugal trazê-los de regresso ao chão da sua Pátria», defendeu Morna Nascimento, sublinhando que morreram em combate ou por doença 8.402 portugueses África. O coronel não sabe, contudo, quantos destes eram madeirenses.


Alberto Pita


Reportagens e Fotos: © Jornal da Madeira (2009). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:


Vd. último poste desta série em:


segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Guiné 63/74 - P5329: (Ex)citações (53): Ex -1º Cabo Art Pes Armando Abasse Camará, Cacine (Magalhães Ribeiro)


1. O utilizador do You Tube, Branco 1950, escreveu o seguinte comentário sobre o vídeo

Ex -1º Cabo Art Pes Armando Abasse Camará, Cacine, 2/3/2008:

Fui o último comandante de pelotão do Armando.
Um HOMEM que me ajudou a crescer.
O abandono por Portugal dos homens que serviram a que consideravam a sua Pátria, é um episódio que envergonha Portugal.

O microvídeo, de 5' 27'', foi colocado pelo nosso editor Luís Graça, em 2 de Março de 2008. Foi produzido no âmbito do Simpósio Internacional de Guileje, Bissau, 1-7 de Março de 2008. Tem a seguinte legenda:




"Visita ao sul. Cacine. Depoimento de um antigo militar das NT (1966/74), natural de (e residente em) Cacine. Com uma comissão em Angola. Elemento de contacto das NT com o PAIGC em 25 de Abril de 1974. Abandonado por nós. Uma história que nos envergonha".

Presume-se que Branco 1950 seja um antigo alferes miliciniano de artilharia que passou por Cacine. Deconhecemos a unidade.  Também não temos o seu endereço de email. Gostaríamos de o poder localizar. Se ele nos ler, aqui fica o convite para nos contactar.

Mais vídeos do nosso blogue estão disponíveis em You Tube > Nhabijoes

Abraço,
MR
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:



Vd. ainda:

29 de Junho de 2008 > Guiné 63/74 - P2994: Uma semana inolvidável na pátria de Cabral (29/2 a 7/3/2008) (Luís Graça) (17): Cacine, a voz dos abandonados (I)

(...) O ex -1º Cabo de Artilharia Pesada Armando Abasse Camará, natural e residente de Cacine... Esteve ao serviço das NT desde 1966. Pelo que percebi foi apontador de obus 14. Em Cufar, por exemplo. Tem uma comissão em Angola, em 1972. De regresso a Cacine, foi elemento de contacto das NT com o PAIGC em 25 de Abril de 1974, ao serviço do COP 5, na altura chefiada por um oficial superior da Marinha. (...).

Guiné 63/74 - P5328: Blogoterapia (131): Sobe a calçada, camarada, sobe (Luís Carvalhido, CCS/BART 3873, Bambadinca, 1972/74)

O Luís Carvalhido, membro e ex-dirigente da Associação Portuguesa dos Veteranos de Guerra (APVG),  com sede em Braga, foi soldado de transmissões da CCS do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74). É natural de (e residente em) Barcelos. Pertence à nossa tertúlia desde Abril de 2005, tendo entrado pela mão do Sousa de Castro, do mesmo batalhão (CART 3494, Xime e Mansambo, 1972/74), e que é o nosso tertuliano nº 2.

1. Mensagem do Luís Carvalhido:


 Ao receber este texto (*), tenho que reflectir, acerca daquilo que em baixo fica escrito. É que às vezes eu também me canso de não entender certas coisas, certas atitudes. E se é certo que começo a perder algumas capacidades do meu modesto intelecto, também é certo que conheci muitos FIGURANTES, nas minhas andanças, alguns dos quais fazem parte desta tua cadeia. E se a memória não perdeu de vez a lucidez, anda por aí gabiru.



Às vezes, e porque penso que começo a não ter interesse, penso abandonar, mas outras vezes lembro-me daqueles que cairam e que lá no alto olham com afecto para nós pelo simples facto de ainda os recordarmos e isso motiva a continuação. Sabes: é um bocado o "sobe a calçada, Luísa, sobe".


Já agora e se possível, diz ao Vasco [da Gama] que há mais olhos abertos, perscrutando as sombras desenhadas pelos abutres que teimam em aparecer sempre que há despojos.


Por isso,  e sabendo que às vezes furo barreiras, não com o intuito de ganhar primazias, mas antes pelo meu espírito de inquietação permanente, naquilo que aos nossos camaradas toca, deixa dizer-te o seguinte:

  • faço sempre as coisas com sentido altruísta;
  • tive desde sempre intuitos firmes e sérios que paguei bem caro;
  • lutei durante muitos anos numa luta desigual, sem nada pedir em troca;
  • gosto de alertar aqueles de nós, (muitos), que apenas dormem;
  • por isso às vezes sou incómodo, sobretudo se sinto ou pressinto alguma coisa que me fira a alma;
  • por isso e se por acaso alguma minha atitude num passado recente te incomodou, não peço desculpa porque nunca faço nada com o intuito de ofender, ultrapassar ou obter qualquer benefício pessoal.


Apenas e simplesmente fiquei chocado com algumas notícias, que aqui chegaram e fiz o que a minha consciência me ditou, ou seja: disse o que penso de uma determinada notícia, dando a perceber ó outro lado da moeda [Vd. mensagem a seguir, ponto 2]

No meu conceito, os participantes do teu blogue, entre os quais me incluo, devem e têm que obedecer a regras, mas - e porque para mim isto é muito mais que um local de encontro -, os responsáveis do mesmo, antes de informarem, devem fazer uma viagem histórica por forma a não ofenderem aqueles que conhecem por dentro outras Histórias.


Estive para não comentar os teus poemas, que para mim merecem todo o respeito, independentemente da abrangência que lhe quiseste dar, mas depois, uma vez mais, este Luís resolveu subir a calçada.


Como nota final, deixa-me dizer-te, com o tal espírito de homem da Guiné, que por vezes é necessário que as águas sejam cristalinas, por forma a que cada um assuma o seu lugar.


Deixo-te um abraço e,  se um dia for possível, acredita que terei contigo uma conversa de Homens, para que percebas melhor e entendes o outro lado da barreira.


Até lá
Luis Carvalhido


2. Mensagem de 13 do corrente, dirigida aos camaradas da Guiné, em geral, e que não chegou a ser publicada, na altura:

Caro Companheiro:

Acabo de receber o teu e-mail, no qual referencias a notícia de que os corpos dos companheiros, ou o que resta deles, acabam de ser transladados de terras da Guiné para solo Português. (**)


Naturalmente que essa notícia me comoveu e me encheu de uma alegria triste. Acompanhas a notícia, com algumas considerações pessoais, entre as quais salientas o dia 14 de Novembro e as comemorações nele contidas.

Vou tentar ser breve, mas antes deixa-me retirar do contexto os restos mortais dos nossos companheiros de armas, a quem deixo um minuto do meu silêncio. Depois passo a perguntar-te o seguinte:

  • Porque estão os corpos, ou aquilo que resta deles em mais um dia dos Generais?
  • Será para darem uma medalha de ferro às famílias e ficarem bem na fotografia?
  • Porque é que tu, companheiro, que presumo seres de boa formação, não incentivas a que a própria Liga [dos Combatentes] pague as despesas dos que já vieram, bem como as do outro corpo que por lá ficou, uma vez que eles também se aproveitam da memória e da presença física dos nossos companheiros mortos?
Deixa-me dizer-te que me sinto incomodado com essa notícia, porque esse dia é um dia morto para nós. Ele não consubstancia qualquer ideia séria, qualquer projecto, qualquer sentimento de solidariedade quer para os vivos, quer para a família dos mortos.

Sinto-me triste por saber que esse dia é uma farsa para povo ver e por isso deixa-me dizer-te que a culpa é dos interesses maiores que movem muita gente que se arvora em defensor dos reais e legítimos valores de todos aqueles que suaram a bandeira.

É culpa das várias pessoas, associadas e dependentes de pequenos tachos e da valorização da imagem que alguns teimam em conseguir.

É culpa daqueles que,  devido a uma antiga ruralidade, ainda se aninham ao poder corporativo, seja ele fardado ou não.

É culpa da presença daqueles que “pseudamente” se dizem muitas coisas e são outros dos tais.

Sabes,  companheiro, a culpa não é das Associações, mas sim culpa das “presidenciações” que apenas vivem para os seus próprios interesses.


Por isso deixa-me dizer-te que pessoalmente o 14 [de Novembro] dos Generais,  nunca. Nem desses nem de outros que se digam defensores dos Veteranos de Guerra e que depois se associam para que a água corra pró seu moínho.


EU, NÃO ESTAREI PRESENTE!

A memória dos restos mortais desses e de tantos outros que tombaram, assim mo exigem.

Saudações

Luís Carvalhido (***)
Barcelos 2009/09/12

3. Comentário de L.G.:

Há muito que não sabia de ti, camarada de Bambadinca (desencontrámo-nos lá por uma diferença de um ano...).  Também, é verdade, não nos tens escrito, mas seguramente que vais acompanhando o nosso blogue, nem que seja à distância, e nem sempre concordando, necessariamente,  com a nossa linha editorial. Não quero, nem devo, comentar o teu poste, e muito menos responder às tuas críticas. Quero  apenas contextualizar as tuas duas mensagens.

A maior parte dos camaradas do nosso blogue não sabe que já foste dirigente (vice-presidente, em 2003) da APVG, e que deste o melhor do teu esforço à causa da dignificação de todos nós enquanto antigos combatentes. Está escrito, na coluna do lado esquerdo do nosso blogue, que "somos sensíveis aos problemas (de saúde, de reparação legal, de reconhecimento público, de dignidade, etc.) dos nossos camaradas e amigos, incluindo os guineenses que combateram, de um lado e de outro. Mas enquanto comunidade (virtual) não temos nenhum compromisso para com esta ou aquela causa por muita justa ou legítima que ela seja"... Isto não significa que cada um de nós, individualmente,  não possa tomar posição sobre estas e outras questões. Não queremos, no entanto, substituir-nos à Liga dos Combatentes, à APVG e às demais associações.

Quanto ao teu protesto em relação às comemorações do dia 14 do corrente, não o publicámos na altura por manifesta incapacidade material... A efeméride, entretanto,  passou e a própria notícia que originalmente publicámos sobre as trasladações não era verdadeira, era falsa (não há notícias parcialmente falsas ou parcial mente verdadeiras, há apenas notícias falsas e notícias verdadeiras).


Aprecio a tua frontalidade: de  facto, não temos quaisquer ajustes de contas a fazer um ao outro. Nem eu sou pessoa de susceptibilidades, nem tu és menino de desculpas e salamaleques... (Se me devesses alguma coisa, era uma foto e uma história de Bambadimca, que nunca chegaste a mandar, pela tua entrada na nossa tertúlia em Abril de 2005. Como já passaram duas comissões, estás perdoado!).

 Um Alfa Bravo. E não desistas, nunca desistas de continuar a subir a calçada da vida... Oxalá, ao menos, que seja menos íngreme e poeirenta que a rampa do quartel de Bambadinca (foto acima). Luís
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Notas de L.G.


(**) Vd. postes de:

12 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5261: Efemérides (29): Às custas dos seus familiares (Magalhães Ribeiro)

17 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5284: Dando a mão à palmatória (24): Os editores do blogue têm que ter rigor e espírito crítico em relação às suas fontes (Luís Graça)




21 de Julho de 2006 >  Guiné 63/74 - P977: Antologia (52): A guerra que Portugal quis esquecer (Luís Carvalhido, ao Jornal de Barcelos)

(...) Entrevista a Luís Carvalhido, por Zita Fonseca e José de Coelho. Jornal de Barcelos. 9 de Julho de 2003 (com a devida autorização)

Alguns excertos:

(...) JB - O país foi ingrato para convosco?


LC - O país foi ingrato! O país não teve a capacidade de reconhecer isso e fez uma coisa ao contrário que foi tentar ocultar. Quando um povo não é capaz de reconhecer o seu próprio mérito, mesmo na adversidade, fraco é este povo ou fraco é quem o lidera. Actualmente, as coisas estão a vir ao de cima, o movimento está a crescer. A prova disso é esta Associação que é a maior com 40 mil membros, mas há outras com alguns milhares. Isso quer dizer que este movimento não vai parar. Isto assumiu proporções de bola de neve.


JB - As consequências mais visíveis da guerra colonial eram, para além dos mortos, os soldados que voltavam estropiados. Nos outros, as consequências não se viam, a não ser às vezes, quando a família de algum comentava que veio de África...

LC - Que veio marado, cacimbado, ninguém o pode aturar.

JB - Isto eram coisas que as famílias viviam dentro das quatro paredes e passavam despercebidas. Agora, a ideia que se começa a implantar é que as consequências psicológicas da guerra têm uma dimensão muito grande.

LC - Enorme. Há dois tipos de feridos e de feridas. Há os chamados deficientes das forças armadas, que estão à vista, e há os deficientes encobertos. E a própria família, sendo vítima do sistema - e o sistema era de encobrimento - tinha de acobertar os seus doentes suportando tudo à luz do modelo duma pretensa família católica. Ou seja, se o marido era um stressado, um indivíduo cacimbado como se diz na gíria, batia na mulher ela, porque era uma boa católica, tinha de aguentar. Se o marido batia nos filhos pedia-lhes que tivessem paciência. Durante muito anos foi assim. Finalmente, há cerca de meia dúzia de anos, fruto das lutas de pessoas mais atentas, está reconhecido o stress pós-traumático de guerra. Isto veio ajudar a quebrar os tabus. Começou a encarar-se com naturalidade a possibilidade de cada um transmitir ao seu psiquiatra ou psicólogo um fenómeno que estava associado a efeitos recorrentes.  (...)

Guiné 63/74 - P5327: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (17): Apanhado pelo clima

1. Mensagem de Fernando Gouveia, ex-Alf Mil Rec e Inf, Bafatá, 1968/70, com data de 21 de Novembro de 2009:

Caro Carlos:
Mais uma estória, desta vez pequena e de pouco interesse, mas foi o que se pôde arranjar de momento.

Aproveito para dizer que acompanhei as sessões, no Clube Literário do Porto, (anúncio postado no Blog), de que gostei muito.
Aprendi mais umas coisas sobre a Guiné, através de alguns estudantes guineenses lá presentes.
Já tinha ouvido tocar cora várias vezes na Guiné mas num ambiente fechado e sem ruidos é simplesmente divinal.
Ontem assisti à projecção do filme Nha Fala, que achei de nível internacional, comparável a muitos outros filmes que tenho visto nas salas de cinema. Achei-o com certos ares do filme Gato Preto Gato Branco do Kusturica.

Um abraço
Fernando Gouveia


A GUERRA VISTA DE BAFATÁ

17 – Apanhado pelo clima



À saída de Bafatá em direcção a Geba ficava a tabanca da Ponte Nova, onde tirei esta foto. (dois segundos depois só fotografaria a janela!)

Foto e legenda: © Fernando Gouveia (2009). Direitos reservados.



Nasci ainda durante a 2.ª Guerra Mundial e comovo-me ainda hoje ao saber, por mo terem contado pois tinha dois ou três anos de idade, que o meu pai ia propositadamente ao bar da esquina, tomar um café sem açúcar, para o poder trazer ao filho, dado que nessa altura tudo estava racionado.

Quando fui estudar para o liceu em Coimbra, tinham passado uns escassos oito anos do fim da dita guerra. Lembro-me de ver em algumas janelas de edifícios públicos cruzes de papel colado, para os vidros não estilhaçarem muito no caso de um ataque aéreo, isto apesar de o nosso país ser neutral.

Tudo isto para dizer que quando fui mobilizado para a Guiné, só ainda tinham passado também uns escassos vinte e poucos anos do fim daquela guerra. Se ainda agora, passados quarenta anos, discutimos a nossa guerra, nessa altura, pelo menos em mim, ainda estava muito presente a guerra de 39/45.

Em Bafatá cedo fiquei a saber que na tabanca de Geba havia um comerciante alemão. Haveria por toda a Guiné muitos comerciantes metropolitanos e talvez muitos mais libaneses, mas existir um alemão metido em semelhante buraco logo me cheirou a esturro. Seria que era um fugitivo nazi?

Durante toda a comissão fui pensando no assunto, principalmente quando regularmente Geba era atacada e o nosso senhor Landorf aguentava firme no seu posto.

Como já várias vezes referi, muita sorte tive na Guiné. Em matéria de ataques fui um privilegiado. Em Bafatá era o que se sabia, paz. Em Bambadinca dormi lá uma noite mas o ataque foi no dia seguinte. Madina Xaquili, onde estive quinze dias, só começou a ser atacada passado um mês de ter saído de lá. Quando muito, de Bafatá via muito bem os ataques a Geba que, como era costume, eram sempre ao princípio da noite.

Estando eu a um mês ou dois do fim da comissão, apanhado pelo clima quanto bastasse, resolvi, no dia seguinte a um desses ataques, ir com a coluna de reabastecimento a Geba. Dois propósitos se impunham: Um era ver como tinha ficado a tabanca depois daquele fogachal todo, o outro era ver o Sr. Landorf e perscrutar, se possível, se realmente tinha ar de nazi ou de um simples civil alemão que teria vindo para aquele buraco refazer a sua vida.

A coluna de reabastecimento, feita pelo Esq. Fox. aquartelado à nossa beira, partiu só ao fim da tarde contando regressar no mesmo dia. Eram pouco mais de 10 Km e a picada era muito boa.

Pedi autorização aos meus superiores e lá salto para cima de um Unimog com a farda que trazia vestida e completamente desarmado. Um autêntico turista. O que aquele clima provocava! É certo que sabia que além dos ataques nunca tinha havido problemas no itinerário Bafatá/Geba, nem emboscadas nem minas.

Em determinada altura do percurso, a uns 2 ou 3 Km de Geba, o Furriel que comandava a coluna mandou-a parar, ao que foi dito, por alguém se sentir indisposto ou coisa parecida. Quase todo o pessoal desceu das viaturas, tendo eu ficado em cima do Unimog. Já estava a anoitecer mas ainda deu para ver, a uns 200 ou 300 metros da cabeça da coluna, um elemento africano atravessar a correr a picada de um lado para o outro. De imediato dei conhecimento disso ao Furriel mas ele não valorizou o ocorrido. Poderia muito bem ser o abortar da primeira emboscada IN no percurso Bafatá/Geba à coluna de reabastecimento. Eu estava no fim da comissão mas os camaradas do Esquadrão, que ainda ficaram por lá muito tempo, é que podem confirmar se passou, ou não, a haver aí emboscadas ou minas a partir Junho de 1970.

Termino referindo que, pelo atraso provocado pela paragem da coluna, chegamos já noite a Geba e foi só descarregar os géneros e as munições regressando de imediato a Bafatá. Não tive pois oportunidade de ver os estragos e tão pouco o Senhor Landorf. Foi uma tremenda desilusão mas ainda hoje penso que, já no fim da comissão, não devia ter feito o que fiz. Muitos camaradas tiveram o azar só nos últimos dias.

Na próxima estória, e de regresso a Bafatá, vou falar de algumas figuras típicas da cidade.

Até para a semana camaradas.
Fernando Gouveia
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 13 de Novembro de 2009> Guiné 63/74 - P5262: A guerra vista de Bafatá (Fernando Gouveia) (16): O baptismo de fogo da Regina, ou um Capitão não é um Capitão

Guiné 63/74 - P5326: Notas de leitura (35): A Geração do Fim, memórias de um Curso de Infantaria de 1954 (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos *, (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Novembro de 2009:

Malta,
Está-me a saber bem vadiar nestas leituras espúrias, tenho agora para ler o resto álbum fotográfico do José Henriques de Mello, o livro do Alpoim Calvão e o trabalho do José Luís Castanheira “Quem mandou matar Amílcar Cabral?”.
É uma maneira de descansar das minhas agruras nas marchas finais deste livro que não há meio de chegar a bom termo.

Um abraço do
Mário


Uma curiosa miscelânea dos cadetes do curso de 1954,
Inesquecíveis memórias da Guiné


Por Beja Santos

O livro tem um título equívoco: a geração do fim, até se pode pensar nos vencidos da vida, de gente a precisar de cuidados terminais, o que de mais lúgubre se possa imaginar. Afinal, “A Geração do Fim” tem a ver com memórias do curso de Infantaria de 1954, gente que chegou ao fim do Império, calcorreando as suas parcelas, entre a paz e a guerra. É uma miscelânea espantosa de memórias, impressões, vínculos, afectos. Os infantes constituíram uma comissão redactora e juntaram crónicas verdadeiramente descontraídas. O resultado desses 50 anos de cumplicidades merece aplauso: “A Geração do Fim, Infantaria, 1954 – 2004”, Prefácio, 2007).

Este livro do curso de Infantaria de 1954 – 1957 abarca múltiplas histórias, duas, pelo gigantismo da descrição humana ou pela natureza dos combates duríssimos, tem a ver connosco. A primeira, aquela que sem qualquer hesitação incluiria numa antologia dedicada à Guiné, contempla a memória da CCaç 555, a partir de 1963, por António Ritto. Que história, que profunda humanidade! Respigo alguns parágrafos: “O dia de embarque no Niassa foi muito chuvoso e num cruzamento um motociclista civil, vindo da esquerda em derrapagem, ficou com o crânio esmigalhado de baixo do pneu da primeira viatura da companhia de transportes. Mau presságio, disseram alguns”. Começava tudo com sangue derramado, mas esta CCaç 555 foi uma lição de solidariedade. Chegaram a Bissau sem nunca ter lidado com a G3. Depois do treino, partiram para Cabedu em plena mata do Cantanhês. Durante a viagem, houve tiroteio e tiveram o primeiro ferido grave. Escreve o narrador: “Cabedu resumia-se a quatro pequenas casas, sendo uma da casa comercial Gouveia, outra da Ultramarina e as duas restantes de dois libaneses que com a eclosão da luta armada tinham abandonado a região e a companhia ocupou. Os empregados das casas comerciais eram cabo-verdianos e o da Ultramarina retirou-se para Bissau quando chegámos. O da Gouveia ficou e manteve o comércio com a população que vendia o seu arroz, o coconote e a cola, em troca de panos, fósforos, loiça de alumínio e quinquilharias”.

E do pouco se fez muito: abriram-se poços para lavar, beber e cozinhar; criaram-se fossas sanitárias, um forno para pão com tijolos refractários, cortaram-se centenas de palmeiras para se fazer um campo de aviação, importante para as emergências e para receber correio, e de igual modo essas palmeiras serviram para criar abrigos, depósitos de munições, com elas se construiu um caminho de centenas de metros até ao local onde chegavam embarcações uma vez de 40 em 40 dias, com reabastecimentos.

No coração da luta, nesse temível Cantanhês, os Infantes aprenderam o jogo com um pau de dois bicos: a população não queria partir para o mato mas não deixava de dialogar com os que estavam no mato. Os Infantes de Cabedu tinham uma tabanca a três quilómetros com gentes das etnias Nalu e Sosso. Os homens dos 20 aos 30 anos tinham desaparecido, estavam com o Nino no interior da mata, aos mais jovens, os que ficaram, foram-lhes dadas aulas de português, carpintaria, mecânica-auto. A todos se prestou assistência médica e medicamentosa. Lê-se o relato de António Ritto e quem lá esteve e viveu situações afins comove-se com o registo genuíno, a ausência de auto-glorificação, o elogio do indefectível companheirismo, que permanece vivo. Para ler e para guardar para a história.

O coronel pára-quedista José Moura Calheiros, segundo comandante do BCP – Batalhão de Caçadores Pára-quedistas, relata a reocupação do Cantanhês a partir do COP4, em Cufar. Descreve a operação “Grande Empresa” que tinha como objectivos principais Cadique, Caboxanque e Cafine, em finais de 1972. Foi, como se sabe, uma reocupação temporária, o PAIGC desencadeou várias ofensivas no Norte e no Sul, apareceram os mísseis Strella, Guidage e Guileje estiveram cercados, a CCP 123 procurou aliviar a pressão sobre Guidage cercada, atacaram a base de Cumbamori, mas tiveram que ir mesmo que se confrontar com o PAIGC à volta de Guidage. Há muito pouco mais a dizer, é matéria que o blogue tem largamente desenvolvido, não há novidades a contar.
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 22 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5317: Historiografia da presença portuguesa (32): O que José Henriques de Mello viu no Cuor e em Bissau (Beja Santos)

Vd. último poste da série de 17 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5287: Notas de leitura (34): As Lágrimas de Aquiles, de José Manuel Saraiva (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5325: Agenda Cultural (46): Colóquio Internacional Representações de África na Universidade dos Açores (Carlos Cordeiro)

1. Mensagem do nosso tertuliano e camarada Carlos Cordeiro* (ex-combatente em Angola, onde fez a sua comissão como Fur Mil At Inf no Centro de Instrução de Comandos, nos anos de 1969/71), com data de 18 de Novembro de 2009, dando conta da sua participação, como orador, num Colóquio a ter lugar na Universidade dos Açores, Ponta Delgada:

Bom dia, Carlos e Luís.
Segue o programa das "Representações de África...". Talvez seja ainda cedo para colocar na "agenda cultural". Farão como for mais conveniente.

Um abraço,
Carlos


O nosso camarada Carlos Cordeiro é professor de História Contemporânea na Universidade dos Açores em Ponta Delgada, e vai ser um dos conferencistas no Colóquio Internacional "Representações de África e dos Africanos na História e Cultura (Séculos XV a XXI)", a ter lugar nos dias 26, 27 e 28 de Novembro de 2009, naquela Universidade. A sua intervenção tem como título "A Guerra do Ultramar em discurso directo: os blogues como fonte de pesquisa histórica".



Programa do Colóquio
Clicar nas imagens para ampliar


Ao Carlos Cordeiro desejamos que a sua comunicação sirva para alertar os presentes para o papel que nós, os ex-combatentes, desempenhamos ao expôr publicamente nos blogues, muitas vezes discordando entre nós, as nossas vivências e experiências mais ou menos dolorosas psicologicamente, e em muitos casos, demasiados, fisicamente, deixando assim para futuro massa crítica que servirá de base para os estudiosos poderem continuar a História de Portugal.

O Carlos prometeu dar-nos posteriormente notícia da forma como correu o Colóquio, principalmente da sua intervenção, que nos tocas mais de perto.
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 7 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5068: As nossas placas de identificação (Carlos Cordeiro)

Vd. último poste da série de 15 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5276: Agenda Cultural (45): Semana Cultural da Guiné-Bissau, 16 a 20 Novembro, no Clube Literário do Porto (Regina Gouveia)

Guiné 63/74 - P5324: FAP (37): TEVS a Aldeia Formosa e Buba (Jorge Félix)

1. O nosso Camarada Jorge Félix, ex-Alf Mil Pil, BA12 - Bissalanca -, 1968/70, enviou-nos a seguinte mensagem, em 21 de Novembro de 2009:

Assunto: P5304 - Aldeia Formosa e Buba

Caro Luís,

Na impossibilidade de mandar imagens nos comentários, agradeço faças chegar estas informações ao autor do P5304, Arménio Estorninho.
Nas datas a que o A. Estorninho se refere, 4 de Janeiro de 1969, estive em Aldeia Formosa e Buba a fazer um TEVS.

A outra data, que ele refere 22 de Janeiro de 1969, eu tenho no dia 21 de Janeiro de 1969, quatro TEVS a BUBA.

Será que são outros acontecimentos?

Um abraço
Jorge Félix
Alf Mil Pil na BA 12
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Nota de MR:

Vd. poste anterior desta série em:

domingo, 22 de Novembro de 2009

Guiné 63/74 - P5323: Histórias avulsas (61): Reencontro de irmãos (Armandino Alves)


1. Em 21 de Novembro de 2009, recebemos uma mensagem do nosso Camarada Armandino Alves, que foi 1.º Cabo Auxilitar de Enfermagem na CCAÇ 1589 (Beli, Fá Mandinga e Madina do Boé, 1966/68):

Camaradas,

Hoje lembrei-me de uma história, passada em Bissau, de que, de vez em quando, me lembro com alguma nostalgia e tristeza, pois apesar de na altura ter constituído para mim uma grande surpresa, não me foi muito agradável e, depois de ter conseguido ultrapassar alguma hesitação pessoal, decidi contar-vos.

Serve esta assim, como a modos de uma pequena homenagem ao meu, entretanto, falecido irmão.

Reencontro de 2 irmãos

Como já vos contei fui em rendição individual, para a CCaç 1589, que, naquela altura, se encontrava aquartelada no 600 em Stª Luzia.

Um dia estava eu na secretaria da Companhia (porque apesar de ser enfermeiro, gostava de ajudar o 1º Cabo Escriturário, o qual aproveitava esta minha “fraqueza” para se desenfiar), quando entrou um 1º Sargento, já de uma certa idade, que me perguntou pelo Comandante de Companhia.

Eu disse-lhe que o mesmo não estava, mas que se me dissesse o que desejava, eu poderia indicar-lhe a quem se dirigir.

Então o 1º Sargento contou-me a história que o levou ali: “Um soldado tinha escrito à mãe, a solicitar-lhe que lhe enviasse uma certa quantia em dinheiro, pois tinha partido a coronha de uma G3, e se não a pagasse ia preso.”

A mãe havia entrado em contacto com ele pedindo-lhe, para a informar se a história era verídica, pois não possuía a quantia solicitada e tinha que pedi-la emprestada.

Eu disse-lhe que não conhecia nenhum soldado nessa situação, mas se ele me dissesse o nome do homem, eu veria a que pelotão pertencia e chamaria o alferes.

O sargento acedeu à minha ideia e, tal como tinha combinado, chamei então o Alferes, que lhe disse que nada tinha acontecido com a arma desse soldado e que, o mesmo, se encontrava detido devido a problemas de deserção.

Depois do 1º Sargento se ir embora, fui ver a sua folha de serviço do soldado em questão e reparei que ele já tinha sido punido, salvo erro na Bateria de Artilharia Anti-Aérea Fixa, situada em Leça da Palmeira, por abandono do seu posto de serviço.

Daquelas instalações foi transferido para Viseu, onde, novamente, abandonou o posto de vigia e o quartel, tendo deixado a arma à sua responsabilidade encostada à parede da guarita.

Daí foi “despachado” para a Guiné, só não sei se com uma Companhia, se em rendição individual.

Quando li com mais atenção o nome dele e depois o da mãe, fiquei petrificado.

Porquê?

Eu sabia que tinha um irmão extra-matrimónio (resultado de “brincadeiras” do meu pai), que era mais novo do que eu, e que apenas havia visto uma vez, quando ele tinha 4 anos, numa altura em que a mãe dele o levou a casa da minha avó paterna, que foi quem me criou. Desde aí, nunca mais o vi nem soube nada dele, pois antigamente os assuntos desta natureza não eram motivo das conversas intestinas, em família.


Como no registo do nome do pai figurava “pai incógnito”, fui ter com ele à cela (na casa da guarda) e perguntei-lhe se ele conhecia o pai, ao que me respondeu que sim.

Perguntei-lhe se ele sabia o nome do pai e ele disse-mo.

Foi a minha vez de lhe dizer que eu era irmão dele.

Entretanto ele foi transferido para a prisão do quartel dos Adidos, à espera de julgamento e a minha Companhia foi movimentada para o mato.

Quando regressamos a Bissau, fui aos Adidos e ele tinha sido punido com 3 anos de cadeia.

O motivo do seu castigo penal deveu-se a ele ter mais uma vez desaparecido, dessa vez por 5 dias e meio, tendo justificado em tribunal a sua ausência devido a ir viver com uma negra, junto do quartel da Amura.

Foi assim que conheci este meu incumpridor e aventureiro irmão...

Depois de regressar à Metrópole e ter passado à peluda, já depois de estar empregado, a PM foi à sua procura e levou-o para Viseu, afim de ser julgado pelo abandono quando ali esteve.

Valeu-lhe a mãe ter alguns conhecimentos que o livraram desse julgamento.

Este meu irmão faleceu entretanto vítima de cancro. Deus dê paz à sua alma.

Um abraço,
Armandino Alves
1.º Cabo Aux Enf da CCAÇ 1589
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Nota de MR:

Vd. poste anterior desta série em:

Guiné 63/74 – P5322: Estórias do Mário Pinto (Mário Gualter Rodrigues Pinto) (28): O COP4 (Mário Pinto/José Teixeira/Vasco da Gama/Carlos Farinha)


1. O nosso Camarada Mário Gualter Rodrigues Pinto, ex-Fur Mil At Art da CART 2519 - "Os Morcegos de Mampatá" (Buba, Aldeia Formosa e Mampatá - 1969/71), enviou-nos uma mensagem com o seu 28º texto, que dada a complexidade da matéria abordada, a seu pedido pessoal, contou com as preciosas colaborações dos nossos Camaradas José Teixeira (1.º Cabo Enf da CCAÇ 2381 - Buba, Quebo, Mampatá e Empada, 1968/70), Vasco da Gama (Cap Mil da CCAV 8351 – Cumbijã -, 1972/74) e Carlos Farinha (Alf Mil da CART 6250 - Mampatá e Aldeia Formosa -, 1972/74):

Camaradas,

Iniciei um ciclo histórico do sector de Aldeia Formosa, Mampatá e Buba, nos anos 1969 a 1971.

Depois do abandono de Gandembel e Ponte Balana uma das frentes da guerra, ao Sul, que passou para este sector.Procurei ser o mais correcto possível, pois baseei-me em depoimentos de camaradas e Histórias das Unidades para o ultimar.

Esta primeira parte refere-se ao 1.º Semestre de 1969.

Também convidei os nossos Camaradas Vasco da Gama e o Carlos Farinha, que pertenceram a Unidades que precederam a minha, a dar continuidade a este historial até 1974 (fim do conflito).

Os mesmos já me enviaram respostas e estamos a aprontar a parte final deste trabalho.

2. Breves considerações

Do meu memorial descritivo ao longo das últimas décadas, compus uma síntese historial daquilo que foi o período do ano 1969, no Sector do COP4 (Buba e Aldeia Formosa).

Este estudo baseia-se em fatos reais vividos e descritos, por Camaradas nossos com suporte nas Histórias das Unidades por eles aqui incorporados.

3. Frente de guerra do COP4 - Buba e Aldeia Formosa – (entre Janeiro e Julho de 1969).

Com a retirada de Gandembel e Ponte Balana, por ordem do COMCHEF, em Fevereiro de 1969, as frentes de guerra ficaram confinadas em sectores mais recuados das fronteiras com a Guiné-Conakry, tendo o IN de se expor mais, no interior do território, para combater as NT.

Para esse efeito, teriam que percorrer mais terreno dentro de território por nós controlado e ficarem exposto às nossas acções ofensivas, caso que até ali não acontecia, pois os aquartelamentos perto das fronteiras eram constantemente flagelados e atacados e o IN, quando acossado pelas nossas tropas, refugiava-se para lá da fronteira, impedindo assim a nossa acção de resposta.

As Companhias que nesse período aquartelavam esses destacamentos fronteiriços foram reforçar os contingentes de Buba e Aldeia Formosa, tendo algumas, posteriormente, sido movimentadas para outros Sectores.

O COP4, foi formado sobre o comando do mítico Major Carlos Fabião, oficial de inteira confiança do Governador-geral - COMCHEF General António Spínola -, que imediatamente mandou reforçar as linhas da frente com as Companhias existentes e mais algumas "periquitos", que entretanto chegaram da Metrópole.

As ordens passaram a ser, fixar o IN às áreas junto da fronteira e não permitir a sua infiltração para o interior, através de corredores criados a partir de Salancur (base do PAIGC no Sul da Guiné), que por sua vez era abastecida pelo corredor de Guileje, que se tinha tornado crucial depois do abandono dos aquartelamentos de Gandembel, Ponte Balana, Medina do Boé e Mejo.

4. - Estrada Buba-Aldeia/Formosa

Sabendo o COMCHEF que os abastecimentos às Companhias, que se concentravam agora em Aldeia Formosa, Mampatá, Nhala e Chamarra, eram vitais, mandou abrir uma nova estrada Buba-Aldeia/Formosa, com um traçado de infiltração pelas linhas do IN, tentando com ela também cortar os abastecimentos do PAIGC, para o interior do país, nomeadamente para o sector de Xitole.

A nova estrada desviava em Sare Usso para Sare Dibane, seguindo em direcção a Samba Sabali, fugindo às linhas de água, que, nas épocas da chuva, nos isolava de Buba.

Mampatá passou a ser um ponto de relevância estratégica pois foi a partir desta tabanca, que as máquinas da TECNIL passaram a rasgar as matas, escoltados pelos militares estacionados em Aldeia Formosa e Mampatá, indo ao encontro dos nossos camaradas, que, vindos de Buba e Nhala, faziam o mesmo, abrindo a mata e dividindo o IN, em duas frentes.

O PAIGC para fazer frente a esta estratégia, colocou no sector 3 Bi-grupos de combate, sobe o comando de Nino Vieira, com o fim de impedir a construção da nova estrada e manter aberto o corredor de abastecimento para Xitole.

A nova estrada foi cortar o "corredor de Uane" fundamental para a passagem de material para o interior, criando condições para as nossas forças se deslocarem mais rapidamente, logo, se movimentarem de forma mais activa, o que, naturalmente, não interessava ao PAIGC. Por outro lado iria facultar uma melhor movimentação das nossas forças nas deslocações a Buba, para reabastecimentos da zona (agora recuada) da linha de fronteira).

A partir da construção da estrada a guerra neste sector subiu de intensidade, com ataques constantes, flagelações, emboscadas e minas, bem referenciadas nas diárias no teatro de operações, levando o COMCHEF a deslocar tropas especiais, (COMANDOS, PÁRAS e FUZOS), para a ZA.Em Maio e Junho de 1969, a guerra neste sector atingiu o seu ponto máximo, somando ambos os lados perdas humanas de grande significado.

Quando o centro nevrálgico da construção da estrada passou, primeiro para Samba Sábali e depois para Mampatá, a zona de Buba ficou um pouco mais liberta no que respeita a emboscadas e minagem no terreno, para se centrar em ataques violentos ao aquartelamento, que era a base de apoio logístico a toda a máquina de guerra na zona, pela posição estratégica e pelo seu "porto", onde eram desembarcados os mantimentos, materiais necessários aos trabalhos na estrada e materiais de guerra.

Os efectivos envolvidos eram significativos estimando-se cerca de 2 000 homens das NT, com todo o material bélico conhecido na altura ao nosso dispor, incluindo o Grupo de Panhard que se deslocou de propósito de Teixeira Pinto para Aldeia Formosa.

A pista de aviação de Aldeia Formosa, passou a ter T6 e Hélicópteros estacionados permanentemente, prontos para entrar em acção a qualquer momento. As baterias de obuses de 14 cm de Aldeia Formosa e a aviação, todos os dias flagelavam a zona de construção da estrada antes da chegada das máquinas para iniciarem os trabalhos, mas apesar disso, o IN, lá estava sempre á nossa espera a partir de Sare Usso em diante.

Em qualquer altura desencadeavam emboscadas. Manga de minas tanto na estrada, como nas bermas e nos flancos, o que veio causar imensas baixas a todas as companhias envolvidas.

Foi neste período que a minha Companhia teve as primeiras baixas (1 morto e 2 feridos) em Sare Dibane, quando fazia segurança aos trabalhos efectuados pelas máquinas.

No dia 31 de Maio de 1969, foi feita a primeira e única coluna pela nova estrada, no sentido Aldeia Formosa - Buba. Uma coluna enorme com cerca de 2 kms, com todas as forças no terreno empenhadas na sua segurança e, mesmo assim, tivemos 4 emboscadas de que resultaram 3 mortos e vários feridos.

Em 11 Junho de 1969, iniciou-se a descapinação da estrada com a vinda de 700 balantas da zona de Farim para o efeito, todos os dias as forças presentes faziam a segurança, aos mesmos, em locais estratégicos afim de assegurar o bom andamento dos trabalhos.

O PAIGC, com as forças no terreno agora reforçadas com mais 2 Bi-grupos, não davam tréguas às NT. Apesar das continuadas operações levadas a efeito pelos PÁRAS e pelos COMANDOS, ao longo da ZA, o IN continuou a flagelar, minar e a emboscar as NT.

As baixas foram-se sucedendo em todas as companhias envolvidas e, moralmente, chagamos a “quebrar”.

O receio começou a apoderar-se dos nossos soldados, dado que na falta de objectivos, e expostos perante o IN, não tinham a iniciativa, limitando-se a ripostar, simplesmente, quando atacados.O esforço físico exigido aos nossos homens era muito elevado.

Dois dias de saída pelas 6 horas da manhã, com regresso pelas 3/4 da tarde seguido de um dia de serviço á unidade, para se voltar à estrada no dia seguinte. Isto, aliado ao stresse de guerra vivido todos os dias, com passagem diária por lugares que nos recordavam emboscadas ou minas. Este esforço físico e psíquico teve as suas consequências, nas baixas contínuas. A CCaç 2381 chegou ao extremo de ter apenas 37 homens operacionais, o que perfazia apenas um grupo de combate.

Em 29 de Junho de 1969, chegou a ordem de interromper a descapinação e ordenar o regresso dos balantas a Farim. Foi assim decretado, pelo Alto Comando, o fim da “nova” estrada Buba - Aldeia Formosa.

O projecto de estrada ficou reduzido a um grande rasgo aberto na mata, que nunca chegou a ser concluída e que tanto sofrimento custou às NT, com vários feridos e mortos. Tudo em vão.

Em Julho de 1969, o COP4 foi transferido para Aldeia Formosa, dando inicio ao Plano de Operações "Orfeu Oriental", onde a minha companhia foi integrada ficando colocada em Mampatá.

Legendas das fotos:

1 - Parada em Mampatá
2 - General António Spínola em Mampatá
3 - Tabanca de Mampatá
4 - Patrulhamento das obras
5 - Picagem da estrada
6 - Descapinadores balanatas
7 - Evacuação helitransportada

Unidades envolvidas nesse período, de que me recordo:

CCAÇ 2317, 2381, 2382.

CART 2414, 2519, 2521.

Pel Nat 55, 60 e 68.

Pel Milª 137.

Pel Mort 2138.

Pel Fox de Aldeia Formosa.

Pel Art 14 de Aldeia Formosa.

15ª Cia de COMANDOS.

121ª Cia PARAQUEDISTAS.

8.º DESTACAMENTO DE FUZILEIROS.

ESQUADRILHA DE T6 da BA12.

ESQUADRILHA DE HELICÓPTEROS da BA12.

ESQUADRÃO DE PANHARD de Teixeira Pinto.

CCAÇ 1792 (Lenços Azuis).

Pel Mort 1242.

Pel Rec Fox 2022.

Estas são as unidades de que me lembro, que actuaram no sector durante o referido período. Se mais houveram, aqui ficam as minhas desculpas pela omissão.

Um abraço,
Mário Pinto
Fur Mil At Art

Fotos: © Mário Pinto (2009). Direitos reservados.
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P5321: Memória dos lugares (57): Tabanca de Sucujaque na fronteira norte da Guiné-Bissau com o Senegal (Patrício Ribeiro)

1. Mensagem de Patrício Ribeiro, membro da nossa Tabanca Grande, empresário na Guiné-Bissau onde reside há mais de 25 anos, antigo fuzileiro em Angola, onde nasceu, com data de 21 de Outubro de 2009:

Boa noite
Obrigado pela morada do "Bissau Digital”.

Para actualizar a noticias deste blogue, junto algumas fotos de 2009 da tabanca de Sucujaque e da linha de fronteira no rio Sucujaque, a dois quilómetros da tabanca onde se apanha a canoa para o Senegal.
Esta fronteira tem bastante movimento de pessoas a pé, bicicleta e moto que é possível atravessar na canoa, junto ao marco de Cabo Roxo, (estrutura em ferro com alguns metros de altura) instalado pelos portugueses e franceses, há pouco mais de 100 anos.
Do lado do Senegal, existe a povoação de Cap Skirring, que tem dezenas hotéis e recebe milhares de turistas europeus por ano.

A linha de fronteira no GOOGLE, não está correcta.

Um abraço
Patricio Ribeiro
impar_bissau@hotmail.com

Localização da Tabanca de Sucujaque da Guiné-Bissau junto à fronteira com o Senegal




Vistas da Tabanca de Sucujaque

Fotos: © Patrício Ribeiro (2009). Direitos reservados.

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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 22 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5316: Memória dos lugares (56): Reportagem fotográfica de Gadamael (Jorge Canhão)

Guiné 63/74 - P5320: Controvérsias (56): Direito de resposta (Joaquim Mexia Alves)

1. Mensagem, com data de 20 de Novembro de 2009, do nosso camarada Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Esp, CART 3492, (Xitole/Ponte dos Fulas), Pel Caç Nat 52, (Ponte Rio Udunduma, Mato Cão) e CCAÇ 15 (Mansoa) (1971/73):

Caros camarigos (Camaradas+Amigos) editores e caro António Matos,

Em todo este assunto do Lobo Antunes, (que eu já tinha deixado morrer, mas que renasce agora com o texto do António Matos, inserido no poste P5301), tentei ser o mais cordato possível e os editores bem o sabem.

Não posso deixar no entanto de salientar como me parece diferente o tratamento dado neste espaço a afirmações indignas, repito indignas, por parte de alguém que esteve na guerra do Ultramar, apenas porque é um escritor de nomeada, um intelectual de méritos firmados, uma figura de topo da nossa cultura.

É que nada disso ameniza as palavras que disse, e, António Matos, envolvem os ex-Combatentes, quer tu queiras quer não, e não dão boa imagem das Forças Armadas Portuguesas, pois não se refere a um homem ou dois, mas um Batalhão inteiro, que se pode extrapolar para o teatro de operações de Angola, porque a decisão de mudar um Batalhão para sítios “mais calmos” não depende do Batalhão mas do Estado Maior da Região Militar, pelo que logicamente, a prática seria universal, pelo menos em Angola, o que se sabe não corresponde à verdade.

E se as afirmações são uma figura de estilo, então são pobres e desonestas, e lembro que recentemente porque alguém escreveu que “saltava” de dentro do rio, qual rambo, para matar o IN, aqui neste espaço se fez o gozo necessário no qual eu colaborei também um pouco.
Ou quando um jornalista escreveu umas coisas quaisquer todos lhe caíram em cima e muito bem.

Não devo nada a Lobo Antunes, considero-o uma pessoa de bem e uma figura importante das nossas letras, mas isso não lhe dá o direito de dizer o que disse, ou o que lhe vem à cabeça no momento.

Quanto a ti, caro António Matos, escreves então esta frase:
«Caro Mexia Alves, receio que este texto te possa criar algum descontentamento mas crê que não é essa a intenção. Era só o que faltava!»

Não me causa descontentamento, mas causa-me estupefacção pelas palavras que usas e não é a primeira vez que o fazes, não comigo, mas com outros.

Escreves tu:

«Querer comparar os dois tipos de afirmações será por demais intolerante, descabido e ignorante!»

Não só me chamas intolerante, como me achas descabido, e pelos vistos ignorante!

Olha meu caro, até serei ignorante mas sou com certeza uma pessoa educada e nunca utilizaria tais adjectivos numa polémica qualquer para classificar a intervenção daquele com quem troco opiniões.

Quanto ao resto, tu tens a tua opinião e eu tenho a minha.
Respeito a tua e tu deves respeitar a minha, discutindo-as se quisermos, mas nunca te colocando num pedestal de superioridade que não te reconheço.

Ah, e não estou zangado nem um pouco, e quem me conhece sabe que não estou: Era o que mais faltava!

Aviso desde já que para mim esta polémica, que nunca o foi, acaba aqui e agora.

Um abraço camarigo para ti, António Matos, e para todos,
Joaquim M. Alves,
Alf Mil Op Esp/RANGER da CART 3492
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Nota de M.R.:

Vd. último poste desta série em:

Guiné 63/74 - P5319: Em busca de... (103): Procuro informações sobre… (José Martins)


1. Apelo enviado pelo nosso Camarada José Martins (1) (ex-Fur Mil, Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos,Canjadude, 1968/70), com data de 20 de Novembro de 2009:


APELO

Camaradas,

Lanço-vos um apelo para encontrar camaradas de:

  • António Aldeia Soares, conhecido por "Aldeia", foi soldado da Companhia de Caçadores 2596 do Batalhão de Caçadores 2886, que esteve em Angola, no período 1969 a 1971, é natural da freguesia de Vila Nova de São Bento, concelho de Serpa. Está recenseado na freguesia de Loures, concelho de Loures. Segundo António Aldeia Soares, o Capitão Valente foi o comandante da Companhia de Caçadores 2596 e o comandante do seu Pelotão foi o Alferes Vale.

  • José Aldeia Soares, foi soldado na Guiné (não referenciou mais nenhuma informação). Sobre este camarada da Guiné, sabemos que foi mobilizado pelo Regimento de Cavalaria 7 em Lisboa, e que esteve em Bissau e Bafatá. Penso tratar-se de uma companhia operacional. Estes dados foram por mim recolhidos quando falei com o José Aldeia Soares, antes do envio da carta aberta. Vou continuar a investigação nos meus arquivos e no AHM.

A análise da história destas sub-unidades poderá ajudar o fio condutor para nos levar à fala com estes camaradas.

Qualquer informação agradeço que a enviem para o meu e-mail:

josesmmartins@sapo.pt

Com um fraternal abraço,
José Martins
Fur Mil Trms da CCAÇ 5
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Nota de MR:

Vd. poste anterior desta série, em:


Guiné 63/74 - P5318: Blogoterapia (130): A guerra exisitu!... (Fernando Silva Santos)

1. Mensagem de Fernando Silva Santos, ex-combatente da Guiné do Concelho de Matosinhos, com data de 16 de Novembro de 2009, reencaminhada para a Tabanca Grande pelo nosso tertuliano Jaime Machado:

Camaradas:
Se tiverem algum interesse neste artigo, podem divulgá-lo, inclusivé para publicação no Blogue.
[...]

Abraços,
Fernando Santos
BAA 3434 "As Avezinhas" - Guiné 1971/73

Jaime Machado e Fernando Santos, na Tabanca de Matosinhos.
Foto retirada do site da Tabanca de Matosinhos, com a devida vénia



A Guerra Existiu!...
“Os que morreram, viajaram envoltos na Bandeira da Honra, com a legenda: Portugal!...”

Foi há 36 anos. Já lá vai muito tempo!...

De repente, apetece-me escrever que a Liberdade, hoje, ainda não é como o ar que respiramos. Não sendo anómala nem rara é uma causa muito preciosa que todos temos de manter e dela falar!... É que o silêncio, não é só a ausência das palavras. Também é o adormecimento das causas, a camuflagem dos valores e tantas vezes a renúncia imposta às memórias que não deveriam sumir na poeira dos tempos!...

A Guerra Existiu!...

E há 36 anos, no dia 26 de Maio de 1971, no cais de Alcântara em Lisboa, a bordo do navio “Angra do Heroísmo”, uma Bateria de soldados, especializados em anti-aérea, partiu rumo à Guiné. Era a Bateria Anti-Aérea 3434, baptizada com o nome dos “Avezinhas”.

Também nessa altura, era um tempo de Maio. Um Maio já prestes a despedir-se de maduro, vestido de incerteza e de mistério por tudo aquilo que haveria de acontecer no futuro das madrugadas nascentes, no seio daquela terra africana, no coração do seu Paiol e dos bafos vermelhos que acariciavam o rosto de rapazes na casa dos vinte e poucos anos de idade!...

Na altura, o serviço militar era obrigatório.

Que o digam as centenas de matosinhenses que foram mobilizados para as nossas ex-colónias ultramarinas.

Mas é acerca da Bateria Anti-Aérea 3434 – os “Avezinhas” – que eu gostaria de escrever esta semana. Até porque neste contingente militar, foram incorporados alguns camaradas de armas, patrícios meus, que ainda hoje, felizmente, vivem e habitam no nosso concelho.

E se é verdade que as pessoas reagem a estímulos exteriores, o encontro convívio e de saudade, que tive com os “Avezinhas”, no passado Sábado, motivou-me a comungar com os meus caros amigos leitores, alguns testemunhos de vida que marcaram, indelevelmente, os meus 21/23 anos!... Foram tempos já distantes, em que os horizontes para a minha pequena adultês pareciam quebrados e o medo existia escondido nos nossos olhares que se cruzavam com os olhares côncavos e famintos das crianças nativas vestidas de inocência!

No passado Sábado, no Santuário do Sameiro, em Penafiel, os “Avezinhas” tiveram o seu encontro de ex-militares que fizeram parte daquela incorporação. Evocamos – alguns de nós já com o babado estatuto de avós – o nosso tempo de juventude passado a combater na ex–colónia da Guiné. Rezamos pelos camaradas já falecidos e relembramo-nos de alguma da nossa actuação, ainda que involuntária, no palco das operações do teatro da guerra.

Nesse encontro estavam camaradas de Matosinhos e que, curiosamente, lêem o Jornal de Matosinhos!

Prometi-lhes que escreveria uma crónica a referir a guerra colonial para que, a juventude matosinhense não se esquecesse que os seus pais e os seus avós, provavelmente, passaram por essas acerbas provações! Não podemos branquear esta parte da História recente de Portugal.

A Guerra Existiu!

O papel dos soldados portugueses, como embaixadores da política do Estado Novo, terminou no dia em que a bandeira portuguesa foi arreada dos palácios dos Governadores das respectivas colónias e de todos os edifícios públicos.

Hoje, passados estes anos, a pergunta continua escondida acutilantemente, na mente de muitos ex-combatentes:

- Valeu a pena?!...

Claro que valeu a pena, digo eu!...

A História é feita de tudo isto. De dicotomias. De contradições. Neste caminhar inexorável, vivemos amores e lavramos desamores; semeamos amizades e criamos ódios inóspitos; fomos o “eu” e fomos o “outro” num caminhar intermédio e subterrâneo; embrutecemos e tornamo-nos sensíveis transportando na nossa formação constante o cheiro das tabancas e a melodia da mata verde que moldaram para sempre o nosso sentir e a nossa personalidade. Anjos ou Demónios, francamente não sei, nesta catarse ainda por inventar…

O que sei, é que nesse dia de final de Maio de 1971, quando os “Avezinhas” chegaram à Guiné, ao desembarcarem no cais do Geba, em Bissau, sentiram um sol intenso, vermelho, a confundir-se com o vermelho de uma terra jamais vista!... Depois, em coluna militar, lá fomos, com destino ao primeiro aquartelamento situado no Cumeré. Pelos estradas – algumas de terra batida – camaradas de guerra prestes a regressarem à metrópole, saudavam-nos num ritual e praxe guerreira: “Piu…Piu…Piu. Salta Pira…”, ou então, numa música mais estridente e sádica do que motivadora, cantavam gozões e intimidatórios:

Piriquito vai pró mato, olé, olé… que a velhice vai p’ra Bissau, olé, olé!...”.

Nessa altura, os nossos olhares virgens de maçaricos, admirados, penetravam naquele mundo novo, feito de mulheres negras com os seios caídos de uma nudez sensual, jovem e hirta que da berma dos caminhos nos acenavam, ou então, pelas “mulheres grandes” de pele ressequida, as quais, nos olhavam sentenciadoras, como quem já adivinhava o nosso futuro!...

Chegados ao Cumeré, a nossa primeira reacção foi perguntar:

- Aqui já aconteceram ataques?!...

A resposta surgiu motivadora e a vida lá continuava num ritmo de adaptação às novas gentes, ao novo clima e às novas mentalidades. Como recordo os dias decepcionantes do “lerpanso” do correio. Nem uma carta. Nem um aerograma. Nada! Só as carícias cantadas em crioulo pelas bajudas nativas.”Parte um peso, pessoal!...” E lá recebiam o “patacão!...”

No dia 9 de Junho de 1971 (faz amanhã 36 anos), o “inimigo” – de propósito entre aspas – brindou-nos com o seu “baptismo de fogo!...”

Era uma quarta–feira!... A noite espreitava do poente. A G3 era a nossa companheira, num artifício de fogo tricotado, belo e trágico!... Não víamos nada!... Só fogo reluzente e o ribombar das granadas e dos obuses!... Disparávamos ao encontro do vácuo!...

Era a Guerra!... Os “Avezinhas” tinham chegado somente há nove dias à Guiné!...

Nesse ataque, no dia 9 de Junho de 1971, morreu um camarada. Outros ficaram marcados no corpo e no espírito para toda a sua vida…

Eu sou testemunha que a Guerra Existiu!...

f.silvasantos@netcabo.pt



Fotos da Guiné-Bissau de autoria Fernando Inácio © Direitos Reservados, com a devida vénia


2. Comentário de CV:

Caro Fernando. Não costumo fazer comentários aos textos dos camaradas. Quem sou eu para isso?

No entanto é um prazer publicar prosa ou verso com qualidade. Foi o caso deste teu trabalho.

Sei que tens participado nos almoços dos ex-combatentes da Guiné do Concelho de Matosinhos, porque tenho registo da tua presença. Não por isto, mas também, estou a convidar-te a colaborares neste Blogue, que como sabes tem a missão de fazer um registo de histórias dos ex-combatentes da Guiné. Nesta Caserna virtual têm lugar militares do Quadro Permanente ou Milicianos; oficiais, sargentos e praças; licenciados ou não. Tudo em pé de igualdade, porque o que nos une é aquele pequeno país de terra vermelha e ar sufocante, e tudo o que por lá passámos.

Envia-nos os teus elementos militares como: posto, locais por onde andou a tua Unidade, data de ida e regresso, e uma foto actual e uma antiga, tipo passe em JPEG. Manda-nos também mais um dos teus textos e eu faço a tua apresentação formal à tertúlia. Teremos muito prazer em receber-te nossa Tabanca Grande.

O endereço electrónico do nosso Blogue é: luisgracaecamaradasdaguine@gmail.com

Obrigado por esta tua colaboração que espero seja a primeira de muitas.
Recebe um abraço do camarada
Carlos Vinhal
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Vd. último poste da série de 18 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5294: Blogoterapia (129): A guerra que Portugal não ganhou (José Teixeira)

Guiné 63/74 - P5317: Historiografia da presença portuguesa (32): O que José Henriques de Mello viu no Cuor e em Bissau (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos, (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Novembro de 2009:

Carlos e Luís,
Findo assim a apresentação do maravilhoso álbum fotográfico do José Henriques de Mello.
Basta ver as fotografias que junto para se perceber que este livro é um tesouro ainda ao alcance de todos.

Um abraço do
Mário


O primeiro fotógrafo de guerra português:
O que José Henriques de Mello viu no Cuor e em Bissau

Por Beja Santos

Chegou a altura de acompanhar José Henriques de Mello, o primeiro fotógrafo de guerra português, nas campanhas do Cuor, Antim e Antula, região de Bissau. Os factos históricos estão devidamente registados, como segue.

O imposto de palhota nunca foi bem aceite pela população guineense. Até 1904, a cobrança era irregular e tinha muitas isenções. O seu produto revertia sobretudo para as despesas militares. É no Cuor que irá dar a primeira insubordinação, bem violenta. O residente de Geba, 2.º tenente Proença Fortes, dirigiu-se à tabanca do régulo Infali Soncó, em 1907, aqui vou desrespeitado, espancado e preso. O Governador da Guiné, Oliveira Muzanty, declarou em estado de guerra a região do Cuor. Ficou proibido o comércio naquela região do Geba. A insubordinação alastrou e incluiu Bissau, Cuor, Oio, Churo, Costa de Baixo e Pecixe. As operações visavam: bater a região de Bissau, subjugando os Papéis, sobretudo em Antula; fazer uma demonstração de força no território balanta; desembarcara em território de Infali Soncó e obrigá-lo a manifestar fidelidade; marchar sobre Mansoa, criando um posto militar na povoação; bater a região do Oio; percorrer o rio Cacheu até Pelundo e bater a região dos Manjacos até à Costa de Baixo.

Algumas das operações começaram em Novembro de 1907, Muzanty foi até ao Xime e conseguiu obter apoio de vários régulos. Subindo o rio Geba na lancha-canhoneira Cacheu, foi atacado pela gente de Infali Soncó, houve baixas de parte a parte. Infali Soncó fugiu aos combates, Muzanty também não tinha contingente para o perseguir. Muzanty foi seguidamente combater um levantamento de Felupes na região de Varela, os régulos submeteram-se, a situação melhorou, temporariamente.

Lisboa decide criar uma dotação para uma grande expedição na Guiné. No final de Fevereiro de 1908, o general Costa Monteiro comunicava à Secretaria de Estado da Guerra que a Companhia Expedicionária de Infantaria 13, armada com a espingarda Kropatschek estava pronta. O navio “Angola” embarcou 200 mil cartuchos, granadas, lanternetas, peças de artilharia, comida para os humanos e comida para os muares de artilharia montada. É interessante verificar o tipo de víveres destinados às tropas expedicionárias: champanhe e vinho do porto, conhaque e rum, bacalhau, vinho branco e vinho tinto, manteiga e marmelada, queijo da serra e flamengo, leite condensado e águas minerais. Mário Matos e Lemos descreve com copioso pormenor as peripécias do embarque em Lisboa e desembarque em Bissau, refere o diário de campanha de Nunes da Ponte (que eu aproveitei em alguns episódios da Mulher Grande) quanto à campanha do Cuor e às operações na ilha de Bissau. O repositório fotográfico é espantoso na qualidade dos registos: Infali Soncó e a sua comitiva recebendo os visitantes antes das hostilidades; sessões na carreira de tiro; muares desembarcando no Geba, na região do Xime, vemos a preparação do rancho e uma formatura de carregadores Fulas; temos depois o embarque no Geba e o seu desembarque, provavelmente na região de Mato de Cão; as tropas em bivaque em Caranquecunda e o ataque a Canturé; depois as tropas na fortaleza da Amura e a seguir as operações de Antim, vemos gentios mortos e um conjunto impressionante de fotografias das tropas a pousar para a posterioridade. Para quem colecciona fotografia de alta qualidade, para quem quer viajar à Guiné de um século atrás, para quem, sobretudo, se quer deixar maravilhar por fotografias que ninguém suspeitava existir, este livro é um surpreendente achado. Aliás, basta ver as fotografias que juntamos.

Antes da guerra, o Régulo Infali-Soncó e sua gente, recebenco visitantes

Regresso das Forças que acompanharam o enterro d'uma Praça

No porto de Sambal Santrá, a canhoeira Cacheu e o Capitania

Destruição: queimada da tabanca Gan-Turé, em 5-4-1908, guerra do Cuhor

A retaguarda d'uma trincheira abrigo construída pelo inimigo
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 21 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5312: Historiografia da presença portuguesa (31): José Henriques de Mello, o primeiro fotógrafo de guerra português (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5316: Memória dos lugares (56): Reportagem fotográfica de Gadamael (Jorge Canhão)


1. – O nosso Camarada Jorge Canhão, ex-Fur Mil At Inf Jorge Canhão, da 3ª Companhia do BCAÇ 4612/72, Mansoa 1972/74, ao tomar conhecimento do poste P5308, com a mensagem do Daniel de Matos (Fur Mil da CCAÇ 3518 “Marados de Gadamael” - Gadamael, 1972/74), enviou-nos do seu álbum de memórias, uma série de fotografias daquele local, após o ataque do PAIGC, em Junho de 1973, com um curto texto:

Camaradas,
Estou a enviar estas fotos de Gadamael, porque segundo li num dos postes do blogue existem poucas ao dispor. Todas estas foram obtidas por mim.
Se algum camarada que lá esteve souber identificar qual era a função/destino das instalações fotografadas, antes da destruição pelo ataque do PAICGC, seria bom que nos informasse, porque eu não sei.
Abraços,
Jorge Canhão
Fur Mil da 3ª Cia do BCAÇ 4612/72


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Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Junho de 1973 > Jorge Canhão, Fur Mil da 3ª Companhia do BCAÇ 4612/72, pontão e quartel.


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Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Junho de 1973 > Jorge Canhão, Fur Mil da 3ª Companhia do BCAÇ 4612/72, edifício das transmisões e "restos das instalações do aquartelamento de Gadamael", fortemente atacada pela artilharia do PAIGC.














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Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Junho de 1973 > Jorge Canhão, Fur Mil da 3ª Companhia do BCAÇ 4612/72, "restos das instalações do aquartelamento de Gadamael" e o Alf Mil Rocha junto dos destroços.















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Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Junho de 1973 > Jorge Canhão, Fur Mil da 3ª Companhia do BCAÇ 4612/72, o Alf Mil Rocha junto dos destroços e mais alguns "restos das instalações do aquartelamento de Gadamael".












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Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Junho de 1973 > Jorge Canhão, Fur Mil da 3ª Companhia do BCAÇ 4612/72, mais alguns aspectos dos "restos das instalações do aquartelamento de Gadamael".

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Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Junho de 1973 > Jorge Canhão, Fur Mil da 3ª Companhia do BCAÇ 4612/72, "restos das instalações do aquartelamento de Gadamael" e o Fur Mil Jorge Canhão.

Fotos: © Jorge Canhão (2007). Direitos reservados.
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Nota de MR:

Vd. poste anterior desta série em:

Guiné 63/74 - P5315: Histórias avulsas (60): O cão, o melhor amigo do homem (Armando Pires)



Eu e o Forcado, ambos em traje domingueiro, atravessando a ponte sobre o rio Armada, que separava Bissorã da Outra Banda. (Foto 2)


O Forcado e a Nazaré aos meus ombros, sendo o Forcado o da direita. (Foto 1)



O documento oficial que autorizou o embarque do Forcado (Foto 3)





Depois do regresso da Guiné, o inseparável amigo e companheiro do meu pai (Foto 4)


Fotos (e legendas): © Armando Pires (2009). Direitos reservados.


1. Mensagem do Armando Pires, ex-Fur Mil Enf da CCS/BCAÇ 2861, Bula e Bissorã, 1969/70 (*), para quem ainda não consegui arranjar um bocadinho de tempo, para almoçar e dar dois dedos de conversa (apesar de praticamente vizinhos: eu, em Alfragide; ele, em Miraflores)


Eu na Guiné tive um cão. Melhor escrito, eu sempre tive cães e na Guiné também tive um. Dei-lhe o nome de Forcado.

Coisa inapropriada para um cão, já se sabe, mas longe de casa é que bate a saudade e eu, um clássico ribatejano, pespeguei-o ao meu passado juvenil, tão passado e juvenil que, por razões não vindas ao caso, se ficou por ali.

Portanto, ao cão dei-lhe o nome de Forcado tal como o Barbosa deu o nome de Nazaré à fêmea que ficou para ele.

Nazaré porquê, está visto. Só falta dizer que o Barbosa era (é) o (ex) furriel mil sapador da minha companhia.

Já agora, um e outra, cachorros, vieram do administrador de Bissorã.

A Nazaré, coitada, teve vida curta. Pariu ainda nova, em plena estação das chuvas, e quando demos por ela estava quase devorada pelos mosquitos atraídos pelo cheiro de leite.

Para a posteridade, deixo-vos uma foto (1) do Forcado e da Nazaré aos meus ombros, sendo o Forcado o da direita.

E também vos deixo uma outra (2) onde eu e o Forcado, ambos em traje domingueiro, atravessamos a ponte sobre o rio Armada, que separava Bissorã da Outra Banda.

O Forcado era muito cioso do seu território e não gostava de estranhos. Identificou todos os sargentos daquela casa e ali mais ninguém passava sem consentimento interno. Civil ou militar. De baixa ou de alta patente. Não entrava, e pronto.

Deitado ou sentado, quer à porta da caserna quer à porta do bar, ele não tugia nem mugia..Deixava passar o afoito e, num ápice, filava-o pela perna e era aí que vinha o alarme. Mais nosso, certa vez, porque quem foi filado foi o 2ª Cmdt do Batalhão.

Nas flagelações ao aquartelamento não sei como se comportava. Sei que nunca desapareceu do seu lugar.

Chegados ao fim da comissão, o Forcado veio-o comigo para casa. Ainda guardo o documento oficial que autorizou o seu embarque. Podem vê-lo já de seguida (3).

Viemos no Carvalho Araújo, cujo comandante não recordo o nome, mas que se for vivo e estiver a ler esta história quero cumprimentar por ter compreendido o afecto que tinha (tínhamos) pelo cão e permitido que ele viajasse a nosso lado e não fechado no porão.

Do Forcado só me separei dois anos depois, quando, por razões profissionais, rumei a Lisboa. Então, tornou-se no inseparável amigo e companheiro do meu pai. Para onde ia um, ia o outro, onde se sentava um, ao lado estava o outro, e para meu orgulho, toda a cidade falava dos dois.

O meu pai, depois do almoço, gostava de fazer uma soneca num cadeirão instalado na marquise. Ao lado estava uma velha arca, dentro da qual tinha velhos pertences, entre eles o meu camuflado, sobre a qual o Forcado o acompanhava na sesta.

Uma tarde, vencido pela idade, o Forcado já não acordou. Não esqueço a profunda tristeza que li nos olhos do meu pai. Consintam que ainda me emocione e que tomado pela saudade publique a foto (4) dos dois.

Bem. Talvez perguntem vocês a que propósito vem aqui a história do meu cão. Primeiro, não sei se repararam, rematei a história com o meu pai. E recordar o meu pai, partilhar com amigos a memória do meu pai, é coisa que me faz muitíssimo bem ao espírito. Segundo porque, sendo certo que o meu cão não foi um antigo combatente, ele foi meu companheiro na Guiné. E os companheiros não apenas são para estimar e lembrar como “não se podem deixar para trás”

Mas há, todavia, uma outra razão para tudo isto. As conversas são como as cerejas (que haviam de ser todas como as do Fundão, mas não sendo ainda bem que há o Fundão), e se se derem ao trabalho de pesquisar no blogue, vão ver que me apresentei em Agosto, que anunciei ir 15 dias de férias e que depois voltava.

Foi o voltas, como se está a ver, e a justificação para tão longa ausência está… no meu cão. Sim, porque eu, que sempre tive cães e que na Guiné também tive um, continuo a ter cães.

Desta vez são dois Cocker Spaniel. Mãe e filho, que eu sou muito apegado à família. Ela toda dourada e ele todo preto. Saiu ao pai.

Deixemos nesta explicação a Pantufa a dormir, que ela com a idade já é mais de mandar o filho trabalhar, e sigamos o Júnior. Para quem conhece os Cocker, digo já que o rapaz herdou tudo quanto a raça pode dar. E de forma acrescida, o faro e o ouvido. E sem ter nada a ver com o Forcado, remotamente dele terá herdado o sentido de propriedade.

Pois estava eu de férias. A casa onde passo férias é um triplex. Salas em baixo, quartos em cima, frente voltada ao movimento, traseiras muito recatadas.

Certa noite, estava eu lá em baixo a ver televisão, sinto o Júnior disparar escadas a cima e depois uma refrega monumental. Tão rápido quanto a idade me consentiu, cheguei ao andar superior e só vi uma perna esfarrapada a esgueirar-se pela janela e o Júnior pronto para seguir o dono da perna.

Estamos no Algarve. No verão os larápios andam assanhados porque cheira a “fruta” fresca e gente distraída. Reis da distracção já se sabe que são os putos, e os meus (sim, eu tenho filhos e o mais novo conta com 15 anos) com a merda dos computadores abusam, de tal sorte que deixaram aberta a janela do quarto lá no segundo piso e que dá para a parte mais recatada da casa.

Perante aquela “janela de oportunidade”, a coberto da escuridão, um tipo galgou a portada, caminhou uns três metros sobre um lancil com não mais que dois palmos de largo, entrou pela janela onde coube à justa, e foi quando se preparava para a limpeza que o meu cão o ouviu e cheirou.

Filado pelo Júnior, ouvindo correria escada a cima e sem saber quantos eram, o larápio precisou de ambas as mãos para manobrar na janela, ser rápido no lancil para não cair e meter-se ao fresco.

Tudo perfeito, como nos filmes. Excepto que o sacana levava debaixo do braço O MEU COMPUTADOR. E,  precisando de levantar o braço para usar a mão, deixou-o cair.

Pimba, bonito serviço. No computador estavam textos passados e recentes, sons e fotos que fazem a minha profissão e que ainda não copiara para outros suportes, e estavam, também, digitalizadas montes de fotografias que hei-de ir seleccionado para publicação na Tabanca, mais as notas que fui tirando para ajudar a memória nas histórias que tenho para vos contar.

Valeram-me os engenheiros da Toshiba. Não sei como, porque não sou engenheiro. Sei que conseguiram recuperar tudo quanto estava no disco rígido do meu computador.

Só que estas coisas levam tempo.

PERCEBEM AGORA PORQUE SÓ HOJE VOLTO À ESCRITA?

O Carlos Vinhal, Editor de serviço à época da minha apresentação, até me escreveu algo parecido com “Ó homem, entra, acomoda-te, senta-te aí a uma janela, come um pastelinho de bacalhau, bebe um copo e lança-te à escrita que tu, que foste enfermeiro, hás-de ter muito para contar”.

Pois tenho. Mas como acho, com texto e fotos, já estar a ocupar muito espaço no livro da Tabanca e, sobretudo, para não misturar alhos com bugalhos, fico hoje por aqui e prometo voltar à escrita para a semana.

Abraços e até lá.
Armando Pires
_____________

Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 4 de Agosto de 2009 > Guiné 63/74 - P4778: Tabanca Grande (168): Armando Pires, ex-Fur Mil Enf da CCS/BCAÇ 2861, Bula e Bissorã (1969/70)

Guiné 63/74 - P5314: Em busca de... (103): Procuro informações sobre Camaradas que estiveram em Nhacra - 1972/74 (Firmino Ruas Mendes)


1. No passado dia 20 de Novembro, o nosso Camarada Luís Graça recebeu do Firmino Ruas Mendes, ex-Fur Mil do Pel Mort 4581, Nhacra - 1972/74, a seguinte mensagem:

Bom dia Camarada,

Hoje, por mero acaso, ao assistir a uma entrevista ao Camarada Manuel Rebocho, na televisão, descobri este site.

Foi, para mim, uma surpresa.

Estive na Guiné, de Dez 72 a 31 Agosto 74, como Furriel Miliciano no Pel Mort 4581 em Nhacra.

Há muito que tento encontrar Camaradas desse tempo, incluindo Os GRINGOS DE GUILEGE com quem privei durante alguns meses.

Ate aqui não me tem sido fácil.

Hoje, penso que descobri a maneira de chegar ate eles.

Vou ler atentamente tudo o que está escrito.

Abraço,
Firmino Ruas Mendes
Fur Mil do Pel Mort 4581

Aqui ficam os meus contactos:

Av. S. Silvestre, Bloco Dtº - 2º Esqº
3320-201 Pampilhosa da Serra
Telemóvel - 966 029 382
Telef. fixo - 235 598 004
__________
Nota de MR:

Vd. poste anterior desta série, em:

sábado, 21 de Novembro de 2009

Guiné 63/74 – P5313: Estórias do Fernando Chapouto (Fernando Silvério Chapouto) (14): As minhas memórias da Guiné 1965/67 – Rotinas perigosas IV


1. O nosso Camarada Fernando Chapouto, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCAÇ 1426, que entre 1965 e 1967, esteve em Geba, Camamudo, Banjara e Cantacunda, enviou-nos a 14ª fracção das suas memórias. Esta sua série foi iniciada em 29 de Agosto p.p., no poste P4877.

AS MINHAS MEMÓRIAS DA GUINÉ - 1965/67
Rotinas perigosas IV

Chegado a Cantacunda foi tempo de conhecer os cantos à casa, denotando, desde logo, que as instalações eram muito precárias. Pior só BANJARA, aonde me havia deslocado uma ou duas vezes para jogar futebol, após o que regressávamos a Camamudo.

Conhecidas as instalações, fomos visitar a Tabanca, contactar com os usos e costumes do pessoal na localidade (especialmente o das bajudas como é óbvio) e arranjar lavadeira.

Cantacunda era uma Tabanca muito estranha, notamos que a maior parte da população era muito desconfiada, de tal modo que não consegui, durante o mês e meio que lá estive, chegar a uma conclusão sobre as origens que motivavam essa desconfiança.

Detectamos a presença de várias pessoas estranhas à nossa tropa, que por ali circulavam, uns a apeados, outros de bicicleta, que habitualmente se juntavam sob os mangueiros a conversar, debandando quando nos aproximávamos. Perguntei aos soldados nativos, quem eram e donde vinham, mas ninguém me sabia, ou não queria, responder, em nítida posição de cumplicidade.

Assim, conhecidos os cantos da casa e da Tabanca, juntamos o pessoal necessário e procedemos ao reconhecimento da periferia, para nos certificarmos da vivência nos arredores da Tabanca, nomeadamente em algumas picadas. Numa delas verificamos sinais de movimentação humana, muito pouco vulgar, já para além da bolanha.

Regressados ao destacamento fui dar conhecimento ao Furriel Paio das minhas desconfianças, sugerindo-lhe que aquela picada mais movimentada fosse armadilhada. Ele concordou comigo e no dia seguinte, a seguir ao pequeno-almoço, falei com o Furriel Paio para que me cedesse nove ou dez soldados da companhia e um soldado nativo conhecedor desta ZO, equipados com o armamento usual, para efectuarmos um reconhecimento mais atento e pormenorizado à citada picada e montarmos então as tais armadilhas.

Muni-me de duas granadas defensivas e lá saímos. Passamos a bolanha e caminhamos mais um ou dois quilómetros. Escolhi um local que me parecia mais discreto, junto a uma pequena árvore com vegetação em volta, para colocar uma das armadilhas usando uma das granadas que eu transportava. Montei um círculo de segurança no perímetro, enquanto executava a montagem, acerca de um palmo do solo, dissimulada pelos arbustos que ali existiam dos dois lados do caminho (seguindo as instruções e conhecimentos que recebera nos “ranger’s”).

Para quem não sabe ou já esqueceu, estas colocações obrigavam a fazermos uma descrição da montagem da armadilha, com a sua localização exacta (indicando pelo menos um ponto de referência evidente e EXACTO do local), e, se necessário, elaborarmos um esboço ou esquema da colocação.

Tal se devia a que, posteriormente, serviria não só para comunicação a todo o pessoal da nossa Unidade, desta perigosa e mortífera existência, bem como em caso de nova decisão, se proceder à sua EXACTA desmontagem.

Cumprindo então as normas aprendidas, seleccionei uma árvore seca de grande porte com uma bifurcação enorme e utilizando a orientação possível e o medidor habitual (contagem de passos), elaborei o croqui (que aperfeiçoei quando cheguei ao destacamento), contendo todos os pormenores, para que, como foi dito, caso não fosse accionada a granada pelo IN, quem tivesse que executar a desinstalação não tivesse qualquer dúvida da sua exacta localização.

Escusado seria dizer aqui, que o mínimo erro na elaboração de um croqui desta natureza, poderia significar um drama humano fatal à NT.

Mais uns dias passaram, gastos em voltas pela Tabanca para conhecimento mais intestino dos movimentos de alguns elementos, que me pareciam esquisitos e na tentativa de compreender e assimilar o dialecto empregue pelos nativos, que foi coisa de que nunca consegui entender patavina (nem de fula, nem de mandinga), exceptuando apenas algumas palavras em crioulo, nada mais.

Digo que, também a minha, nossa, missão não era essa, mas sim defender e proteger a população, para que, com a nossa presença, se sentisse mais segura.

Aos fins de tarde, com o sol ameaça desaparecer, davam-se uns pontapés na bola, sem nunca conseguirmos onze “artistas” para cada lado, a que se seguiam os indispensáveis banhos, no belo “balneário” ali existente.

Foto do lavatório típico das péssimas condições existentes em Cantacunda

Mais uns dias de descanso se passaram, a que se seguiu um novo reconhecimento das picadas e, especialmente, a verificação do estado da armadilha que havíamos colocado, se tudo estava como deixáramos. Quando cheguei à árvore de referência, ordenei aos soldados que se dividissem em dois grupos e penetrassem para dentro do mato, ao longo da picada, até ao local da armadilha.

Toca a contar os passos seguindo o rumo da montagem, com cuidado, pois podia haver alguma surpresa até à armadilha e, para meu espanto, quando cheguei ao sítio da armadilha verifiquei que o fio estava partido, ou cortado. Analisei a armadilha e tudo estava normal, pelo que, pensei aqui há “gato”. Como levava a outra granada comigo, andei mais um quilómetro aproximadamente e montei-a num lugar muito estreito, com mato muito denso e com indícios de passagem de pessoas.

No regresso, ao passar pelo local onde se encontrava a primeira armadilha, introduzi uma cavilha em segurança na granada, mudei o fio de esticar, retirei a cavilha novamente e regressei ao destacamento, pois já estava na hora do almoço.

Aproximava-se o domingo de Páscoa e tínhamos agendado um jogo de futebol com a equipa de Capé, da parte da manhã. Era preciso ir à lenha para a cozinha e como o condutor estava atrasado, pediu-me que conduzisse eu a viatura. Lá fui eu num Unimog “dançarino”, até poucos quilómetros de Cantacunda, perto da bolanha, na direcção de Camamudo. Carregou-se a viatura e regressamos.

Eu carregava no acelerador e os nativos gritavam: - Força furriel!

E eu, extasiado, cada vez acelerava mais. O pior foi quando entrei num terreno arenoso e o Unimog, que já de si era muito instável e inseguro, guinou para um lado e para o outro e saiu da picada, obrigando-me a virar e a revirar o volante. Tive sorte, o veículo não saiu da picada e como não havia nada nas bermas, consegui dominar a direcção da viatura. Fiz uma tangente a uma árvore e retomei a picada. Milagrosamente chegamos todos inteiros ao destacamento, não ganhei para o susto mas ficou-me a experiência para o futuro. Aprendi a ter mais cuidado, pois com a carta de condução há apenas dois meses, não tinha qualquer noção de condução no mato.

Descarregada a lenha, subiram os jogadores da nossa equipa seleccionados para a viatura, pois o jogo era às dez horas. Capé distava cerca de 20 kms, cujo trajecto percorremos rapidamente, chegando antes da hora prevista. Como o pessoal já ia meio equipado, apenas tiramos o camuflado e começamos o jogo. Tudo correu bem excepto o resultado final do jogo. Fomos derrotados por 1-0.

Acabado o jogo regressamos a Cantacunda, tomamos banho e fomos almoçar com o restante pessoal da companhia, que já estava à nossa espera.

Foto da equipa de futebol de Capé capitaneada pelo bem conhecido Carlos Barbosa, filho do patrão da refinaria de cana de açúcar local. É o primeiro em pé, a contar da direita.

(Continua)

Um forte abraço do,
Fernando Chapouto
Fur Mil Op Esp/Ranger da CCAÇ 1426

Foto: Fernando Chapouto (2009). Direitos reservados.
__________
Nota de MR:

Vd. poste anterior desta série, do mesmo autor, em:

Guiné 63/74 - P5312: Historiografia da presença portuguesa (31): José Henriques de Mello, o primeiro fotógrafo de guerra português (Beja Santos)

1. Mensagem de Mário Beja Santos*, (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 16 de Novembro de 2009:

Malta,
Resolvi separar as fotografias da guerra das da paz. É um álbum muito expressivo, revela-nos um fotógrafo excepcional. É claro que para mim o mais tocante passa pelo Cuor, está lá tudo desde Mato de Cão, as campanhas dentro do regulado, o ataque a Madina (será, mais de 50 anos depois, um dos santuários do PAIGC), pela primeira vez vi a corte de Infali Soncó, o mais rebelde entre os rebeldes.

Um abraço do
Mário


O PRIMEIRO FOTÓGRAFO DE GUERRA PORTUGUÊS:
José Henriques de Mello

Retratos da Guiné antes dos conflitos de 1907 – 1908

Por Beja Santos



Numa edição da imprensa da Universidade de Coimbra (Novembro de 2008, 500 exemplares), fomos surpreendidos pela notícia de que o primeiro fotógrafo de guerra português operou na Guiné entre 1907 e 1908 tendo deixado um álbum com cerca de uma centena de imagens, provavelmente obtidas em 1907 e que deveriam estar destinadas a comercialização. Os organizadores não escondem a sua surpresa pelo tesouro cultural, histórico e etnográfico que representam estas fotografias, agora digitalizadas. O que nos enternece é a proximidade da câmara, fornecendo-nos admiráveis registos estáticos que desvelam usos e costumes dos colonos, a natureza das habitações indígenas, a vida clânica de diferentes etnias, com as suas hierarquias, a europeização e cristianização, as danças, a azáfama nas casas comerciais, as digressões do poder (como sua excelência o Governador a embarcar), as práticas católicas em Bolama, a vida do mercado na capital da colónia, por exemplo.

Muito pouco se sabe sobre José Henriques de Mello, que partiu da ilha de Santiago, onde trabalhava em fotografia na cidade da Praia e de onde partiu para a Guiné para acompanhar a expedição militar. Certo e seguro é que a sua ida à Guiné o transformou no primeiro fotógrafo de guerra português, o primeiro a estar presente numa frente de combate e a enviar para os jornais os seus instantâneos. Há provas de que ele se encontrava na Guiné em pelo menos fins de 1907, daí o apaziguamento das imagens, os momentos de doce convivência que antecedem os conflitos que irão abrasar o Leste e a região de Bissau. Mello é nome que não consta no nome da fotografia em Portugal e historiadores como António Pedro Vicente ficaram surpreendidos com a elevada qualidade destes disparos fotográficos. Sabe-se que Mello emigrou para os Estados Unidos mas perdeu-se-lhe o rasto.

Neste livro surpreendente, Mário Matos e Lemos descreve a actividade do Governador Muzanty, as fricções que teve com os comerciantes da Guiné, dá-nos um quadro da situação política e económica da colónia depois da desafectação de Cabo Verde refere os massacres conhecidos por o “desastre de Bolor” em que foram massacrados mais de 100 soldados e grumetes ao serviço da bandeira portuguesa por guerreiros Felupes, em 29 de Dezembro de 1878. Dois historiadores acidentais irão depor sobre a natureza dos conflitos que irão por em confronto as tropas portuguesas e os seus aliados contra os régulos sublevados: Nunes da Ponte e Pinheiro Chagas. Observa ainda Mário Matos e Lemos que no final do século XIX os dirigentes monárquicos encaravam a possibilidade de entregar a exploração da colónia a companhias soberanas ou majestáticas, como forma de travar a presença do comércio internacional na região (sobretudo belgas, alemães, franceses e ingleses) as instalações militares ou eram muito fracas ou estavam degradadas. A Conferência de Berlim (1884 – 1885) reclamara como princípio essencial da legitimidade da soberania a ocupação efectiva do território, o que vai desencadear campanhas de pacificação na Guiné, em Angola e Moçambique. As campanhas anteriores às do Governador Muzanty foram, regra geral, mas sucedidas, perpetuando-se os problemas com os Papéis de Bissau, os levantamentos na região do Oio, os resultados eram sempre provisórios, ninguém queria pagar o imposto de palhota. E assim chegámos às campanhas de 1907 e 1908, iremos ver as fotografias de José de Mello no Cuor e na região de Bissau.

Quem pretender obter este álbum que é uma verdadeira preciosidade, pode contactar a Livraria Ferin, a obra custa 25 euros (Livraria Ferin, telefones 213424422 / 213469033 ou e-mail livraria.ferin@ferin.pt).


Régulo de Fulas e seus Ministros

Teatro de Bolama

Costume de europeus estrangeiros. Aperitivo (antes do jantar)
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 17 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5287: Notas de leitura (34): As Lágrimas de Aquiles, de José Manuel Saraiva (Beja Santos)

Vd. último poste da série de 14 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5269: Historiografia da presença portuguesa (30): O primeiro fotógrafo de guerra português andou no Cuor, Guiné, em 1908! (Beja Santos)

Guiné 63/74 - P5311: Tabanca Grande (189): António Tavares Oliveira, ex-Fur Mil da 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4615/73 (Os Pifas), Bassarel, 1973/74


1. Mensagem de António Manuel Oliveira, ex-Fur Mil da 3.ª CCAÇ/BCAÇ 4615/73, Bassarel, 1973/74, com data de 19 de Novembro de 2009:

Bem haja quem dá continuidade ou conhecimento dos nossos camaradas.

Descobri o teu site, que considero muito bom e com muita importância de conteúdo.

Estive na Guiné de Outubro de 1973 a Setembro de 1974, em Bassarel, Teixeira Pinto, na 3.ª Companhia do BCaç 4615 (Os Pifas)

Tenho feito todas as diligências para encontrar maralhal que lá tenha estado e para isso já contactei o quartel de Évora, mas não possuem dados nenhum do pessoal.
Evidentemente que reconheço que deverá ser difícil, pois já o foi assim em 1973, quando formamos o Batalhão e verificámos que os soldados e cabos presentes não constavam nas listas dos que iriam embarcar no Niassa. Viemos a saber mais tarde que esses elementos estavam em Elvas e os que estavam connosco iriam para Angola. A caminho de Lisboa, mais concretamente em Vila Franca de Xira é que se deu o encontro e a troca de tropas. Só no Niassa é que se fez a chamada e então ficamos a saber quem era quem. Coisas da nossa guerra.

Mas esta história irei contar mais adiante.
Agora gostaria de encontrar mais alguém, além do J. J. Rodrigues, que por sinal esteve comigo e era o Baga.

Sou António Manuel Tavares de Oliveira, morador em Vila Nova de Gaia e fui furriel Miliciano.
Cheguei a Lisboa no dia 13 de Setembro de 1974 e veio comigo uma gazela, a bordo do Niassa.

Os nossos carros tinham a pomba pintada e éramos “Os Errantes”.

Companheiro Luís Graça. Agradeço que me coloques nessa maravilhosa página.

Contacto: antavol@hotmail.com

Um abraço
A. Tavares


2. Comentário de CV

Caro António Oliveira, peço que te assines assim porque já cá temos um António Tavares. Sê bem aparecido na nossa Caserna Virtual que é este Blogue do Luís Graça, destinado aos camaradas que, à sua maneira, combateram na Guiné e que querem de boa fé contribuir na feitura deste espólio de estórias/histórias e experiências vividas e contadas na primeira pessoa.

Partimos do princípio que quem fazer parte desta comunidade, e a ela se apresenta, lê e aceita as normas afixadas no lado esquerdo da nossa página.

Porque nunca é demais lembrar, aqui as deixo:

O que nós (não) somos... Em dez pontos!

(i) Os amigos e camaradas da Guiné têm como maior denominador comum a experiência de (ou a relação com) a guerra colonial, a guerra do ultramar ou a luta de lilbertação na Guiné, entre 1963 e 1974.

(ii) Muitas outras coisas os podem separar (a ideologia política, a religião, a nacionalidade, a origem social, a etnia, a cor da pele, as antigas patentes e armas, etc.), mas essas não são decisivas.

(iii) Quanto ao seu blogue, não é nenhum porta-estandarte, nenhum porta-voz, nenhuma bandeira de nenhuma causa...

(iv) Somos independentes do Estado, dos partidos políticos e das associações da sociedade civil que de uma maneira ou de outra possam representar e defender os direitos e os interesses dos ex-combatentes portugueses (ou guineenses).

(v) Somos sensíveis aos problemas (de saúde, de reparação legal, de reconhecimento público, de dignidade, etc.) dos nossos camaradas e amigos, incluindo os guineenses que combateram, de um lado e de outro. Mas enquanto comunidade (virtual) não temos nenhum compromisso para com esta ou aquela causa por muita justa ou legítima que ela seja.

(vi) Em todo o caso, a solidariedade, a amizade e a camaragem são valores que procuramos cultivar todos os dias.

(vii) Cada camarada e amigo que aqui escreve, compromete-se a respeitar a orientação editorial e as normas éticas do blogue, mas representa-se apenas a si próprio.

(viii) Não somos historiadores. Também não somos nenhum portal noticiososo, não temos jornalistas profissionais, não temos a obrigação de cobrir a actualidade dos nossos dois países, Portugal e a Guiné-Bissau.

(ix) Somos apenas um grupo de amigos e camaradas da Guiné, incluindo familiares de camaradas desaparecidos ou mortos, durante e depois da guerra.

(x) Publicamos narrativas, histórias, estórias, documentos, relatórios, fotos, vídeos, etc., relacionados com a nossa vivência comum, a guerra, de que fomos actores e vítimas, protagonistas e testemunhas.

Tabanca Grande; As Nossas 10 Regras de Convívio
O nosso blogue é também uma Tabanca Grande Originalmente, chamámos-lhe Tertúlia. Tabanca é um termo mais apropriado: nela cabem todos os amigos e camaradas da Guiné.

Neste espaço, de informação e de conhecimento, mas também de partilha e de convívio, decidimos pautar o nosso comportamento (bloguístico) de acordo com algumas regras ou valores, sobretudo de natureza ética:

(i) respeito uns pelos outros, pelas vivências, valores, sentimentos, memórias e opiniões uns dos outros (hoje e ontem);

(ii) manifestação serena mas franca dos nossos pontos de vista, mesmo quando discordamos, saudavelmente, uns dos outros (o mesmo é dizer: que evitaremos as picardias, as polémicas acaloradas, os insultos, a violência verbal);

(iii) socialização/partilha da informação e do conhecimento sobre a história da guerra do Ultramar, guerra colonial ou luta de libertação (como cada um preferir);

(iv) carinho e amizade pelo nossos dois povos, o povo guineense e o povo português (sem esquecer o povo cabo-verdiano!);

(v) respeito pelo inimigo de ontem, o PAIGC, por um lado, e as Forças Armadas Portuguesas, por outro;

(vi) recusa da responsabilidade colectiva (dos portugueses, dos guineenses, dos fulas, dos balantas, etc.), mas também recusa da tentação de julgar (e muito menos de criminalizar) os comportamentos dos combatentes, de um lado e de outro;

(vii) não-intromissão, por parte dos portugueses, na vida política interna da actual República da Guiné-Bissau (um jovem país em construção), salvaguardando sempre o direito de opinião de cada um de nós, como seres livres e cidadãos (portugueses, europeus e do mundo);

(viii) respeito acima de tudo pela verdade dos factos;

(ix) liberdade de expressão (entre nós não há dogmas nem tabus); mas também direito ao bom nome;

(x) respeito pela propriedade intelectual, pelos direitos de autor... mas também pela língua (portuguesa) que nos serve de traço de união, a todos nós, lusófonos.

Caro António Oliveira, já que te instalaste, convido-te a começares a escrever e a enviar os teus textos (em formato Doc), assim como as tuas fotos (em formato JPEG) devidamente legendadas para poderem figurar na nossa página.

Em nome da tertúlia, deixo-te um abraço de boas-vindas.

Teu novo camarada e amigo
Carlos Vinhal
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Nota de CV:

Vd. último poste da série de 20 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5305: Tabanca Grande (188): Jorge Narciso, ex-1º Cabo Esp MMA, BA 12, Bissalanca, 1968/69

Guiné 63/74 - P5310: O assédio do IN a Guidaje (de Abril a 9 de Maio de 1973) - II Parte (José Manuel Pechorrro)



1. Segunda parte de um trabalho relacionado com a actividade do PAIGC na zona de Guidaje em Abril/Maio de 1973, enviado pelo nosso camarada José Manuel Pechorro, ex- 1.º Cabo Op Cripto da CCAÇ 19, Guidaje, 1971/73, em mensagem do dia 29 de Setembro de 2009:





O ASSÉDIO DO IN A GUIDAGE
De Abril a 09 de Maio de 1973

Parte II

Dia 8 de MAIO de 1973, Terça-feira

Na véspera, deitei-me cedo e adormeci profundamente.
Pelas 01.15 horas fomos arrancados da cama por estrondos fortíssimos. Saltei do colchão e magoei-me no joelho, chegando sonâmbulo ao Posto de Rádio. A seguir vieram as granadas de morteiro. Passei a flagelação junto ao Operador de Transmissões, em serviço. O IN, em número não estimado, visou com 3 foguetões de 122mm e morteiro 82, rampas de lançamento na região de Samoge. Passaram por cima do recinto, caindo a cerca de 500 a 1000 metros, dentro do Senegal e na bolanha, onde viria a ser encontrada a empenagem de um. Base de fogo de morteiro na região do marco 126. Durou 10 minutos. Foi boa a reacção das NT, com o obus, morteiro 81 e armas ligeiras (desnecessárias). Só tivemos um ferido ligeiro.

Bigene foi flagelado ao mesmo tempo com foguetões e canhões sem recuo.
Trocámos opiniões e voltámo-nos a deitar, depois de cifrado o RELIM, comunicando o acontecido a Bissau. Lá fora a noite está escura e cai cacimba, bem fresquinho. Custou-me a adormecer novamente.

SURPRESA!
Passadas 2 horas (04,40), fui novamente acordado pelo estalar das granadas de 82 mm. Pela primeira vez, durante mais de 16 meses, com a CCaç 19, somos atacados 2 vezes no mesmo dia. Durou 20 minutos. Resposta com morteiro 81 e obuses, como deve ser. Na população 1 ferido ligeiro. Não ripostamos com armas ligeiras, como no anterior, o que me agradou.
Mais uma mensagem a codificar e uma noite quase sem dormir, é o que eles nos arranjam, os turras!

O dia amanheceu bonito, mas húmido, com vestígios de neblina. Quase todos saímos para ver os possíveis estragos e os sítios dos rebentamentos. Alguns em tronco nu, em cuecas e chinelos nos pés, saboreando a manhã. Já se notava o bater do milho nos pilões de madeira, executado pelas bajudas.

Por volta das 06 horas começou-se a ouvir os motores de viaturas ao longo dos marcos da fronteira: Senegal marco 126; Facã, interior TN.

- Esta é boa! Então os cabrões (dizia alguém), de dia vêm de camioneta a 500 ou 1000 metros do arame farpado? Que falta de respeito!

Disparámos 4 granadas de morteiro 81, na sua direcção. A guarnição em grupos discutia o assunto.

SERÁ AINDA SURPRESA?
Decorridos 15 minutos (6,15h), soam as Kalasknikoy e as metralhadoras ligeiras Dactarevy, instaladas no lado de lá da bolanha (Rep do Senegal). Quase na água e camuflados, nos arbustos e arvoredo, em frente da pista de aviação e da caserna do 2.º Pelotão. Logo se seguem os rebentamentos das granadas dos RPG`s, acompanhadas de morteiro 82.

Estavam agrupados no patamar de cimento que ladeia o edifício do Comando, defronte da Secretaria: O Cap Mil Inf António Carvalho, o Sold Inf Trms Correia, o 1.º Cabo Trms Janeiro e o Sarg Oliveira (que substituiu os que morreram). Um grupo que constituía um belo alvo! Aos primeiros disparos fugimos, num relâmpago, para o Posto de Rádio. Fuga milagrosa, a Secretaria foi atingida, sendo a porta arrancada por um RPG… Escapámos!

Foto cedida pelo 1.º Cabo Radiotelegrafista Janeiro, alentejano


Demorou um bocadinho a nossa retaliação e, esta foi valente.
Os militares reagiram, metidos nas valas, ripostamos com armas ligeiras (G3 e HK), morteiro 60 e 81 e obuses. Alguns dos nossos quase completamente nus, corpos suados e sujos do pó e da terra, com cartucheiras no corpo. Dormiam quando se deu o festival de fogo. Rogam-se pragas, dizem-se palavrões e dão-se berros. Só presenciando!
No outro lado do Posto Transmissões ouvi africanos dizerem:

- Estão a abusar, vamos agarrá-los e mostrar que não somos para brincar.

Um que se deslocava pediu-me os carregadores, dei-lhos, recebendo em troca os vazios.
Logo que as granadas e as rajadas abrandam a nossa gente atravessa o arame, passa a pista, mete-se na bolanha, com água! Durante a sua travessia são alvejados com rajadas de espingardas automáticas. Mas não param os nossos, perseguem o adversário surpreendido que certamente não esperava esta nossa reacção, e retira para o interior do país vizinho, através do arvoredo e do matagal. É provável que o IN já não tivesse munições.

Era o 3.º ataque e apesar do futuro não se mostrar nada prometedor (durante o tiroteio imaginei que queriam tomar o quartel), senti-me orgulhoso do nosso feito. Foi uma coisa louca, audaciosa e inconsciente, é verdade, mas um dos slogans dos nossos comandos, é: “A AUDÁCIA PROTEGE OS VALENTES”.

Se nos assediam pela retaguarda, forçando através do reordenamento, seria um problema, pois ficámos com um efectivo reduzido no nosso perímetro defensivo.
Viveram-se momentos de certa euforia.
O IN estimou-se em 80 elementos, durante cerca de 20 a 30 metros alvejou o aquartelamento e a povoação. Sofreu baixas, durante a perseguição os nossos avistaram guerrilheiros amparados, rastos de sangue, etc. Capturados 3 carregadores Kalasknikoy, 1 cartucheira tripla, 1 cinturão e 1 cantil.

Nas NT: 1 ferido grave. Na população 3 graves (sendo 2 senegaleses) e 3 ligeiros. Um nativo ferido, depois de assistido na Enfermaria, como o sangue trespassasse as ligaduras, fez-me lembrar um perdigueiro.

Danificadas parcialmente: A Enfermaria, Secretaria e 2 casas civis.

Às 09,55 horas, outra flagelação, com morteiro 82. Durante 20 minutos. Da região de Fajonquito e do lado contrário, Facã. Resultou 1 ferido grave e 2 ligeiros. Na população 2 ligeiros.

Foto cedida pelo 1.º Cabo Radiotelegrafista Janeiro, alentejano

Os rebentamentos, na sua maioria são dentro do nosso recinto e ao redor do aquartelamento, são fortíssimos, parecendo trovões potentes em noite de violenta trovoada.
Alguns passam a mostrar-se pálidos e preocupados, mas sem perderem a cabeça. Metidos nos buracos abrigos, valas e casernas abrigo em betão armado. Ninguém sai. É o silêncio pesado.
Não reparamos nos cantares das aves, no Sol que já cai bastante quente e não se vêem as ovelhas a pastar.
Parece uma povoação e quartel fantasma…
Um Unimog trabalhando no meio da parada, abandonado pelo condutor, que entretanto se esqueceu. Uma viatura vertendo gasóleo do depósito e outra com os pneus furados ou traçados. Vive-se um filme, real e autêntico!

Fui até à caserna do 1.º Pelotão, onde conversei com o Garcia, 1.º Cabo Mecânico. Estava com ele, quando surge a 5.ª flagelação (por volta das 12 ou 13 horas), desta vez do lado das casernas do 3.º e 4.º Pelotões, com armas ligeiras, RPG,s e morteiro 82, também do lado de lá da bolanha, território Senegal.

A minha arma desapareceu, apercebi-me ter sido um soldado que a utilizou, quando correndo se foi refugiar na vala.
Abriguei-me com o 1.º Cabo Garcia, no ninho da metralhadora pesada, de que é responsável. Ao tentar manejá-la, entalou-se. O palavreado dele, muito sério, mas com piada, provocou-me o riso, que contive a muito custo, intercalado, no matraquear do tiroteio e estrondos das explosões.

A nossa resposta foi diminuta, mas de vez em quando lá trabalhavam as metralhadoras ligeiras HK e G3. Atitude realista para quem possuísse estas armas e para a gravidade da situação. O poupar munições era importante.
Regressei ao Posto de Rádio.

O grupo IN, não estimado. Houve quem afirmasse que avistou atacantes que tentaram aproximar-se do arame farpado. (?) Durou 30 minutos. As NT com mais 1 ferido ligeiro.
Bigene, apesar de sofrer flagelações, precisamente na mesma hora, auxiliou com 3 granadas de obus 140 mm, que caíram mesmo em cima deles. O raio de acção da sua artilharia ultrapassa o nosso perímetro.
Solicitou-se o auxílio da FAP, cedeu vir depois de muita insistência. Os Fiat`s pediram para todos se meterem nas valas ou abrigos, pois iam bombardear de bastante alto e muito próximo do arame farpado, com ameixas de 500 ou 750.
Um graduado que não consigo recordar, disse para avisarmos os que estavam nas valas do reordenamento, viradas para o Samoje, para se baixarem. Eu e outro camarada das Transmissões corremos a comunicar este pedido!

Foto cedida pelo 1.º Cabo Rádiotelegrafista Janeiro

Alguns elementos da população captaram e interpretaram mal, dado não perceberem bem o português; certamente julgaram tratar-se de aviões dos turras que iam actuar (?). Foi o pânico. Algumas crianças, mulheres, homens e velhos, abandonam os abrigos na povoação, para se acolherem nas casernas dos soldados. Deixando-nos baralhados.
Bombardeada a zona do fogo IN, com êxito, segundo tudo indica, provocando baixas que o entreteve durante a tarde e a noite.

O Sol está muito quente, faz imenso calor. O resto do dia foi passado em sossego. Todos precisávamos de descanso. A calma levou-nos à meditação.
Não há dúvida, querem acabar com a nossa presença neste local, é o que penso intimamente. Mas vão ter que lerpar, às dezenas ou centenas!

As relações tornaram-se pesadas, frias ou silenciosas, não se conversa, mas vai aparecendo sempre alguém que diz uma piada, forçada, neste clima sufocante.
Não se fez comida, nem estamos dispostos a ir para o refeitório, debaixo da chapa de zinco. Passamos a ração de combate, que não apetece ou não temos vontade de comer.

Como nos queixamos que temos poucas munições, é organizada uma coluna auto à pressa, com 4 a 5 viaturas, que parte de Binta para Guidage, escoltada por 2 Pelotões de Farim, do BCaç 4512 e CCaç 14 nativa. Iniciou a marcha já tarde. É acompanhada (?) por mais 2 Pelotões de Binta até perto da tabanca de Genicó, retirando para o destacamento pelas 18 horas, virtude constituírem a sua guarnição.

De Guidage, picando o itinerário, sai bi-grupo de combate ao seu encontro no CUFEU, onde montam segurança. No quartel e povoação ficamos só com 2 Pelotões e o da Artilharia 24.
Esta tabanca queimada e abandonada, no começo do terrorismo na Guiné, é local estratégico e de grande importância. O terreno é ideal e apropriado para emboscadas às colunas apeadas ou auto.
Por volta das 20,30h regressaram ao quartel, consequência das viaturas não aparecerem e existirem dificuldades nas comunicações via rádio, por as pilhas estarem fracas certamente.

O movimento auto com cerca de 85 homens não dá sinal de si! Nem responde às chamadas dos rádios, que fazem Binta e Guidage? Encalharam e não querem quebrar o silêncio da noite para não serem detectados? Desligaram os rádios? A humidade do local e a neblina impedem?

Para se ir à cantina, levamos a arma e as cartucheiras, atravessando a parada a correr.
Deitamo-nos a pensar nos que estão isolados na estrada, na escuridão e isolamento. Que se passará? Domina-nos a ansiedade e a preocupação.

Torna-se nítida a ronda do IN com as viaturas (estrada Senegal – Facã) e dentro do TN. Transportam material bélico, no regresso evacuam feridos e mortos, certamente. Agora abusam! É de noite e de dia. Os ruídos dos motores ouvem-se perfeitamente, devem estar muito perto. Provoca abalo psicológico, no silêncio da noite. Não estarão a utilizar a estrada até ao CUFEU e...?

Na emissora do PAIGCV a Maria turra, afirma:

- GUIDAGE e BIGENE terão que cair em 15 dias!


9 de Maio de 1973, Quarta-feira

Não foram evacuados os feridos graves, requereu-se a sua transferência para Bissau, a FAP não se atreveu a vir buscá-los, temem os mísseis terra-ar, o que torna vulnerável os nossos aviões.
Este problema cria um clima emocional dos diabos. Amanhã poderemos ser nós, sem um braço ou uma perna, esvaindo-nos em sangue, sabendo que é o fim. Além da nossa solidariedade para com os que padecem, nada podemos fazer. Quem os tem por perto não descansa devidamente.

Logo de manhã cerca 06 horas, já com o Sol a bater forte, apercebemo-nos que a coluna de reabastecimentos está sendo atacada. Encontra-se para cá do Genicó, a uns 3 quilómetros... (?) Trazidas pelo vento ouvem-se as explosões dos RPG`s e as granadas dos nossos dilagramas e morteiro 60.

Milagrosamente conseguimos contactá-los, no começo do barulho. Pediram que solicitássemos a Binta socorro imediato. Ligámos também para a base de Bissalanca, cujo Comandante acabou por ceder aos nossos rogos.

Que aconteceu? Accionaram uma mina anti-carro, ficando impedidos de prosseguir. Aguardaram reforços dos pelotões da CCaç 19, esperançados no nascer do dia.
Detectados e já noite, sofreram flagelações e investida, em terreno não favorável. O IN entrincheirado atrás de abatizes e covas(?) actuou.
Segundo voz corrente comandados por cubanos. A mim parece-me que são guerrilheiros de elite, vindos da Rússia e Conacry, onde foram preparados e treinados.

Hoje de manhã executaram o assalto, com grande poder de fogo.
O bi-grupo enfraquecido pelas baixas fugiram ou retiraram para Binta, a corta mato, amparando os feridos. Abandonaram as viaturas carregadas com o material que não consumiram. Falou-se terem 3 ou 4 mortos, 10 feridos graves e 15 a 20 ligeiros.

Deve ter custado aos rapazes, para não deixarem o reabastecimento, aguentaram sitiados, sem comunicações. Penso nos gemidos e lamentações dos feridos, a escuridão, os gritos de guerra dos adversários, o som das armas automáticas, o medo. Aguentaram, não fugiram!

A FA acorreu e não actuou logo com receio de matar alguém das NT, em sítio não localizado. Acabou por bombardear e incendiar as viaturas a fim de impedir a sua captura. Tinham avistado pessoas em cima delas e confirmando, via rádio com Binta e Guidage, chegou à conclusão que eram turras.

Que baixas sofreu nestes ataques à coluna o IN?
A guerrilha terá conseguido retirar algum material? Passados dias fomos flagelados com granadas de morteiro 81 mm.

Obs: Ler GUIDAJE - A PRIMEIRA GRANDE EMBOSCADA em 8/9 Maio 73 - P4957: Tabanca Grande (173): Manuel Marinho, ex-1.º Cabo da 1.ª CCAÇ/BCAÇ 4512, Farim e Binta (1972/74).

O fracasso da coluna vai entusiasmar o PAIGC, que mobiliza mais forças de outras bases para esta zona, com o fim de isolar por completo Guidage e impedir quaisquer tentativas de auxílio em géneros alimentícios ou munições.
Foi necessário organizar e realizar uma operação conjunta das NF em grande escala, para contrariar o IN.

O DESALENTO - Tantas Vidas, do Oficial Comando Virgínio Briote, com a devida vénia

A 2 GCOMB da CCaç 3 africana, comandados pelos Alf Mil brancos Gomes Rebelo e (?), que operam na zona do Samoge, montando segurança, é dada ordem para seguirem a corta mato até Guidage a fim de reforçar a sua guarnição, onde chegam por volta das 18,30horas, o que nos animou um pouco.

Durante o dia, 4 flagelações.
Dispararam de várias bases: Samoge – Facã – Fajonquito - Quelhato, principalmente.

- 18,10h, volta a música do morteiro 82, do lado da estrada; foram 10 minutos. Na população 1 ferido ligeiro;

- 22,40h, mais 10 minutos. Não respondemos a fim de pouparmos as granadas. População 2 feridos graves e 2 ligeiros;

- 23,30h, outra com o mesmo tempo, sem consequências.

- Executaram mais uma, da qual não recordo pormenores.

Não será mesmo um cerco? E a estrada, será possível passar no futuro? Os factos sucedem-se, não sabemos donde aparecerão ou se acabam.

A população passa praticamente os dias e as noites dentro ou próximo dos seus abrigos, debaixo de terra. A maioria só faz o comer indispensável, o que leva os soldados africanos a passar mal, pois quase todos são desarranchados.
Não nos visitam as crianças que nos rodeavam remexidas e sorridentes, mostrando os seus dentes brancos.

Um aquartelamento e reordenamento, interligados, envolvidos com arame farpado duplo (iluminados à noite por holofotes eléctricos), valas e abrigos, com lutadores maduros e experientes, é um osso duro de roer.
O passado da nossa CCaç 19 teve peso possível e condicionou a elaboração do plano geral do cerco a Guidage.

Em conversação via-rádio, o CMDT do Cop 3, Ten Cor António Correia de Campos, ao ouvir que os militares negros estavam abatidos moralmente retorquiu:

- Sei como são os negros. Os africanos só desmoralizam quando vêem os brancos ceder primeiro. Amanhã realiza-se nova coluna e estarei aí convosco!

Deitei-me cansado e desejando que as nossas tropas ultrapassassem o Cufeu com êxito.

Eu, junto homenagem ao Alf Preto. Foto cedida pelo 1.º Cabo Rádiotelegrafista Janeiro


Emboscada à coluna auto Guidaje - Binta
Morte do Alf Mil Inf Op Esp, da CCaç 19 (CCaç 2781), António Sérgio Preto, natural de Quintanilha – Bragança.


O primeiro tiro isolado disparado de cima de árvore, atingido no pescoço, saiu debaixo do braço. Encontra-se sepultado em Vale de Frades - Vimioso, no continente.

Foi vingança? Comandou Operação Sopapo nos corredores do Samoge, teve contactos com o IN provocou-lhe 8 mortos e vários feridos. Apanhado à mão, o chefe de grupo turra LASSANA JATA, ferido com certa gravidade.

Obs:

- No dia 10 de Maio de 73, a CCaç 19 só teve 5 mortos negros no CUFEU, que deixou no terreno. Os únicos que teve durante o cerco.

- O que descrevo foi o que vivi, vi, li e ouvi. Poderá ter erros de pormenor, dos quais desde já peço desculpa.

- Longe de mim tentar julgar os actos de alguém.

- Não procuro a auto promoção, mas a CCaç 19 merece ser recordada. Principalmente os soldados negros que sofreram e sofrem injustamente na pele as consequências da nossa saída da Guiné.

- O meu agradecimento ao Manuel Marinho.

Cumprimentos a todos,
Agradecido, o camarada,
José Manuel Simoa Pechorro
__________

Nota de CV:

(*) Vd. poste de Guiné de 19 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5300: O assédio do IN a Guidaje (de Abril a 9 de Maio de 1973) - I Parte (José Manuel Pechorrro)

Guiné 63/74 - P5309: Blogpoesia (58): Para os amigos e camaradas da Guiné que esta noite tiveram insónias (Luís Graça)


Lisboa > Largo da Madalena >  Pormenor da calçada à antiga portuguesa, à entrada da Igreja da Madalena..."Ontem não foi sexta-feira 13, mas bem podia ter sido" (jornal de caserna)

Foto e texto: Luís Graça (2009). Direitos reservados


[Instruções: Para ler com o melhor sorriso da Gioconda. Para todos os amigos e camaradas da Guiné que, sendo-o, são meus amigos e camaradas. Esta adenda impunha-se, por causa das minas e armadilhas da (in)comunicação humana ]

Juram, os amigos,
que a amizade não se esgota
nas questões de lana caprina.
Nem se dilui na espuma dos dias.
Reforça-se na provação.
Dizem outros que eles, os amigos,
devem ser para as ocasiões.
Todas as ocasiões?
As pequenas e as grandes ?
As boas e as más ?
Sobretudo as más ?
A estação seca e a estação das chuvas ?
A paz e a guerra ?
Ou tudo isso é letra morta ?
Que os amigos conhecem-se
na adversidade,
diz o provérbio.
E os camaradas, na guerra,
diz o Marques.
E os colegas nas tainadas,
dizia  o António, meu instrutor
de minas, fornilhos e outras armadilhas da vida.
Quem em caça, política, guerra e amores se meter,
não sairá quando quiser.
Sairá ou não ?
Os amigos, os verdadeiros e os falsos,
conhecem-se nas ocasiões.
Que a adversidade é o teste da amizade.
A prosperidade traz amigos,
a adversidade os afasta,
diz o chinoca da minha rua,
que não tem amigos,
a não ser o dicionário de português-cantonês,
do outro António, o Abreu,
que o poderia ter escrito.
Que no céu se fazem amigos;
e,  no inferno, inimigos,
canta o poeta, cego,
tocador de cora,
deambulando de tabanca em tabanca,
no que resta do regulado de Joladu.
Que a amizade é um edifício
que leva uma vida a construir,
e que num minuto pode ruir,
garante o Esquilo Sorridente.
No aperto do perigo, conhece-se o amigo.
Essa  é a verdade, Abílio,
e a verdade é um osso duro de roer,
até para o cão que rói o osso,
na opinião do Pires, que na Guiné teve um cão.
Que os amigos fazem-se,
praticando a amizade:
tal como os caminhos que
se não se usarem,
ganham espinhos, ervas, silvas,
moitas, carrascos,
pedras soltas, calhaus, pedregulhos,
tornam-se abatizes, obstáculos, montanhas.
Ou na versão de um velho homem grande,
africano, de Contuboel,
algures na velha Guiné agora Bissau:
A amizade é uma picada
que desaparece na areia, na bolanha ou no mato,
se não a usares todos dias,
Não aceito que digas:
- Amigo não empata amigo,
citando o Paulo, a caminho de Santiago.
Por que o amigo é isso, Vasco,
tens toda a razão,
que o amigo é para se usar,
se guardar
e se resguardar.
(Obrigado, Cordeiro, pela precisão!).
Para se resguardar das pontadas de ar
e das emboscadas.
Não é para se usar, expor e deitar fora,
na berma do caminho.
A amizade não é um objecto descartável,
manda o filósofo Juvenal dizer no seu último mail.
(Ou foi o Sócrates, o grego,  antes da cicuta ?).

A conselho amigo, não feches o postigo,
além de que
amigo diligente é melhor que parente.
Sobretudo se te dói o dente.
Se tens  físico amigo, manda-o a casa do teu inimigo.
E quem seu inimigo poupa, às mãos lhe morre.

Mas atenção,
amigo disfarçado, inimigo dobrado,
escreve o ranger, o Eduardo.
E o que fazer ao amigo que não presta
e à faca que não corta ?
Que se percam, pouco importa,
decreta o Hélder,
pela telegrafia sem fios.
Também se diz que os amigos novos
metem os velhos no canto ou a um canto.
Se não se diz, pensa-se.
Será assim, mana Giselda,
que os amigos também cansam
como a sarna na pele,
como a pele e as suas sete camadas ?
Os amigos têm prazo de validade ?,
pergunto ao Briote.
Ovo de uma hora,
pão de um dia,
vinho de um ano,
mulher de vinte,
amigo de trinta
e deitarás boa conta.
Amigo, vinho e azeite... o mais antigo.
O vinho e o amigo, quer-se do mais antigo,
recomendam o Jorge, que é engenheiro,
mais o Picado, que foi agrónomo.
E o que farei dos meus novos amigos, Virgínio ?
Faz como o vinho, Zé Manel,
se forem bons,
mete-os a envelhecer em cascos de carvalho.
E por que é que os amigos dos meus amigos meus amigos são ?
É como os filhos do meu filho, serão dele ou não…
Que ao menos, Jorge, cresçam Narcisos no teu jardim.

Que sei eu, meus amigos e camaradas da Guiné ?
Só sei do desalento
e da morte na alma
e da terrível secura na garganta
e das lágrimas que não podíamos chorar
quando trazíamos, do mato, os camaradas  mortos,
às costas...
Só damos valor às coisas, Reis,
o Humberto, o Ilídio (e quem mais ?),
quando elas nos faltam,
e aos amigos
quando fazemos o luto pela sua perda.

São tantos os estereótipos, meus amigos e camaradas,
sobre os amigos e a amizade.
Não falo, Nino, dos teus inimigos
que esses são os mais previsíveis,
estão sempre do outro lado da ponte,
que à volta eles cá te esperam.
Amigo verdadeiro, esse vale mais do que dinheiro,
meu pobre Amadu Dajaló,
bom crente, bom muçulmano,
bravo combatente,
leal aos teus amigos tugas,
tu a quem já te acusaram de mercenário.
Mas vale a morte que tal sorte,
quando os amigos que tens não os tens.
O próximo teste, Henriques,
é quando ganhares o Euromilhões.
Ou no quando ficares esticado no caixão,
ao comprido:
será que lá terás  todos os gatos pingados da companhia ?
Antes boa que má companhia,
nem que seja a do gás e electricidade.
Amigos, amigos, negócios à parte,
dizia o teu primeiro.
Quem te avisa, teu amigo é,
li uma vez no bilhetinho anónimo
do tempo da delação.
Quem seu amigo quiser conservar,
com ele não há-de negociar.
E será que se pode blogar ?
Longe da cidade,
tanto melhor.

Mas... quem tem amigos, não morre na cadeia,
nem no exílio, dourado,
seja feio ou belo,
e mesmo que se chame José.
Um rico avarento não tem amigo nem parente.
As boas contas fazem os bons amigos.
Ao bom amigo, com o teu pão e o teu vinho.
Ao rico mil amigos se deparam,
ao pobre até seus irmãos o desamparam.
Aquele que me tira do perigo, é meu amigo.
Bocado comido não faz amigo,
porque não é partilha, Belarmino.
Defeitos do meu amigo ?
Lamento, meu caro Jorge, mas não maldigo
o teu alterego Cabral.
Em tempo de figos, não há amigos.
Chacun que se governe, Carlos,
em caso de peste (de que Deus nos livre!).
Ou de ataque de abelhas.
Ou de pânico.
Ou de fobia.

Muitos conhecidos, poucos amigos:
não é nenhuma heresia,
é palavra do Senhor,
e o Senhor esteja contigo,
meu camarigo Joaquim  Mexia,
e com todos nós, filhos da humanidade,
de Abel e Caím.
Guarda-te do alvoroço do povo, Martins,
 e de travar com o doido.

Mas se calhar não há maior amigo do que o Julho
com o seu trigo que dá pão.
Olha, mulher, se não tens marido,
pouca sorte a tua,
não tens amigo e acabas na rua.
Amigo mesmo é aquele que sabe o pior
a teu respeito
e mesmo assim... continua a gostar de ti,
mesmo que tenhas perdido a tua caderneta de vôo,
meu inFélix piloto de Allouettes...

Quando uma pessoa perde dinheiro, perde muito;
quando perde um amigo, perde mais;
quando perde a coragem e a fé, perde tudo.
Difícil, meus amigos e camaradas da Guiné,
é ganhar um amigo numa hora;
fácil é ofendê-lo
e perdê-lo num minuto.
José dixit, da sua janela do Fundão que dá para a Gardunha.

Hoje é o amanhã
que tanto nos preocupava ontem, Mário,
li isto no teu diário,
nas páginas dos feriados  e dos Dias Santos...
Mas não menos sábia do que a do meu amigo Cherno
é a sabedoria do mongol:
O vitorioso tem muitos amigos, fracos,
mas o vencido tem bons amigos, valentes.
E até o otomano aprendeu à sua custa:
Quando o machado entrou na floresta,
as árvores disseram:
- O cabo é dos nossos,
mas a lâmina de aço... não a estamos a reconhecer.
Resta-nos a doce memória do passado,
As toponímias da nossa peregrinação trágico-marítima.
O que foi duro de sofrer,
lá longe da Pátria,
é agora doce de recordar,
no lar, no doce lar.
Olha o Cufeu, Amílcar,
olha o Cufar, Fitas!
Planta hoje a semente,
mesmo que não sejas lavrador,
para colheres amanhã a amizade.
Ser amigo é ser generoso,
é dar antes de te pedirem,
é um gesto gratuito.
Quiçá o mais puramente gratuito dos teus gestos.
Ou será interesseira, a amizade ?
Para mim, não é  como dar aos pobres...
Aí emprestas a Deus,
tu que és Lage, tu que és pedra,
e Deus paga-te em vida ou na morte,
com os dividendos do poder,
da glória,
da fama,
da riqueza
ou da eternidade.
Se estás tão cansado, meu amigo,
Junqueira, Condeço, Tavares,
que não possas dar-me um sorriso,
eu deixo-te o meu,
a ti que és Victor,
E In Hoc Signo Vinces.
Volta o teu rosto na direção do sol, Miguel,
que és o mais strelado de todos nós,
para que as sombras fiquem para trás.
Não, nunca digas:
- Chega-te para lá,
que me tapas o meu sol.
Por que o sol quando nasce devia ser para todos.
As lágrimas dos bons caem no chão,
para poderem vir a engrossar os rios da revolta
e da indignação.
Inútil tentares juntar as tuas mãos,
João, José, Joaquim,
se elas não estiverem vazias,
diz o meu guru do Tibete,
agrilhoado.
Os amigos escolho-os eu,
os parentes são os que Deus me deu.
Quando estás certo,
ninguém se lembra;
quando estás errado,
ninguém esquece.

À laia de conclusão,
meu amigo e camarada,
de A a Z:
Antes de começares o trabalho de mudar o mundo,
dá  três voltas dentro de tua casa...
E sobretudo não esqueças a lição
sobre a parábola da Sabedoria e da Asneira:
Para os erros alheios
temos os olhos do lince;
para os nossos próprios,
os olhos da toupeira.

Luís Graça

sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Guiné 63/74 - P5308: O Nosso Livro de Visitas (70): Daniel de Matos, ex-Fur Mil, CCAÇ 3518 (Gadamael, 1972/74)

Guiné > Região de Tombali > Gadamael > Junho de 1973 > Jorge Canhão,  Fur Mil da 3ª Companhia do BCAÇ 4612/72, junto aos  "restos de Gadamael", fortemente atacada pela artilharia do PAIGC.

 Foto: © Jorge Canhão (2007). Direitos reservados.

 1. Mensagem de 18 do corrente, do Daniel Matos, ex-Fur Mil da Companhia Independente, madeirense, CCAÇ 3518 (Gadamael, 1972/74)

Assunto - Marados de Gadamael

Caro Luís Graça,

Há pouco enviei um comentário para o blog, mas como não tenho a certeza de que a respectiva expedição se tenha realizado a contento, transcrevo-a por esta via.

Li, entretanto, a sua observação sobre um antigo convite que me fez para colaborar com o blog, escrevendo alguns testemunhos do tempo da guerra, nomeadamente sobre os Marados de Gadamael, e ao qual nunca cheguei a responder. Não foi por preguiça, terá sido por falta de disposição e de tempo, pois além da actividade profissional dedico-me a outras, não me sobrando muitas horas para a família, sequer.

Curiosamente, em tempos idos, um dessas actividades foi precisamente a escrita, procurando passar para o papel uma espécie de "História da Companhia".

Porém, nos convívios anuais que efectuamos no continente (a 3518 era uma Companhia madeirense) fui verificando que um mesmo acontecimento era relatado por cada um de nós de maneiras por vezes bem diferentes e, não querendo fazer prevalecer o que os meus olhos viram e a minha leitura dos factos, resolvi alterar tudo para o campo da ficção, seguindo cada personagem outros caminhos, ao sabor da pena.

Isso veio a dar origem a um livro que estou agora a rever. Alguns contos foram publicados de forma avulsa, e premiados por alguns municípios. Mas como ficção pura, não creio que seja matéria que interesse ao blogue.

Também o meu amigo de longa data A. Marques Lopes, membro do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, já insistiu comigo para escrever e eu nunca correspondi a esse pedido. O mesmo agora o fez o ex-alferes Juvenal Candeias (da 3520, de Cacine).

Penso em breve libertar-me de algumas ocupações e, mal isso aconteça, prometo compartilhar algumas memórias convosco.

Cordiais saudações.
Daniel de Matos

2. Comentário de L.G.:

Tratemo-nos por tu, o que facilita a comunicação (o pôr em comum) entre dois camaradas da Guiné. Obrigado pelo teu mail. I want you... Tu interessa-nos, as tuas histórias interessam-nos. Temos falado pouco ou nada de Gadamael, com excepção do período de Maio/Junho de 1973, em que o PAIGC concentrou a sua artilharia sobre este aquartelamento, depois da retirada de Guileje (22 de Maio de 1973). Temos falta, inclusive, de fotos de Gadamael. Os teus textos serão bem vindo, mesmo os literários, os contos, aquilo a que tu chamas ficção - já aqui publicámos alguns, de outros camaradas,  a par de poemas, etc. O Juvenal também já me falou em ti. Veio isto a propósito do infortúnio dos teus camaradas Ferreira e Telo, mortos em Guidaje e cujos restos mortais foram recentemente trasladados...

Tomo boa nota do que referes no teu comentário ao poste: o Telo já havia sido ferido numa mina em Gadamael e estivera hospitalizado em Lisboa, antes de regressar à Guiné "para morrer em Guidaje".

Entretanho, registo também com apreço a mensagem do teu e nosso amigo Juvenal Candeias, ex-Alf Mil, CCAÇ 3520 (Cacine, 1972/74)

"Luís,
Na sequência do teu pedido, no blogue, sobre encontrar alguém da 3518 que escrevesse alguma coisa, contactei o Daniel Matos, que me parece a pessoa melhor colocada para o fazer e que é 'boa gente'. Sei que ele já te contactou e que brevemente vai começar a escrever. Missão cumprida.
Um abraço. JC!"

Ficamos, pois, por aqui. Cumpres as regras da praxe, pagas a jóia (2 fotos + 1 história) e passas a ter a senha e a contra-senha para ingressares na Tabanca Grande, que já é maior do que a de Gadamael do teu tempo... Ou não ?

Fica bem. Dá notícias. Ficamos na expectativa de sabermos a história dos Marados de Gadamael.

__________

Nota de L.G.:

Último poste da série > 3 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5199: O Nosso Livro de Visitas (69): António Marquês, ex-Fur Mil da CCAÇ 4810 (Moçambique, 1972/74)

Guiné 63/74 - P5307: Da Suécia com saudade (16): É neste caldo de cultura que o nosso blogue é grande (José Belo)


1. Mensagem do José Belo (*), ex Alf Mil Inf da CCAÇ 2381, Ingoré, Buba, Aldeia Formosa, Mampatá e Empada, 1968/70, actualmente Cap Inf Ref, a viver na Suécia, desde 1976:


Caros Camaradas e Amigos!

(Já com malas feitas,  pela quarta  vez, para partir em férias com a família,e quem tem família sabe como isto é!)

Mais uma menos útil tempestade de navegação. E, por muito que, aparentemente, a alguns custe a compreender,todas estas "tricas" mais não serão que um simples APONTAMENTO DE FIM DE PÁGINA quando estudiosos futuros se debrucarem sobre o riquíssimo conteúdo do Blogue.

As memórias, relatos e interpretações que continuamente chegam à Tabanca Grande são trazidos por indivíduos de todas as origens sociais, com os mais díspares graus de educação escolar, de todos os locais do país, e que durante o seu serviço  militar na Guiné desempenharam todas as possíveis funções dentro da instituição militar.


Os acontecimentos não foram observados por um único par de olhos, mas sim por olhos com diferentes níveis de capacidade de intrepretação e observação, não esquecendo os diferentes níveis de sensibilidades individuais.


É NESTE SOMATÓRIO QUE A TABANCA GRANDE É TÃO RICA!

 Se a isto se adicionar o facto destes relatos se terem prolongado ao longo de, pelo menos, uma década, temos como feliz resultado serem estas vivências transmitidas por OBSERVADORES QUE OCUPARAM OS MESMOS LOCAIS NO ESPAÇO MAS NÃO NO TEMPO!

 Aquartelamentos, destacamentos, tabancas, tipo de operações, tipo de armamento, zonas mais ou menos perigosas, Altos Comandos, tudo nos é fornecido de modo a vir a ser possível em futuro mais ou menos próximo (espero!) uma compilação única e detalhada do que foi aquela década.

Quanto a mim não será ISTO que é a Tabanca Grande ?

Estocolmo 20 Nov 2009

José

___________

Nota de L.G.:

Vd. último poste da série > 10 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5250: Da Suécia com saudade (15): Ainda Spínola, a honradez e o carácter de um jovem militar (José Belo)

Guiné 63/74 - P5306: Tabanca de Matosinhos (13): Jantar de Natal de 2009 no dia 12 de Dezembro no Restaurante do Café das Artes, Porto (Álvaro Basto)

1. Transcrição do P273* da Tabanca de Matosinhos convidando todos os ex-combatentes da Guiné e seus familiares para o tradicional Jantar de Natal

Face ao crescimento exponencial do número de inscrições para o nosso jantar anual de Natal, vimo-nos forçados a alterar o local do mesmo.

Assim, o jantar realizar-se-á na mesma no dia 12, já não em Matosinhos no restaurante Milho Rei, mas sim no Porto.

Por sugestão de um dos nossos camaradas, escolhemos o Restaurante do Café das Artes localizado no terraço do edifício do Teatro do Campo Alegre.

Vamos pagar 20,00 €uros e a ementa será constituida por:

Entradas,
Bacalhau com broa, batatas e legumes,
Bolo-rei e rabanadas de sobremesa.
Para terminar, café e digestivos.
Os vinhos serão os da Quinta Senhora da Graça do Zé Manel

Aspecto da sala de jantar

Como ir

Localização

IMPORTANTE
É necessário quanto antes proceder à marcação do jantar já que se prevê uma grande afluência e, atempadamente teremos de indicar no restaurante o número de pessoas para que a comida não falte.

ESPERAMOS PELA VOSSA MARCAÇÃO ATÉ AO DIA 09 DE DEZEMBRO

Marca a tua presença para o email: tabancapequena@gmail.com

Não te esqueças de trazer uma pequena lembrança por pessoa, no valor máximo de 3.00 €uros, para partilharmos entre os convivas.

__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste da Tabanca de Matosinhos com data de 19 de Novembro de 2009 > P273-O nosso jantar de Natal

Vd. último poste da série de 19 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5298: Tabanca de Matosinhos (12): O orgulho de pertencer à Tabanca de Matosinhos (José Teixeira)

Guiné 63/74 - P5305: Tabanca Grande (188): Jorge Narciso, ex-1º Cabo Esp MMA, BA 12, Bissalanca, 1968/69

O Jorge Narciso, hoje (2009, foto à esquerda) e ontem (1967, cartão da BA 1, com 17 anos).


1. Texto e fotos do Jorge Narciso, ex-1º Cabo Esopecialista MMA (BA12, Bissalanca, 1968/69), enviadas em 13 do corrente:

Aí vai o percurso do Jorge Narciso, na FAP, arrumado cronologicamente... entre os 17 (nasceu em Maio de 1949) e os 21 anos (Dezembro de 1970)

(i) Out 66/Set 67 - 3ª/66 - BA 2 / Ota - Recruta e Curso MMA.

(ii) Meados de 67 - Centro de Inspecções (em resposta a concurso interno, ao qual concorremos 3 alunos): Inspecção (durante cerca de 3 semanas), para o Curso de Sargentos Milicianos Pilotos, do qual , e apesar de considerado Apto, fui preterido por elementos ainda civis (que tinham ficado adiados em Inspecção anterior), reinspeccionados na mesma altura

(iii) Out 67/Mar 69 - BA 1 / Sintra - Linha da frente dos T-37

(iv) Inicio de 68 - 1ª Nomeação (já não me recordo para onde), sendo no entanto imediatamente desnomeados, 7 dos 8 MMA, colocados na BA1, por considerados imprescindíveis ao serviço !!! (tem uma história que talvez um dia venha a contar), tendo o 8º classificado (como sabemos, as nomeações eram por ordem decrescente de classificação na especialidade) sido premiado com uma colocação ou em Cabo Verde ou S. Tomé (de certeza uma destas, sinceramente já não me lembro qual)

(v) Abr de 69 - 2 ª Nomeação, já perfeitamente inesperada para mim e outro companheiro, com mais de 30 dos 48 meses de contrato cumpridos, os restantes eram de 6 anos, sendo então os 3 piores classificados ido para... a Beira e os 4 melhores para... a Guiné (epilogo da história que atrás refiro).

Na passagem pela Inspecção médica, pré-embarque, os Serviços detectaram na minha ficha o registo anterior de aptidão para a Pilotagem, sendo-me proposta a troca imediata de Bissau por S. Jacinto, ao que perguntei qual a contrapartida no tempo de serviço me foi respondido que teria de assinar um novo contrato, agora de 6 anos, ao qual apenas seria descontado o tempo de recruta (3 meses) que já tinha cumprido na Ota. Ou seja, somado esse novo tempo ao entretanto já cumprido, seriam (sem nó) mais de 100 meses no total…Proposta recusada.

(vi) Abr de 69/Dez de 70) - BA 12 / Bissalanca - Linha da frente dos Alouette III (onde ao fim de pouco tempo, e devido à tardia nomeação, apesar dos meus 20 anos, comemorados aliás no Saltinho durante uma missão de abastecimento, era o cabo especialista mais antigo - tempo de FAP - da mesma linha).

Fiz ali algumas centenas de horas de voo, só não sei quantas, porque a minha caderneta de voo (que não sei porquê me obrigaram a entregar no regresso, diziam que para entrega posterior) está em parte incerta, se é que ainda existe (penso que não é caso único)

(vii) Dez de 70 - BA 1 / Sintra - Disponibilidade ... (ainda com 21 anos e 50 meses e picos de FAP, dos quais só me contam os 19 que estive na Guiné para efeitos de Segurança Social porque não trabalhei, antes de 1971)

Ilustrando agora o percurso acima, junto (sem exagerar a quantidade) mais algumas fotos:

Sintra > BA 1 > 1967 > o Pessoal (estou assinalado pela seta) da linha de frente dos, entretanto abatidos, T-37 cujo Comandante de Esquadra (à época Ten Cor Amaral) também na foto, reencontrei na Guiné. Num destes aviões (aliás o que está exposto em pedestal à entrada da BA1 - Matrícula 2424) tive o meu baptismo de voo (Foto à esquerda).

O. Pinto - Foto do chefe Oliveira Pinto (que muitas dezenas de membros da linha doshelis reconhecerão de imediato, pelos muitos anos que ali passou), neste caso no intervalo duma operação em Buba (está datada de Dez 69), comigo (de camuflado) com o Gabriel (fato de voo e a abastecer) e um dos miúdos nativos que como era habitual por ali cirandavam (Foto à direita).

Heli - Na linha, com um heli tão limpo que até parece que saiu duma estação de serviço, apesar do enquadramento talvez melhor esta para me identificar que a tipo passe.. (Foto à esquerda)

Petisco - Algures ainda em 1969. Pessoal da linha (sou o 5º a contar da direita - de camuflado) dos Helis, petiscando: ou um porco do mato ou uma gazela (pato da bolanha só por uma vez, pois mesmo com dois dias em vinha de alho, era igual a peixe assado), que de vez em quando marchavam. (Foto a em baixo, a seguir).

Únicas nostalgias que me ficaram de todo este tempo, para além do convívio com alguns companheiros mais próximos, que apesar de tudo se vai concretizando, quer através do telefone e dos outros novos meios de comunicação, quer presencialmente através de encontros mais ou menos regulares, ficaram-me dois desejos, ainda não satisfeitos:

1º - Voltar a voar de Heli: por impedimento profissional, não o fiz em 2006 em Beja, em que foi dada a oportunidade (boleia/voltinha) aos presentes durante a homenagem à minha ex- Esquadra "Os Canibais". Este estou a ver que vai ter de ser satisfeito em heli de turismo.

2º - Voltar um dia à Guiné, revisitando em passeio sereno, descontraído e sem traumas, locais e gentes (e situações associadas) guardados há 40 anos na memória, dum (então) menino de 20 anos, com cargas, cujo contexto seguramente se revelará agora completamente diferente.

Este parece finalmente, com o projecto em curso, com alta probabilidade de concretização. Vejo que as inscrições vão gradualmente aparecendo e, grão a grão ...

Um abraço. Jorge Narciso
(Está também em linha no blogue
Especialistas da BA12, Guiné 1965/1974)


2. Comentário de L.G.:

Como dizia há dias o teu/nosso camarada Miguel Pessoa, o primeiro piloto da FAP a ser 'strelado', em 25 de Março de 1973, sob os céus de Guileje, a rapaziada do Exército conhecia a Guiné por baixo e vocês por cima... Enfim,. duas perspectivas complementares, a celestial e a terrena. Falta aqui a abordagem, mais líquida, da Marinha (que anda rarefeita)...

Fora de brincadeiras, cada um de nós terá ao seu bocado de Guiné, que é como quem diz, do inferno, da terra e do céu... Jorge, estás apresentado à Tabanca Grande, onde há de tudo um pouco: casernas, hangares, aeródromos, heliportos, bases navais, quartéis, destacamentos, bolanhas, lalas, pontes, palmeiras, poilões, irãs, tempestades tropicais e sei lá o que mais... Isso terás que ser tu a descobrir... Acomoda-te a um canto e saca de lá das tuas memórias...

Um dia destes dou-te um abraço, ao vivo, no Cadaval ou na Lourinhã... Até lá, felicitemos por esse mundo ser pequeno e o nosso blogue... parecer grande (*). Um Alfa Bravo. Luís

___________________

Nota de L.G.:

(*) Vd. postes anteriores:

14 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5270: O mundo é pequeno e o nosso blogue... é grande (18): O Jorge Narciso e o Humberto Reis reencontram-se, 40 anos depois...

28 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5176: FAP (35): O trágico acidente aéreo de 25 de Julho de 1970, no Rio Mansoa (Carlos Coelho / Jorge Félix / Jorge Narciso)

Guiné 63/74 - P5304: Estórias avulsas (59): Todos temos uma hora de sorte e uma hora para morrer (Arménio Estorninho)

1. Mensagem de Arménio Estorninho*, ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas, CCAÇ 2381, Ingoré, Aldeia Formosa, Buba e Empada, 1968/70, com data de 15 de Novembro de 2009:

Camarada e amigo Luís Graça,

As estórias que vou contar interligam-se, relacionam-se com a desdita sina já descrita em parte por outros camaradas, relativamente a um dos dois militares falecidos, em Aldeia Formosa, ao anoitecer do dia 22/01/69, devido ao acidente com a detonação de uma granada de mão, sobre um telheiro da messe dos Sargentos e por outra situação vivida por mim, aquando um forte ataque in ao Quartel de Buba, na madrugada de 14/02/69, na sorte que me bafejou e a muitos camaradas, se bem me lembro a CCaç 2317 “Os Mártires de Gandembel” também lá estavam de passagem.
[...]


Antecedentes dos acontecimentos

Estando o comando da minha Unidade CCaç 2381, colocado em Aldeia Formosa (Quebo), Dezezembro de 1968/Janneiro de 1969, fui convidado pelo Fur Mil Auto Rodas, Bertino Cardoso, para ir a Bissau, com a finalidade de frequentar um curso sobre reparação e funcionamento de motores-geradores eléctricos, que iria decorrer no Quartel da Engenharia em Brá. Também do quartel de Aldeia Formosa e com o mesmo fim, deslocou-se um soldado que fazia parte da CCaç 1792, Os Lenços Azuis, o qual identifico por aquele que tinha as funções de electricista e de cantineiro no bar das praças. Diga-se que quanto à viagem ela foi efectuada em Dakota e que maravilha de passeata. Foi o melhor que se pôde arranjar para sair do mato. Hoje qual seria o estado de espírito para viajar naquele meio aéreo velhinho e já monte de latas?

Chegados ao Quartel da Engenharia, em Brá, Janeiro de 1969, na primeira vez em que eu pisava terras de Bissau, foram efectuadas as devidas apresentações. No dia seguinte iniciou-se o curso que iria decorrer sem período determinado de aulas, tendo logo sido a minha intenção fazer render o peixe, isto é prolongar o tempo ao máximo, dado que por parte dos instrutores não havia qualquer inconveniente, de modo que retardasse o regresso à Unidade, e fazer um mês de justas e baratas férias.

Só que o bom do soldado que me acompanhou não esteve de meias modas, oito dias depois já pretendia regressar, porque na vida civil tinha a profissão de electromecânico, por isso já usufruía de boa prática e de conhecimentos teóricos. Pensou este que na Unidade não se deslocava para fora do arame farpado, julgando que fazia falta no aquartelamento e que era necessário ao Capitão. Contudo, deduzi que a sua pretensão seria mais por falta de dinheiro, dado que a cidade de Bissau era convidativa a gastar-se muito mais do que no interior, e ele como cantineiro era de poucos gastos.
Para o demover, fiz-lhe uma proposta, se houvesse saídas, e conforme os meus gastos, ele dispunha de importância de igual valor, não tendo o mesmo aceite, por isso de nada mais errado podia haver.

Diga-se que eu e o ex-1.º Cabo Escriturário, António Soares, da minha Companhia, tínhamos um mini-laboratório de fotografia, instalado no aquartelamento, do qual obtínhamos alguns proventos e podia por isso também despender de mais algum dinheiro. Conquanto contrariado tive que anuir, para evitar chegar posteriormente à Unidade e ter sanções disciplinares, o que não era conveniente.
Para o efeito, organizei o regresso via Aeroporto de Bissalanca, fizemos o devido embarque em Dakota, e seguimos para as respectivas Unidades.

Foto 8 > Bissau > Brá > Janeiro de 1969 > Quartéis e estrada do Aeroporto.

Foto 9 > Bissau > Janeiro de 1969 > Junto ao Parque Teixeira Pinto (Praça dos Combatentes da Liberdade), de passeio pela cidade, estando à esquerda um ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas que também estava a frequentar o curso sobre geradores eléctricos. Penso que a sua Unidade fosse das áreas de Jumbembem, Cuntima ou Cajambari, não tenho de memória qualquer identificação concreta.

Foto 12 > Bissau > Março de 1970 > uma avenida, estando eu e o ex-1.º Cabo Escriturário, António Soares, de Vinha da Rainha - Soure.

Aldeia Formosa (Quebo), em data posterior a 04 de Janeiro de 1969, quando regressei a este aquartelamento, o Comando e Serviços, da minha Unidade CCaç 2381, já se tinha deslocado para Buba, por ter-lhe sido atribuída a missão de dar segurança ao início dos trabalhos de abertura da nova estrada entre Buba e Aldeia Formosa. Do mesmo somente ficaram o Fur Mec Auto Rodas, Bertino Cardoso e o Condutor Auto O Caldas, incumbidos de efectuar a entrega das viaturas que estavam a cargo da nossa Companhia, para outra que as ia receber (penso de que era a CArt 2414), só que o Furriel Tac Tac entregou-me a pasta e embrulha. Desenrascou-se embarcando numa avioneta para Buba.

Feito o protocolo de entrega das viaturas a um Alferes Miliciano, o qual teve algumas hesitações de aceitação, mas ponderou, porque dialogando concluímos que as nossas habilitações literárias eram idênticas. Após (e logo por sorte), aterrou ali o tal velhinho Dakota, que também ia fazer escala em Buba. Para evitar, como era de todo inconveniente efectuar o percurso em coluna auto (veja-se foto 7), que estava marcada para 21/01/69, solicitei verbalmente o pedido de embarque ao Comandante do meio aéreo, o que foi aceite, mas só com guia de marcha. Depois, requeri as ditas guias num ápice e ala que se faz tarde!. Lá nos fomos juntar ao Comando da Companhia.
Relativamente à dita Aldeia Formosa (que de nada tinha), foi mais um obstáculo ultrapassado, dizendo-lhe até à vista, e não levando boas recordações.

Foto 7 > Guiné > Região de Tombali > Aldeia Formosa (Quebo) > Julho de 1968 > Com a viatura destruída por mina a/c. Era a do Rádio de Transmissões, tendo ocasionado a morte do Operador. A coluna que saíra de Buba, em 25/07/68, onde seguiam os três obuses de 14cm. Na traseira da carroçaria, vi que o Capitão Ricardo Rei, o homem do bigode, da CCaç 1792, Os Lenços Azuis, ia atrás sentado e com as pernas suspensas. Teve a sorte pelo seu lado, caso o rebentamento fosse na roda de trás, era ele que morria. Militar de valor e amigo, conta-se que só teve promoções até Tenente Coronel e que já não está entre nós.


Seguiram-se os acontecimentos com sortes diferentes

Aldeia Formosa (Quebo), ao anoitecer do dia 22/01/69
No que concerne a este acidente, serão narrados factos do meu conhecimento e os que me foram contados por fonte que considerei fiel, pois o já mencionado soldado electricista e cantineiro da CCaç 1792, Os Lenços Azuis, presumo que se chamava José Pereira da Costa, natural de Castelo Branco ou Manuel da Silva Carrola, natural da Covilhã, era do seu hábito ir ligar o gerador eléctrico e só depois é que jantava. De seguida, dava dois dedos de conversa no átrio da messe dos sargentos para passar o tempo e fazer a hora de abrir o bar da cantina, que se situava nas proximidades. Contudo, estava no lugar errado há hora errada, tudo calmo e de repente algo muda com uma detonação. Uns ficam feridos, outros fogem para se abrigarem, pensando que se tratava de um ataque IN. Quanto ao presumível soldado, correra para se proteger no abrigo da cantina e teve um fim trágico.

Conquanto, no quartel de Buba, pela noite, eu ouvia as inusitadas passagens de meios aéreos, o que era anormal e por isso interrogávamo-nos sobre o que sucedera para os lados de Aldeia Formosa.

Viemos posteriormente a saber do acidente e que no mesmo houve a lamentar dez feridos e duas mortes, um deles fora encontrado na cantina já sem vida, motivado por um estilhaço da granada alojado no tórax, com derramamento interno.

Houve um suspeito pelo acidente, segundo constou tratou-se de um soldado que posteriormente andava pelo aquartelamento dando mostras de desvairo e a chorar, por isso e a fim de ser interrogado, fora enviado para Bissau. Nada mais se soube.

Buba, 14/02/69, pelas 5h,15m da manhã
Grupo IN desencadeou forte ataque ao aquartelamento. Estando eu deitado, de imediato levanto-me e corro para a porta da caserna, com a intenção de dirigir-me para a vala, como era normal. Quando ia a meio do percurso, houve a detonação de uma granada de canhão s/r, penetrando na parede da caserna e vergando a estrutura de um beliche. Estando prestes a sair, entre várias explosões, dá-se em particular a de uma granada, no depósito de água, o que me fez retroceder e proteger-me entre caixas que se encontravam debaixo de camas.

Foto 10 > Guiné > Região de Quinara > Buba > Aquartelamento > Fevereiro de 1969 > Tendo em fundo o depósito de água, uma caserna e a árvore poilão, onde havia um posto de sentinela (nota-se a guarita) e, até lá ter falecido um camarada aquando ataque IN.

Provavelmente, se já tivesse ultrapassado o vão da porta, pelo fogo de artifício que se apresentou no exterior, os estilhaços teriam feito muita mossa na minha roupinha de baptismo.
Foram dois momentos de sorte para mim e para outros camaradas, estando, entre eles, dois que pertenciam à CCaç 2317. Por incrível que pareça, foram acordados após o ataque terminar. Pensaram eles que estavam nos buracos das toupeiras em Gandembel. Tal era o hábito, mesmo com tanto fogacho já não ligavam.
Havendo a excepção de um cozinheiro, que quando preparava os pequenos-almoços no refeitório das praças que, devido à detonação de uma granada IN, ficou ferido e veio a falecer.

Porque fui buscar as memórias ao Baú, e por vezes elas prega-nos partidas, se lhes parecer algum pormenor menos certo aproveito para pedir desculpa.

Penso que assim foi colocada mais uma peça no puzzle, sobre aquela fatídica noite e da desdita sina que estava traçada para um militar, que precipitara o encontro com a morte prematura e estúpida. Solicito a quem souber que identifique a qual me referi, sendo ele bom camarada, responsável, zeloso, voluntário e considerar-se imprescindível no quartel. Mas não se recordou de quando da instrução militar, dos constantes ensinamentos que na tropa não se deve ser voluntário, também não foi o único infelizmente, pois acontecera com tantos outros militares em situações diferentes. Aquela viagem inoportuna poderia ter-me sido também fatal, mas fiquei ileso fisicamente. Recordo-me dos tempos idos com o célebre grito exclamando: - “Tirem-me daqui… estou farto disto..!,” que sem excepção afectara psiquicamente a todos.

Por hoje é tudo, dando-te um forte aplauso de incentivo, que é de louvar a tua
disponibilidade, assim como dos co-editores, de tanto quanto possível poderem apresentar o blogue de forma organizada, para que possamos manter viva a nossa mística de ex-combatentes, sobre tempos idos tão difíceis e que nos valorizaram como homens.

Alonguei-me demais no escrever pois, como bom algarvio, tenho dificuldade em terminar o texto, isto é como o comer e o guerrear, o mal é começar!
De acordo com o solicitado vou enviar as fotos da praxe, assim como de outras e identificadas tanto quanto possível.

Cordiais saudações, e, recordando com o complicado vocabulário e pontuação de, “djubi, amim mist parti manga di mantenhas pra abó, bai suma pra manga dêl escamaradas di tertúlia, járame ánãni.” (i.e., do crioulo: olha, eu quero dar muitos cumprimentos para ti, vai igual para todos os camaradas da tertúlia, obrigado está bem).
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Nota de CV:

(*) Vd. poste de 18 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5293: Tabanca Grande (187): Arménio Estorninho, ex-1.º Cabo Mec Auto Rodas da CCAÇ 2381 (Guiné, 1968/70)

Guiné 63/74 - P5303: O direito ao bom nome (1): Vasco Lourenço, ex-Cap Inf da CCAÇ 2549/BCAÇ 2879 (Cuntima e Farim, 1969/71)

Capa do livro No Regresso Vinham Todos, de Vasco Lourenço, originalmente publicado pela Editorial Notícias, Lisboa, 1978.

1. Mensagem de Vasco Correia Lourenço, Cor Inf Ref (ex-Cap Inf, CCAÇ 2549,Cuntima e Farim, Julho de 1969/Junho de 1971), com data de 17 de Novembro

Caro Luis Graça,

Junto uma carta para si, que confio publique no seu blogue, acompanhada por um estudo do cor Morais da Silva.

Dou conhecimento desta carta ao dr Carlos Silva, combatente na Guiné na CCaç 2548 do meu batalhão, o BCaç 2879.

Cordiais saudações. Vasco Lourenço


Caro Luís Graça

As referências que me são feitas no seu blogue, enquanto ex-combatente na Guiné (*), obrigam-me a escrever-lhe, na esperança de que trate esta carta da mesma maneira que trata as que lhe são enviadas por outros ex-combatentes também na Guiné.

Não pretendo entrar em polémicas, não pretendo ofender ninguém, apenas quero esclarecer um pouco da minha posição.

Tomei conhecimento da existência da tese de Manuel Rebocho, através do chefe do EME (actual CEMGFA) [General Valença Pinto], que me sugeriu uma forte reacção.

Ao ver o tipo de tratamento de que era alvo, na referida tese, decidi que “para esse peditório já dera o suficiente”. Com efeito, tratava-se de um episódio da “guerra” entre mim e o general Spínola, analisada de forma muito incompleta, com conclusões aberrantes, face à estória verídica do que efectivamente se passara.

Algum tempo depois, sou surpreendido com um convite para assistir à defesa da tese na Universidade de Évora.

Contactei, então, o próprio sargento Manuel Rebocho, a quem manifestei a minha estranheza pelo convite, dado o que escrevera sobre mim, sem me ouvir. Como lhe referi, enviei essa carta aos membros do júri, a quem manifestei a opinião de que “me não ouvira, talvez porque tem a noção da malévola deturpação que faz do que se passou na Guiné”.

O referido sargento-mor considerou-se ofendido por aquela frase e fez queixa de mim. O promotor público não acompanhou a queixa, não houve acusação, por não haver matéria que justificasse a mesma, pelo que o juiz determinou o seu arquivamento.

Inconformado com essa atitude, Manuel Rebocho deduziu acusação particular no Tribunal de Évora, desacompanhado do procurador da República, ao mesmo tempo que requeria uma indemnização cível.

Conseguiu o que pretendia e eu tive de me sentar no banco dos réus. O julgamento fez-se, fui totalmente absolvido e o queixoso condenado a suportar todas as despesas judiciais. Uma vez mais inconformado, apresentou recurso, que ainda corre termos.

Confesso que tive vontade de ser eu, agora, a apresentar uma queixa pelo crime de difamação, requerendo a competente indemnização. Decidi não o fazer, ainda, tudo dependendo do evoluir da situação.

Quanto à natureza da tese, agora apresentada em livro, remeto-lhe em anexo um estudo sobre a mesma da autoria do coronel António Carlos Morais da Silva. Por mim, não perco mais tempo, por agora, com o assunto.

No que se refere à minha acção na Guiné, no comando da CCaç 2549, do BCaç 2879, procuro esclarecê-la no livro “Do Interior da Revolução”, para além do que já fora publicado em “No regresso vinham todos” (o único livro que conheço que terá sido escrito durante a Guerra, sendo, que eu saiba, a única “história de unidade”, escrita daquela maneira) (**).

Não me compete a mim analisar a minha acção. Para isso, podem ouvir-se os homens que comandei, ou os homens do resto do BCaç. O que aliás pode ser visto no blogue do mesmo, da responsabilidade do ex-furriel Carlos Silva da CCaç 2548 (que, penso, estará em ligação com o vosso blogue) (***).

Caro Luís Graça,

Espero e confio que compreenda estes esclarecimentos.

Fui para a guerra, sendo oficial do QP, convencido que estava a cumprir o meu dever de cidadão. Fi-la o melhor que pude, com a enorme preocupação de, sem abdicar dos princípios, tentar não perder nenhum dos homens que comandava.

O decorrer da guerra ajudou-me a “abrir os olhos” para a realidade portuguesa. Tenho muito orgulho da maneira como me comportei, como tenho muito orgulho da minha acção, no seguimento dos ensinamentos aí obtidos.

Com 67 anos, ao olhar para trás, tenho a presunção de ter uma vida de que me posso orgulhar. Certamente com alguns erros, pois não tenho a veleidade de não errar e não ter dúvidas.

Mas, com um saldo que – presunção e água benta… – considero francamente positivo.

Quero continuar a poder olhar para o espelho, sem me envergonhar. Por isso, vou tentar não me desviar dos princípios morais e éticos que me têm norteado até aqui.

Não ia, portanto, permitir a quem quer que seja – e o sargento-mor Manuel Rebocho não está isolado nessa pretensão – que me insulte de ânimo leve.

Por muita vaidade que possa transparecer, afirmo que o meu passado fala por mim. Daí esta carta.

Cordiais saudações

Vasco Lourenço

2. Comentário de L.G.:

Todos os camaradas da Guiné, com ou sem visibilidade pública, têm antes de mais o direito ao bom nome... (Daí, de resto, esta nova série que inauguramos hoje). É umas regras básicas do nosso blogue. Esse direito implica, naturalmente, o direito de resposta sempre o que o bom nome é posto em causa (Publicaremos todas as respostas, desde que redigidas dentro do espírito de elevação e de cultura democrática que nos caracteriza).

Outra das nossas regras básicas de convívio, nesta caserna virtual, é que nenhum de nós faz (ou deve fazer) juízos de valor (e muito menos de intenção) sobre o comportamento (operacional e pessoal) dos seus camaradas da Guiné. Este blogue não foi criado para fazer ajustes com ninguém, nem sequer com a História.

Agradeço ao Vasco Lourenço os esclarecimentos que entendeu dar-nos. A sua mensagem chegou-nos no dia em que foi apresentado ao público o livro do Manuel Rebocho que é membro do nosso blogue e camarada da Guiné, livro de que faremos oportunamente uma recensão crítica. O facto do Vasco não ser membro do nosso blogue não o impede de nele ver publicados ulteriores esclarecimentos que queira fazer sobre a sua actuação como comandante da CCAÇ 2549 ou outros aspectos da sua comissão serviço na região de Farim.

Como eu costumo lembrar, aqui o nosso maior denominador comum é o facto de termos sido combatentes na Guiné, durante a guerra colonial. De resto, o nosso core business é esse, é partilhar histórias, memórias e até afectos.

Sendo seu contemporâneo da Guiné (pertenci à CCAÇ 2590 / CCAÇ 12, Contuboel e Bambadinca, Maio de 1969/Março de 1971), fico naturalmente triste de o ver envolvido num processo judicial com outro camarada, por questões de "bom nome"... Espero que o bom senso, a honradez, o patriotismo e o melhor dos valores militares (que nos foram incutidos no Exército, na Marinha e na Força Aérea) acabem por se sobrepor a um conflito pessoal que, infelizmente, veio parar à praça pública. Um Alfa Bravo. Luís Graça

PS - Quanto ao documento do Morais da Silva, antigo professor da Academia Militar, e nosso contemporâneo na Guiné, o próprio já mo tinha feito chegar, a meu pedido, à minha caixa de correio, gentilmente, em "versão amigável" (formato doc). Ainda não o li (trata-se de uma apreciação, em 22 páginas, da tese de doutoramento do Manuel Godinho Rebocho) mas fá-lo-ei em breve, com todo o gosto, avaliando aquilo que for considerado pertinente e útil para a informação e o conhecimento dos membros do Blogue Luís Graça e Camaradas da Guiné.
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Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 15 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5275: Controvérsias (53): Polémica M. Rebocho / V.Lourenço: Por mor da verdade e respeito por TODOS os camaradas (A. Graça de Abreu)

(**) Vd. poste de 23 de Outubro de 2007 > Guiné 63/74 - P2207: Tugas - Quem é quem (1): Vasco Lourenço, comandante da CCAÇ 2549 (1969/71) e capitão de Abril

(***) 21 de Julho de 2009 > Guiné 63/74 - P4718: Efemérides (19): Em 20 de Julho de 1969, eu estava no Uíge em pleno oceano, a caminho de Farim... (Carlos Silva, BCAÇ 2879)

Guiné 63/74 - P5302: Os Nossos Seres, Saberes e Lazeres (13): Alcobaça. Doces. Licores. Coisas do Céu e da Tabanca. Paixão. Amizade. Camaradagem. JERO



Alcobaça > XI Edição de Licores & Doces Conventuais de Alcobaça > 15 de Novembro > O JERO, à direita, juntamente com o Belarmino Sardinha, o único representante (oficioso, mais a Antonieta) do nosso blogue na festa de Alcobaça (O Belarmino é uma camarada solidário e prestável que vive ora em Odivelas, ora no Cadaval; foi 1.º Cabo Radiotelegrafista STM, 1972/74, Mansoa, Bolama, Aldeia Formosa e Bissau).

Texto e fotos: JERO (2009).


1. Mensagem do JERO, com data de 16 do corrente, dando conta do cumprimento da Operação Barriguinhas de Freira, Papos de Anjo, Toucinho do Céu, Pudim dos Frades, Papão Anjo, Natas Conventuais, Fatias de Bispo, Queijinhos do Céu, Mexidos dos Anjos, Pudim Abade de Priscos, Pescoços de Freira, Cavacas de Santa Clara, Madalenas do Convento, Creme da Madre Joaquina, Lampreias de Ovos das Clarissas de Coimbra, Sopapo do Convento, Pão-de-ló do Mosteiro de Alcobaça, Bolo podre conventual, Creme de Abadessa, Sopa Dourada de Santa Clara, Mexericos de Freira, Hóstias de Amêndoas e... uf!, Bolo do diabo... (que não é assim tão feio como o pintam!).

VISITAS DE TERTULIANOS DA “NOSSA TABANCA GRANDE” AOS DOCES CONVENTUAIS DE ALCOBAÇA

por JERO

Vinte quatro horas depois do encerramento da XI Edição dos Doces & Licores Conventuais de Alcobaça, que teve lugar de 12 a 15 de Novembro p.p., venho fazer um primeiro balanço da adesão dos tertulianos ao meu (singelo) convite (*).

Todas as minhas expectativas – mesmo as piores – foram ultrapassadas. Tive um tertuliano (e sua mulher) em Alcobaça. Alentejano (do Cadaval), o Belarmino Sardinha veio até mim. Sim, senhores, esteve comigo 1 (UM) tertuliano!

E passámos umas horas bem agradáveis, cuja confirmação (por escrito) já está em meu poder.

Mas antes desse pormenor, que tratarei mais à frente, sinto-me na obrigação de começar por fazer uma primeira leitura estatística da adesão de tertulianos ao meu convite de 5 de corrente: Vd. Postagem 5220 > Agenda Cultural (42) (*).

Felizmente tenho muitos amigos e no que respeita a estatísticas (e sua análise) lembrei-me de um conterrâneo que trabalha no MAI [, Ministério da Administração Interna,] bem perto do Gabinete do nosso Ministro Rui Pereira, a quem dei conta dos números (ou melhor do número – 1 visitante) que tive nos Doces Conventuais deste ano.

E bem depressa tive uma resposta com uma leitura optimista em relação à percentagem de adesões. Em relação ao ano anterior – zero visitas – o aumento deste ano (1 visita) era verdadeiramente significativo.

Também outro número podia ser equacionado e este bem mais recente e não menos importante. A nossa economia cresceu no último trimestre 0,9% e afinal eu tinha tido 1 (!) (ponto de exclamação). Melhor dizendo 1,0 visitante. Esse aumento não era desprezível e eu não o podia ignorar.

Fiquei algum tempo calado – a informação era telefónica – mas lá me recompus e, ao fim de um longo silêncio, agradecia-lhe a atenção. Ele não deixava de ter razão.E a leitura fria dos números é mesmo assim.

Portanto, é já um pouco animado, que me dirijo ao fundador, administrador e editor do blogue Luís Graça para lhe dizer que não sabe o que perdeu. Ele e todos os outros que me ignoraram.

Perguntem ao Belarmino Sardinha que, mesmo angustiado como sportinguista que é (e não renega neste momento difícil da vida do seu clube de sempre), não deixou de vir até a Alcobaça. Perguntem-lhe.

Cabe aqui dizer que no dia da sua visita a Alcobaça (13/11/09) ainda se falava de José Saramago para treinador do Clube de Alvalade, não se perfilando ainda a candidatura, (confirmada), de Carlos Carvalhal, a quem desejo - como desportista (e benfiquista) - as maiores felicidades a partir da 12º. Jornada…

Voltando ao Belarmino Sardinha foi um grande prazer conhecê-lo e evidentemente que muito falámos da Guiné e do “nosso” blogue. Fomos (obviamente) almoçar com as preocupações inerentes a uma dieta conventual (frango na púcara).

No que respeita a dietas, pedi um “parecer” a um especialista – um bom amigo e Professor de História, em Leiria, de nome António Valério Maduro - , que reproduzo à parte.

Sugiro que o leiam para saberem como comiam os monges no Sec. XVIII. É o mínimo que me podem fazer depois do desgosto que me deram com a vossa ausência nesta XI Edição dos Doces & Licores Conventuais de Alcobaça.

Mas, se Deus quiser, para o ano há mais e o meu convite mantém-se. Até lá... se vieram para estes lados do litoral Oeste (Alcobaça) digam alguma coisa.

Um grande abraço do JERO.

2. Comentário de L.G.:


Meu caro IERO: Tomei boa nota, na minha agenda, do teu generoso e indeclinável convite, com data de 5/11/09:

Boa noite Luís

É tempo de abrir a agenda e escrever:"Alcobaça. Doces. JERO".. Falta uma semana. A XI Mostra vai decorrer no Mosteiro de Alcobaça de 12 a 15 de Novembro corrente.
Falta uma semana.É uma oportunidade única.Garanto à fé de quem sou. Para quem vier cedo podemos ir aos doces e visitar ,depois de almoço, o Centro Interpretativo da Batalha de Aljubarrota que fica a cerca de 10 kms. de Alcobaça. Quem precisar de ajuda ou tiver alguma dúvida contacte-me por favor - telef. 963147683.

Recordo que ALCOBAÇA é Terra de Paixão. E quem passa por Alcobaça (**)...


Meu caro JERO:

Simplesmente o raio do fim de semana foi curto como a manta do pobre. A gente bem estica o tempo, mas ele não é elástico... E Alcobaça, de facto, aqui tão perto, no centro do nosso querido Portugal!...

Que decepção, que vergonha! ...

Mas eu sei que o teu coração, grande e generoso, sabe perdoar, enquanto a cabecinha prepara a vingança, que se há-de servir fria... Por exemplo, por que não fazer o próximo encontro, o quinto, nacional, da nossa Tabanca Grande, lá para finais de Abril de 2010, na tua terra, de que muitos dos nossos camaradas não conhecem os segredos, os encantos, a história, a cultura, a gastronomia, o património, a natureza, as gentes... E que melhor guia do que tu, jornalista e homem de cultura, para levares os nossos tabanqueiros até à (re)descoberta da tua milenária Alcobaça onde não há santo nem combatente nem turista que resista à tentação de um doce e de um licor dos grandes e sábios monges de Cister...

Para aqueles que dizem que conhecem a tua terra, vamos pô-los à prova, com este verso da canção da tua terra:

(...) Sua lembrança não passa
Porque não pode passar.
Por mais que tente e que faça,
Quem passa por Alcobaça
Tem de por força voltar. (...)


E assim, amor com amor se paga... Luís

PS - Agradece, em nome de todos nós, ao teu amigo Maduro este bem documentado, leve, humorado e didáctico texto sobre o "ventre de Alcobaça" (se não maior, seguramente mais requintado que o "ventre de Bruxelas")... Para a próxima explica-nos lá o alcance (filosófico) deste provérbio conventual, agora tão apropriado à época de frio que se aproxima: "Freiras e frieiras, é coçá-las e deixá-las"... É um bom tema para a nossa tertúlia, seguramente mais divertido do que o pum!pum!pum! dos nossos soldadinhos de chumbo...


2. A Alimentação dos Monges Cistercienses de Alcobaça no século XVIII
´

por António Valério Maduro


O que comem os monges reflecte, em grande medida, as posses da comunidade, o seu estatuto social e os princípios ideológicos que a norteiam. Vamos então observar os produtos que chegavam à mesa monástica.

Começamos pelo pão e para não haver confusões falamos de pão de trigo alvo, dado que o povo dos coutos consumia um pão negro em virtude da fraca taxa de peneiração, que irá ser substituído pela broa de milho. Aliás, o pequeno pão ou merendeira, designado por micha, que os monges distribuíam diariamente aos pobres na portaria do Mosteiro e junto às Granjas, era constituído, essencialmente, de farinha de milho, algum centeio e rolão de trigo (desperdício do pão consumido pelos monges).

A carne que chegava à cozinha do Mosteiro não provinha toda de animais criados nas terras dos coutos de Alcobaça. A falta de pastos condicionava a criação de gado bovino. Durante o século XVIII, a maior parte dos animais de trabalho e açougue eram importados do Minho. A inexistência de vacas leiteiras obrigava o Mosteiro a adquirir barris de manteiga para abastecer a sua requintada cozinha. Já os rebanhos de ovinos do Mosteiro provinham em grande parte da região transmontana.

A cozinha recebia grande quantidade de galinhas e frangos. De Maio de 1747 a 1748 regista-se a entrada de 7.788 galinhas e 519 frangos. Para igual período de tempo temos um consumo de 51.589 ovos. Por seu turno, a coelheira do Mosteiro, uma das maiores da Europa, abrigava cerca de 6.000 animais.

Para além dos animais de criação, a gastronomia monástica era prendada por variadas peças de caça, entre as quais se contam coelhos e patos bravos, perdizes, codornizes, galinholas e ades (designação genérica atribuída às aves palmípedes). No lote de aquisições da cozinha do Mosteiro encontram-se lombos de porco, pedaços de toucinho, presuntos, enchidos, como as morcelas de Arouca, paios, leitões para assar, entre outros acepipes.

O peixe fresco consumido pelos monges provinha dos portos da Pederneira e de Peniche. Temos referências a cambadas de chernes, pargos, congros, corvinas, robalos, besugos, pescadas, sardinhas. Para além do peixe fresco, o Mosteiro adquiria pescada seca de Vila do Conde e de destinos mais longínquos, como a Holanda e a Irlanda, cação de Buarcos, grandes quantidades de bacalhau… Sáveis, enguias e lampreias, muitas lagostas e amêijoas, polvos e lulas, entravam regularmente na dieta alimentar dos monges brancos.

No capítulo dos queijos, ao requeijão e queijo fresco produzido nas queijarias locais, juntavam-se os queijos importados do Alentejo, de Parma, Flandres.

O vinho que acompanhava as refeições era produzido nas adegas do Mosteiro. Trata-se de um vinho produzido pelo método de bica aberta, temperado com maçãs camoesas, cascas de laranja e arrobe, cujo grau e sabor frutado cativou tantos e ilustres visitantes. Estima-se num quartilho (0,5 l) a quantidade de vinho ingerida a cada refeição pelos monges, mas este quantitativo podia ser mais elevado, dado que os copos em que se servia o vinho levavam bem, na opinião do Marquês de Fronteira e Alorna, meia canada (1 litro).

As árvores de fruto tão acarinhadas pelos monges nos seus jardins e pomares repartem-se em frutos de caroço, pevide e espinho. Temos as maçãs camoesas e baionesas eleitas nos foros, as doces laranjas da China, ginjas, cerejas, damascos, figos, pêssegos e ameixas e nos frutos agros, as limas e limões. Para além da fruta fresca, o consumo também privilegiava as frutas secas, nomeadamente as passas de camoesas e peras de almíscar aparadas, de ameixas caragoçanas, etc.

A doçaria está bem representada pelas extraordinárias compras de açúcar, arroz e leite indispensáveis ao arroz doce e manjar branco, pelos barris de manteiga, pelos inúmeros ovos, por arrobas de amêndoa (de Torres Novas), por chocolate… As artes da doçaria e conserva requisitavam grandes quantidades de peras, laranjas, pêssegos, cidras, abóboras e figos. A pêra e a abóbora cobertas eram consumidas em épocas festivas. Importavam-se bolos de Almoster, queijadas...

A indústria apícola facultava o mel de tão grande utilidade no receituário de doces e também noutros pratos requintados e bebidas fermentadas.

António Valério Maduro
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Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 6 de Novembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5220: Agenda Cultural (42): Doces & Licores Conventuais em Alcobaça (José Eduardo R. Oliveira)

(**) Letra da canção

Quem passa por Alcobaça...


Quem passa por Alcobaça
Não passa sem lá voltar.
Por mais que tente e que faça,
É lembrança que não passa.
Porque não pode passar.


Não se esquece facilmente
Dos seuS mercados a graça.
E o seu mosteiro imponente
Recorda constantemente,
É lembrança que não passa.


Por mais que tente e que faça,
Ninguém se pode esquecer
Das margens do rio Baça,
Nem do Alcoa que passa
Por ser mais lindo de ver.


Sua lembrança não passa
Porque não pode passar.
Por mais que tente e que faça,
Quem passa por Alcobaça
Tem de por força voltar.

Autor da letra: Silva Tavares
Música: Maestro Bello Marques
Interpretação: Maria de Lurdes Resende

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Guiné 63/74 - P5301: Controvérsias (55): Era só o que faltava. (António Matos)

1. O nosso camarada António Matos, ex-Alf Mil Minas e Armadilhas da CCAÇ 2790, Bula, 1970/72, enviou-nos a seguinte mensagem:

ERA SÓ O QUE FALTAVA

Camaradas,

As nossas idades (a minha, pelo menos), não sendo propriamente provectas, aconselhariam a dar por terminada uma qualquer polémica cujo prolongamento alimentará uma fogueira de fumo sem fogo o que, se por um lado seria saudável, não deixaria, por outro lado, de se comportar como um cordão detonante - ia ardendo em lume brando até à explosão final.

Isto se no fim estivesse um petardo, claro.

Na medida em que me fartei q.b. de colocar petardos quando na Guiné por imposição superior, "reformei-me" dessa actividade quando me libertei do jugo militar e hoje tento apenas localizar potenciais "engenhos literários" que possam ter sido deixados cair inadvertidamente do aparo da caneta e, esmiuçando-os, neutralizá-los.

Tudo isto para dizer que mando este texto aos editores na dupla perspectiva de comentário ou poste, deixando a decisão ao corpo editorial do blogue.

Olá Mexia Alves, é sempre um prazer "falar" contigo mesmo que te rebuce perante o poste 5292.

Era só o que faltava, meu caro Mexia Alves!

Era só o que faltava que seja qual for a afirmação que um qualquer de nós, ex combatente, onde quer que o tenha sido, incrimine, psicologicamente que seja, os restantes camaradas ou até, pasme-se!, a própria instituição militar.

Isso não faz sentido algum!

Não confundamos as afirmações em apreciação do António Lobo Antunes com as do AB onde, objectivamente, classifica os militares (eu, tu, todos, à excepção dos mencionados pára-quedistas e fuzas, suponho) de cobardes, cagarolas, etc.

Querer comparar os dois tipos de afirmações será por demais intolerante, descabido e ignorante!

Considerarmo-nos atingidos na nossa honra e dignidade pelos dislates (?!) de outrem, abonará pouco a favor das nossas consciências.

Também eu assumi a minha quota-parte naquele conflito.

Por esse motivo não posso vir hoje chafurdar nas merdas que se fizeram naquele tempo.

Em termos históricos posso e devo fazer o relato do que vivi (e não do que os outros dizem ter vivido) e partilhar as experiências mútuas.

Todos temos o direito à indignação mas sejamos pragmáticos no que toca ao cerne da questão.

Hoje está na moda dizer-se que também temos o direito à ponderação e essa, salvo raras e honrosas excepções, não têm primado no abordar desta discussão.

Caro Mexia Alves, receio que este texto te possa criar algum descontentamento mas crê que não é essa a intenção. Era só o que faltava!

Como dizia o general Spínola nas suas alocuções à chegada das tropas à Guiné (eu estava lá no Cumeré quando ele no-lo disse): "eu não estou zangado! estou só a defender com muita convicção as minhas ideias".

Só me sinto responsável pelas minhas atitudes e por muito que me revolte a realidade das minas, não posso vir hoje fazer acusações descabidas às circunstâncias que me levaram a instalar milhares delas ( a expressão "milhares" não é uma figura de estilo ...) !!!

Tenho que assumir que o fiz e disso não fujo!

Para o bem e para o mal! <